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Cadeia de semicondutores · Análise

A semana em que Xi levou a trégua comercial para 2027

O movimento da semana em Produção: a visita de Estado de Xi Jinping a Washington estendeu a trégua comercial até 10 de janeiro de 2027 e produziu a recomendação de tarifa menor para 30 bilhões de dólares de bens de cada lado. Nenhuma licença nova de chips saiu, as terras raras seguem zeradas para o Japão e a soja virou a medida concreta do acordo: a China comprou 55 milhões de toneladas do Brasil até agosto e prometeu 25 milhões por ano aos americanos.

Por COMPASSO26 de setembro de 20269 min de leituraTabuleiro: Cadeia de semicondutores

Leituras

  1. A trégua comercial ganhou dois meses e um pacote novo: os dois governos recomendam tarifa menor para 30 bilhões de dólares de bens de cada lado, escolhidos por conselhos que os dois controlam.
  2. A China comprou 55 milhões de toneladas de soja brasileira até agosto e prometeu 25 milhões por ano aos americanos: cada tonelada comprada lá por decisão disputa o prêmio pago aqui.
  3. O que não saiu mede o limite do acordo: nenhuma licença nova de chips, terras raras zeradas para o Japão há três meses e o pacote de armas a Taiwan parado.
Ilustração editorial escura: dois guindastes de porto frente a frente sobre a água negra, um contêiner vermelho tijolo suspenso entre eles

A semana da produção mundial teve endereço único: Washington. Xi Jinping fez de quarta a sexta a primeira visita de Estado de um presidente chinês aos Estados Unidos em mais de dez anos, como o COMPASSO registrou na chegada. O resultado concreto veio em duas etapas. Na noite de quarta, os dois governos estenderam a trégua comercial de Busan até 10 de janeiro de 2027; o prazo anterior era 10 de novembro. E neste sábado Pequim divulgou um consenso de oito pontos da visita. O pacote inclui a recomendação de tarifa menor para 30 bilhões de dólares de bens de cada lado. O anúncio foi do chanceler chinês Wang Yi, no registro da agência de notícias americana Associated Press. O comércio das duas maiores economias segue funcionando por decisão dos dois governos. Agora a decisão vale até janeiro e cobre uma lista maior.

O que a visita assinou e o que ela adiou

O documento americano da visita saiu na sexta, no resumo oficial da Casa Branca. Os dois lados chegaram a um consenso sobre recomendações de tratamento tarifário mais favorável para 30 bilhões de dólares de bens não sensíveis em cada direção. Quem recomenda é o Conselho de Comércio bilateral, o órgão criado na cúpula de maio em Pequim e posto para funcionar nesta visita. Do lado americano entram bens agrícolas, pescado, madeira, cosméticos e equipamentos médicos; do chinês, eletrodomésticos pequenos, brinquedos, decoração de festas e cadeirinhas de carro. O documento traz um compromisso novo e pouco noticiado: a China vai importar ao menos 10 milhões de toneladas de carvão americano em 2027 e outra vez em 2028.

O que ficou de fora pesa tanto quanto o que entrou. Nenhuma licença nova de exportação de chips foi anunciada, como o COMPASSO registrou no dia da reunião; a parte de inteligência artificial do consenso tem análise própria nesta edição. O jantar de Estado reuniu os chefes de grandes empresas americanas e nenhum executivo de empresa chinesa. Para o Nikkei, o jornal econômico japonês, é sinal de que a pauta de investimento chinês nos Estados Unidos não andou. E as avaliações de fora divergiram das oficiais. A rede americana CNN resumiu a cúpula como pesada em cerimônia e leve em substância. Na versão do governo chinês, o comunicado da chancelaria diz que os dois países devem obter, em tradução do chinês, ganhos mútuos na cooperação prática e realização mútua numa competição saudável.

A soja mede a disputa pelo lado de fora

O compromisso agrícola de Busan é o mais fácil de medir. A China prometeu comprar ao menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano de 2026 a 2028, segundo o resumo oficial do acordo original, de novembro de 2025. A medida do que isso muda está na alfândega chinesa. De janeiro a agosto, a China importou 55,14 milhões de toneladas de soja do Brasil, alta de 5% sobre 2025. Dos Estados Unidos vieram 10,66 milhões de toneladas, queda de 34%. Os dados aduaneiros chineses foram reproduzidos pelo site brasileiro Agrimídia. O Brasil segue dono da maior fatia. O acordo existe para mudar essa proporção por decisão de governo, não por preço.

O efeito já aparece nas duas pontas. Em Chicago, a soja fechou a semana a 13,20 dólares por bushel, a medida americana de grão. Foi a quarta semana seguida de alta, perto do maior preço em quase três anos, pela demanda chinesa, segundo o serviço de dados Trading Economics. No Brasil, a Abiove, a associação das indústrias de óleos vegetais, reduziu a projeção de exportação de 2026 para 115 milhões de toneladas. O motivo citado é o aumento das compras chinesas nos Estados Unidos, segundo a revista Forbes Brasil. O embarque brasileiro de agosto ainda foi recorde para o mês, 9,81 milhões de toneladas. A disputa não é por vender ou não vender: é por quem paga o prêmio e por quem depende de quem.

Terras raras e chips seguem como moeda guardada

A parte dura da cadeia produtiva não se moveu na semana. O relatório de comércio de terras raras do instituto americano Silverado, publicado na segunda, mostra um quadro seletivo. Os compostos e metais sob controle chinês seguem bem abaixo dos níveis históricos, e as exportações para o Japão estão zeradas há três meses. As vendas para a Coreia do Sul rodam acima do nível anterior aos controles, e os ímãs prontos quase voltaram ao normal. Terras raras são os metais dos ímãs de motores elétricos, turbinas e armamento, um refino que a China domina. O desenho diz o método: Pequim libera o produto acabado, que mantém os clientes dependentes, e segura o insumo, que permitiria aos outros produzir.

Do lado americano, a regra de chips terminou a semana como começou. O H200, o chip de inteligência artificial da Nvidia, pode ser vendido a compradores chineses aprovados, caso a caso, com tarifa e teto de volume. O Blackwell, a geração mais nova, segue vetado. A regra é do Departamento de Comércio, em vigor desde janeiro. E Taiwan mediu o preço da aproximação. O pacote de armas de 14 bilhões de dólares para a ilha, aprovado pelo Congresso em janeiro, segue sem assinatura presidencial. A chancelaria taiwanesa acusou Pequim de distorcer fatos ao relatar a cúpula, segundo a emissora americana Voice of America. A conta da semana, por fator de produção, fica assim: o capital com escala dos dois lados ganha previsibilidade até janeiro e tarifa menor na lista escolhida. O conhecimento segue sendo o fator que nenhum dos dois solta: chip vetado de um lado, insumo controlado do outro. O trabalho agrícola americano ganha demanda garantida por decisão, e o brasileiro perde prêmio pela mesma decisão. O Estado, nos dois países, fica com o poder que mais vale: escrever a lista. É concentração, e ela aparece no prazo curto de cada trégua.

O placar da semana

A trégua comercial foi estendida por dois meses, até 10 de janeiro de 2027. A recomendação de tarifa menor cobre 30 bilhões de dólares de bens em cada direção, segundo a Casa Branca e o consenso de oito pontos divulgado por Pequim neste sábado. A tarifa média americana sobre bens chineses segue em 47,5%, e a chinesa sobre bens americanos em 31,9%, na última medição do instituto americano Peterson, de novembro de 2025. A trégua suspende as alíquotas mais altas, não as desmonta. A soja em Chicago subiu 2,1% na semana, a 13,20 dólares por bushel. A China comprou 55,14 milhões de toneladas de soja brasileira de janeiro a agosto, contra 10,66 milhões da americana, segundo a alfândega chinesa. O carvão americano prometido a partir de 2027 soma 10 milhões de toneladas por ano. E o petróleo, que é a outra metade da produção mundial nesta guerra, caiu na semana com a oferta iraniana de reabrir Ormuz, movimento que tem análise própria nesta edição.

Os impactos por aqui

Para o Brasil, a semana mexeu no maior item da pauta exportadora. A soja rendeu ao país a maior fatia do mercado chinês por preço e por confiabilidade. O acordo de Busan transfere parte dessa demanda aos americanos por decisão política. A extensão da trégua prorroga essa transferência até janeiro. A Abiove já cortou a projeção do ano. O produtor daqui não perde a safra, perde o prêmio: a diferença entre vender num mercado disputado e vender num mercado onde o maior comprador tem meta assinada com o concorrente. O câmbio sente pelo mesmo canal, porque a soja é a maior fonte de dólar comercial do país. E há o precedente que importa mais que o número: o Brasil não tem assento nos conselhos que agora escrevem as listas do comércio entre as duas potências. No jogo do excedente, quem não escreve a lista entra nela como variável de ajuste.

Entenda o contexto

A trégua nasceu do encontro de Trump e Xi em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025. Pelo acordo, Washington cortou 10 pontos da tarifa criada por causa do fentanil, o opioide sintético que mata dezenas de milhares de americanos por ano. Washington também suspendeu a tarifa recíproca mais alta. Pequim suspendeu os controles de exportação de terras raras, licenciou gálio, germânio, antimônio e grafite e assumiu a meta de soja. Pequim chama o arranjo de acordo de Kuala Lumpur, pelo local da negociação técnica; Washington o chama de acordo de Busan. Os conselhos de comércio e investimento foram criados na cúpula de maio em Pequim. A visita desta semana foi o terceiro encontro dos dois presidentes no segundo mandato de Trump. Os próximos já têm data: a cúpula da APEC, o fórum econômico da Ásia e do Pacífico, em Shenzhen em novembro, e a do G20, o grupo das vinte maiores economias, em Miami em dezembro. O balanço da semana anterior desta dimensão está no sábado passado.

Fontes

Casa Branca (o resumo oficial da visita, documento primário) · Casa Branca (o resumo oficial do acordo de Busan, documento primário) · Chancelaria chinesa, em chinês (o relato oficial da reunião, documento primário) · China News, em chinês (a coletiva do Ministério do Comércio chinês) · Nikkei, em japonês (a ausência de executivos chineses no jantar) · Associated Press (o consenso de oito pontos divulgado por Pequim) · Silverado (o relatório de comércio de terras raras) · Instituto Peterson (as tarifas médias vigentes) · Agrimídia (os dados da alfândega chinesa de soja) · Voice of America (as reações de Taiwan e do Japão) Os outros textos do dia: O movimento da semana em Segurança · O movimento da semana em Finanças · O movimento da semana em Conhecimento · Eleição 2026 · Clima.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.