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Política monetária · Análise

A deflação chega no dia em que o juro americano ameaça subir

No mesmo dia, o IBGE mediu deflação de 0,32% em agosto e o escritório de estatísticas americano mediu inflação de 0,4%, puxada pela gasolina da guerra. Na semana que vem, o Copom deve cortar a Selic para 13,75% e o Federal Reserve pode subir o juro. As duas maiores economias do continente passam a andar em direções opostas a três semanas do primeiro turno.

Por COMPASSO11 de setembro de 2026atualizado às 19h208 min de leituraTabuleiro: Política monetária

Leituras

  1. A deflação brasileira de agosto é real, mas tem prazo: veio do bônus de Itaipu e dos alimentos, e o decreto que trava a gasolina só vale até um dia depois do primeiro turno.
  2. Nos Estados Unidos, a gasolina encarecida pela guerra pagou mais de um terço da alta do mês, e o mercado passou a dar cerca de 90% de chance de o juro subir na quarta-feira.
  3. Para quem deve no Brasil, o alívio do corte chega devagar; para o câmbio, o que importa é a distância entre os dois juros, e ela deve encolher meio ponto numa única semana.

Atualização, 19h20. O mercado fechou o dia sem comprar a deflação. O dólar mudou de direção no fim do pregão e terminou em alta de 0,44%, a R$ 5,125. O Ibovespa caiu 0,56%, aos 187.206 pontos, e os juros futuros subiram em quase toda a curva, segundo o site financeiro InfoMoney. A leitura dos analistas ouvidos pelo site é a mesma deste texto: o núcleo americano de 0,3% sustenta uma alta do Federal Reserve na quarta-feira. Nos Estados Unidos, o preço médio do diesel bateu o recorde de 6,05 dólares por galão nesta sexta, 60% acima de um ano atrás, segundo a AAA, a associação americana de motoristas, citada pela rede americana CBS. O dado reforça a inflação de energia que o texto descreve e o argumento de quem defende subir o juro americano.

O Brasil e os Estados Unidos mediram a inflação de agosto no mesmo dia, nesta sexta-feira, e os números apontam para lados opostos. Aqui, o IPCA, o índice oficial de preços, caiu 0,32%, a maior deflação em quatro anos, segundo o IBGE. Lá, o índice de preços ao consumidor subiu 0,4% no mês e acumula 3,4% em doze meses, segundo o BLS, o escritório de estatísticas do trabalho dos Estados Unidos. Na semana que vem, os dois bancos centrais decidem juros com esses números na frente. O Copom, o comitê de política monetária do Banco Central, deve cortar. O Federal Reserve, o banco central americano, pode subir.

O que os dois números medem

A deflação brasileira veio de três fontes. A maior foi a conta de luz: a energia elétrica caiu 7,63% com o Bônus de Itaipu, o crédito da usina binacional devolvido aos consumidores nas faturas de agosto. Com isso, o grupo Habitação recuou 1,87%, a queda mais funda desde 1994, segundo a Agência Brasil, a agência estatal de notícias. A segunda fonte foi o transporte: as passagens aéreas caíram 13,17% e a gasolina caiu 0,59%. A terceira foi a comida no domicílio, com quedas fortes de batata, cebola e tomate. No acumulado de doze meses, o índice desceu de 4,44% para 4,22%. Ficou abaixo do teto de 4,5% que o regime de metas tolera, para uma meta central de 3%. O mercado esperava queda menor, de 0,23%, segundo a mediana do boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com analistas.

O número americano conta a história inversa. A gasolina subiu 3,9% no mês e, nas palavras do próprio boletim oficial, respondeu por mais de um terço de toda a alta. É o preço da guerra chegando à bomba: o barril passou dos 100 dólares depois que Washington afundou petroleiros iranianos, como o COMPASSO registrou na quarta-feira. O núcleo do índice, a conta que exclui alimentos e energia para enxergar a tendência, subiu 0,3% no mês, um décimo acima do previsto. Na véspera, o índice de preços ao produtor já tinha acelerado a 5,4% em doze meses, com o diesel 24% mais caro no atacado, como o COMPASSO registrou na quinta-feira.

A deflação daqui carrega ressalvas próprias. O bônus da conta de luz é um crédito de uma vez, que não se repete em setembro. E a gasolina parou de subir por decisão do governo: o decreto que corta impostos federais trava o preço na bomba até 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, como o COMPASSO registrou na quinta-feira. O índice de setembro já nasce com essa trava dentro. É fato que os preços caíram em agosto; é leitura possível, e não fato, que a tendência siga quando o bônus e o decreto saírem da conta.

A semana em que os juros se cruzam

O Copom se reúne na terça e na quarta-feira, 15 e 16. As opções negociadas na B3, a bolsa brasileira, dão 95% de chance de um corte de 0,25 ponto, de 14% para 13,75% ao ano, segundo a revista Forbes Brasil. Seria a quinta redução seguida. O Federal Reserve decide na quarta-feira, 16. Depois do número desta sexta, o mercado de títulos passou a precificar cerca de 90% de chance de alta de 0,25 ponto, com duas altas embutidas nos preços até dezembro, segundo a agência financeira Bloomberg. A taxa americana está hoje entre 3,50% e 3,75%. Na quinta-feira, a chance de alta era de 57%. Kevin Warsh, o presidente do Federal Reserve que assumiu neste ano prometendo prioridade ao controle de preços, chegou a derrubar o dólar no Brasil na estreia. O medo dessa combinação já apareceu na Ásia: a bolsa de Tóquio caiu 1,93% nesta sexta, aos 64.011 pontos, e o jornal financeiro Nikkei, em japonês, chamou de "inflação de Trump" o temor que apagou o entusiasmo com inteligência artificial. O Banco do Japão também decide juros na semana que vem.

Pela regra de ganhos e perdas da casa, a conta se distribui assim. No Brasil, a renda do trabalho ganha poder de compra imediato: o mesmo salário compra mais quando o preço cai. O capital financeiro segue com a maior fatia: uma Selic de 14% com inflação de 4,22% paga um juro real na casa de 9% ao ano a quem empresta ao Estado, um dos maiores do mundo. O Tesouro perde duas vezes, na arrecadação que a desoneração da gasolina apaga e no serviço da dívida que o juro alto mantém. Nos Estados Unidos, a renda migra do consumidor para quem vende energia e para as empresas com escala para repassar preço. E a sociedade só ganha um grau de liberdade quando o preço para de subir por regra; quando ele para por decreto com data marcada, a liberdade dura o prazo do decreto.

Os impactos por aqui

O primeiro efeito é o câmbio. Se o Copom cortar e o Federal Reserve subir, a distância entre os dois juros encolhe meio ponto numa única semana, e é essa distância que segura dólares no país. O dólar rondava R$ 5,07 e a bolsa caía menos de meio por cento na metade do pregão desta sexta, segundo o site financeiro InfoMoney, com os investidores já olhando para as duas decisões. O aviso não é novo: o juro americano vem apertando o câmbio brasileiro desde o dado de emprego de agosto, como o COMPASSO registrou em 4 de setembro. O segundo efeito é o preço à frente: setembro tem a gasolina travada por decreto, e o verão traz o El Niño histórico que ameaça safra e conta de luz, como a série do clima registrou na quinta-feira. O terceiro é político: a deflação vira argumento de campanha no dia em que o presidente abre um giro de comícios, e essa conta está no texto do dia da série Eleição 2026. No jogo do excedente, a pergunta desta dimensão é quem controla o crédito e a moeda em que a conta é paga. Nesta semana, a resposta sai de Brasília e de Washington ao mesmo tempo, e em sentidos opostos.

Entenda o contexto

O Brasil adota o regime de metas de inflação desde 1999: o Conselho Monetário Nacional fixa um alvo, hoje de 3% com tolerância até 4,5%, e o Banco Central usa o juro para perseguir esse alvo. Os Estados Unidos formalizaram a própria meta, de 2%, em 2012. Nas décadas recentes, os dois países quase sempre se moveram na mesma direção: subiram juntos contra a inflação da pandemia, em 2021 e 2022, e depois cortaram. O que separa os caminhos agora é a origem dos preços. A inflação americana de 2026 vem de fora do ciclo econômico: das tarifas de importação que o governo impôs a dezenas de países e do petróleo encarecido pela guerra contra o Irã. Juro não desfaz tarifa nem reabre estreito; encarece o crédito até a demanda ceder. Já a desinflação brasileira combina juro alto por mais de um ano, safra grande, energia devolvida ao consumidor e um câmbio que parou de subir. Quando dois bancos centrais dessa dimensão se movem em sentidos opostos, o dinheiro tende a migrar para onde o juro sobe, e o país que corta precisa de um prêmio maior para segurar o investidor. É esse movimento que o leitor deve acompanhar no dólar nas próximas semanas.

Fontes

IBGE (o release oficial do IPCA de agosto, documento primário) · BLS (o boletim oficial da inflação americana de agosto, documento primário) · Agência Brasil, a agência estatal de notícias (a abertura do índice por grupos) · Forbes Brasil (as opções da B3 e os 95% de chance de corte) · Bloomberg (a reação do mercado de títulos ao número americano) · Metrópoles (os analistas mantendo a aposta de corte) · InfoMoney (o pregão desta sexta-feira) · Nikkei, em japonês (a queda de Tóquio e a expressão "inflação de Trump")

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Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.