Arquitetura de segurança · Análise
O fim de semana em seis regiões: o Golfo trava e os juros vêm
A leitura cruzada do fim de semana: o adiamento da reunião de Salalah deixa o Golfo sem negociação marcada, a Arábia Saudita responde aos houthis, o Canadá entra na semana sem conversa com Washington, a Índia faz as contas do petróleo depois da cúpula do BRICS, a Ucrânia conta drones às centenas e a África começa a pagar a conta de Bab el-Mandeb. No meio de tudo, quatro bancos centrais decidem juros em três dias.
Leituras
- Sem negociação marcada no Golfo, a semana das seis regiões passa a depender de quatro decisões de juros e da troca de fogo entre sauditas e houthis no mar Vermelho.
- O Canadá chega à semana sem conversa marcada com Washington e com proibições americanas datadas para o dia 29: o custo de responder ao tarifaço segue subindo antes de qualquer acordo.
- Na África, o controle houthi de Bab el-Mandeb já cobra dos vizinhos: o Egito perde a receita do canal de Suez, e Djibuti recebeu 2.000 refugiados iemenitas em um único dia.
Atualização, 19h20. Os houthis tomaram nesta segunda-feira as ilhas de Hanish Maior e Hanish Menor, no mar Vermelho, a 160 quilômetros ao norte de Bab el-Mandeb, segundo a Associated Press, a agência americana de notícias. O grupo iemenita aliado do Irã já controlava o estreito desde a semana passada, como o COMPASSO registrou na sexta-feira. Com as ilhas, a área que o grupo vigia se estende para dentro do mar, e uma escolta naval que queira proteger comboios passa a operar sob observação armada.
Atualização, 19h20. O oleoduto saudita Leste-Oeste deve ficar em grande parte parado por semanas, com reparo de três a cinco semanas na estação de bombeamento danificada, disseram dois funcionários da região à mesma agência. Chris Wright, o secretário de Energia americano, falou em volta "em breve", segundo a Bloomberg, a agência de notícias financeiras americana. Uma frase da seção do Golfo foi corrigida: o fechamento da linha não foi só precaução, a estação foi danificada. Enquanto o reparo durar, o petróleo saudita depende das travessias sob controle armado, e a conta detalhada está na análise de abertura desta edição, atualizada nesta noite.
Atualização, 02h40. Saíram na noite desta segunda-feira, pela hora de Brasília, os dados de agosto da China que esta seção esperava. A produção industrial cresceu 5,2% sobre agosto do ano passado, acelerando dos 4,5% de julho e acima dos 4,8% que os economistas previam. O varejo cresceu 0,4%, o ritmo mais fraco desde maio, abaixo dos 0,8% da pesquisa da Bloomberg com economistas. O investimento em ativos fixos, a compra de máquinas, obras e imóveis, caiu 7,2% no mês, queda maior que a esperada. Os números estão nos comunicados do Escritório Nacional de Estatísticas da China, em chinês, documento primário, e no registro do Yahoo Finance, o site americano de notícias financeiras.
Atualização, 02h40. O próprio escritório resumiu o desenho: oferta forte e demanda fraca, com os fatores externos adversos se intensificando. É o primeiro quadro completo do mês em que o superávit comercial bateu recorde, como o COMPASSO registrou no sábado, e ele confirma a leitura da seção. A renda do crescimento chinês segue capturada pela indústria que exporta, enquanto o consumo das famílias, que mede salário e emprego, quase não cresce e o investimento encolhe. Xi Jinping chega a Washington no dia 24 com esse desequilíbrio nos números: quanto mais a fábrica depende do comprador externo, menor o poder de barganha de Pequim numa negociação sobre tarifas.
Esta é a leitura cruzada do fim de semana, o giro pelas seis regiões com o que cada uma espera da semana que começa. O fato que abre a segunda-feira, o adiamento da reunião de Salalah sobre o estreito de Ormuz, tem análise própria nesta edição. Aqui entra o que ele muda em cada canto do mundo, e o que cada canto fez enquanto isso.
Américas
O fim de semana não moveu o impasse entre Canadá e Estados Unidos. Não há negociação marcada, e o representante comercial americano, Jamieson Greer, resumiu o grau de contato: "recebi algumas mensagens deles, mas não negociamos desde então", disse ao Globe and Mail, o jornal canadense de referência. Do lado canadense, as contratarifas de 15%, 25% e 50% valem desde o dia 8. Elas alcançam cerca de 700 produtos americanos, quase 28 bilhões de dólares canadenses em compras, no registro da Radio-Canada, a emissora pública, em francês. O Canadá foi o primeiro país a responder ao tarifaço na mesma moeda, e o custo disso foi medido pelo COMPASSO no sábado. As datas da semana estão marcadas. Na terça, dia 15, entra em vigor a lista americana ampliada de tarifas de 50%. Na quarta, dia 16, o Federal Reserve, o banco central americano, decide juros com o petróleo em máxima de quatro meses. No dia 29, começam as proibições de importação de bebidas, laticínios e motocicletas do Canadá.
Ásia oriental
A China passou o fim de semana preparando a viagem mais observada do mês: Xi Jinping chega a Washington no dia 24. Pequim quer levar uma delegação grande de executivos, um gesto raro para um governo em atrito com as próprias empresas privadas, segundo o Japan Times, o jornal japonês em inglês. Do outro lado, um funcionário da Casa Branca respondeu com frieza: "não estamos acompanhando uma delegação de executivos chineses". O contraste diz o essencial: um lado prepara anúncios de negócios para a visita, o outro nega que eles estejam na pauta. Nesta semana saem os dados chineses de agosto, de varejo, indústria e investimento. É o primeiro quadro completo do mês em que o superávit comercial bateu recorde, com chips crescendo 129,8%, como o COMPASSO registrou no sábado. No Japão, a aposta dos mercados é de alta do juro para 1,25% na madrugada de sexta, dia 18.
Sul e Sudeste da Ásia
A Índia acordou de anfitriã para contadora. A cúpula do BRICS, o grupo dos grandes países emergentes, terminou no sábado com a Declaração de Nova Délhi, documento primário que rejeita tarifas e sanções unilaterais sem nomear os Estados Unidos. O GTRI, um instituto indiano de pesquisa de comércio, leu o texto como um equilíbrio deliberado entre a guerra, as tarifas e as sanções, segundo o Business Standard, o jornal financeiro indiano. A conta que sobrou é a do petróleo. Cerca de 30% das importações indianas passavam por Ormuz antes da guerra, segundo o Washington Times, o jornal conservador americano. O governo responde que 70% do suprimento já chega por fora do estreito, em nota do ministério do Petróleo na NewsOnAir, a rádio estatal indiana, documento primário. A diferença entre as duas contas é a volta ao petróleo russo. Com o barril a 108 dólares e uma importação que cobre mais de 85% do consumo, cada semana de estreito fechado encarece a conta externa indiana.
Golfo e Oriente Médio
Enquanto a diplomacia adiava, a guerra dos vizinhos acelerou. Os houthis dispararam dezenas de mísseis balísticos e drones contra instalações militares em Khamis Mushait, cidade do sudoeste saudita que abriga uma base aérea, em retaliação declarada a bombardeios. A Arábia Saudita fechou o oleoduto Leste-Oeste, a ligação entre os campos do leste e o porto de Yanbu, no mar Vermelho, danificado por drones lançados do Iraque. O porta-voz militar houthi, Yahya Saree, desenhou a nova regra do mar: "a navegação está segura para todas as empresas, exceto os navios sauditas, que já estão banidos". Com Bab el-Mandeb sob controle do grupo desde a semana passada, a ameaça tem meios, como o COMPASSO registrou na sexta-feira. O Irã, por Esmaeil Baghaei, porta-voz da chancelaria, sustenta que os houthis decidem sozinhos. E fala em registrar com Omã, por outra via, o entendimento sobre a rota: "em consulta com Omã, decidiremos no próximo passo como anunciar ou registrar o acordo".
AS VERSÕES. O adiamento de Salalah, contado três vezes.
- Na imprensa ocidental: o Washington Post descreveu chanceleres adiando o encontro com as negociações emperradas e a Arábia Saudita no centro do recuo.
- A versão de Teerã: o porta-voz Esmaeil Baghaei chamou o motivo saudita de "pretexto frágil" e negou qualquer comando iraniano sobre os houthis, no registro da Euronews, em árabe.
- Na imprensa árabe independente: o Al Modon, site libanês, em árabe, contou os bastidores: emendas sauditas ao texto e a guerra no Iêmen travaram a assinatura.
Europa e o espaço pós-soviético
O fim de semana ucraniano foi contado em centenas. A defesa aérea informou ter neutralizado 409 drones e quatro mísseis na virada de sábado. Na noite de domingo vieram mais 108 drones, e 85 foram derrubados. Os balanços são da Ukrinform, a agência estatal ucraniana, em ucraniano. Odesa sofreu um ataque combinado de mísseis e drones, com feridos e prédios residenciais danificados. Uma empresa de logística da região foi atingida, com dois trabalhadores feridos, também pela Ukrinform, em ucraniano. Na Europa ocidental, a semana é de bancos centrais convivendo com o petróleo de guerra. O BCE, o banco central da zona do euro, já subiu o juro na quinta passada citando exatamente essa pressão, como o COMPASSO registrou no sábado. Na quinta, dia 17, é a vez do Banco da Inglaterra decidir com o Brent a 108 dólares.
África
A margem africana do mar Vermelho começou a pagar a conta de Bab el-Mandeb. Os houthis, agora a 20 quilômetros da costa da África, garantem que "a liberdade de navegação e o comércio internacional no mar Vermelho estão seguros e ordenados", na fala do dirigente Hazem al-Assad. O Egito mede o risco pelo caixa. Perdeu cerca de 7 bilhões de dólares de receita do canal de Suez entre 2023 e 2024, uns 60% do total. Foi quando os ataques anteriores desviaram os navios para a rota do cabo da Boa Esperança, que adiciona mais de 20 dias de viagem. Os números estão na Al Jazeera, a rede de notícias do Catar. O Cairo diz que vai proteger o canal, segundo o The New Arab, o site pan-árabe de Londres. Em Djibuti, mais de 2.000 iemenitas chegaram em 24 horas à cidade de Obock, fugindo do avanço houthi. A OIM, a agência da ONU para migrações, pede apoio para recebê-los. A Eritreia, dona da outra margem, ganha uma posição de passagem que pode reduzir seu isolamento. E a costa da Somália volta a registrar pirataria, com as marinhas ocupadas mais ao norte.
Os impactos por aqui
O Brasil sente essa semana por três canos: o preço, o frete e o juro. O petróleo a 108 dólares pressiona o diesel e o custo de transportar safra, e o frete marítimo global encarece com a rota do cabo. O câmbio abriu em alta e a bolsa em queda, com a decisão do Copom na quarta no meio do caminho. A conta completa da abertura, com os números desta segunda, está na análise de abertura desta edição.
Entenda a região
Omã é o mediador profissional do Golfo, e a geografia explica a vocação. O sultanato ocupa a ponta sudeste da península Arábica e divide com o Irã o controle físico do estreito de Ormuz. A península de Musandam, território omanense, avança sobre a passagem pelo lado sul. Há décadas o país pratica uma neutralidade ativa, com relações simultâneas com Teerã, com os vizinhos árabes e com o Ocidente. Foi por Mascate, a capital, que passaram as conversas discretas que levaram ao acordo nuclear de 2015. Omã não rompeu com o Irã nas crises regionais e, por isso, é o único endereço aceitável para os dois lados quando o assunto é o estreito. Salalah, a segunda cidade do país, no sul, perto do Iêmen, foi a escolhida para a reunião adiada. A posição omanense tem preço e renda próprios: quem organiza a negociação da passagem mais valiosa do petróleo mundial recebe em influência o que não recebe em dinheiro.
Fontes
Globe and Mail (o impasse Canadá-Estados Unidos e a fala de Greer) · Radio-Canada, em francês (as contratarifas em vigor) · Japan Times (a delegação de executivos de Xi e a resposta da Casa Branca) · Declaração de Nova Délhi (documento primário do governo indiano) · NewsOnAir, ministério do Petróleo indiano (documento primário) · Business Standard (a leitura do GTRI sobre a declaração) · Washington Times (a dependência indiana de Ormuz, lido à direita) · Washington Post (o adiamento na imprensa ocidental) · Euronews, em árabe (a versão de Teerã) · Al Modon, em árabe (os bastidores do adiamento) · Al Jazeera (a análise do adiamento e a fala de Baghaei sobre o registro do acordo) · Bloomberg (a resposta saudita aos houthis) · Euronews (a tomada da ilha de Mayyun) · Ukrinform, em ucraniano (o balanço de 409 drones) · Ukrinform, em ucraniano (o ataque a Odesa) · Al Jazeera (a conta africana de Bab el-Mandeb) · The New Arab (a reação do Egito) · Investing.com (o calendário de juros da semana) · Associated Press, via Local 10 (as ilhas Hanish e o reparo do oleoduto) · Bloomberg (a fala de Chris Wright)
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