Energia · Análise
Clima: o Pacífico chega aos +2 °C do evento muito forte
O boletim semanal da NOAA publicado nesta segunda-feira mediu +2,0 °C de anomalia na região Niño 3.4, o piso da faixa que define um El Niño muito forte. É o primeiro registro semanal de 2026 nesse degrau. Na costa do Peru, o comitê oficial estima 57% de chance de condições cálidas extraordinárias em setembro, e o desembarque de anchoveta caiu 80%. No Brasil, a Conab apresenta amanhã o primeiro levantamento da safra desenhada sob o fenômeno.
Leituras
- O boletim semanal da NOAA mediu +2,0 °C na faixa central do Pacífico, o piso dos eventos muito fortes: é a primeira semana da série de 2026 nesse degrau.
- Na costa do Peru, o comitê oficial estima 57% de chance de condições cálidas extraordinárias em setembro, e o desembarque de anchoveta, a base da pesca local, já caiu 80%.
- Para o Brasil, o primeiro número da safra desenhada sob El Niño forte sai amanhã, no levantamento da Conab, com chuva a mais no Sul e a menos no Norte no padrão histórico.
Este é o texto do dia da série Crise Climática, que acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. A série não pergunta quem ganha e quem perde: registra o que está medido. O dado novo desta segunda-feira é um degrau. O boletim semanal do Centro de Previsão Climática da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, saiu hoje com dados até o fim de semana. Ele mediu anomalia de +2,0 °C na região Niño 3.4, a faixa central do Pacífico equatorial usada como referência do El Niño. É o primeiro registro semanal do evento de 2026 no piso da faixa dos episódios muito fortes, que começa exatamente em +2,0 °C. Na semana anterior, o mesmo boletim media +1,8 °C, como o COMPASSO registrou no sábado. O documento é primário e está no site do centro.
O que o dado mede
O boletim desta segunda traz as quatro regiões de medição do Pacífico. A Niño 4, mais a oeste, marca -0,1 °C. A Niño 3.4, a de referência, marca +2,0 °C. A Niño 3, a leste, marca +2,8 °C. E a Niño 1+2, encostada na costa do Peru, marca +3,7 °C, um degrau abaixo dos +3,9 °C da semana anterior. Esse desenho, frio no oeste e muito quente no leste, é a assinatura dos eventos com centro no Pacífico oriental. É o tipo que historicamente mais atinge a costa sul-americana. Dois cuidados de leitura, para separar fato de interpretação. O valor semanal oscila, e a classificação oficial de um evento usa a média de três meses, não a de uma semana. E o aviso vigente da NOAA, o El Niño Advisory, segue o mesmo desde a estreia da série. A chance de um evento muito forte no outono e inverno do hemisfério norte passa de 90%. A de um evento histórico, acima de +2,5 °C no trimestre de outubro a dezembro, segue em 75%, como o COMPASSO registrou na estreia da série. O que o dado de hoje acrescenta é a confirmação de trajetória: o oceano está subindo na velocidade que aquelas probabilidades supunham.
Os cientistas e o Peru
A fala científica mais recente sobre a força do evento segue sendo a de Rebecca Lindsey, editora do blog do El Niño da NOAA. Ela descreveu a água abaixo da superfície: a escala do gráfico precisou ser refeita para caber uma anomalia de +10 °C, como o COMPASSO registrou no sábado. No Peru, onde o aquecimento chega primeiro, o efeito saiu do gráfico e entrou na economia. O Enfen, o comitê oficial peruano que monitora o fenômeno, estima 57% de probabilidade de condições "cálidas extraordinárias" na costa em setembro. As anomalias chegam a +6 °C nos trechos norte e central do litoral, segundo o Infobae, em espanhol. A consequência mais concreta está na pesca. O desembarque de anchoveta, o peixe que sustenta a indústria pesqueira peruana e a produção mundial de farinha de peixe, caiu cerca de 80%. A primeira temporada do ano foi suspensa em junho, pelo registro da RPP, a rede de rádio peruana, em espanhol.
O que muda na leitura acumulada
A série acompanha três medições ao mesmo tempo, e as três seguem na mesma direção. O Pacífico equatorial subiu de +1,8 °C para +2,0 °C na semana. O oceano global rodava a 21,15 °C de média na superfície em 10 de setembro, acima de 2023 e de 2024 nas mesmas datas, na medição diária lida no Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine. E o gelo marinho do Ártico tocou na semana passada os 4,60 milhões de km², o provável mínimo do ano, 1,67 milhão abaixo da média de 1981 a 2010, pelo NSIDC, o centro americano de dados de neve e gelo. Os três números estão na consolidação de sábado. A leitura acumulada da série, portanto, não muda de direção, muda de estágio. Um El Niño que era forte e provável virou um El Niño no degrau muito forte e medido. E ele acontece sobre um oceano que já estava no recorde da série histórica.
Os impactos por aqui
O padrão histórico do El Niño no Brasil é conhecido: chuva acima da média no Sul, calor e seca no Norte e no Nordeste. O efeito chega direto à safra, aos reservatórios e ao preço da comida. Amanhã, terça-feira, a Conab, a companhia pública de abastecimento, apresenta o primeiro levantamento da safra 2026/27, o primeiro desenhado inteiramente sob o fenômeno. É o número que começa a dizer se a soja e o milho do próximo ano nascem com risco climático embutido no preço. Os reservatórios do Sudeste, que geram a maior parte da energia do país, estavam em 56,8% na última leitura. E a deflação de agosto foi puxada por alimentos, um alívio que um El Niño forte costuma reverter na safra seguinte, como o COMPASSO registrou no sábado.
O que observar
- Terça, dia 15: a Conab apresenta o primeiro levantamento da safra 2026/27.
- Segunda, dia 21: o próximo boletim semanal do Centro de Previsão Climática da NOAA.
- Nas próximas semanas: a confirmação do mínimo do gelo ártico pelo NSIDC.
- Primeira semana de outubro: o boletim mensal do Copernicus, o serviço climático europeu, com a anomalia global de setembro.
- Quinta, dia 8 de outubro: a discussão diagnóstica mensal do El Niño da NOAA, que pode elevar a classificação oficial do evento.
Fontes
NOAA, Centro de Previsão Climática, 14/09 (o boletim semanal do El Niño, documento primário) · NOAA Climate.gov (o aviso vigente e o blog do El Niño, documento primário) · Infobae, em espanhol (o Enfen e as anomalias na costa peruana) · RPP, em espanhol (a queda de 80% no desembarque de anchoveta) · Climate Reanalyzer, Universidade do Maine (a temperatura diária do oceano, documento primário) · NSIDC (o gelo marinho do Ártico, documento primário) · Conab (o calendário do levantamento da safra, documento primário)
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