Arquitetura de segurança · Análise
Setembro na Segurança: a travessia de Ormuz virou negociação
O deslocamento do mês em Segurança: setembro abriu com Washington bombardeando o sul do Irã. Fechou com uma proposta iraniana por escrito, uma rejeição pública de Trump e uma contraproposta americana entregue pelo Catar. No meio, a guerra fechou as três rotas do petróleo do Golfo, os Estados Unidos deixaram o Iraque depois de 23 anos e a Rússia aprovou o maior orçamento militar desde a invasão da Ucrânia. O controle sobre quem atravessa o estreito deixou de ser disputado a tiros e passou a ser vendido em papel.
Leituras
- Setembro começou com bombardeio e terminou com papel: a proposta iraniana de reabrir Ormuz em sete dias foi rejeitada em público, mas a contraproposta americana via Catar mantém a negociação viva.
- Quem controla a travessia cobrou por ela o mês inteiro: um trânsito por dia no estreito, seguro de guerra 40 vezes mais caro e o rial iraniano no menor valor da história.
- A Rússia planejou guerra longa: aprovou 17,1 trilhões de rublos para a defesa em 2027, elegeu uma Duma sem observadores e fechou o mês com uma das maiores noites de mísseis do ano.

Setembro mudou a natureza da guerra entre os Estados Unidos e o Irã. O conflito começou no fim de fevereiro, com os ataques aos petroleiros no estreito de Ormuz. O mês abriu no dia 1º com o comando central americano bombardeando posições da Guarda Revolucionária no sul do Irã, como o COMPASSO registrou em 1º de setembro. Fechou com três documentos sobre uma mesma pergunta. Um plano iraniano por escrito para reabrir o estreito em sete dias. A rejeição pública de Donald Trump. E uma contraproposta americana entregue a Teerã pelo Catar. A pergunta que esses papéis disputam é simples: quem decide quem atravessa a passagem por onde saía um quinto do petróleo do mundo, e a que preço.
Do bombardeio ao papel
A primeira quinzena foi de escalada no mar. Em 9 de setembro, a marinha americana afundou cinco petroleiros iranianos em um dia, como o COMPASSO registrou na data. Dois dias depois, os houthis, o grupo iemenita aliado do Irã, assumiram o controle de fato de Bab el-Mandeb, a saída sul do mar Vermelho. Na sexta daquela semana, o oleoduto saudita que contorna Ormuz parou. As três rotas do petróleo do Golfo passaram a depender de decisão militar ao mesmo tempo. O COMPASSO descreveu o estrangulamento em 12 de setembro.
A segunda quinzena foi de pausa armada e diplomacia. O último ataque americano anunciado contra o território iraniano aconteceu em 7 de setembro. A partir dali, a frente ativa se deslocou para o mar Vermelho e para o Iêmen. Foram cerca de 300 ataques sauditas contra os houthis em uma semana. A reunião marcada para Omã foi adiada sem data nova. A negociação só reapareceu na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Ali o Irã entregou o plano de sete dias: reabertura do estreito em troca do fim do bloqueio naval americano, de alívio nas sanções de petróleo e de um cessar-fogo. Trump rejeitou a oferta em público no dia 26, dizendo que o Irã oferece porque está perdendo. A rejeição está na análise da semana passada.
O mês não terminou na rejeição. Em 30 de setembro, uma contraproposta americana chegou a Teerã pelas mãos do Catar, que somou uma proposta própria de duas páginas. A divergência central não está nos termos, e sim na ordem dos passos, segundo a Euronews em árabe, o serviço europeu de notícias. O Irã quer resolver primeiro o estreito, as sanções e o cessar-fogo, e só depois discutir seu programa nuclear. Washington quer tudo simultâneo. As legislativas americanas de novembro pairam sobre o calendário. É uma leitura possível, não um fato, que cada lado aposte que o tempo custa mais caro ao outro.
Quem ficou com a renda da travessia
Enquanto a decisão não sai, o estreito opera no conta-gotas. O monitor de portos do Fundo Monetário Internacional (FMI) registrou um único trânsito em 27 de setembro. Antes da guerra, eram cerca de 85 navios por dia. Ao mesmo tempo, as exportações de petróleo do Oriente Médio chegaram a 16,3 milhões de barris por dia em setembro, as maiores desde o início do conflito, segundo o acompanhamento do site Rio Times. A carga passou a sair por transferência em alto mar, por oleodutos alternativos e por comboios escoltados. O barril do tipo Brent, a referência internacional, abriu o mês perto de 94 dólares. Tocou 108 na metade e fechou setembro a 97,46 dólares, conforme o serviço de dados Trading Economics.
Essa diferença entre o estreito parado e a exportação recorde diz quem capturou a renda do mês. O recurso natural fora da zona de guerra embolsou renda de escassez: cada barril que dispensa escolta vale mais. O capital que controla a infraestrutura da travessia cobrou caro. O seguro de guerra dos superpetroleiros custa 40 vezes o nível anterior à crise, e o frete acompanha. O trabalho pagou aos poucos, no tanque e no preço do transporte, sem perceber a transferência. O Estado americano não arrecadou dinheiro: arrecadou obediência, porque definir quem atravessa virou uma licença que só ele concede. E a sociedade perdeu um grau de liberdade, porque uma rota que funcionava por regra passou a funcionar por decisão.
O próprio tráfego tem duas contagens que não se encontram, e a diferença é política. O governo americano fala em dezenas de milhões de barris escoltados em poucos dias. Os rastreadores civis veem outra escala, de poucas travessias comerciais por semana. Navios de comboio desligam o transponder, o aparelho que informa a posição, e isso explica parte da distância entre as duas contas. A ONU também mediu o mês. Cerca de 80 países assinaram uma declaração pedindo a reabertura imediata do estreito. No Conselho de Segurança, Rússia e China vetaram a prorrogação do painel de peritos que monitorava as sanções ao Irã, por 11 votos a 2. O mandato expirou no dia 27. A guerra segue, portanto, sem o principal instrumento internacional de verificação.
Do lado iraniano, a perda apareceu na moeda e no volume. O rial caiu ao menor valor da história, acima de 2,5 milhões por dólar, segundo a revista americana Fortune. No início do mês, eram 2,2 milhões. A exportação de petróleo do país, de 260 mil barris diários no início de setembro, segue estrangulada pelo bloqueio. Cada semana de estreito fechado reduz o poder de compra da população iraniana. E eleva o custo interno de recusar um acordo.
A guerra que se planeja longa
Fora do Golfo, setembro foi o mês em que os conflitos ganharam orçamento e calendário. A Rússia confirmou 17,1 trilhões de rublos para a defesa em 2027, cerca de 202 bilhões de dólares. É o maior valor desde a invasão da Ucrânia em 2022, segundo o site russo independente Meduza, que opera do exílio. Um dia depois, Moscou lançou contra Kiev uma das maiores noites do ano, com mísseis hipersônicos e 188 drones. O ataque chegou a fechar dois aeroportos na Polônia, como o COMPASSO registrou em 30 de setembro. Antes disso, o país elegeu uma nova Duma, a câmara baixa do parlamento russo. Foram três dias de votação com observadores internacionais barrados, processo registrado em 18 de setembro.
A pausa americana tem um detalhe que importa. Segundo o Wall Street Journal, o jornal financeiro americano, Trump recusou a primeira versão da oferta iraniana em privado. A intenção relatada: retomar os bombardeios depois das legislativas de novembro. O COMPASSO registrou o relato em 26 de setembro. É fato que não há ataque anunciado ao território iraniano desde 7 de setembro. É leitura possível, não fato, que a pausa seja eleitoral e não diplomática.
Washington também mexeu na própria arquitetura. As últimas tropas americanas deixaram o Iraque no fim do mês, encerrando 23 anos de presença militar, como o COMPASSO registrou em 29 de setembro. A saída acontece em plena guerra com o vizinho Irã. E a lei Graham, sancionada no dia 18, mudou o alvo da punição econômica. Ela obriga o presidente a impor tarifas de até 100% aos cinco maiores compradores de petróleo e gás russos, com Índia e China à frente. A sanção deixa de mirar quem é punido e passa a mirar quem compra dele. A França, por sua vez, mandou defesa antiaérea para proteger o porto saudita de Yanbu. Os aliados americanos seguiram produzindo segurança própria, tendência que a mensal de agosto já havia apontado.
Os impactos por aqui
O petróleo de guerra chega ao Brasil por dois canos: o preço do combustível e o juro. Na bomba, o efeito está represado por decisão. A gasolina segue com preço travado até 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, com o Tesouro Nacional pagando a diferença. O COMPASSO explicou a trava em 28 de setembro. O barril fechou setembro perto de 97 dólares e reabriu outubro acima de 100. Esse aumento só chega ao posto depois do voto. No juro, o canal é indireto e já funciona. O petróleo caro mantém os bancos centrais do mundo rico em alerta e encarece o dólar. Com isso, encolhe o espaço do Banco Central para seguir cortando a Selic, a taxa básica brasileira.
Há ainda o canal político. O mês terminou com o Brasil fora do Escudo das Américas, o arranjo de segurança regional anunciado por Washington. Os militares brasileiros apresentaram ao governo um plano de defesa de 155 bilhões de dólares em 15 anos. A série eleitoral registrou os dois movimentos em 30 de setembro. Para o leitor, a tradução é direta. A conta da guerra dos outros entra no preço do combustível, no custo do crédito e na agenda de quem vencer a eleição de domingo.
Entenda o contexto
O estreito de Ormuz é a passagem de 39 quilômetros de largura entre o Irã e Omã. Por ela escoava cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. Desde a década de 1980, quando petroleiros foram atacados na guerra entre Irã e Iraque, a marinha americana patrulha a região para manter a navegação livre. A guerra atual inverteu essa função. A mesma força que garantia a passagem de todos passou a decidir caso a caso quem atravessa. Impérios marítimos fizeram isso antes, cobrando em tributo ou em lealdade. A história sugere que o controle físico de uma rota é mais fácil de tomar do que de converter em acordo estável. O dono da rota sempre pode cobrar mais, e quem depende dela sempre procura outro caminho. No jogo do excedente, setembro deixou a travessia do petróleo com um único concedente e uma fila de propostas na sua porta.
Fontes
Monitor de portos do FMI (os trânsitos em Ormuz, documento primário) · Conselho de Segurança da ONU (a condenação aos ataques houthis, documento primário) · EIA, a agência americana de informação de energia (os fluxos do estreito, documento primário) · Euronews, em árabe (a contraproposta americana e a mediação do Catar) · NBC News (o plano de sete dias e a posição americana) · The Hill (a rejeição e a hipótese de retomada após novembro) · GlobalSecurity (o balanço militar diário da guerra) · Meduza (o orçamento militar russo de 2027) · Fortune (o fechamento do petróleo em setembro e o rial) · Rio Times (as exportações recordes do Oriente Médio sob escolta) · Trading Economics (a série de preços do Brent)
Os outros textos do dia: O deslocamento do mês em Produção · O deslocamento do mês em Finanças · O deslocamento do mês em Conhecimento · O estado do jogo de setembro.
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.