Comércio global · Análise
Warsh estreia, o dólar volta a 5,20 e a campanha entra no ar
O primeiro discurso do novo presidente do Fed admitiu que pode ser preciso subir juros, e o dólar passou dos 5,20 reais antes do almoço, com o Ibovespa devolvendo a alta da manhã. No mesmo dia, o ministério do Trabalho apresentou o Caged de julho e a propaganda eleitoral gratuita estreou no rádio e na TV. A economia que o eleitor vai julgar começou a ser disputada hoje, em dois idiomas: o do emprego recorde e o do juro americano.
Leituras
- O primeiro discurso do novo presidente do Fed fez em uma manhã o que nenhuma peça da negociação comercial fez em um mês: devolveu o dólar aos 5,20 reais e mostrou por onde a economia brasileira é cobrável sem que Washington gaste um único ato formal.
- A doutrina anunciada em Jackson Hole, menos sinalização e mais surpresa, é em si uma má notícia para país emergente: um Fed que se recusa a telegrafar os próprios passos exporta volatilidade, e volatilidade se paga em prêmio de risco no câmbio e no juro longo.
- A propaganda eleitoral estreia com os dois retratos verdadeiros na mesa: o pleno emprego e a deflação de um lado, o dólar subindo e o juro alto do outro, e os próximos 34 dias de rádio e TV vão disputar qual deles o eleitor leva à urna em 4 de outubro.
Às 11 da manhã de Brasília, o novo presidente do Federal Reserve, o banco central americano, subiu ao púlpito de Jackson Hole, no estado de Wyoming, para o discurso mais aguardado do ano. Kevin Warsh disse estar impressionado com a força da economia americana, mas avisou que a inflação segue alta demais e que o banco pode ter que subir os juros nos próximos meses para derrubá-la, pela PBS. Antes que ele terminasse, o recado já estava no preço da tela brasileira.
O recado de Wyoming
O discurso, publicado na íntegra pelo próprio Fed, traz os números que sustentam o aviso: a inflação medida pelo índice de gastos de consumo, o PCE, roda a 3,7% em 12 meses e a 4,1% na janela de seis meses, bem acima da meta de 2%, e a responsabilidade por 65 meses seguidos de inflação elevada, disse Warsh, está inteira com o banco central. A taxa básica americana está parada na faixa de 3,50% a 3,75% desde que ele assumiu, em maio. Tão importante quanto o aviso foi o método: Warsh recusou-se a oferecer a chamada orientação futura, a prática de telegrafar os próximos passos do banco, e disse que o mercado não deve viver de procurar no Fed a próxima operação, pela Bloomberg. Menos previsibilidade, na prática, é mais volatilidade exportada para todo o mundo que se financia em dólar.
O preço na tela
A reação foi imediata. O dólar à vista, que abrira o dia perto da estabilidade, acelerou depois da fala e operava a 5,209 reais às 12h29, em alta de 0,90%, com o contrato futuro de setembro a 5,195 reais na B3, pelo Jornal de Brasília. O Ibovespa fez o caminho inverso: subiu 0,73% na máxima da manhã e passou a cair 0,41%, aos 174.417 pontos, depois do discurso, pelo mesmo registro, com o acompanhamento em tempo real do InfoMoney. É o segundo dia seguido em que o vetor que move o preço brasileiro é americano e monetário: na quinta foi o dado de inflação acima do esperado, nesta sexta foi a voz do próprio banco central.
A folha cheia e a vitrine apagada
Do lado brasileiro, o dia era de colheita: às 14h30, o ministro do Trabalho em exercício, Chico Macena, apresentou em Brasília o Caged de julho, o cadastro que mede a criação de empregos com carteira, conforme a agenda divulgada pelo calendário oficial do ministério. O mercado esperava a criação de cerca de 115 mil vagas formais no mês, depois das 145,1 mil de junho, pela Nova Futura, completando o retrato que a PNAD do IBGE entregou na véspera, com desemprego de 5,3%, o menor da série histórica para o trimestre, pela Exame. O detalhe do dia é que a vitrine oficial ficou apagada: a nota do governo sobre o Caged saiu do ar em respeito à legislação eleitoral, como avisa a própria página da Agência Gov. É que a campanha começou, e com ela as restrições à publicidade institucional: a propaganda eleitoral gratuita estreou nesta sexta no rádio e na TV, e vai até 1º de outubro, pelo Tribunal Superior Eleitoral. O melhor dado de emprego da série chega, portanto, no primeiro dia em que o governo não pode alardeá-lo por conta própria, e terá que fazê-lo pela voz da campanha, no tempo de bloco que a lei lhe dá.
Onde você está nesse lance
Se você tem contas em dólar, viagem marcada ou insumo importado, o recado de Wyoming chegou ao seu preço antes de chegar ao noticiário da noite: câmbio acima de 5,20 reais encarece o importado e realimenta a inflação doméstica pelo canal mais rápido que existe. Se você deve no crédito, a consequência é de prazo: um Fed disposto a subir juros segura o juro brasileiro alto por mais tempo, porque cortar a Selic com o dólar pressionado é luxo que o Banco Central historicamente não se permite, e o Copom decide nos dias 15 e 16 de setembro, um dia antes de o próprio Fed se reunir. E se a sua renda vem do trabalho, o pleno emprego segue sendo a sua melhor notícia do ano: folha cheia é poder de barganha, e nenhum discurso em Wyoming muda isso no curto prazo.
Entenda o jogo
A cena desta sexta é a mais antiga da economia brasileira: a política monetária americana como restrição externa. Cada ciclo de aperto do Fed, dos anos 1980 em diante, chegou ao Brasil pelo mesmo encanamento, dólar mais caro, capital mais arisco, juro doméstico obrigado a acompanhar, e cada governo brasileiro aprendeu que parte do seu destino se decide em salas onde o Brasil não tem cadeira. A novidade do ciclo atual é a coincidência de calendários: a restrição externa aperta exatamente quando o país entra na quadra eleitoral, e o mesmo eleitor que vive o melhor mercado de trabalho da série histórica vai decidir seu voto sob um câmbio e um juro que não dependem de nenhum candidato. A disputa de outubro será, também, uma disputa sobre qual desses dois fatos conta a história verdadeira.
Fontes
Federal Reserve, íntegra do discurso, o jogador falando (os números da inflação e a doutrina) · PBS, 28/08, imprensa pública americana (o aviso de alta de juros) · Bloomberg, 28/08 (a recusa da orientação futura) · Jornal de Brasília, 28/08 (dólar e Ibovespa após o discurso) · InfoMoney, 28/08 (o acompanhamento do câmbio) · Nova Futura, 28/08 (a expectativa para o Caged) · Ponta Porã Informa (a apresentação do Caged pelo ministro em exercício) · Exame, 27/08 (a PNAD e o menor desemprego da série) · Tribunal Superior Eleitoral (a estreia da propaganda gratuita)
Os outros lances do dia: Potências · Global · Economia Política das IAs · O placar de hoje da série A hipótese Brasil.
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