Energia · Análise
Clima: a chance de um El Niño histórico sobe a 75%
Primeiro texto da série Crise Climática, que mapeia os avanços da crise ambiental e o que dizem os cientistas. O boletim da NOAA desta quinta-feira elevou de 69% para 75% a chance de o El Niño superar, entre outubro e dezembro, todos os eventos medidos desde 1950. O oceano já opera em recorde: 21,11 °C de temperatura média da superfície em agosto, o maior valor da série, e agosto empatou com julho de 2023 como o mês mais quente já registrado.
Leituras
- A NOAA elevou de 69% para 75% a chance de um El Niño mais forte que qualquer um medido desde 1950; para quem planeja safra, energia e cidade, o cenário extremo virou o central.
- O oceano já opera em recorde: a superfície do mar bateu 21,11 °C em agosto, e agosto empatou com julho de 2023 como o mês mais quente já registrado no planeta.
- Para o Brasil, o padrão esperado é seca e fogo no centro-norte e chuva em excesso no Sul; o efeito chega à conta de luz, à safra e ao preço antes do verão.
Este é o primeiro texto da série Crise Climática. A série mapeia, de forma acumulada, os avanços da crise ambiental e o que dizem os cientistas sobre cada dado novo. Ela não faz a pergunta de quem ganha e quem perde: registra o que está medido. Sai quando houver dado ou pronunciamento científico novo, e sempre aos sábados, com a consolidação da semana.
O dado novo: 75% de chance de um evento sem precedente
A NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, publicou nesta quinta-feira o seu diagnóstico mensal do El Niño. O fenômeno é o aquecimento anormal do Pacífico equatorial, que mexe com o regime de chuvas de boa parte do planeta. O documento mantém o alerta formal em vigor. Para agosto, ele mede anomalia de +1,8 °C na região chamada Niño 3.4, a faixa central do Pacífico usada como referência. Anomalia é a diferença contra a média histórica do próprio mês. Pelo critério da agência, um evento é forte a partir de +1,5 °C e muito forte a partir de +2,0 °C. O boletim vê mais de 90% de chance de um evento muito forte no outono e inverno do hemisfério norte. Essas estações correspondem ao fim do ano por aqui. E eleva para 75% a probabilidade de um evento histórico entre outubro e dezembro. Seria anomalia de +2,5 °C ou mais, acima de tudo o que foi medido desde 1950. No boletim de agosto, essa probabilidade era de 69%. A próxima atualização sai em 8 de outubro.
O oceano ao redor confirma a direção. O serviço europeu Copernicus registrou em 22 de agosto a maior temperatura diária da superfície do mar da sua série: 21,1 °C. É a média global entre as latitudes 60 Sul e 60 Norte, e superou o recorde de março de 2024. Dois dias depois, o valor subiu de novo, para 21,11 °C. No fechamento do mês, a média de agosto ficou em 21,07 °C, a maior já medida para qualquer mês. O ar acompanhou. Agosto de 2026 ficou 0,85 °C acima da média de 1991 a 2020 e 1,65 °C acima do nível pré-industrial. O mês empatou com julho de 2023 como o mais quente de toda a série do Copernicus. No fim de junho, 82% do oceano global estava em onda de calor marinha, segundo o boletim semestral do Copernicus Marine. É o segundo maior valor já observado, atrás dos 83% de 2024.
O que dizem os cientistas
Michelle L'Heureux é cientista física do Centro de Previsão Climática da NOAA e chefia a equipe que monitora o fenômeno. Ela resumiu a mudança de patamar: "nossa equipe está mais confiante na possibilidade de um El Niño muito forte até o fim deste ano". E acrescentou a ressalva de método: "mesmo que este seja um El Niño histórico, haverá lugares com impactos que não seguem o padrão esperado". Por isso, diz ela, as previsões sazonais são expressas em probabilidades. Samantha Burgess é a líder estratégica de clima do ECMWF, o centro europeu de previsão do tempo que opera o Copernicus. Ela ligou o recorde do oceano às duas causas: "este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob estresse crescente". E completou: "o El Niño acrescenta calor ao sistema, mas o faz por cima de décadas de aquecimento causado pelo homem". Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, a Organização Meteorológica Mundial, tratou o evento como caso de preparação civil: "este El Niño excepcional exige preparação e resposta excepcionais". Segundo ela, a organização nunca lançou, em 50 anos, mobilização deste tamanho. No Brasil, Renato Sena, meteorologista e pesquisador do Inpa, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, explicou o mecanismo que seca a floresta. Com o Pacífico aquecido, "as nuvens não conseguem se desenvolver" sobre parte da Amazônia. E, com o solo seco, "qualquer pequena fagulha traz uma possibilidade muito alta de a gente perder o controle das queimadas".
A leitura acumulada: os sinais do clima
Como este é o texto de abertura, a série fixa aqui a sua base de comparação. São cinco sinais, cada um com a fonte que o mede:
- Niño 3.4: anomalia de +1,8 °C em agosto (NOAA); evento muito forte começa em +2,0 °C.
- Superfície do mar, média global 60 Sul a 60 Norte: recorde diário de 21,11 °C em 24 e 25 de agosto; média de agosto de 21,07 °C, a maior de qualquer mês (Copernicus).
- Temperatura global de agosto: +0,85 °C sobre 1991-2020 e +1,65 °C sobre o pré-industrial; mês mais quente da série, empatado com julho de 2023 (Copernicus).
- CO2 em Mauna Loa: 427,55 partes por milhão em agosto, 2,07 acima de agosto de 2025 (NOAA, dado preliminar).
- Gelo marinho: Ártico com 5,56 milhões de km² em agosto, a sétima menor extensão da era dos satélites; Antártida 1,26 milhão de km² abaixo da média de 1981 a 2010 (NSIDC, o centro americano de dados de neve e gelo).
A leitura conjunta é de um El Niño forte se formando sobre um oceano que já estava em recorde sem ele. É essa sobreposição, e não o fenômeno isolado, que os cientistas apontam como novidade. O boletim do Copernicus nota que condições fortes de El Niño se formaram em 2023 e de novo em 2026. E projeta que 2026 pode terminar como o ano mais quente já registrado. O comitê peruano ENFEN, que monitora o fenômeno na costa onde ele nasce, mantém o próprio alerta. Ele vê probabilidade de 62% ou mais de magnitude extraordinária na costa do Peru até janeiro. O governo peruano já declarou emergência preventiva em 893 distritos.
Os impactos por aqui
O governo federal mantém desde junho um painel de monitoramento do El Niño. Ele reúne o INMET, o instituto de meteorologia, o INPE, o instituto de pesquisas espaciais, e o Cemaden, o centro de alertas de desastres, com os órgãos de água e energia. O segundo boletim do painel dá 100% de probabilidade de o fenômeno durar até o início de 2027. O padrão esperado: chuva abaixo da média no centro-norte, chuva acima da média no Sul, mais ondas de calor e mais risco de fogo. A hidrologia já mostra o desenho. A previsão de chuva de setembro está em 253% da média histórica no Sul e em 49% no Norte. O dado é do boletim do ONS, o operador do sistema elétrico, compilado pelo site especializado Cenário Energia. Para a conta de luz, isso significa hidrelétricas do Norte mais vazias na estação seca. E a seca chega justamente quando os data centers e a eletrificação puxam a demanda, como o COMPASSO registrou em 26 de agosto. Para a safra, o risco se divide: seca no arco Norte-Nordeste e excesso de chuva no Sul. O aperto vem no ano em que o agro já perdeu o acesso europeu à carne, como o COMPASSO registrou em 3 de setembro. E para o preço, o El Niño chega por cima de uma inflação que já carrega o petróleo da guerra, registrado na quarta-feira. A conta encontra a reta final da eleição que a série da casa acompanha dia a dia. Há um dado a favor. Os alertas de desmatamento na Amazônia somaram 2.874 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de cerca de 36%. É o menor acumulado da série do DETER, o sistema de alertas do INPE. Menos floresta derrubada é menos material para o fogo que o El Niño favorece. Ainda assim, o país registrou 29.618 focos de queimada até 12 de agosto, segundo o programa Queimadas do INPE, compilado pelo jornal Diário do Pará.
O que observar
As próximas datas da medição estão marcadas. O mínimo anual do gelo ártico costuma ser anunciado pelo NSIDC na segunda quinzena de setembro. O boletim mensal do Copernicus sobre setembro sai na primeira semana de outubro, junto com o CO2 do mês em Mauna Loa. O próximo diagnóstico do El Niño da NOAA sai em 8 de outubro, com a atualização peruana do ENFEN no mesmo período. No Brasil, os próximos passos são o boletim do painel do governo e os dados de queimadas do trimestre seco. A série volta no sábado, com a consolidação da semana.
Fontes
NOAA, Centro de Previsão Climática (o diagnóstico mensal do El Niño, documento primário) · Copernicus (o recorde diário do oceano, com a fala de Samantha Burgess, documento primário) · Copernicus (o boletim de temperatura de agosto, documento primário) · Copernicus Marine (as ondas de calor marinhas do primeiro semestre, documento primário) · NOAA, laboratório de Mauna Loa (o CO2 mensal, documento primário) · NSIDC (o gelo marinho dos dois polos, documento primário) · OMM (o comunicado com as falas de Celeste Saulo e António Guterres) · ABC News (as falas de Michelle L'Heureux) · ENFEN, em espanhol (o comunicado oficial do comitê peruano, documento primário) · Painel El Niño do governo federal (o segundo boletim, documento primário) · Revista Cenarium (a fala de Renato Sena, do Inpa) · O Eco (os alertas do DETER compilados)
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