Energia · Análise
Clima: o Pacífico sobe de novo e o Peru chega a +3,9 °C
O boletim semanal do El Niño da agência americana de oceanos e atmosfera saiu nesta segunda e mediu 2,1 °C acima da média no Pacífico central, um décimo a mais que na semana passada. Na faixa diante do Peru e do Equador, o desvio chegou a 3,9 °C. A projeção oficial segue em 75% de chance de um evento histórico entre outubro e dezembro, o maior desde 1950, e a divergência de quase um grau entre dois produtos da mesma agência continua sem explicação.
Leituras
- O Pacífico central está acima do piso dos eventos muito fortes pela segunda semana seguida e não recuou: é a medição que decide a chuva e a seca do próximo trimestre no Brasil.
- A faixa diante do Peru e do Equador chegou a 3,9 °C acima da média, o ponto mais alto do ciclo, e o desembarque de anchoveta, base da pesca local, já caiu 80% no ano.
- A concentração de gás carbônico subiu 2,07 partes por milhão em doze meses: a temperatura do oceano oscila com o fenômeno e volta, e essa medição só sobe.
Este é um texto da série Crise Climática, que acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. O dado novo saiu nesta segunda-feira: o boletim semanal do El Niño do Centro de Previsão Climática da agência americana de oceanos e atmosfera, a NOAA. Ele mede a temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial, a variável que define o fenômeno. As quatro faixas medidas subiram ou ficaram estáveis, e a faixa da costa da América do Sul está no ponto mais alto da série deste ano.
O que o boletim mediu
A região Niño 3.4, a faixa central do Pacífico equatorial que serve de referência oficial, ficou em 2,1 °C acima da média na última semana medida, segundo o boletim desta segunda. Na segunda-feira passada, o mesmo produto marcava 2,0 °C, o piso dos eventos classificados como muito fortes, como o COMPASSO registrou naquele dia. A alta é de um décimo de grau em sete dias. Na mesma medição, a região Niño 3 ficou em 3,0 °C acima da média e a Niño 4, a faixa oeste, em 0,0 °C, sem desvio.
O número mais alto é o da costa. A região Niño 1+2, que fica diante do Peru e do Equador, marcou 3,9 °C acima da média. É a faixa que governa a pesca e a chuva do litoral sul-americano, e a que primeiro esquentou neste ciclo, em fevereiro. Para efeito de comparação, o desembarque de anchoveta no Peru, a base da pesca local, caiu 80% neste ano.
A divergência entre dois produtos oficiais da mesma agência continua aberta. A tabela semanal de temperatura da superfície do mar, que usa como base a média de 1991 a 2020, registra 3,0 °C de desvio na região Niño 3.4 para a semana encerrada em 16 de setembro. O boletim da mesma segunda-feira registra 2,1 °C. A semana anterior tinha a mesma diferença, com 2,9 °C na tabela e 2,0 °C no boletim. Os dois produtos subiram um décimo e seguem distantes quase um grau inteiro, sem explicação publicada. A série usa os dois, sempre atribuindo cada número ao produto de onde ele saiu, como faz desde o balanço de sábado.
O que os cientistas dizem
O boletim mantém o estado de alerta de El Niño. Repete também a frase central: o fenômeno está se fortalecendo. A chance de um evento muito forte no outono e no inverno do Hemisfério Norte de 2026 e 2027 passa de 90%. A projeção oficial, atualizada em 10 de setembro e repetida nesta segunda, dá 75% de chance de um evento histórico no trimestre de outubro a dezembro, que superaria todos os El Niño registrados desde 1950. O fenômeno deve durar até o trimestre de março a maio de 2027.
Michelle L'Heureux, física do Centro de Previsão Climática da NOAA, resumiu a confiança e o limite dela. Sobre a força, disse que a equipe ficou mais confiante na possibilidade de um El Niño muito forte até o fim deste ano, e que a probabilidade acima de 90% é a maior já atribuída ao evento. Sobre as consequências, fez a ressalva que costuma ficar de fora das manchetes: eventos mais fortes de El Niño não garantem impactos fortes, apenas tornam certos impactos mais prováveis. Ela acrescentou que, mesmo num evento histórico, haverá lugares onde o efeito esperado não vai aparecer.
No Peru, a comissão multissetorial que estuda o fenômeno, conhecida pela sigla ENFEN e formada por órgãos públicos de pesquisa do mar e do clima, mantém o alerta de El Niño costeiro. O comunicado mais recente dá 48% de chance de magnitude extraordinária no verão do Hemisfério Sul, entre dezembro e março, e 45% de magnitude forte. A comissão projeta a transição para condições neutras só no outono de 2027.
O que muda na leitura acumulada
A série vem montando um quadro peça por peça desde a estreia, em 10 de setembro. O dado desta segunda não vira a leitura: confirma a direção e estreita a incerteza. O Pacífico central está acima do piso dos eventos muito fortes há duas semanas seguidas, e não recuou. A costa sul-americana está perto do topo da escala. Esses são os dois pontos que decidem a chuva e a seca do próximo trimestre no Brasil.
As outras peças seguem onde estavam. Agosto foi o mês mais quente já medido no planeta, empatado com julho de 2023, a 1,65 °C acima do período pré-industrial, na medição do serviço climático europeu Copernicus. O gelo do Ártico fechou o degelo anual em 4,60 milhões de quilômetros quadrados no dia 10 de setembro. É o 11º menor nível da série de satélites, no anúncio do centro americano de dados de neve e gelo, como o COMPASSO registrou na sexta-feira.
O gás carbônico é a peça que não oscila. A concentração média de agosto em Mauna Loa, no Havaí, foi de 427,55 partes por milhão, segundo a série do laboratório de monitoramento global da NOAA. Em agosto de 2025, a mesma medição deu 425,48 partes por milhão. São 2,07 partes por milhão a mais em doze meses, dentro do ritmo de alta dos últimos anos. A diferença entre esse dado e os outros é o prazo: a temperatura do oceano oscila com o fenômeno e volta, e a concentração de gás carbônico só sobe.
Os impactos por aqui
O efeito no Brasil já está no calendário econômico. O padrão histórico do fenômeno combina chuva em excesso no Sul com calor e seca no centro e no norte do país. O fim de semana antecipou a primeira parte: um ciclone extratropical levou o instituto nacional de meteorologia a emitir alerta laranja para todo o Rio Grande do Sul, com previsão de até 100 milímetros de chuva em um dia. Os reservatórios das hidrelétricas do Sul devem fechar setembro com 91,4% da capacidade, e o operador nacional do sistema elétrico segura água por causa do El Niño. A conta de luz roda com bandeira amarela.
A safra 2026/27 está sendo plantada agora, e é a primeira desenhada sob risco declarado do fenômeno, como a série registrou na terça-feira passada. Os dois canais pelos quais o Pacífico chega ao orçamento doméstico são conhecidos: o preço do alimento, se a lavoura do centro-norte perder chuva, e a bandeira da conta de luz, se os reservatórios caírem. No Sudeste e no Centro-Oeste, a temperatura acima do normal pressiona o consumo de energia e a saúde nas cidades.
O que observar
Sexta, dia 25: a agência reguladora de energia anuncia a bandeira tarifária de outubro. Segunda, dia 28: o novo comunicado da comissão peruana, com a revisão das probabilidades da costa. Próxima segunda, dia 28, também sai o boletim semanal do El Niño da NOAA, com a terceira leitura seguida do Pacífico central acima do piso dos eventos muito fortes. Primeira semana de outubro: o boletim mensal do Copernicus, com a anomalia global de setembro. Quinta, 8 de outubro: a discussão diagnóstica mensal do El Niño, que atualiza as probabilidades de evento histórico pela primeira vez desde 10 de setembro.
Fontes
NOAA, Centro de Previsão Climática, boletim semanal do El Niño de 21 de setembro (documento primário) · NOAA, tabela semanal de temperatura da superfície do mar (documento primário) · NOAA, laboratório de monitoramento global, série de gás carbônico de Mauna Loa (documento primário) · ENFEN, comunicado oficial, em espanhol (as probabilidades da costa peruana, documento primário) · Copernicus, serviço climático europeu (a anomalia global de agosto, documento primário) · Centro americano de dados de neve e gelo (o mínimo ártico de 2026, documento primário) · Infobae, em espanhol (a leitura peruana do comunicado) · ABC News (as falas de Michelle L'Heureux sobre a força e os limites da previsão) · Copernicus Marine (o calor persistente do oceano em 2026)
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A projeção oficial para o trimestre de outubro a dezembro
- Evento histórico, acima de todos desde 195075%
- Qualquer outro desfecho25%
NOAA, Centro de Previsão Climática, projeção de 10 de setembro repetida no boletim semanal de 21 de setembro. Na mesma projeção, a chance de um evento muito forte entre setembro e janeiro passa de 90%. Os números do Pacífico desta segunda: 2,1 °C acima da média na região Niño 3.4 e 3,9 °C na Niño 1+2, diante do Peru.
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