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Energia · Análise

Clima: ar, oceano, gelo e safra fecham a semana no mesmo sinal

A consolidação da semana na série Crise Climática: o Pacífico tocou o piso do evento muito forte, agosto empatou como o mês mais quente já medido, o oceano seguiu em recorde, o Ártico fechou o degelo no 11º menor nível e a Conab projetou a primeira safra desenhada sob El Niño declarado. Cinco indicadores independentes, uma mesma direção, e duas pendências datadas para a próxima semana.

Por COMPASSO19 de setembro de 20267 min de leituraTabuleiro: Energia

Leituras

  1. Numa mesma semana, o Pacífico tocou o piso do evento muito forte, agosto empatou como mês mais quente já medido, o oceano seguiu em recorde e o Ártico fechou o degelo: os indicadores apontam juntos.
  2. A divergência entre os dois números da NOAA para o Niño 3.4, +2,0 °C no boletim semanal e +2,9 °C na tabela histórica, segue aberta e é o dado a vigiar na segunda-feira.
  3. Para o Brasil, o fenômeno já entrou no calendário econômico: a safra projetada pela Conab, os reservatórios preservados no Sul e a bandeira de outubro, anunciada na sexta, dia 25.

Este é o texto de sábado da série Crise Climática, que acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. A semana que termina fechou um quadro montado peça a peça desde a estreia, em 10 de setembro. O ar, o oceano global, o Pacífico equatorial, o gelo do Ártico e a primeira medição agrícola apontaram na mesma direção, no mesmo trimestre. Nenhum dos cinco números é, sozinho, um recorde inédito. É a coincidência deles no tempo que dá o tamanho do momento.

O que a semana mediu

Na segunda, o boletim semanal da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, mediu +2,0 °C de anomalia na região Niño 3.4. Essa é a faixa central do Pacífico equatorial que define o El Niño. É o piso dos eventos classificados como muito fortes, e a primeira semana de 2026 nesse degrau, como o COMPASSO registrou na segunda-feira. A tabela histórica da mesma agência trazia +2,9 °C para a mesma semana, e a divergência entre os dois números oficiais segue aberta. Na costa do Peru, o comitê oficial do fenômeno estimava 57% de chance de condições cálidas extraordinárias. O desembarque de anchoveta, a base da pesca local, caiu 80%.

Na terça, a Conab, a companhia pública brasileira de abastecimento, fechou a safra 2025/26 em 361,7 milhões de toneladas, um recorde. E projetou a primeira safra 2026/27 já desenhada sob risco declarado de El Niño, como registra o texto de terça. Na quarta, o Copernicus, o serviço climático europeu, mediu agosto de 2026 como o mês mais quente já registrado no planeta, empatado com julho de 2023. A anomalia ficou em 1,65 °C acima do período pré-industrial. Foi o primeiro mês acima de 1,5 °C desde novembro. A superfície do mar fora dos polos marcou 21,07 °C de média em agosto, recorde para o mês. A medição diária americana rodava perto do pico preliminar de 21,23 °C, registrado em 8 de setembro. Os dois dados estão no texto de quarta.

Na sexta, o gelo fechou a lista. O degelo anual do Ártico parou no mínimo preliminar de 4,60 milhões de km², como o COMPASSO registrou na sexta-feira. O número empata com 2025 como o 11º menor da era dos satélites, iniciada em 1979. E o CO2 medido em Mauna Loa, no Havaí, ficou em 427,55 partes por milhão na média de agosto. Um ano antes, eram 425,48, na série da própria NOAA.

O que os cientistas dizem

Rick Thoman, especialista em clima da Universidade do Alasca em Fairbanks, fez o balanço do verão ártico, em tradução do inglês. O mínimo deste ano empata com o do ano passado como o 11º menor desde 1979. E ainda é quase 15% menor que o mínimo de qualquer ano anterior a 2007. Ele registrou também que a rota marítima do Norte, pela costa russa, e a passagem do Noroeste, pelo Ártico canadense, ficaram abertas ao mesmo tempo no fim do verão, algo que raramente aconteceu no século 20. Sobre o oceano, vale a fala que abriu a série. Samantha Burgess, a líder estratégica de clima do ECMWF, o centro europeu de previsão de médio prazo, descreveu a temperatura recorde da superfície do mar como sinal de um oceano que absorve calor em ritmo sem precedente na medição.

A peça de projeção segue separada das medições. A previsão sazonal mais recente do próprio ECMWF, relatada pelo site de meteorologia Meteored, em espanhol, aponta pico do El Niño perto de +4 °C entre novembro e dezembro. Ficaria muito acima do recorde mensal de +2,8 °C, de novembro de 2015. É resultado de modelo, não medição, e previsões sazonais erram. O que está medido é a probabilidade. A NOAA dá mais de 90% de chance a um El Niño muito forte no inverno do hemisfério norte. E dá 75% de chance a um evento histórico entre outubro e dezembro, como a série registra desde a estreia.

O que muda na leitura acumulada

A leitura acumulada ganha consistência, não um número novo. Ar, oceano global, Pacífico equatorial, CO2 e gelo fecharam a semana no mesmo sinal. A safra brasileira passou a ser projetada dentro desse quadro. As duas pendências seguem abertas e datadas. A primeira é a divergência entre o boletim semanal e a tabela histórica da NOAA para o Niño 3.4, que a série acompanha desde segunda. A convergência, quando vier, dirá se o evento está no piso ou já no meio da escala dos muito fortes. A segunda é o anúncio formal do mínimo ártico pelo NSIDC, o centro americano de dados de neve e gelo. O balanço da série usa o cálculo preliminar feito sobre os dados diários do próprio centro.

Os impactos por aqui

Para o Brasil, o fenômeno já saiu da meteorologia e entrou no calendário econômico. Os reservatórios das hidrelétricas do Sul devem terminar setembro com 91,4% da capacidade. O operador nacional do sistema elétrico (ONS) preserva água por causa do El Niño, e a conta de luz roda com bandeira amarela. A safra 2026/27, projetada pela Conab sob risco declarado do fenômeno, está sendo plantada agora. O padrão histórico combina chuva em excesso no Sul e calor e seca no centro-norte, com pressão sobre lavouras, hidrelétricas e queimadas. No Sudeste e no Centro-Oeste, a temperatura acima do normal pressiona o consumo de energia e a saúde nas cidades. O preço do alimento e a bandeira da conta de luz são os dois canais pelos quais o Pacífico chega ao orçamento doméstico, como a série descreveu na terça.

O que observar

Segunda, dia 21: o boletim semanal do El Niño da NOAA, com a eventual convergência entre os dois números da agência. Sexta, dia 25: o anúncio da bandeira tarifária de outubro pela agência reguladora de energia. Nos próximos dias: o anúncio formal do mínimo ártico pelo NSIDC, com a posição final na tabela. Primeira semana de outubro: o boletim mensal do Copernicus, com a anomalia global de setembro. Quinta, 8 de outubro: a discussão diagnóstica mensal do El Niño da NOAA, com a atualização das probabilidades.

Fontes

NOAA (o boletim semanal do El Niño, documento primário) · NOAA (a tabela histórica semanal do Niño 3.4, documento primário) · NOAA (o CO2 de agosto em Mauna Loa, documento primário) · Copernicus (o agosto recorde, documento primário) · NSIDC (a série diária do gelo marinho, documento primário) · Rick Thoman, Universidade do Alasca (o balanço do mínimo de 2026) · Climate Reanalyzer (a temperatura diária do oceano, documento primário) · Conab (os levantamentos de safra, documento primário) · Meteored, em espanhol (a previsão sazonal do pico do El Niño) Os outros textos do dia: A semana em que a guerra travou e a decisão foi para Nova York · A semana em que o petróleo voltou a andar, mas só com escolta · A semana em que o mundo rico subiu o juro e o Brasil cortou · A semana em que o ritmo da IA ganhou três lados em público · Eleição 2026: a semana pende a Flávio e termina empatada.

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