Energia · Análise
Clima: o oceano segue em recorde e o Ártico toca o mínimo
A consolidação de sábado da série Crise Climática: o boletim semanal da NOAA mantém o Pacífico a +1,8 °C, a subsuperfície chegou a +10 °C, o oceano global roda acima de 2023 e 2024 nas mesmas datas, a NASA confirmou o agosto mais quente da sua série e o gelo do Ártico tocou 4,59 milhões de km², o provável mínimo do ano. No Brasil, o fogo subiu na Amazônia, os reservatórios do Sudeste estão em 56,8% e a Conab apresenta a safra do El Niño na terça.
Leituras
- Duas séries independentes de temperatura do oceano e a série de ar da NASA apontaram na mesma direção nesta semana: 2026 roda acima de qualquer ano já medido nas mesmas datas.
- A água abaixo da superfície do Pacífico chegou a +10 °C acima da média, e a cientista que edita o blog da NOAA precisou refazer a escala do gráfico pela segunda vez.
- Para o Brasil, o desenho esperado segue o mesmo: seca e fogo no centro-norte, chuva em excesso no Sul, e a primeira medição agrícola sob o novo El Niño sai na terça, pela Conab.
Este é o texto de sábado da série Crise Climática, que consolida os dados e as falas científicas da semana na leitura acumulada. A série abriu na quinta-feira com o boletim da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, elevando a 75% a chance de um El Niño histórico entre outubro e dezembro, como o COMPASSO registrou em 10 de setembro. Nesta semana, os dados diários e as medições independentes apontaram na mesma direção do boletim. A série não pergunta quem ganha e quem perde: registra o que está medido e o que os cientistas dizem sobre a medição.
Os sinais do clima nesta semana
- Pacífico equatorial: anomalia semanal de +1,8 °C na região Niño 3.4, a faixa central de referência, pelo boletim de 8 de setembro da NOAA. Na costa peruana, +3,9 °C.
- Oceano global: 21,15 °C de média da superfície entre as latitudes 60 Sul e 60 Norte em 10 de setembro, o maior valor já medido para a data. O dado é preliminar, da série diária da NOAA.
- Ar: agosto de 2026 foi o agosto mais quente da série da NASA, a agência espacial americana, com +1,40 °C sobre a média de 1951 a 1980.
- CO2: 427,55 partes por milhão em Mauna Loa em agosto, alta de 2,07 sobre agosto de 2025, pelo laboratório da NOAA.
- Gelo marinho: 4,60 milhões de km² no Ártico em 11 de setembro, 1,67 milhão abaixo da média de 1981 a 2010 para a data. O dado é do NSIDC, o centro americano de dados de neve e gelo.
O que os dados novos medem
O boletim semanal da NOAA de segunda-feira manteve a anomalia da região Niño 3.4 em +1,8 °C. É o degrau anterior ao muito forte, que começa em +2,0 °C. Na costa do Peru, a região chamada Niño 1+2 já opera a +3,9 °C. Abaixo da superfície, a água quente que alimenta o fenômeno chegou a +10 °C acima da média. Rebecca Lindsey, editora do blog do El Niño da NOAA, descreveu a escala refeita: "tivemos que subir o topo da escala de novo, desta vez para 10 °C acima da média. É maluco". O mesmo texto dela fixa em 100% a chance de El Niño no trimestre de dezembro a fevereiro. E mantém em 75% a chance de o evento se tornar o mais forte já registrado entre outubro e dezembro.
O oceano confirmou por outra série. A medição diária da NOAA, lida no Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine, registrou 21,23 °C em 8 de setembro, valor preliminar, e 21,15 °C no dia 10. Para as mesmas datas, 2023 rodava perto de 21,05 °C e 2024 perto de 20,94 °C. É uma série diferente da europeia usada no primeiro texto, que mediu o recorde de 21,11 °C em agosto. As duas não se somam, mas apontam o mesmo. O oceano de 2026 está acima de tudo o que já foi medido nas mesmas datas. No ar, a NASA confirmou de forma independente a medição do serviço europeu Copernicus. Agosto de 2026 empatou no topo da série europeia e ficou sozinho no topo da série americana, com +1,40 °C sobre 1951 a 1980. O CO2, o gás que acumula o aquecimento de fundo, seguiu subindo. Foram 427,55 partes por milhão em agosto em Mauna Loa, o observatório de referência no Havaí.
No gelo, a semana foi de mínimo. A extensão do Ártico tocou 4,59 milhões de km² na terça-feira, dia 8, e estava em 4,60 milhões na sexta. Se não houver nova queda, o mínimo de 2026 fica como o 11º menor da série iniciada em 1979. O recorde de 2012, de 3,42 milhões, segue distante. Na Antártida, o inverno terminou com a quarta menor extensão para a data, atrás de 2023, 2024 e 2025. O NSIDC registrou agosto como o sétimo menor da série no Ártico. E avisou, no boletim de 3 de setembro, que parte das suas análises segue suspensa por corte de financiamento desde outubro de 2025.
O que dizem os cientistas
Daniel Swain, climatologista da Universidade da Califórnia, estimou em cerca de 70% a chance de o evento de 2026 se tornar o mais forte já registrado. A entrevista é do site de ciência EarthSky. "Há grande chance de virmos a ver impactos globais sem precedentes no fim de 2026 e em 2027, em extremos de enchente, seca e incêndio", disse, em tradução do inglês. Victor Gensini, professor de meteorologia da Universidade do Norte de Illinois, apontou no mesmo texto o efeito sobre a média global. "Um El Niño forte pode plausivelmente empurrar as temperaturas globais a novos recordes no fim de 2026", afirmou. No Pacífico Sul, o Enfen, o comitê oficial peruano que monitora o fenômeno, mantém o alerta. O comitê estima em 62% a probabilidade de um El Niño costeiro de magnitude extraordinária entre setembro e janeiro, segundo o site argentino Infobae, em espanhol. As previsões seguem expressas em probabilidade, e não em certeza. A própria NOAA lembra que mesmo um evento histórico produz impactos fora do padrão esperado em alguns lugares.
O que muda na leitura acumulada
O primeiro texto da série descreveu um cenário extremo virando o cenário central. A semana acrescentou três confirmações e nenhuma contradição. A anomalia semanal segue no limiar do muito forte, com a subsuperfície carregada. O oceano global segue em recorde para a data em duas séries independentes. E a temperatura do ar de agosto foi ao topo também na série da NASA, que usa método próprio. Os extremos da semana couberam no padrão que os cientistas descrevem. O furacão Lowell atingiu o Havaí como categoria 2, com um morto e 33 mil imóveis sem energia. Furacões no Havaí são assinatura típica de anos de El Niño. O tufão Saudel levou 599 mil pessoas a deixar a costa chinesa de Fujian, com recorde de chuva de setembro na cidade de Putian. E o centro dos Estados Unidos fechou a semana sob calor acima de 38 °C fora de época, com quase 200 milhões de pessoas sob aviso. Registrar o padrão não é atribuir cada evento ao fenômeno; a atribuição exige estudo caso a caso.
Os impactos por aqui
Para o Brasil, o prognóstico oficial segue o do Inmet, o instituto nacional de meteorologia. A primavera deve ter chuva acima da média no Sul e abaixo no centro-norte, com calor acima da média em quase todo o país. O fogo e o desmatamento mediram a largada dessa seca. O Deter, o sistema de alertas do Inpe, o instituto nacional de pesquisas espaciais, registrou em agosto 358 km² de desmatamento na Amazônia, alta de 12,1% sobre agosto de 2025, concentrada no Pará. No Cerrado, foram 238 km², queda de 18,9%, segundo a Agência Brasil, a agência estatal de notícias. A Amazônia Legal somou 11.938 focos de fogo entre 1º de agosto e 8 de setembro, pelos dados do Inpe citados por secretarias estaduais. Nos reservatórios, a base de dados do ONS, o operador do sistema elétrico, mostrava na quinta-feira 56,8% de armazenamento no Sudeste e Centro-Oeste. O Sul estava em 81,4%, o Nordeste em 73,4% e o Norte em 78,6%. A bandeira tarifária de setembro segue amarela, o quinto mês seguido de cobrança extra na conta de luz, pela Aneel, a agência de energia elétrica. A mesma conta de luz caiu em agosto com o crédito de Itaipu, como o COMPASSO registrou na sexta-feira, e o crédito não se repete. Um El Niño forte tende a piorar as duas pontas: menos chuva nas hidrelétricas do centro-norte e mais enchente no Sul. O efeito chega à safra, ao frete e ao preço da comida.
O que observar
Terça, dia 15: a Conab, a companhia nacional de abastecimento, apresenta as perspectivas da safra 2026-27, o primeiro grande número agrícola sob o El Niño novo. A safra entra num agro já pressionado pelo embargo europeu à carne, como o COMPASSO registrou em 3 de setembro. Segunda quinzena de setembro: o NSIDC deve confirmar o mínimo anual do gelo do Ártico. Dia 8 de outubro: o próximo diagnóstico mensal do El Niño da NOAA. Primeira semana de outubro: o boletim de setembro do Copernicus e o CO2 mensal de Mauna Loa. Segunda semana de outubro: o Deter de setembro, o primeiro mês cheio da estação do fogo sob a seca prevista.
Fontes
NOAA, Centro de Previsão Climática, 08/09 (o boletim semanal do El Niño, documento primário) · Climate Reanalyzer, Universidade do Maine (a temperatura diária do oceano, documento primário) · NASA GISS (a série de temperatura do ar, documento primário) · NOAA, laboratório de Mauna Loa (o CO2 mensal, documento primário) · NSIDC, 03/09 (o gelo marinho dos dois polos, documento primário) · Blog do El Niño, 10/09 (as falas de Rebecca Lindsey e a subsuperfície de +10 °C) · EarthSky, 01/09 (as falas de Daniel Swain e Victor Gensini) · Infobae, em espanhol, 30/08 (o comunicado do Enfen peruano) · Agência Brasil, 11/09 (o Deter de agosto) · ONS (o armazenamento dos reservatórios, documento primário) · Agência Gov (a bandeira tarifária de setembro) · Inmet (o prognóstico da primavera, documento primário) · Honolulu Civil Beat (o furacão Lowell no Havaí) · The Watchers (o tufão Saudel em Fujian)
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.