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Política monetária · Análise

A semana em que o mundo subiu o juro e o Brasil deflacionou

O movimento da semana em Finanças: o BCE subiu o juro em Berlim por causa do petróleo de guerra, a inflação americana acelerou e levou a chance de alta do Federal Reserve a 90%, e o Brasil mediu deflação de 0,32%, a maior em quatro anos, com duas travas de prazo curto dentro. Na quarta-feira, Copom e Federal Reserve decidem no mesmo dia, e a distância entre os dois juros pode encolher meio ponto de uma vez.

Por COMPASSO12 de setembro de 2026atualizado em 14 de setembro às 2h559 min de leituraTabuleiro: Política monetária

Leituras

  1. A guerra virou variável de banco central: o BCE subiu o juro citando o conflito, e a gasolina pagou mais de um terço da inflação americana de agosto.
  2. A deflação brasileira é real e tem prazo: veio do crédito de Itaipu e de uma trava na gasolina paga pelo Tesouro, que vence um dia depois do primeiro turno.
  3. Se o Copom cortar e o Federal Reserve subir na quarta, a distância entre os juros encolhe meio ponto numa semana, e o real perde parte da proteção que segura o dólar.

Atualização, 02h55. A semana do Copom e do Federal Reserve abriu sem o alívio do petróleo. A reunião de Omã sobre o estreito de Ormuz, cujo anúncio derrubou o barril na sexta, foi adiada na noite de domingo, sem data nova, segundo a agência financeira Bloomberg. O detalhe do adiamento está na análise de Segurança desta edição. Na reabertura dos mercados, o Brent, o barril de referência internacional, foi à casa dos 108 dólares, o maior nível em quatro meses. Na madrugada desta segunda, rodava a 106,90 dólares, alta de 2,2%, segundo o Trading Economics, o serviço de dados de mercados.

Atualização, 02h55. Para a leitura do texto, o quadro da quarta-feira ficou mais pesado. O Federal Reserve, o banco central americano, decide juros com o petróleo em máxima de quatro meses, e não mais com a queda que a sexta precificou. Se a alta do juro americano vier junto com o corte do Copom, a distância entre os dois juros encolhe meio ponto na semana, e o real perde parte da proteção que segura o dólar.

Ilustracao editorial escura: duas linhas de grafico cruzando em direcoes opostas, uma vermelha subindo e uma cinza descendo

A semana terminou com os juros do mundo apontando para cima e o do Brasil apontando para baixo. Na quinta-feira, o BCE, o banco central da zona do euro, subiu suas três taxas em 0,25 ponto, em reunião realizada em Berlim. Na sexta, a inflação americana de agosto veio acima do esperado no núcleo. A chance de alta do juro americano na quarta que vem foi a cerca de 90% na precificação dos futuros. No mesmo dia, o IBGE mediu no Brasil a maior deflação em quatro anos, como o COMPASSO registrou na sexta-feira. O Copom, o comitê de política monetária do Banco Central, decide na quarta com cerca de 95% de chance de corte precificada.

A alta de Berlim e o que ela diz

O BCE elevou a taxa de depósito para 2,50%, a segunda alta do ano, em decisão unânime. O comunicado oficial aponta o motivo. O conflito no Oriente Médio segue gerando pressão de inflação. A projeção da casa para a inflação de 2026 subiu a 3,0%, bem acima da meta de 2%. A presidente Christine Lagarde chamou a decisão de óbvia, "um no brainer", segundo a CNBC, a rede americana de notícias de negócios. O jornal alemão Handelsblatt registrou em alemão a justificativa dela: "a inflação está mais persistente do que se supunha, com riscos apontando para cima". A guerra do Golfo, que fechou as duas saídas do petróleo, como consolida a análise de Segurança desta edição, virou variável de banco central.

As projeções novas do BCE contam a mesma história em números. A inflação da zona do euro deve ficar em 3,0% em 2026, cair a 2,5% em 2027 e só voltar perto da meta, a 2,1%, em 2028. O crescimento foi revisado para cima, a 0,9% neste ano e 1,4% no que vem. Economia mais firme e inflação mais alta explicam por que os operadores já precificam outra alta possível em outubro, segundo a agência financeira Bloomberg. O jornal alemão Tagesspiegel registrou o clima da reunião: foi a segunda alta do ano, anunciada fora de Frankfurt pela primeira vez em anos. O dólar sentiu o conjunto. O índice que mede a moeda americana contra as principais divisas foi ao maior nível em vinte dias.

Nos Estados Unidos, o quadro é o mesmo com números piores. O índice de preços ao consumidor subiu 0,4% em agosto e 3,4% em doze meses, segundo o BLS, o escritório de estatísticas do trabalho. A gasolina pagou mais de um terço da alta do mês. O núcleo, a conta que exclui alimentos e energia, subiu 0,3%, um décimo acima do previsto. Na véspera, o índice ao produtor tinha acelerado a 5,4% em doze meses, com o diesel 24,1% mais caro no atacado. O juro do título americano de dez anos foi a 4,96%, o maior em três anos. O Federal Reserve, o banco central americano, está no período de silêncio que antecede a decisão; a última palavra pública dos diretores é de 5 de setembro.

A deflação daqui e o seu prazo de validade

O IPCA de agosto caiu 0,32%, e o acumulado de doze meses desceu a 4,22%, de volta ao teto de tolerância da meta. A queda veio da conta de luz, com o crédito do Bônus de Itaipu devolvido nas faturas, das passagens aéreas e da comida em casa. A gasolina parou de subir por decisão de governo. O decreto 13.116 corta 63 centavos por litro em tributos federais até 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno. O corte custa cerca de 2 bilhões de reais por mês ao Tesouro. O pacote de combustíveis soma 37,5 bilhões de reais em 2026, segundo o levantamento do Diário do Comércio, de Belo Horizonte. Com o crédito de Itaipu fora da conta de setembro e o decreto vencendo depois do voto, a deflação de agosto tem prazo. É fato que os preços caíram; é leitura possível, não fato, que sigam caindo quando as duas travas saírem.

O placar da semana

IPCA de agosto em queda de 0,32%, o acumulado em 4,22%, segundo o IBGE. Inflação americana de 0,4% no mês e 3,4% em doze meses, com núcleo de 0,3%, segundo o BLS. Chance de alta do juro americano na quarta-feira em cerca de 90%, na precificação dos futuros compilada pelo serviço financeiro Yahoo Finance. Chance de corte da Selic para 13,75% em cerca de 95%, nas opções negociadas na bolsa brasileira, segundo a Forbes Brasil. Dólar a 5,12 reais na sexta, com queda de 0,10% na semana. Ibovespa a 187.206 pontos, alta de 1,11% na semana, a quarta semana seguida no azul, segundo o site financeiro InfoMoney. Brent a 104,61 dólares, alta de 8,7% na semana. E o juro do título americano de dez anos a 4,96%, o maior em três anos.

A semana que vem decide os dois lados

O Copom se reúne na terça e na quarta. O boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com analistas, projeta Selic de 13,75% no fim de 2026. A projeção coincide com o corte esperado agora. O Federal Reserve decide na quarta à tarde, com projeções novas dos diretores. Se os dois movimentos vierem, a distância entre o juro brasileiro e o americano encolhe meio ponto numa única semana. Para o câmbio, essa distância é o que remunera quem traz dólar para aplicar aqui; quando ela encolhe, o real perde uma parte da proteção. O Bank of America elevou a recomendação para ações brasileiras, segundo o site Gazeta Mercantil. O banco projeta Selic de 11,25% no fim de 2027, abaixo do consenso. A aposta embutida é que a corrida eleitoral apertada produz ajuste fiscal em 2027, como o COMPASSO registrou na quarta-feira.

Os impactos por aqui

Quem deve, no Brasil, começa a sentir alívio devagar. O corte de 0,25 ponto chega primeiro ao custo das empresas e só depois ao crediário. Quem poupa em renda fixa segue com juro real entre os maiores do mundo, e é quem mais captura renda nesse desenho. O trabalho ganha com a inflação em queda no curto prazo. Mas a trava da gasolina e o crédito de Itaipu são transferências com data para acabar, pagas pelo Tesouro, ou seja, pelo imposto de todos. O capital aplicado em dívida pública captura o juro alto enquanto a distância entre os dois juros encolhe. E a decisão pública fica mais cara: cada mês de trava na gasolina custa 2 bilhões de reais que não vão para outra política. Se o Federal Reserve subir na quarta com o diesel em recorde, o dólar volta a pressionar. Encarece tudo o que o Brasil importa, do trigo ao fertilizante.

Entenda o contexto

Inflação de guerra se combate com juro, e juro é o preço que o banco central cobra para segurar a moeda. A zona do euro e os Estados Unidos estão subindo esse preço porque o petróleo encareceu com a guerra do Golfo. O Brasil faz o caminho inverso. Partiu de um juro muito mais alto, de 14% ao ano, herdado do combate à inflação de 2025. Quem controla a moeda em que a conta mundial é paga, o dólar, exporta o custo do seu aperto para os demais. No jogo do excedente, o juro americano é a variável que nenhum outro país escolhe e todos pagam.

Fontes

BCE, 10/09 (o comunicado da decisão de Berlim, documento primário) · BLS, 11/09 (a inflação americana de agosto, documento primário) · IBGE, 11/09 (o IPCA de agosto, documento primário) · Banco Central, boletim Focus de 08/09 (as projeções do mercado, documento primário) · Handelsblatt, em alemão, 10/09 (a leitura alemã da alta do BCE) · CNBC, 10/09 (a coletiva de Lagarde) · Yahoo Finance, 11/09 (a precificação da alta do Federal Reserve) · Forbes Brasil (as opções de Copom na B3) · InfoMoney, 11/09 (o fechamento da semana na B3) · Diário do Comércio (o custo fiscal das medidas de combustíveis) · Federal Reserve de St. Louis (o período de silêncio antes da decisão, documento primário) · Gazeta Mercantil (a recomendação do Bank of America) · Tagesspiegel, em alemão, 10/09 (a reunião do BCE em Berlim)

A aposta dos futuros para o Federal Reserve na quarta-feira

  • Alta de 25 pontos-base90%
  • Manutenção ou corte10%

Precificação dos futuros de juros americanos após a inflação de agosto, compilada pelo Yahoo Finance, 11/09/2026

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.