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Cadeia de semicondutores · Análise

Xi chega a Washington com a trégua comercial por renovar

O presidente da China desembarca nesta quarta-feira para três dias de visita de Estado, a primeira dele aos Estados Unidos em mais de dez anos. Donald Trump decidiu recebê-lo na pista da base aérea de Andrews, um gesto raro no protocolo americano. Em disputa está a trégua comercial assinada em Busan, que suspendeu tarifas e liberou as terras raras chinesas, e que vence em 10 de novembro. O secretário do Tesouro disse nesta quarta que Washington aceita estender o acordo ou ampliá-lo.

Por COMPASSO23 de setembro de 20267 min de leituraTabuleiro: Cadeia de semicondutores

Leituras

  1. A trégua que suspende tarifas e libera as terras raras vence em 10 de novembro: a visita decide se as duas maiores economias renovam, ampliam ou deixam cair o acordo de Busan.
  2. O jantar de Estado de quinta inclui os chefes da Nvidia e da OpenAI: as licenças de chips e as regras para os modelos de inteligência artificial são a moeda central da negociação.
  3. Para o Brasil, a conta começa na soja: a China prometeu comprar 25 milhões de toneladas por ano dos Estados Unidos até 2028, e cada tonelada americana disputa espaço com a brasileira.

O presidente da China, Xi Jinping, chega nesta quarta-feira a Washington para uma visita de Estado de três dias. É a primeira dele aos Estados Unidos em mais de dez anos. Donald Trump decidiu esperá-lo na pista da base aérea de Andrews, nos arredores da capital, em vez de recebê-lo na Casa Branca. O gesto é raro no protocolo americano e reservado a poucos convidados, segundo a agência de notícias americana Associated Press. A visita foi confirmada na segunda-feira pela chancelaria chinesa, como o COMPASSO registrou na leitura das seis regiões de terça.

Na versão do governo da China, o porta-voz Guo Jiakun disse que os dois presidentes vão trocar opiniões sobre as grandes questões da relação e da paz mundial. Ele lembrou que os dois se visitaram num intervalo de meio ano, o que classificou como marco histórico, segundo o comunicado da chancelaria chinesa, em chinês. É o terceiro encontro dos dois desde o início do segundo mandato de Trump. O que dá peso a este é o calendário: a trégua comercial entre os dois países vence em 10 de novembro.

O que vence em novembro e o que foi dito hoje

A trégua saiu do encontro dos dois em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025. Pelo acordo, os Estados Unidos cortaram em 10 pontos a tarifa que tinham criado contra a China por causa do fentanil. O fentanil é o opioide sintético que mata dezenas de milhares de americanos por ano. Washington também manteve suspensa, até 10 de novembro de 2026, a tarifa recíproca mais alta sobre produtos chineses. Os termos estão na nota oficial da Casa Branca.

A China, em troca, suspendeu por um ano os controles de exportação de terras raras anunciados semanas antes. Terras raras são os metais usados em ímãs de motores elétricos, turbinas e armamento, um mercado em que a China domina o refino. A suspensão veio com licenças também para gálio, germânio, antimônio e grafite, insumos de chips e baterias. E Pequim se comprometeu a comprar soja americana. Foram 12 milhões de toneladas no fim de 2025, e serão 25 milhões por ano de 2026 a 2028, segundo a mesma nota da Casa Branca.

O primeiro dia da visita já teve negociação. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, encontrou o vice-premiê chinês He Lifeng nesta quarta para tratar do que chamou de assuntos inacabados. Na lista estavam inteligência artificial, comércio e minerais críticos. Bessent disse que os Estados Unidos aceitam estender a trégua ou partir para um acordo maior, segundo a agência Associated Press, reproduzida pela revista americana US News. Autoridades americanas reclamam que as entregas chinesas de terras raras estão aquém do combinado. O fluxo desses minerais segue perto da metade do nível anterior às restrições, como o COMPASSO registrou na leitura de segunda-feira.

A agenda segue na quinta com a reunião dos dois presidentes e o jantar de Estado. A lista de convidados inclui Jensen Huang, o chefe da Nvidia, a fabricante dos chips que treinam os modelos de inteligência artificial. Inclui também Sam Altman, o chefe da OpenAI, segundo o jornal japonês Nikkei, em japonês. Dois temas cercam a visita sem estar no programa oficial. Trump segura um pacote de armas para Taiwan enquanto negocia com Pequim, movimento analisado na leitura das seis regiões desta quarta. E a China se oferece como mediadora na guerra do Golfo, cuja negociação ganhou prazo na terça, como mostrou o texto do dia de ontem.

Quem captura o que em cada desfecho

O centro da disputa é o fator conhecimento. Quem controla a licença de exportação de um chip, ou a regra de uso de um modelo de inteligência artificial, captura a renda de toda a cadeia que depende dele. Os Estados Unidos usam esse controle desde 2022. A China respondeu com o controle sobre os minerais, que é renda de escassez. Terra e recursos naturais valem mais porque uma decisão de governo pode fechar a oferta. A trégua trocou uma coisa pela outra por um ano.

O capital com escala dos dois lados ganha em qualquer desfecho. A China chega com um superávit comercial de 1,2 trilhão de dólares, o excedente de vender ao mundo mais do que compra. Chega também com domínio em veículos elétricos e painéis solares, segundo a análise da CNN Brasil. As empresas americanas de tecnologia, presentes no jantar de quinta, vendem chips e serviços aos dois mercados. O trabalho fica com a parte instável: a tarifa protege o emprego de um setor agora e cobra depois. A conta vem no preço que o consumidor paga e na produtividade que a proteção adia.

Já a sociedade, dos dois lados, segue sem a parte que importa: previsibilidade. A trégua é uma decisão de dois governos, renovável a cada ano, fora das regras da OMC, a Organização Mundial do Comércio, que existiam para isso. Enquanto o comércio das duas maiores economias depender de uma decisão, e de sua renovação anual, cada empresa e cada país paga um prêmio de incerteza para planejar o ano seguinte.

Os impactos por aqui

A conta brasileira começa na soja. O Brasil é o maior fornecedor do grão para a China, posição que cresceu justamente quando as tarifas afastaram a soja americana. O compromisso de Pequim de comprar 25 milhões de toneladas por ano dos Estados Unidos até 2028 devolve o concorrente ao mercado. Se a visita ampliar essas compras, o produtor brasileiro perde espaço e preço; a renda da terra no Centro-Oeste encolhe na margem. O câmbio sente junto, porque a soja é uma das maiores fontes de dólar do país.

O segundo efeito é de referência. O tarifaço americano sobre produtos brasileiros segue em vigor, com reunião ministerial marcada para 30 de setembro em Milwaukee, como registra a série Eleição 2026. O que Washington aceitar ou negar a Pequim nesta semana vira o padrão do que outros países podem esperar. Por fim, um acordo maior entre as duas potências mexeria com preços de commodities e com o dólar. São as duas variáveis que o Banco Central citou ao justificar a cautela no corte de juros.

Entenda o contexto

A disputa comercial entre Estados Unidos e China começou em 2018, com tarifas americanas sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses e retaliação de Pequim. Em outubro de 2022, Washington somou à tarifa o controle de exportação de chips avançados e das máquinas que os fabricam, para atrasar a computação chinesa. A China respondeu ao longo dos anos seguintes restringindo insumos que domina: primeiro gálio e germânio, depois grafite, e em outubro de 2025 um controle amplo sobre terras raras. O choque de outubro levou ao encontro de Busan e à trégua de um ano que agora vence. O padrão é estável há oito anos: cada lado transforma em instrumento de pressão o elo da cadeia que controla. O comércio mundial se ajusta ao que os dois decidem, e a regra multilateral fica de fora.

Fontes

Chancelaria da China, em chinês (o anúncio da visita, a versão do governo chinês) · Casa Branca (os termos da trégua de Busan) · Associated Press, a agência de notícias americana (a recepção na pista de Andrews) · US News, a revista americana (a fala de Bessent sobre estender a trégua) · Nikkei, em japonês (o desenho da visita e o jantar de Estado) · CNN Brasil (a análise do encontro e o superávit chinês) · China Briefing, a consultoria de negócios (o histórico do acordo de Busan) · Taipei Times, o jornal taiwanês (o adiamento do pacote de armas)

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Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.