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Cadeia de semicondutores · Análise

Setembro na Produção: a trégua das potências e o agro cercado

O deslocamento do mês em Produção: a visita de Xi Jinping a Washington estendeu a trégua comercial até janeiro de 2027 e criou uma lista de tarifas menores para 30 bilhões de dólares de cada lado, sem destravar chips nem terras raras. O Canadá mediu o preço de retaliar e voltou a negociar. E o Brasil fechou setembro com as três maiores portas da sua carne restringidas ao mesmo tempo: o tarifaço americano, o embargo europeu e, desde 1º de outubro, a sobretaxa chinesa de 55%.

Por COMPASSO1 de outubro de 20269 min de leituraTabuleiro: Cadeia de semicondutores

Leituras

  1. A trégua entre Estados Unidos e China ganhou dois meses e uma lista de 30 bilhões de dólares por lado, mas o que a mede é o que não saiu: chips e terras raras.
  2. A tarifa virou o instrumento universal do mês: protegeu a indústria americana contra o Canadá, pressionou os compradores de energia russa e serviu de moeda na negociação com Xi Jinping.
  3. O agro brasileiro terminou setembro com as três maiores portas restringidas e um grupo de trabalho recém-criado com Washington: a reabertura de mercados virou agenda obrigatória de qualquer governo.
Ilustração editorial escura: contêineres empilhados formando um muro com uma única abertura estreita, iluminada em vermelho tijolo

Em agosto, o deslocamento da dimensão foi a passagem vigiada. O petróleo saiu por escolta, o grão por rota alternativa, o comércio por lista de exceções, como a mensal anterior registrou. Setembro deu o passo seguinte. O comércio entre as duas maiores economias passou a correr por decisão renovável, com data de validade escrita: a trégua entre Estados Unidos e China vale até 10 de janeiro de 2027. Para o Brasil, o mês terminou com uma medição concreta do que significa depender de decisões alheias. As três maiores portas da carne bovina nacional ficaram restringidas ao mesmo tempo.

O que a trégua assinou

A visita de Estado de Xi Jinping a Washington, na semana do dia 24, foi o fato central do mês na dimensão. O COMPASSO a analisou em 26 de setembro. O resultado material tem três camadas. A trégua tarifária ganhou dois meses, até 10 de janeiro de 2027. Os dois governos recomendaram tarifa menor para 30 bilhões de dólares de bens em cada direção, escolhidos por conselhos que cada lado controla. É o que registram o resumo oficial da Casa Branca e o consenso de oito pontos divulgado por Pequim. E a China prometeu compras: 25 milhões de toneladas de soja americana por ano e 10 milhões de toneladas de carvão a partir de 2027.

O que não saiu mede o limite do acordo. Nenhuma licença nova de exportação de chips foi concedida. Os ímãs de terras raras, componentes essenciais a motores e turbinas, seguiram retidos. As vendas chinesas aos Estados Unidos caíram 21% em agosto, a 512 toneladas, segundo a agência financeira Bloomberg. As exportações para o Japão estão zeradas há três meses, segundo o instituto americano Silverado. A tarifa média americana sobre bens chineses continua em 47,5%. A chinesa sobre bens americanos, em 31,9%, na última medição do instituto americano Peterson. A trégua suspende as alíquotas mais altas, não as desmonta. Cada fábrica que depende dessa lista opera sabendo que a regra vence em janeiro.

A soja virou a medida concreta do acordo, e ela interessa diretamente ao Brasil. A China comprou 55,14 milhões de toneladas de soja brasileira de janeiro a agosto, contra 10,66 milhões da americana, segundo os dados da alfândega chinesa compilados pela Agrimídia, o portal brasileiro de agronegócio. A promessa feita a Washington, de 25 milhões de toneladas por ano, muda essa divisão. Cada tonelada comprada dos Estados Unidos por decisão política disputa o prêmio que o produtor brasileiro recebia por ser o fornecedor disponível. O petróleo contou a mesma história por outro ângulo. A Aramco, a petroleira estatal saudita, vendeu 20 milhões de barris transferindo carga em alto mar, sob escolta americana. O barril físico de Omã, o que a Ásia de fato recebe, chegou a 132 dólares na metade do mês, bem acima do contrato futuro. Quem precisa da mercadoria agora paga o prêmio da travessia.

Quem ganhou com esse desenho, pela ordem dos fatores. O capital com escala dos dois lados ganhou previsibilidade de dois meses e acesso à lista de exceções. O concorrente pequeno não tem como pleitear o mesmo. O conhecimento retido, chips de um lado e terras raras do outro, seguiu funcionando como moeda guardada, valorizada por não circular. O trabalho nas cadeias protegidas manteve o emprego de agora ao custo do poder de barganha de depois, porque a empresa protegida não precisa competir. Os dois Estados ampliaram a capacidade de decidir o que o mundo fabrica, arrecadando tarifa no caminho. E a sociedade, dos dois lados, perdeu mais um grau de liberdade: o comércio que dependia de regra passou a depender de renovação negociada.

A tarifa em três usos

Setembro também mostrou a tarifa americana operando como instrumento de três usos, como o COMPASSO registrou em 19 de setembro. Ela protegeu a indústria contra o Canadá. Pressionou os compradores da energia russa pela lei Graham, a lei que obriga tarifas de até 100% aos cinco maiores clientes de petróleo e gás da Rússia. E serviu de moeda de entrada para a negociação com Xi Jinping. O Canadá fez o experimento de responder. Suas contratarifas entraram em vigor com 80% de apoio interno, e Washington respondeu com proibições de importação. No fim do mês, os dois lados estavam negociando de novo. O COMPASSO mediu o experimento em 12 de setembro. Retaliar comprou apoio político e uma cadeira na negociação. O custo imediato foi preço e mercado nos setores expostos.

A China escolheu outra rota: exportar mais. O superávit comercial chinês de agosto foi recorde, 119 bilhões de dólares, com embarques de chips maduros crescendo 129,8%. Em setembro, o índice oficial de gerentes de compras da indústria, o PMI, voltou a indicar crescimento. O dado é do escritório nacional de estatísticas da China, o último antes do feriado nacional chinês. A fábrica chinesa chegou à negociação acelerando, com o consumo interno parado. Quanto mais ela depende do comprador externo, mais a trégua vale para Pequim.

As três portas da carne brasileira

Para o Brasil, setembro fechou a terceira restrição em sequência. A primeira porta é o tarifaço americano, em vigor desde agosto. A segunda abriu no dia 3. A União Europeia suspendeu as importações de carnes, ovos, mel e tripas do Brasil, por falta de garantias sobre as regras do bloco para antimicrobianos, os medicamentos veterinários usados na criação. O COMPASSO registrou o embargo em 3 de setembro. A terceira fechou na véspera do fim do mês. A carne bovina brasileira atingiu em 29 de setembro 100% da cota anual chinesa de 1,1 milhão de toneladas. Desde a zero hora de 1º de outubro, cada tonelada acima da cota paga 55% de tarifa além dos 12% já cobrados, total de 67%. A regra de salvaguarda foi publicada pelo Ministério do Comércio da China em dezembro. O COMPASSO analisou a sobretaxa em 30 de setembro.

O tamanho da exposição explica o peso. A China comprou mais de 1 milhão de toneladas de carne brasileira em 2025, 48% de tudo o que o país exportou do produto, por 8,9 bilhões de dólares, segundo a revista Exame. A perda se distribui pela cadeia. A renda da terra encolhe primeiro, porque o boi que valia o preço chinês passa a disputar destinos que pagam menos. O frigorífico sem escala internacional perde margem. O trabalho no abate e na logística sente depois, no emprego. Do lado chinês, o criador doméstico ganha margem sem ganhar produtividade, e o Estado arrecada a sobretaxa.

No mesmo 30 de setembro, a diplomacia abriu uma porta pequena. Os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, reuniram-se em Milwaukee com Jamieson Greer, o representante de Comércio dos Estados Unidos. A conversa durou 40 minutos. Saiu um grupo de trabalho para discutir um acordo sobre o tarifaço. Washington prometeu apresentar nas próximas semanas uma proposta de escopo, segundo o Diário do Grande ABC, o jornal da região metropolitana de São Paulo, sobre a nota conjunta. É o primeiro mecanismo permanente de negociação desde que a tarifa entrou em vigor.

Os impactos por aqui

A balança comercial brasileira atravessou o tarifaço com superávit de 7,39 bilhões de dólares em agosto, como o COMPASSO registrou em 5 de setembro. Mas a composição muda por baixo. A indústria de transformação andou 0,2% no primeiro mês sob a tarifa cheia. A carne que perde a porta chinesa derruba o preço do boi gordo no mercado interno. Isso alivia o preço no açougue no curto prazo e corta a renda do criador e do frigorífico no médio. O produtor protegido em outros países ganha margem, e o consumidor chinês paga mais caro pela proteína. Para o leitor brasileiro, o resumo do mês tem três linhas. Renda do agro menor. Alimento momentaneamente mais barato por aqui. E uma agenda de reabertura de mercados que qualquer vencedor da eleição de domingo terá de executar, pressão que a série eleitoral descreveu em 30 de setembro.

Entenda o contexto

Desde 2018, o comércio entre Estados Unidos e China deixou de ser regido principalmente pelas regras multilaterais da Organização Mundial do Comércio. Ele passou a correr por rodadas de tarifas e tréguas bilaterais renováveis. Nesse regime, o acesso a mercado deixa de ser um direito e vira uma concessão com prazo. Cada renovação é uma oportunidade de cobrar algo novo. Países exportadores de alimentos e matérias-primas, como o Brasil, prosperam quando as regras são estáveis. Sofrem quando o acesso vira instrumento de pressão, porque não controlam nenhuma das moedas em disputa: nem os chips, nem as terras raras, nem a moeda de reserva. No jogo do excedente, setembro deixou a fábrica mundial funcionando por licenças renováveis. E o Brasil aprendeu o preço de depender de três decisões alheias ao mesmo tempo.

Fontes

Casa Branca (o resumo oficial da visita de Xi, documento primário) · Ministério do Comércio da China, em chinês (o comunicado 87, a regra da salvaguarda da carne, documento primário) · Ministério do Comércio da China, em chinês (o mecanismo da sobretaxa de 55%, documento primário) · Escritório nacional de estatísticas da China (o PMI de setembro, documento primário) · Chancelaria chinesa, em chinês (o relato oficial da reunião Xi e Trump, documento primário) · Instituto Peterson (as tarifas médias vigentes) · Silverado (o relatório de comércio de terras raras) · Agrimídia (os dados da alfândega chinesa de soja) · Forbes Agro, a edição brasileira de agronegócio da revista americana (a cota e o mercado da carne) · Diário do Grande ABC (o grupo de trabalho criado em Milwaukee) · Trading Economics (a série de preços do petróleo)

Os outros textos do dia: O deslocamento do mês em Segurança · O deslocamento do mês em Finanças · O deslocamento do mês em Conhecimento · O estado do jogo de setembro.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.