Arquitetura de segurança · Análise
A semana em que a guerra fechou as duas saídas do petróleo
O movimento da semana em Segurança: oito petroleiros iranianos destruídos, os houthis no controle de Bab el-Mandeb, o oleoduto saudita parado e o Brent fechando a 104,61 dólares, com alta de 8,7% na semana. A travessia do petróleo do Golfo passou a depender de decisão militar nas três rotas. A diplomacia marcou hora e adiou: a reunião de Omã, prevista para segunda-feira, foi adiada na noite de domingo, sem data nova.
Leituras
- Com Ormuz estrangulado, Bab el-Mandeb sob os houthis e o oleoduto saudita parado, as três rotas do petróleo do Golfo dependem de decisão militar, e essa dependência cobra preço de todo importador.
- A renda da escassez concentra: dono de recurso fora da zona de guerra, de navio e de refino captura o que o consumidor de combustível perde aos poucos no tanque e no frete.
- É fato que a reunião de Omã na segunda-feira derrubou o barril na sexta; é leitura possível, não fato, que Teerã queira converter o controle das rotas em acordo antes de perder navios demais.
Atualização, 19h25. O Irã e Omã fecharam um entendimento sobre a rota dos navios no estreito de Ormuz, para ser anunciado na reunião de segunda-feira em Omã. O desenho prevê entrada no Golfo por águas iranianas e saída por águas omanenses, e não reabre o estreito por si só. Segundo a Tasnim, a agência iraniana ligada à Guarda Revolucionária, citada pelo Al-Monitor, o site americano especializado em Oriente Médio, a reabertura depende de três condições. São elas: fim do bloqueio americano aos portos iranianos, indenização pelos danos de guerra e retirada de sanções. O Eghtesad Online, site econômico iraniano, em persa, detalhou o traçado como um esquema temporário de separação de tráfego.
Na cúpula do BRICS, o grupo dos grandes países emergentes, os líderes aprovaram por unanimidade a Declaração de Nova Délhi, documento primário do governo indiano. O texto pede contenção, registra preocupação com ataques deliberados a infraestrutura civil e a instalações nucleares e rejeita sanções unilaterais, sem nomear país algum. O presidente iraniano Masoud Pezeshkian assinou ao lado de sauditas e emiradenses, segundo o The Wire, site indiano de notícias. À noite, no horário local, a agência estatal iraniana IRNA registrou duas explosões vindas do mar na ilha de Qeshm, dentro do estreito. Antes, um ataque houthi feriu duas pessoas e danificou uma mesquita na região saudita de Jazan, pelo registro do The Times of Israel, o jornal israelense em inglês.
Para a leitura do texto, a reunião de segunda ganhou um objeto concreto: existe um desenho de rota pronto, e falta a decisão política que o ative. Se o desenho valer, a travessia volta como concessão do Estado iraniano, e o controle da rota, que era regra comum, vira renda política de Teerã. O teste do preço vem na reabertura dos mercados, na noite deste domingo.
Atualização, 02h50. Um dirigente iraniano de alto escalão afirmou, na noite de sábado, que a reunião de segunda-feira em Mascate não deve produzir acordo assinado sobre o estreito. Segundo o Al-Monitor, o site americano especializado em Oriente Médio, o encontro partiu de um convite de Omã e tratará também de outros temas da região. O mesmo dirigente expôs o ponto que trava a assinatura: o Irã quer cobrar dos navios uma taxa pelo uso do estreito, e Omã rejeita a cobrança. Horas depois, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian repetiu que o Irã não vai se render.
Atualização, 02h50. A madrugada anterior à reunião registrou novos ataques, no registro do The Times of Israel, o jornal israelense em inglês. Às 22h12 de sábado, no horário de Brasília, um navio que cruzava o estreito foi atingido por um projétil, segundo o UKMTO, o serviço da Marinha britânica que acompanha a navegação mercante. Às 01h58 deste domingo, a mídia estatal iraniana informou um navio comercial do Irã atingido perto da costa sul do país, com um morto e três feridos. Os houthis, cujo controle de Bab el-Mandeb o COMPASSO registrou em 11 de setembro, reivindicaram um ataque com drones e mísseis à base militar de Sharurah, no sul da Arábia Saudita.
Atualização, 02h50. Para a leitura do texto, a disputa da reunião ficou mais nítida: o desenho da rota existe, e o que está aberto é quem decide e quem cobra pela travessia. Se a taxa iraniana passar, a renda de escassez da rota vira receita permanente do Estado iraniano, paga por todo importador no preço do frete. Se a posição de Omã prevalecer, a passagem volta a depender de uma regra comum, e a sociedade recupera um grau de liberdade que a guerra tirou. Até a decisão, os ataques da madrugada mantêm o risco alto para navios dentro e fora do estreito.
Atualização, 02h55. A reunião de Salalah foi adiada, sem data nova. O anúncio veio na noite de domingo, na rede X, do chanceler de Omã, Badr Albusaidi: “no interesse do consenso, a reunião regional marcada para amanhã em Salalah foi adiada”. O registro é do Al-Araby Al-Jadeed, o jornal panárabe editado em Londres, em árabe. O adiamento foi decidido por Omã e pelo Irã a pedido de países da região, segundo a agência de notícias americana AP. Na véspera, o Bahrein tinha anunciado que não participaria de reunião coletiva com o Irã antes de restabelecer relações diplomáticas. O comunicado bahreinita cita o ataque ao oleoduto saudita e a um tanque de amônia no próprio Bahrein, e pede a travessia de Ormuz “sem discriminação, taxas ou licenças”, segundo o Business Recorder, o jornal financeiro paquistanês. A Arábia Saudita apresentou emendas ao desenho de rota de Irã e Omã, por temer efeitos duradouros sobre os demais países do Golfo, segundo a mesma AP.
Atualização, 02h55. O teste do preço marcado para a reabertura dos mercados veio com resposta. O Brent, o barril de referência internacional, foi à casa dos 108 dólares na abertura asiática, o maior nível em quatro meses. Na madrugada desta segunda, rodava a 106,90 dólares, alta de 2,2%, segundo o Trading Economics, o serviço de dados de mercados. O Iraque reabriu no domingo as passagens de fronteira com o Irã, fechadas depois do ataque de drones ao oleoduto, segundo a AP.
Atualização, 02h55. Para a leitura do texto, o adiamento mantém a travessia onde a semana a deixou: dependente de decisão militar, sem regra comum e sem a taxa que Teerã queria cobrar. A renda da escassez segue com o dono de recurso fora da zona de guerra e com quem controla navio, seguro e refino, e todo importador segue pagando no frete. Com o fato novo, corrigimos a linha fina e o trecho que davam a reunião como marcada para esta segunda-feira.

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã chegou ao dia 197 neste sábado com um resultado que nenhuma semana anterior tinha produzido. As duas saídas marítimas do petróleo do Golfo passaram a depender de decisão militar. O estreito de Ormuz opera sob bloqueio americano e fogo iraniano desde fevereiro. E Bab el-Mandeb terminou a sexta-feira sob controle dos houthis, o grupo iemenita aliado de Teerã. É a passagem que liga o mar Vermelho ao oceano Índico.
A terceira rota também parou. A Arábia Saudita suspendeu na quinta-feira o oleoduto Leste-Oeste, a tubulação de 1.200 quilômetros que leva a produção ao porto de Yanbu, no mar Vermelho. A parada veio depois de drones vindos do Iraque atingirem duas estações de bombeamento. O comunicado do Ministério da Energia saudita, reproduzido pela CNBC, a rede americana de notícias de negócios, fala em precaução. O barril de Brent, a referência internacional, fechou a semana com alta de 8,7%, a maior desde julho.
De três petroleiros a oito, em quatro dias
A semana começou com a caça ao navio que o fim de semana anterior tinha inaugurado, como o COMPASSO registrou em 7 de setembro. No sábado, dia 5, o CENTCOM, o comando militar americano para o Oriente Médio, destruiu três petroleiros da Guarda Revolucionária iraniana. Na noite de terça-feira, mais cinco. Kaviz, Charminar, Horizon 1 e Riesco foram atingidos no Golfo de Omã. O Derya foi atingido perto da ilha de Kharg, o principal terminal de exportação do Irã. O comunicado oficial descreve os navios como parte de uma rede bilionária que financia a Guarda Revolucionária. O mesmo texto afirma que as tripulações receberam ordem de abandono antes dos disparos.
A resposta iraniana veio na mesma madrugada, como o COMPASSO registrou na quarta-feira. Dez navios comerciais foram atacados perto de Ormuz. Vinte mísseis balísticos partiram contra a base aérea de Al-Azraq, na Jordânia, que abriga caças americanos; dezoito foram interceptados. Na quarta-feira, o barril rompeu os 100 dólares pela primeira vez em seis semanas. Os houthis alargaram o mapa: atacaram cidades do sul saudita na terça, como o COMPASSO registrou no dia 8, e partiram para a costa do Iêmen no fim da semana.
A segunda saída cai sem combate
Na quinta-feira, os houthis tomaram Mokha, o porto iemenita que vigia Bab el-Mandeb. Na sexta, ocuparam a cidade de Dhubab e a ilha de Mayun, também chamada de Perim, no meio do estreito. Não houve combate: as forças do governo iemenita haviam se retirado, segundo a agência de notícias americana AP. O porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, declarou a navegação segura para todas as companhias, exceto os navios sauditas. A travessia da segunda saída do petróleo passou a depender da bandeira de cada navio, como o COMPASSO registrou na sexta-feira.
A queda importa por um número da EIA, a agência americana de informação de energia. O fluxo de petróleo por Ormuz caiu de 21,6 milhões de barris por dia no fim de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre deste ano. No mesmo período, Bab el-Mandeb subiu de 5,4 para 8,1 milhões: era a rota de desvio. Com o oleoduto saudita parado, as três alternativas dependem de Teerã, dos aliados de Teerã ou do alcance dos drones. O Iraque reagiu ao ataque partido do seu território. Fechou a fronteira de Shalamcheh com o Irã e demitiu o comandante militar da província de Maysan, segundo a rede Al Jazeera.
Quem captura a renda dessa escassez segue sendo o dono de recurso fora da zona de guerra. Cada barril do pré-sal, do xisto americano ou do mar do Norte vale mais sem custar mais. O capital que controla a rota vem em seguida. O frete dos grandes petroleiros entre o Oriente Médio e a China bateu o recorde de cerca de 800 mil dólares por dia, segundo a agência financeira Bloomberg. O seguro de guerra cobra de 7,5% a 10% do valor do casco, contra 0,25% antes da guerra, pelo levantamento da corretora Marsh. O trabalho paga duas vezes: no salário corroído pelo combustível e, no limite, com a vida. A Organização Marítima Internacional, a agência da ONU para a navegação, contava 70 ataques verificados e 19 marinheiros mortos em seis meses até o fim de agosto. O ganho é concentrado em poucos donos de recurso, de navio e de refino. A perda é difusa, no tanque e no frete de todo o resto. E a sociedade que vive desse comércio segue com um grau de liberdade a menos: a travessia depende de decisão, não de regra.
O placar da semana
Oito petroleiros iranianos destruídos, três no sábado e cinco na terça, segundo os comunicados do CENTCOM. Treze navios por dia cruzando Ormuz na média de setembro, contra cerca de 130 antes da guerra. O dado é da Kpler, a empresa de dados de navegação, citado pela Al Jazeera. O Brent fechou a sexta a 104,61 dólares, depois de tocar 109,97 durante o dia. A alta foi de 8,7% na semana e de 70% no ano, segundo o serviço da Bloomberg reproduzido pelo site especializado Rigzone. A edição de sexta desta grade registrou o número preliminar de 106; o consolidado é este. O WTI, a referência americana, fechou a 100,05 dólares. O diesel americano bateu o recorde de 6,05 dólares por galão, a medida de 3,8 litros. O número é da AAA, a associação americana de motoristas. E a produção saudita de agosto caiu a 6,238 milhões de barris por dia, o menor nível desde 1990. O reino reportou o dado à OPEP, a organização dos países exportadores de petróleo, segundo a Bloomberg.
A diplomacia marcou hora para segunda-feira e adiou
O anúncio que derrubou o barril na sexta foi diplomático. Os chanceleres do CCG, o conselho que reúne as seis monarquias do Golfo, encontrariam o Irã e o Iraque na segunda-feira, dia 14, em Salalah, em Omã, sobre a navegação em Ormuz, segundo a Al Jazeera. O encontro foi adiado na noite de domingo, como registra a atualização no alto deste texto. Teerã chegou a oferecer mediação entre sauditas e houthis. Neste sábado, o presidente americano Donald Trump previu, em Dublin, que a guerra deve terminar logo depois das eleições legislativas americanas de novembro. "Acho que o fim da guerra provavelmente será logo após as eleições de meio de mandato", disse, no registro da Al Jazeera em árabe. O mesmo registro anota a acusação, sem prova apresentada, de que o Irã estaria por trás do ataque ao oleoduto saudita.
A versão do governo iraniano aponta na direção contrária. O estreito estaria sob pleno controle das Forças Armadas do país, e as ações seriam legítima defesa. A posição consta dos registros da chancelaria reproduzidos pela Al Jazeera. No meio do caminho, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian desembarcou em Nova Délhi. Ele participa neste fim de semana da reunião do BRICS, o grupo dos grandes países emergentes. É a primeira visita de um presidente do Irã à Índia em oito anos. Ela acontece com a Índia de volta ao petróleo iraniano, como o COMPASSO registrou na quarta-feira.
Os impactos por aqui
O barril de guerra chega ao Brasil por dois caminhos, e eles se abrem em direções opostas. Pelo primeiro, a receita. O petróleo é o principal produto de exportação do país. Cada dólar a mais no Brent aumenta royalties e dividendos da Petrobras para a União. Pelo segundo, o preço: a gasolina só não subiu na bomba porque um decreto cortou tributos federais até 5 de outubro, como o COMPASSO registrou na sexta-feira. A conta do corte, de cerca de 2 bilhões de reais por mês, sai do Tesouro. O diesel do frete segue pressionando o preço dos alimentos. Se a diplomacia destravar a navegação, o alívio chega ao câmbio e à inflação antes do voto de outubro. Se não destravar, o Federal Reserve, o banco central americano, decide juros na quarta com o diesel em recorde. Juro americano mais alto pressiona o dólar contra o real.
Entenda o contexto
A guerra começou em 28 de fevereiro. Os Estados Unidos bombardearam o programa nuclear iraniano e impuseram um bloqueio naval ao petróleo do Irã. Desde então, o conflito virou uma disputa pela infraestrutura do comércio de energia: navio, seguro, rota e oleoduto. O Irã não consegue reabrir Ormuz pela força, mas consegue provar que ninguém mais atravessa com segurança. Washington afirma que o estreito está aberto e sob controle. Os dados de tráfego mostram um décimo do movimento anterior. No jogo do excedente, a semana definiu quem cobra a conta da escassez: quem tem petróleo fora do Golfo, navio disponível e refino perto do consumidor.
Fontes
CENTCOM, 08/09 (o comunicado da destruição dos cinco petroleiros, documento primário) · EIA, 09/09 (os fluxos de Ormuz e de Bab el-Mandeb, documento primário) · Organização Marítima Internacional, 28/08 (ataques e marinheiros mortos, documento primário) · Al Jazeera, em árabe, 12/09 (a fala de Trump em Dublin sobre o fim da guerra) · 964media, em árabe, 12/09 (a parada do oleoduto saudita vista do Iraque) · NPR, a rádio pública americana, 12/09 (a tomada da ilha de Mayun) · Al Jazeera, 12/09 (o oleoduto Leste-Oeste e a reação do Iraque) · Al Jazeera, 11/09 (a reunião de Salalah) · Rigzone/Bloomberg, 11/09 (o fechamento do petróleo na semana) · gCaptain/Bloomberg, 10/09 (o frete recorde dos petroleiros) · S&P Global/Marsh (o seguro de guerra por viagem) · NBC News, 11/09 (o recorde do diesel americano) · Bloomberg, 10/09 (a produção saudita no menor nível desde 1990)
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.