Comércio global · Análise
Trump e Xi se reúnem e a IA entra no acordo das duas potências
Xi Jinping e Donald Trump se reuniram nesta quinta-feira na Casa Branca, no primeiro encontro entre os dois em solo americano em mais de dez anos. Antes e durante a conversa, os governos anunciaram um conselho permanente de comércio e uma reunião sobre inteligência artificial em novembro, na China, somada ao canal de aviso de incidentes acertado na quarta. Nenhuma licença nova de chips saiu até o início da tarde. À noite, o jantar de Estado reúne os chefes da Nvidia, da OpenAI, da Qualcomm e da Apple.
Leituras
- Os dois governos marcaram para novembro, na China, a primeira reunião sobre inteligência artificial e desenham um aviso mútuo de incidentes: a tecnologia que concentra a renda da década virou assunto de Estado.
- Nenhuma licença nova de chips saiu até o início da tarde: um analista do banco KeyBanc estima que liberar o H200 para a China valeria cerca de 30 bilhões de dólares só para a Nvidia.
- Para o Brasil, a conta segue na soja: a China comprou 44,5 milhões de toneladas brasileiras até julho, e cada avanço do acordo com Washington disputa o prêmio pago ao produto daqui.
Atualização, 19h17. A reunião terminou sem licença nova de chips e sem comunicado conjunto. Xi Jinping deixou a Casa Branca às 13h40 locais, 14h40 de Brasília, segundo o blog ao vivo do Nikkei, o jornal econômico japonês. Trump disse a jornalistas que os dois governos fizeram avanços tremendos e citou o conselho de comércio e a compra chinesa de soja, segundo a cobertura ao vivo da CBS News, a rede americana. Ele não respondeu a perguntas sobre Taiwan e sobre chips.
A versão do governo chinês saiu em comunicado próprio, como o texto antecipava. Segundo a CNN, a rede americana, o comunicado chinês diz que os dois países têm grande espaço de cooperação em inteligência artificial. Diz também que Xi pediu a Washington que se oponha à independência de Taiwan. E registra que a China apoia a volta do memorando de 14 pontos entre Estados Unidos e Irã, assinado em junho.
O que muda na leitura é a confirmação do desenho. O resultado do dia é a regra sobre a tecnologia, com a reunião de novembro na China e o aviso mútuo de incidentes, e não a licença de venda. O veto ao Blackwell e a regra do H200 terminaram o dia como começaram. O jantar de Estado começa às 19h45 de Brasília, com os chefes da Nvidia, da OpenAI, da Qualcomm, do JPMorgan e da Apple.
Atualização, 02h55. O Ministério das Relações Exteriores da China publicou, já na madrugada desta sexta em Brasília, o relato oficial da reunião, em chinês, a versão do governo chinês. O documento diz que as equipes econômicas fecharam um novo arranjo conjunto, sem detalhar o conteúdo. Na inteligência artificial, Xi defendeu que cada lado use as próprias forças em vez de se resguardar do outro, e propôs seguir o diálogo sobre riscos e benefícios da tecnologia. Os dois presidentes confirmaram apoio mútuo às duas cúpulas que cada um sedia até o fim do ano. Uma é a da APEC, o fórum de cooperação econômica da Ásia e do Pacífico, na China. A outra é a do G20, o grupo das vinte maiores economias, nos Estados Unidos.
O jantar de Estado terminou sem anúncio econômico novo. No brinde, Xi disse que as conversas com Trump acrescentaram substância nova à relação, segundo a cobertura ao vivo da NBC News, a rede americana. Ele comparou o lema da campanha de Trump, Faça a América Grande de Novo, à revitalização que a China busca. Para a leitura do texto, o relato oficial confirma o desenho do dia: a regra e o diálogo avançaram, a licença de chips não. O calendário ganhou dois encontros possíveis entre os dois governos até o fim do ano, além da reunião de novembro sobre inteligência artificial na China.
Xi Jinping entrou na Casa Branca às 10h45 desta quinta-feira, 11h45 de Brasília. A reunião com Donald Trump começou às 11h30 locais, no Salão Oval. É a primeira conversa dos dois presidentes em solo americano em mais de dez anos. A recepção teve 479 militares no gramado sul e sobrevoo de um bombardeiro B-2 com quatro caças F-22, segundo a programação divulgada pela Casa Branca. A chegada de Xi na noite de quarta, junto com a extensão da trégua comercial até 10 de janeiro de 2027, está no texto de quarta. O que esta quinta acrescentou foi um tema: a inteligência artificial entrou no acordo das duas potências.
O que foi anunciado até o início da tarde
Dois anúncios saíram antes e durante a reunião. O primeiro é a criação de um conselho de comércio permanente entre os dois governos, segundo a cobertura ao vivo da CBS News, a rede americana. O órgão vai listar os bens que cada lado quer proteger, de produtos agrícolas a itens de consumo. O segundo é sobre inteligência artificial. Washington propôs um mecanismo de notificação: cada governo avisa o outro quando um sistema de inteligência artificial causar um incidente com impacto de segurança nacional. A primeira reunião dedicada ao tema ficou marcada para novembro, na China, segundo a cobertura ao vivo da NBC News, a rede americana.
O desenho completa o canal direto para incidentes acertado na quarta, registrado na atualização do texto de quarta. Aquele acerto saiu da reunião do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, com o vice-premiê chinês He Lifeng. Trump disse que a agenda do dia incluía segurança, tecnologia e o que chamou de superinteligência. Xi respondeu no terreno dos limites. A íntegra do discurso saiu na Xinhua, a agência estatal chinesa, em chinês, a versão do governo chinês. Ali, Xi afirmou que a competição não precisa ser escondida, mas deve ser sadia e ter limites. E que os dois lados precisam preservar o compromisso de não haver conflito nem confronto. Anunciou ainda o convite para 100 mil jovens americanos visitarem a China em cinco anos e o envio de dois pandas ao zoológico de Atlanta.
O que não saiu importa tanto quanto o que saiu. Nenhuma licença nova de exportação de chips foi anunciada até o início da tarde. A regra vigente permite vender o H200, o chip de inteligência artificial da Nvidia, a compradores chineses aprovados. O Blackwell, a geração mais nova, segue vetado. John Vinh, analista do banco americano KeyBanc, estima que a liberação de 1,5 milhão de H200 valeria cerca de 30 bilhões de dólares só para a Nvidia. A estimativa foi publicada pelo TipRanks, o serviço americano de análise de investimentos. Também não houve anúncio sobre Taiwan: o pacote de armas de 14 bilhões de dólares para a ilha segue suspenso. Em vez de comunicado conjunto, cada governo publicará o próprio texto, segundo a Al Jazeera, a rede catariana. À noite, o jantar de Estado reúne os chefes da Nvidia, da OpenAI, da Qualcomm, do JPMorgan e da Apple.
Quem captura a renda se o desenho avançar
O fator que mais captura renda nesse acordo é o conhecimento. Quem tem o modelo, o chip e a patente cobra pelo acesso de todos os outros, e a licença de exportação decide quem pode comprar. Por isso a reunião de novembro e o aviso mútuo valem mais que a tarifa. Eles definem quem participa da regra sobre a tecnologia que concentra a renda da década. O capital com escala aparece na lista do jantar. As empresas convidadas negociam acesso ao mercado do outro lado, e a renda de uma eventual liberação se concentra em poucas delas, nos dois países.
O trabalho entra na conta por último e paga primeiro. Enquanto a trégua não vira acordo, a tarifa encarece o consumo nos dois lados. O emprego nas cadeias que dependem de chip e de terra rara fica suspenso junto com as licenças. O Estado, a quinta linha da conta, ganha capacidade dos dois lados: arrecada a tarifa que restou e passa a saber dos incidentes de inteligência artificial do rival. A sociedade ganha um grau de liberdade se o aviso funcionar, porque um acidente grave deixa de ser segredo do governo que o sofreu. E perde outro quando a regra do que se pode pesquisar e vender passa a ser negociada por dois governos, sem os demais países presentes. O aviso mútuo é a primeira resposta conjunta ao alerta que atravessou setembro. Foi o mês em que um pesquisador deixou a Anthropic falando em risco de extinção e o pedido de desaceleração dividiu em três lados o debate público.
Os impactos por aqui
A conta brasileira começa na soja. Até julho, a China importou 44,53 milhões de toneladas de soja do Brasil, alta de 5,4% sobre o mesmo período de 2025, segundo a revista de negócios Exame. Dos Estados Unidos vieram 10,7 milhões de toneladas, queda de 31,2%. O compromisso chinês de comprar 25 milhões de toneladas americanas por ano até 2028 não desloca essa posição. Mas cada avanço do acordo disputa o prêmio pago pelo produto brasileiro no porto. Quem captura essa renda é a terra: o produtor daqui vendeu mais caro enquanto a tarifa afastava o concorrente americano. E devolve parte da margem se a reunião desta quinta destravar as compras.
A segunda conta é a das regras. O Brasil compra chips, modelos e padrões prontos, e não participa do canal em que os dois governos passam a combinar avisos e limites para a inteligência artificial. A decisão pública brasileira sobre a tecnologia, da regulação ao uso na propaganda eleitoral, corre atrás de regras feitas fora, como correu na tarifa e na terra rara. No jogo do excedente, a reunião desta quinta decide menos o preço de hoje e mais quem cobra pelo acesso à tecnologia na próxima década.
Entenda o contexto
A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China escalou em degraus ao longo de oito anos. Em 2018, Washington restringiu a Huawei, a fabricante chinesa de equipamentos de rede. Em 2022, criou o controle de exportação para chips avançados, com a regra de que a fronteira do conhecimento não atravessa o Pacífico. A China respondeu em 2025 controlando as terras raras, os minerais que a indústria americana não produz em escala. A trégua de Busan, assinada em outubro de 2025, suspendeu tarifas e liberou os minerais. Já foi estendida duas vezes, agora até 10 de janeiro de 2027.
O canal de aviso sobre incidentes tem um precedente conhecido. Em 1963, depois da crise dos mísseis de Cuba, Washington e Moscou criaram a linha direta. O objetivo era evitar que um acidente virasse guerra por falta de informação. É a primeira vez que as duas maiores potências desenham um instrumento desse tipo para a inteligência artificial. A diferença é que, desta vez, parte do que precisa ser avisado acontece dentro de empresas privadas, as mesmas sentadas no jantar de Estado desta quinta.
Fontes
Casa Branca (a programação da visita e o jantar de Estado) · Chancelaria da China, em chinês (a chegada de Xi, a versão do governo chinês) · Xinhua, em chinês (a íntegra do discurso de Xi, a versão do governo chinês) · Caixin, em chinês (a leitura da revista financeira chinesa) · NBC News (o mecanismo de notificação e a reunião de novembro) · CBS News (o conselho de comércio e o cronograma do dia) · Al Jazeera (a agenda e os anúncios separados) · TipRanks (a estimativa dos 30 bilhões da Nvidia) · Exame (os números da soja brasileira e americana)
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