Arquitetura de segurança · Análise
O fim de semana em seis regiões: a Duma muda de tamanho
As seis regiões no fim de semana: a Rússia deu ao partido do governo a maior bancada de sua história e maioria para mudar a Constituição, sob o maior ataque de drones já feito contra Moscou. A Venezuela foi recebida por dois governos em três dias. A Índia calculou o custo da lei americana sobre compradores de energia russa. E a Nigéria contou 37 mortos sob custódia de uma força federal, muitos deles adolescentes.
Leituras
- A maioria de 355 cadeiras da Duma dispensa negociação para emendar a Constituição russa, e chega no ano em que a guerra na Ucrânia entra no quinto ano.
- A recuperação do petróleo saudita depende de escolta militar e transferência em alto mar: o fluxo do Oriente Médio segue 6,1 milhões de barris por dia abaixo da média de 2025.
- A lei americana sobre compradores de energia russa não aplica tarifa sozinha: ela transfere ao presidente a decisão de quando e contra quem aplicar, e é isso que a Índia está calculando.
Atualização, 19h28. A Corporação de Segurança e Defesa Civil da Nigéria prendeu 24 dos próprios agentes pela morte dos 37 garimpeiros sob custódia em Minna. O anúncio foi feito em Abuja pelo porta-voz nacional da corporação, Babawale Afolabi, e publicado nesta segunda pelo Daily Trust, jornal privado nigeriano. A medida muda a natureza da resposta: a suspensão registrada no fim de semana era administrativa, e a detenção põe os agentes sob investigação criminal. O caso agora corre em ao menos cinco frentes, entre elas um comitê presidencial independente, um painel do serviço de inteligência interna e uma comissão da polícia.
No Japão, o tufão Dujuan, o número 25 do ano, deixou o primeiro morto confirmado, na província de Miyazaki, segundo o balanço da agência nacional de gestão de desastres citado pelo Japan Today, site de notícias japonês em inglês. Na ilha de Izu Oshima, choveram 600 milímetros em 24 horas, recorde de setembro no ponto de medição, segundo o The Watchers, site especializado em desastres naturais. A ordem de saída no nível máximo de alerta alcançou 3.020 moradores da ilha, e 384 voos foram cancelados no país. O texto registrava três desaparecidos e uma pessoa em estado grave pela agência Jiji, e o balanço piorou. A chegada do tufão já estava na cobertura da série climática, como o COMPASSO registrou no sábado.
Atualização, 02h41. O balanço do tufão Dujuan piorou. Quatro pessoas morreram nas províncias de Kanagawa e Chiba, vizinhas de Tóquio, e seis seguem desaparecidas, quase todas em deslizamentos de terra. Os números estão no balanço da NHK, a emissora pública japonesa, em japonês (os danos do tufão), atualizado na tarde de terça no Japão. Mais de 430 casas foram danificadas e as buscas continuam na província de Kanagawa. O texto registrava um morto em Miyazaki e três desaparecidos; o número subiu e o dano se concentra na região de Tóquio.
O fim de semana teve duas eleições, uma guerra que mudou de direção e um massacre sob custódia do Estado. Em cada região, o mesmo movimento aparece contado de maneiras diferentes por quem governa, por quem informa de fora e por quem informa de dentro. A guerra entre Estados Unidos e Irã chegou à Assembleia Geral das Nações Unidas e derrubou o petróleo; esse fato tem análise própria nesta edição.
Américas
A Venezuela voltou a ser tratada como interlocutor por dois governos no mesmo fim de semana. No sábado, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi recebido em Caracas por Delcy Rodríguez, a presidente em exercício que governa desde a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, em janeiro. Os dois assinaram uma declaração conjunta que fala em nova etapa das relações. As relações diplomáticas formais seguem rompidas. A conversa tratou de migração e de uma dívida paraguaia de cerca de 300 milhões de dólares por petróleo venezuelano, sem acordo anunciado.
Na quinta-feira, dia 24, Trump deve encontrar Rodríguez em Nova York. Mike Waltz, o embaixador americano nas Nações Unidas, descreveu o encontro como uma conversa rápida em uma recepção, não uma reunião bilateral. O governo venezuelano não confirmou publicamente a presença dela. A diferença entre as duas descrições é o próprio objeto da disputa: para Caracas, ser recebida é reconhecimento; para Washington, é gesto administrado. O petróleo venezuelano segue sob controle de decisão americana, oito meses depois da captura. No Brasil, a semana começa com o presidente em Nova York e a corrida eleitoral em dois resultados novos, com análise própria nesta edição.
Ásia oriental
Xi Jinping chega a Washington para a cúpula de quinta-feira, a primeira visita de um presidente chinês à Casa Branca desde 2015. A trégua tarifária de 90 dias entre os dois países vence em seguida. Minerais críticos, venda de armas a Taiwan e um mecanismo de aviso mútuo sobre segurança de modelos de inteligência artificial estão na pauta divulgada pelos dois lados.
Nesta segunda, o banco central chinês manteve as taxas de referência de empréstimo pelo 16º mês seguido: 3,0% para um ano e 3,5% para cinco anos. A decisão contrasta com o aperto do mundo rico da semana passada, quando Estados Unidos e Japão subiram juros, como o COMPASSO registrou no sábado. Pequim chega à cúpula com crédito barato e demanda interna fraca. O Japão passou a segunda com as bolsas fechadas por feriado, e fica fechado até quarta. O tufão número 25 atingiu a região de Tóquio: a agência meteorológica japonesa emitiu alerta especial de deslizamento para a ilha de Izu Oshima, com três desaparecidos e uma pessoa em estado grave, segundo a agência Jiji, em japonês.
Sul e Sudeste da Ásia
A Índia passou o fim de semana calculando o custo de uma lei americana. Em 18 de setembro, Trump sancionou a lei Graham, que autoriza tarifas de até 100% sobre países que comprem energia russa, como o COMPASSO registrou na quinta-feira. A tarifa não é automática: o presidente americano decide se aplica, a quanto e contra quem.
A posição indiana é conhecida e foi repetida. O Ministério das Relações Exteriores disse que o país mantém o compromisso com a segurança energética de 1,4 bilhão de pessoas e que vai trabalhar com o setor produtivo para lidar com o efeito da lei. Os números explicam a resistência. Em julho, o petróleo russo chegou a 50,83% das importações indianas, mais de 2,47 milhões de barris por dia, a maior participação já registrada. Em setembro, a média caiu para cerca de 1,9 milhão de barris diários. O desconto russo sustenta a margem das refinarias indianas e segura o preço do combustível doméstico. Trocar essa fonte por outra custa caro, e o custo apareceria no preço interno, num ano de inflação de alimentos.
Golfo e Oriente Médio
Fora da diplomacia que se desloca para Nova York, o que mudou na região foi o volume. O petróleo saudita voltou a atravessar o estreito de Ormuz em quantidade, depois de a Arábia Saudita perder parte da alternativa terrestre. O oleoduto Leste-Oeste, que leva o petróleo dos campos do leste ao mar Vermelho, foi danificado por ataques e segue em reparo. A exportação saudita subiu de 2,4 milhões de barris por dia em agosto para mais de 4 milhões neste mês, com transferência de carga em alto mar e escolta militar americana, como o COMPASSO registrou no sábado.
A recuperação é parcial e cara. Nos últimos dez dias, o fluxo de petróleo do Oriente Médio somou 17,1 milhões de barris por dia, ainda 6,1 milhões abaixo da média de 2025, pelos dados da empresa de rastreamento marítimo Kpler. O seguro de casco para travessia do estreito segue em patamar de guerra, e cada carga depende de autorização militar. O Iêmen continua fora do noticiário diário e dentro do problema: os houthis, o grupo iemenita aliado do Irã, controlam a saída sul do mar Vermelho desde a semana retrasada.
Europa e o espaço pós-soviético
A Rússia elegeu a Duma, a câmara baixa do parlamento, em três dias de votação encerrados no domingo. Com a apuração quase completa, a comissão eleitoral central informou 57,83% dos votos de lista para o Rússia Unida, o partido do governo, e 355 das 450 cadeiras. É a maior bancada da história do partido, acima das 343 de 2016, e garante maioria constitucional, o tamanho necessário para mudar a Constituição sem depender de ninguém. O Partido Comunista ficou com 40 cadeiras, os liberal-democratas com 25 e o Novas Pessoas com 20. A participação foi de 59,32%. O resultado oficial só é proclamado depois de 25 de setembro.
A votação aconteceu sob ataque. No domingo, a Ucrânia lançou mais de mil drones contra a Rússia, no maior ataque já registrado contra Moscou, com três mortos e dano parcial em uma refinaria. O governo russo prometeu intensificar os ataques a Kiev. Nesta segunda, drones russos atingiram Zaporíjia, no sul ucraniano, e a região de Kiev registrou quatro mortos, três deles crianças. A Moldávia informou nova violação do próprio espaço aéreo por um drone russo. A votação de três dias já começara com observadores independentes barrados, como o COMPASSO registrou na sexta-feira.
AS VERSÕES
- A imprensa ocidental: uma eleição sem oposição real, decidida antes do voto, cuja notícia do dia foi o ataque ucraniano de drones e a promessa russa de retaliar Kiev. France 24.
- A versão do governo da Rússia: a comissão eleitoral confirma 57,83% e 355 mandatos, e o canal do Ministério da Defesa russo trata o número como confirmação de apoio popular à condução da guerra. Zvezda, em russo.
- A imprensa russa independente, no exílio: a mesma maioria constitucional, contada junto com mais de 900 queixas às comissões eleitorais, uma em cada três por violação de direitos de fiscais. Soma a falha que deixou postos de Moscou horas sem cédulas de papel, empurrando eleitores para o voto pela internet. Meduza, em russo.
As três versões não discordam do número. Discordam do que o número prova. Para o governo, a maioria mede adesão. Para a imprensa no exílio, mede o funcionamento de um processo em que a fiscalização foi restringida. Para a imprensa de fora, mede pouco, porque o resultado era conhecido. A consequência prática é a mesma nos três relatos: o Executivo russo entra em 2027 com poder de alterar a Constituição sem negociar.
África
A Nigéria passou o fim de semana contando mortos sob custódia do Estado. Trinta e sete detidos foram achados mortos nas celas da Corporação de Segurança e Defesa Civil, uma força paramilitar federal, em Minna, capital do estado do Níger. Muitos eram crianças de 14 a 18 anos que trabalhavam em garimpos de ouro, segundo Umar Bago, o governador do estado. Eles tinham sido presos em operações contra mineração ilegal nos dias 15 e 16. A força alegou primeiro um surto de doença e depois disse que a causa não está estabelecida.
O protesto veio na sexta, e as forças de segurança atiraram. As autoridades impuseram toque de recolher. O comandante estadual da corporação foi suspenso na sexta e outros vinte agentes no sábado; no domingo, os suspensos foram apresentados publicamente. O presidente Bola Tinubu ordenou investigação e disse que suspensão não substitui justiça. O caso liga duas coisas que costumam ser tratadas em separado: a mineração informal de ouro, que sustenta renda no interior nigeriano, e o poder de prender de uma força que responde ao governo federal. Na quarta, Marrocos elege 395 deputados, com 28 partidos e cerca de 16 milhões de eleitores, numa campanha dominada pelo custo de vida e pelo desemprego de 37,3% entre os jovens de 15 a 24 anos.
Os impactos por aqui
Três dos movimentos do fim de semana chegam ao Brasil por preços. O primeiro é o petróleo, que caiu com a perspectiva de conversa entre Estados Unidos e Irã e aliviou o câmbio e a bolsa nesta segunda. O segundo é a decisão chinesa de manter o crédito barato: a China é o principal comprador do agro e do minério brasileiros, e juro baixo lá sustenta demanda aqui. O terceiro é a lei Graham. Se o governo americano aplicar tarifa de 100% sobre compradores de energia russa, a Índia e a China podem redirecionar compras, e o preço do petróleo volta a subir, com efeito no diesel e no frete brasileiros. O ganho de renda, nesse caso, vai para o produtor de petróleo com rota segura, e o custo aparece no transporte, que pesa no preço do alimento. A tarifa também transfere decisão: quanto mais o comércio depende de uma autorização, menos ele depende de uma regra.
Entenda a região
A eleição russa de domingo repete uma estrutura antiga. Desde a formação do Estado moscovita, o poder central russo se organiza pela concentração. O território é vasto, indefensável nas bordas e sem fronteiras naturais a oeste. A resposta histórica foi um centro forte, que distribui recursos e controla a periferia. O parlamento apareceu tarde, em 1906, e funcionou como câmara consultiva. Na União Soviética, o Soviete Supremo registrava decisões tomadas no partido. A Duma atual nasceu em 1993, depois que o presidente bombardeou o próprio parlamento, e a Constituição escrita naquele ano deu ao Executivo a maior parte do poder.
Por isso o número de cadeiras importa menos do que parece e mais do que se diz. Importa menos porque a Duma raramente contraria o Executivo. Importa mais porque a maioria constitucional dispensa negociação para mudar as regras de sucessão, de mandato e de território. Foi assim em 2020, quando a Constituição foi emendada para zerar a contagem de mandatos presidenciais. Uma bancada de 355 cadeiras entrega esse instrumento pronto para o período em que a guerra na Ucrânia entra no quinto ano.
Fontes
Meduza, em russo (as cadeiras, a participação e as queixas) · Zvezda, em russo (a versão do governo da Rússia sobre o resultado) · Jiji, em japonês (o tufão número 25 e o alerta de deslizamento) · CNN em árabe (a delegação iraniana a caminho de Nova York) · El Balad, em árabe (a leitura egípcia da guerra aberta e dos canais de negociação) · Ficha eleitoral marroquina, em espanhol (as cadeiras e os partidos em disputa) · Comissão Eleitoral Central da Rússia (documento primário) · Banco do Povo da China, comunicado de taxas (documento primário) · France 24 (a eleição russa sob o ataque de drones) · Euronews (os drones sobre Zaporíjia e Moscou) · Channels Television, a emissora nigeriana (os agentes suspensos) · The Irish Times (as 37 mortes sob custódia) · The Rio Times (o encontro de Caracas e a conversa marcada em Nova York) · Business Standard, o jornal econômico indiano (a dificuldade de cortar o petróleo russo) · Cyprus Mail (o fluxo do Oriente Médio, com dados da Kpler) · FXStreet (a manutenção das taxas chinesas)
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