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Arquitetura de segurança · Análise

Os houthis tomam a segunda saída do petróleo no dia 196

Os aliados do Irã no Iêmen completaram a tomada de Bab el-Mandeb, o estreito que liga o mar Vermelho ao oceano Índico: depois do porto de Mokha e da cidade de Dhubab, ocuparam a ilha de Perim sem combate. Com Ormuz já fechado pela guerra, as duas saídas marítimas do petróleo do Golfo passam a depender de Teerã e dos seus aliados. No mesmo dia, o BRICS abriu os trabalhos em Nova Délhi com Putin, e a Argélia rompeu com os Emirados.

Por COMPASSO11 de setembro de 2026atualizado em 12 de setembro às 2h5014 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. Com Ormuz fechado e Bab el-Mandeb sob os houthis, as duas saídas do petróleo do Golfo dependem do Irã e dos seus aliados; o custo disso chega ao mundo pelo seguro e pelo frete.
  2. Putin abriu em Nova Délhi a reunião que junta sancionados e compradores duas semanas antes de Xi visitar Washington; o Brasil mandou o chanceler, e a ausência do presidente é decisão de campanha.
  3. A Rússia atacou postos de combustível em Kiev em plena luz do dia, no mesmo dia em que negociava comércio em Délhi; a energia segue sendo a arma que atravessa todas as frentes da semana.

Atualização, 19h20. A Arábia Saudita parou o oleoduto Leste-Oeste, a tubulação que atravessa a península e leva o petróleo do Golfo ao porto de Yanbu, no mar Vermelho. Desde o fechamento de Ormuz, era por ela que saíam cerca de 5 milhões de barris por dia. O Ministério da Energia saudita anunciou a parada como precaução, depois que drones atingiram estações de bombeamento nas regiões de Riad e Medina, com feridos e danos materiais. A chancelaria saudita afirmou que os drones partiram do Iraque, e o governo iraquiano condenou o ataque, segundo a agência de notícias francesa AFP. A rede americana CNN, em árabe, detalhou os alvos do ataque.

O efeito no mapa é direto. Ormuz está fechado pela guerra, Bab el-Mandeb passou nesta sexta ao controle dos houthis e o desvio por terra parou por precaução. As três rotas do petróleo saudita dependem agora de decisões que não se tomam em Riad: de Teerã, dos aliados de Teerã e do alcance dos drones. É a situação que a seção do Golfo descreve, agravada.

O preço andou na direção contrária. O barril de Brent encostou em 110 dólares na madrugada e fechou perto de 106, em queda de 1,4% no dia, segundo a rede americana CBS. O diesel médio americano bateu o recorde de 6,05 dólares por galão, segundo a AAA, a associação americana de motoristas. E Washington passou a fornecer inteligência e dados de alvo aos sauditas, sem atacar diretamente, segundo o site americano Axios, citado pela CBS. A queda do dia embute a aposta de que a navegação em Bab el-Mandeb continua, como os houthis prometem; é uma leitura possível do mercado, não um fato garantido.

Atualização, 02h50. O controle novo do estreito ganhou uma regra explícita na noite de sexta. O porta-voz militar dos houthis, Yahya Saree, declarou a navegação segura "para todas as companhias, exceto os navios sauditas", que o grupo já tinha banido em julho. E prometeu "bloqueio por bloqueio e escalada por escalada" até o fim do que chama de agressão, conforme a agência de notícias americana Associated Press. Na prática, a travessia da segunda saída do petróleo passa a depender da bandeira de cada navio.

Atualização, 02h50. Teerã moveu a diplomacia no mesmo dia. Em nota, a chancelaria iraniana pediu o fim do "bloqueio ilegal e desumano" do Iêmen, o embargo que Riad impõe às áreas sob controle houthi desde a intervenção de 2015. Pediu a volta imediata das negociações entre sauditas e houthis, com base no roteiro já acordado entre as partes, e se ofereceu como mediadora, segundo a rede europeia Euronews, na edição em persa. No mesmo movimento, o chanceler iraniano Abbas Araghchi e o chanceler saudita Faisal bin Farhan trataram da escalada por telefone. O que isso muda na leitura do texto: o campo que fechou Ormuz e ocupou Bab el-Mandeb oferece agora converter o controle das rotas em acordo. O ganho do Irã não é renda, é poder de barganha sobre quem depende da passagem. E a sociedade que vive desse comércio segue com um grau de liberdade a menos: a travessia depende de decisão, não de regra. O que observar: a resposta de Riad à oferta, e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian ao lado de Xi Jinping e Vladimir Putin na cúpula do BRICS, o grupo dos grandes países emergentes, que começa neste sábado em Nova Délhi.

Américas

O fato do dia desta edição é a inflação americana de agosto. A gasolina pagou mais de um terço da alta do mês, e o juro pode subir na quarta-feira: a análise completa está no texto que abre a grade. O resto do dia americano foi de memória e de sanção. O país marcou os 25 anos dos atentados de 11 de setembro de 2001. Houve cerimônias no marco zero de Nova York e na Pensilvânia. Trump falou no Pentágono, e quatro ex-presidentes compareceram aos atos, segundo a NBC News, a rede americana de televisão. O Tesouro anunciou sanções contra comandantes e empresas que abastecem o Hezbollah libanês e o Kataib Hezbollah iraquiano. Os alvos estão no Iraque, no Líbano, na Síria, nos Emirados e na Turquia. O anúncio integra a operação que o governo chama de "pária econômico", lançada em agosto contra a rede do Irã. O escritório de sanções avisou que passa a negar a "vasta maioria" dos pedidos de licença ligados ao país. E o secretário do Tesouro, Scott Bessent, prometeu sancionar "um grande banco" na semana que vem, segundo o jornal israelense Jerusalem Post. No Canadá, o primeiro-ministro Mark Carney anunciou 350 milhões de dólares canadenses em interceptadores de defesa aérea para a Ucrânia, segundo a agência Reuters.

Ásia oriental

A porta-voz da chancelaria chinesa, Mao Ning, detalhou nesta sexta a agenda de Xi Jinping na Índia. A versão do governo chinês foi publicada pela agência estatal Xinhua, em chinês. Xi participa no sábado e no domingo da reunião de cúpula do BRICS, o grupo dos grandes países emergentes, e fará um "discurso importante" sobre a situação internacional. É a primeira ida de Xi à Índia em cerca de sete anos. Ela acontece doze dias antes da visita a Trump em Washington, a reunião que o COMPASSO acompanha desde a semana passada. Em Tóquio, o custo da guerra e do juro americano derrubou a bolsa. O Nikkei 225 caiu 1,93%, aos 64.011 pontos, com as ações de tecnologia na frente da queda. O jornal financeiro Nikkei, em japonês, chamou de "inflação de Trump" o temor que apagou o entusiasmo com a inteligência artificial. O Banco do Japão decide juros na semana que vem, na mesma agenda do Federal Reserve e do Copom.

Sul e Sudeste da Ásia

Nova Délhi virou nesta sexta o centro da semana diplomática. Vladimir Putin desembarcou pela manhã para três dias de visita. Antes mesmo da abertura oficial, reuniu-se por 45 minutos com o primeiro-ministro Narendra Modi no centro de convenções Bharat Mandapam. Na versão do governo russo, publicada pela agência estatal TASS, em russo, os dois trataram do Oriente Médio e do mar Negro, além de comércio e energia. O diário Punjab Kesari, em hindi, listou defesa, energia, espaço e comércio na pauta. O jornal registrou as presenças de Xi, do presidente iraniano Masoud Pezeshkian e do sul-africano Cyril Ramaphosa. Pezeshkian faz a primeira visita de um presidente do Irã à Índia em oito anos, em plena guerra. A Índia recebe todos eles pagando tarifa americana reduzida em troca de não comprar petróleo russo, o compromisso que a cúpula põe à prova. O Brasil está presente pelo chanceler Mauro Vieira. O presidente Lula cancelou a viagem para fazer campanha, e a escolha é analisada no texto do dia da série Eleição 2026.

Golfo e Oriente Médio

No dia 196 da guerra, o mapa mudou no extremo sul da península Arábica. Os houthis, os aliados do Irã no Iêmen, completaram a tomada da costa iemenita do mar Vermelho. Na quinta-feira, entraram no porto de Mokha, que tinham perdido em 2017, e avançaram sobre a cidade costeira de Dhubab. A tentativa de tomada já estava registrada na edição de quinta-feira. Nesta sexta, barcos do grupo chegaram sem combate à ilha de Perim, a rocha que divide o estreito de Bab el-Mandeb em dois canais de navegação. As forças do governo iemenita reconhecido tinham se retirado na véspera. Bab el-Mandeb liga o mar Vermelho, e portanto o canal de Suez, ao oceano Índico. Com Ormuz fechado desde o começo da guerra, era a segunda porta de saída do petróleo da região. A Arábia Saudita respondeu no mesmo dia com ataques aéreos ao aeroporto de Mokha, segundo o jornal americano Washington Times. O príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman telefonou duas vezes a Trump pedindo ataques aos houthis, e Trump recusou, segundo o site americano Axios. Mais de cem conselheiros militares americanos foram enviados à Arábia Saudita, segundo a rede CNN. A mesma Arábia Saudita já tinha sido atacada pelos houthis na segunda-feira, como o COMPASSO registrou na terça-feira. Trump disse nesta sexta que não se arrepende da guerra: se tivesse de decidir de novo, "faria exatamente o que fiz", segundo a agência Reuters. E a Agência Internacional de Energia projetou recorde mundial de queima de carvão neste ano. A guerra, que encareceu petróleo e gás, é parte da explicação.

AS VERSÕES. A queda de Bab el-Mandeb, contada três vezes.

  • Na imprensa ocidental: a rede americana NBC News descreveu um grupo treinado pela Guarda Revolucionária do Irã ganhando o poder de travar o tráfego do mar Vermelho.
  • A versão dos houthis: pela agência Saba, que o grupo controla, a liderança declarou a costa oeste "segura e estável". A garantia de que "a navegação internacional está segura" foi reproduzida pelo pan-árabe Al-Quds Al-Arabi, em árabe.
  • Na imprensa local independente: o site iemenita Yemen Monitor, em árabe, contou a mesma sexta-feira como uma retirada. As forças do governo "se reposicionam" para o sul, e a cidade trocou de mãos sem resistência.

Europa e o espaço pós-soviético

A Rússia levou a guerra do combustível para dentro de Kiev em plena luz do dia. Drones atingiram nesta sexta dois postos da rede estatal Ukrnafta, nos distritos de Obolon e Desnianskyi. Houve um segundo ataque sobre o mesmo alvo minutos depois do primeiro, a tática que mira as equipes de resgate. Duas pessoas morreram e oito ficaram feridas, entre elas um socorrista, segundo o site Ukrainska Pravda, em ucraniano. O presidente Volodymyr Zelensky disse que a Rússia "bate de propósito nos postos de combustível", segundo o site Gazeta.ua, em ucraniano. Na madrugada anterior, 66 drones tinham atacado o país, segundo o site ucraniano em inglês Kyiv Independent. Um prédio residencial de nove andares pegou fogo em Kiev. O padrão é o registrado desde a saída dos enviados americanos. A Rússia recusou a trégua aérea e elegeu a infraestrutura de energia como alvo, como o COMPASSO registrou na terça-feira. Do outro lado da fronteira, drones ucranianos mataram duas pessoas na região russa de Tula e uma em Belgorod, segundo a agência Reuters. Tudo isso no dia em que Putin negociava comércio em Délhi. Em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, faz na quarta-feira o discurso anual do Estado da União.

África

A Argélia rompeu relações diplomáticas com os Emirados Árabes Unidos: o embaixador emiradense foi notificado na quinta-feira e recebeu 48 horas para deixar o país com toda a equipe. O site TSA, o portal argelino independente, em francês, listou as acusações acumuladas de Argel: ingerência no Mali, na Líbia e no Sudão, e a normalização dos Emirados com Israel. O portal lembrou a frase do presidente Abdelmadjid Tebboune sobre os emiradenses: "onde põem o pé, o sangue corre". Na Nigéria, o petróleo virou oferta pública. A refinaria Dangote, a maior da África, abre na segunda-feira a subscrição da sua abertura de capital na bolsa de Lagos. São 4,1 bilhões de ações, somando cerca de 1,63 bilhão de dólares, segundo a CNBC Africa, a filial africana da rede americana de notícias de negócios. O plano é dobrar a capacidade para 1,4 milhão de barris por dia. No Mali, Bamako segue racionando combustível sob o bloqueio do braço da Al-Qaeda no Sahel, a situação que o COMPASSO descreveu na quinta-feira. E na Líbia, drones atacaram a refinaria de Zawiya, a maior em operação no país, segundo a publicação especializada Africa Confidential.

Os impactos por aqui

As duas saídas do petróleo do Golfo passam a depender de um mesmo campo. Isso encarece frete, seguro e diesel no mundo inteiro, e o Brasil importa diesel. A conta chega primeiro ao transporte e ao fertilizante do agro. O consumidor daqui só não a vê na bomba porque um decreto trava a gasolina até um dia depois do primeiro turno, como o COMPASSO registrou na quinta-feira. Se o juro americano subir na quarta-feira pelo petróleo da guerra, o câmbio pressiona o real na mesma semana em que o Copom corta a Selic. Essa disputa está no texto do dia. No BRICS, o Brasil senta como fundador, mas sem o presidente, na reunião em que Índia, China e Rússia discutem comércio em moeda local. No jogo do excedente, quem controla uma rota decide quem passa e a que preço. Nesta sexta, a segunda rota do petróleo trocou de controlador sem um único tiro.

Entenda a região

Bab el-Mandeb, em árabe, significa "porta das lamentações", nome dado pelos marinheiros aos recifes e correntes da passagem. O estreito separa o Iêmen, na Ásia, do Djibuti e da Eritreia, na África. É a única ligação entre o canal de Suez e o oceano Índico. A ilha de Perim, no meio da passagem, divide o tráfego em dois canais e comanda a navegação dos dois lados. O Império Britânico a ocupou em 1857 para proteger a rota da Índia. A abertura de Suez, em 1869, multiplicou o valor do lugar. Em 1973, na guerra árabe-israelense de outubro, o Egito usou o estreito para bloquear a navegação com destino a Israel. A passagem entrou de vez no cálculo militar do petróleo. Entre 2023 e 2024, os próprios houthis mostraram o alcance dessa geografia. Atacando navios a partir da costa, forçaram as grandes armadoras a desviar do mar Vermelho. O caminho alternativo contorna a África pelo cabo da Boa Esperança e soma cerca de dez dias a cada viagem entre a Ásia e a Europa. A diferença de 2026 é física. O grupo não precisa mais alcançar a rota com mísseis, porque ocupa as duas margens iemenitas e a ilha do meio. E o campo que fechou Ormuz em fevereiro passa a decidir também sobre a porta de Suez.

Fontes

Tesouro dos Estados Unidos (o anúncio oficial das sanções contra a rede do Hezbollah, documento primário) · Xinhua, em chinês (a versão do governo chinês: a agenda de Xi na Índia) · TASS, em russo (a versão do governo russo: a pauta da reunião Putin-Modi) · Punjab Kesari, em hindi (a reunião Putin-Modi vista da Índia) · Nikkei, em japonês (a queda de Tóquio e a "inflação de Trump") · Euronews (a tomada de Perim e o controle do estreito) · CNBC, a rede americana de notícias de negócios (a queda de Mokha e o risco ao petróleo) · Washington Times (os ataques sauditas ao aeroporto de Mokha) · Al-Quds Al-Arabi, em árabe (a versão dos houthis sobre a navegação) · Yemen Monitor, em árabe (a retirada das forças do governo iemenita) · Jerusalem Post (as sanções e a promessa de Bessent sobre um grande banco) · Ukrainska Pravda, em ucraniano (o ataque aos postos de combustível de Kiev) · Gazeta.ua, em ucraniano (a fala de Zelensky sobre os postos) · Kyiv Independent (o ataque da madrugada) · TSA, em francês (as razões da ruptura entre Argélia e Emirados) · CNBC Africa (a abertura de capital da refinaria Dangote)

Os outros textos do dia: A deflação chega no dia em que o juro americano ameaça subir · Eleição 2026: Lula troca o BRICS pelo Sul onde Flávio lidera.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.