Pular para o conteúdo

Cadeia de semicondutores · Análise

A semana em que o Canadá mediu o preço de responder

O movimento da semana em Produção: as contratarifas canadenses entraram em vigor com 80% de apoio interno, Washington respondeu com proibições de importação, e no fim da semana os dois lados voltaram a negociar. A China escolheu outra rota: superávit recorde de 119 bilhões de dólares em agosto, com chips crescendo 129,8%, duas semanas antes da visita de Xi Jinping a Washington. Para o Brasil, que negocia a reunião de 30 de setembro, o experimento canadense é a medição que faltava.

Por COMPASSO12 de setembro de 2026atualizado às 19h259 min de leituraTabuleiro: Cadeia de semicondutores

Leituras

  1. O experimento canadense mediu o preço de retaliar: apoio interno recorde e negociação reaberta, ao custo imediato de mercado e preço nos setores expostos, com a Bombardier atacada pelo nome.
  2. A China respondeu ao tarifaço exportando mais: o superávit recorde do ano, puxado por chips, vira poder de barganha para a visita de Xi Jinping a Washington em 24 de setembro.
  3. É fato que a energia encareceu 8,7% na semana para toda cadeia; é leitura possível, não fato, que o custo dela decida mais preços industriais em 2027 do que qualquer tarifa em disputa.

Atualização, 19h25. Os líderes do BRICS, o grupo dos grandes países emergentes, aprovaram por unanimidade neste sábado, em Nova Délhi, a Declaração de Nova Délhi, documento primário do governo indiano. O texto rejeita medidas econômicas unilaterais e o protecionismo, sem citar os Estados Unidos. O Brasil assinou representado pelo chanceler Mauro Vieira, com o presidente em campanha, segundo o Brasil 247, site brasileiro lido à esquerda.

A declaração não muda tarifa alguma. Ela muda o pano de fundo de duas datas que este texto aponta: a visita de Xi Jinping a Washington, no dia 24, e a reunião ministerial do Brasil com o representante comercial americano, no dia 30. A China, a Índia e o Brasil escolheram respostas diferentes ao tarifaço e subscreveram o mesmo texto político. Cada negociação segue caso a caso; o que o documento acrescenta é uma posição coletiva registrada por escrito antes delas.

Ilustracao editorial escura: dois muros de conteineres frente a frente, um conteiner vermelho suspenso por um cabo de guindaste no vao entre eles

A semana mediu, pela primeira vez com números, quanto custa responder ao tarifaço americano na mesma moeda. O experimento foi canadense. Na terça-feira, entraram em vigor as contratarifas de 15%, 25% e 50% sobre 27,6 bilhões de dólares canadenses em produtos americanos. São cerca de 700 itens, listados pelo Departamento de Finanças do Canadá. A resposta de Washington já estava assinada desde segunda, em cinco proclamações presidenciais. Elas proíbem, a partir de 29 de setembro, a importação de bebidas alcoólicas, laticínios e motocicletas grandes do Canadá. E endurecem, desde o dia 15, a lista de tarifas de 50%. No fim da semana, os dois lados voltaram a se falar.

O que o experimento canadense mediu

O custo apareceu em três medidas. Na política, o apoio. 85% dos canadenses aprovam a rejeição do acordo comercial oferecido por Washington, e 80% apoiam as contratarifas. Os números são da pesquisa Nanos, do instituto canadense Nanos Research, feita entre 30 de agosto e 2 de setembro. No mercado, o alvo escolhido. O presidente americano pediu em rede social que a Bombardier, a fabricante de jatos de Quebec, não venda mais nos Estados Unidos. A ação da empresa chegou a cair 7% na terça, como o COMPASSO registrou no dia 8. Na produção, a interdependência: mais da metade da receita da Bombardier vem dos Estados Unidos, e não há como substituir esse mercado em um ano. A Radio-Canada, a emissora pública canadense, resumiu em francês o tamanho do passo: "o Canadá impõe a partir de agora sobretaxas de 15%, de 25% e de 50% sobre quase 28 bilhões de dólares em produtos americanos".

O primeiro-ministro Mark Carney encerrou a semana baixando o tom. Chamou as proibições americanas de relativamente modestas. E sinalizou que não haverá nova rodada de retaliação, segundo a agência financeira Bloomberg. O representante comercial americano, Jamieson Greer, e o ministro canadense Dominic LeBlanc voltaram a conversar, segundo o jornal canadense The Globe and Mail. A leitura da semana é dupla. Retaliar deu ao governo canadense apoio interno recorde e reabriu a negociação. E retaliar custou, na hora, mercado e preço para o trabalho e para o capital dos setores atingidos.

Pequim conta o superávit e prepara a viagem

Do outro lado do mundo, a China escolheu responder ao mesmo tarifaço vendendo mais. A alfândega chinesa divulgou na terça-feira a balança de agosto. As exportações totais cresceram 25% sobre um ano antes. O superávit foi de 119,09 bilhões de dólares no mês e de 806 bilhões no acumulado do ano, um recorde. As vendas aos Estados Unidos cresceram 34,4%, para 42,5 bilhões de dólares, sobre a base deprimida do tarifaço de 2025, como o COMPASSO registrou na terça-feira. O motor tem nome: os semicondutores, com exportações de 40,7 bilhões de dólares em agosto, alta de 129,8%. O portal financeiro chinês Jiemian explicou em chinês o vento a favor: "a demanda externa está forte no geral; em especial, a onda global de investimento em inteligência artificial continuará puxando com força as exportações de chips do nosso país".

O calendário explica a calma de Pequim. Xi Jinping visita Washington em 24 de setembro com uma delegação numerosa de executivos-chefes chineses, a primeira do tipo desde 2015, segundo a agência Reuters. A pauta trava em tarifas, licenças de terras raras e nas regras para bens considerados não sensíveis. A tarifa americana sobre semicondutores chineses segue em 0% até junho de 2027, quando começa a subir. Ela foi decidida em dezembro pelo USTR, o escritório do representante comercial americano. Enquanto isso, a cadeia física avança por baixo. A TSMC, a fabricante taiwanesa de chips, e a ASML, a fabricante holandesa das máquinas de litografia, anunciaram na segunda a migração para fotomáscaras de 12 polegadas. A linha-piloto vem até 2031, e a produção em alto volume está prevista para 2033.

O placar da semana

Contratarifas canadenses de 15%, 25% e 50% sobre 27,6 bilhões de dólares canadenses, em vigor desde terça, pela lista oficial do Departamento de Finanças do Canadá. Cinco proclamações americanas com proibições de importação a partir de 29 de setembro, pelo comunicado oficial da Casa Branca. Superávit comercial chinês de 119,09 bilhões de dólares em agosto, com chips crescendo 129,8%, segundo a Caixin, a publicação financeira chinesa. Brent a 104,61 dólares no fechamento de sexta, alta de 8,7% na semana, o insumo de energia de toda a cadeia. Produção saudita de petróleo no menor nível desde 1990: 6,238 milhões de barris por dia em agosto, no dado reportado à OPEP, a organização dos países exportadores. E 1 trilhão de dólares em infraestrutura americana prometido pela Nvidia para este ano, na fala do executivo-chefe Jensen Huang a ministros do G20, segundo o jornal coreano Seoul Economic Daily.

A energia entra na cadeia como custo e como ativo

A guerra do Golfo atravessou a semana da produção por dentro, como consolida a análise de Segurança desta edição. O petróleo 8,7% mais caro na semana encarece frete, plástico, fertilizante e a conta de energia de toda fábrica. Nos Estados Unidos, o diesel no atacado subiu 24,1% em agosto. A alta puxou o índice de preços ao produtor, como o COMPASSO registrou na quinta-feira. No sentido contrário, a energia virou ativo da corrida de inteligência artificial. O Departamento de Energia americano fechou empréstimo de 1,9 bilhão de dólares para religar a usina nuclear de Duane Arnold, em Iowa. A produção foi contratada pela Google por 25 anos. Nessa transição, o capital com contrato longo de energia e o conhecimento embutido nas máquinas capturam a renda. A indústria eletrointensiva sem contrato, que compra energia no preço do dia, perde poder de barganha.

Os impactos por aqui

Para o Brasil, a semana entregou uma medição e uma agenda. A medição é a canadense: responder na mesma moeda rende apoio interno e abre negociação, mas cobra preço imediato dos setores expostos. A agenda tem data. Os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, encontram o representante comercial americano em 30 de setembro. A reunião será à margem do encontro de comércio do G20 em Milwaukee, segundo o site Metrópoles, de Brasília. Até lá, a tarifa americana sobre produtos brasileiros segue em 25%, com sobretaxa de 12,5% em parte dos casos. Ela alcança cerca de 6,6 bilhões de dólares em exportações. As consultas abertas pelo Brasil na OMC, a Organização Mundial do Comércio, foram aceitas por Washington, segundo a Agência Brasil, a agência estatal de notícias. O embargo europeu à carne brasileira, em vigor desde o dia 3 por controles de antimicrobianos, atravessou a semana sem avanço, como o COMPASSO registrou em 3 de setembro. Para o produtor brasileiro, o superávit chinês recorde é demanda. A China compra mais soja, carne e minério quando exporta mais. Para a indústria daqui, o mesmo superávit é concorrência nos mercados que o tarifaço americano fechou.

Entenda o contexto

O tarifaço americano de 2025 e 2026 usa leis comerciais, como a Seção 301 e a Seção 338, para taxar parceiros e forçar negociações caso a caso. Cada país escolheu uma resposta. O Canadá replicou as tarifas. A China redirecionou exportações e acumulou superávit. O Brasil negocia sem retaliar. A disputa de fundo é sobre quem controla o que o mundo precisa fabricar e comprar: chips, energia, máquinas e alimentos. No jogo do excedente, a semana mostrou o mesmo desenho em três continentes. O capital com escala e contrato atravessa a guerra comercial; o trabalho e a indústria sem escala pagam a transição.

Fontes

Departamento de Finanças do Canadá (a lista oficial das contratarifas, documento primário) · Casa Branca, 08/09 (as cinco proclamações contra o Canadá, documento primário) · Federal Register, 29/12/2025 (a tarifa americana sobre chips chineses, documento primário) · TSMC e ASML, 08/09 (o comunicado das fotomáscaras de 12 polegadas, documento primário) · Departamento de Energia dos EUA, 08/09 (o empréstimo de Duane Arnold, documento primário) · Radio-Canada, em francês, 08/09 (as contratarifas em vigor) · Jiemian, em chinês, 08/09 (a leitura chinesa da balança de agosto) · Caixin Global, 08/09 (os números da balança chinesa) · CTV/Nanos, 05/09 (o apoio interno canadense) · Bloomberg, 10/09 (Carney baixa o tom) · The Globe and Mail (a retomada do contato Greer-LeBlanc) · Reuters, 07/09 (a comitiva de executivos de Xi Jinping) · Agência Brasil (o tarifaço sobre o Brasil e as consultas na OMC)

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.