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Energia · Análise

Clima: a Conab projeta a primeira safra desenhada sob El Niño

A Conab fechou nesta terça a safra 2025/26 em 361,7 milhões de toneladas de grãos, recorde puxado pela soja, e divulgou no mesmo dia a primeira projeção da safra 2026/27: 366,6 milhões de toneladas, com o El Niño citado nominalmente como risco de produtividade. A medição do Pacífico, enquanto isso, ganhou uma dúvida: o boletim semanal da NOAA traz +2,0 °C na região Niño 3.4, e a tabela histórica da mesma agência traz +2,9 °C para a mesma semana.

Por COMPASSO15 de setembro de 20267 min de leituraTabuleiro: Energia

Leituras

  1. A Conab fechou a safra 2025/26 em 361,7 milhões de toneladas, recorde com soja de 180,4 milhões, e projetou a primeira safra 2026/27 já desenhada sob risco declarado de El Niño.
  2. A medição do Pacífico ficou com dois números oficiais: o boletim da NOAA traz +2,0 °C e a tabela histórica da mesma agência traz +2,9 °C; a série registra os dois até a consolidação.
  3. Para o Brasil, o fenômeno chega com reservatórios cheios no Sul e bandeira amarela na conta de luz: o risco projetado pela Conab está na produtividade da safra que começa a ser plantada agora.

Este é o texto do dia da série Crise Climática, que acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. A série não pergunta quem ganha e quem perde: registra o que está medido. O dado novo desta terça veio da agricultura, como o texto de segunda antecipou. A Conab, a companhia pública de abastecimento, publicou o levantamento que fecha a safra 2025/26 e, no mesmo dia, a primeira projeção da safra 2026/27, a primeira desenhada inteira sob um El Niño declarado. Os dois documentos são primários e estão no site da companhia.

O que a Conab mediu e o que projetou

A safra 2025/26 terminou em 361,7 milhões de toneladas de grãos, alta de 2,6% sobre o ciclo anterior, em 83,5 milhões de hectares. A soja fechou em 180,4 milhões de toneladas, recorde da série, e o milho somou 144 milhões nas três colheitas do ano. Algodão e sorgo também bateram recorde; arroz, feijão e trigo caíram. Essa é a safra que foi colhida antes de o fenômeno se instalar: ela mede o ponto de partida, não o efeito do El Niño.

O efeito esperado aparece no segundo documento. A projeção inicial da safra 2026/27, feita com o Banco do Brasil, aponta 366,6 milhões de toneladas, alta de 1,4%, em 85,3 milhões de hectares. A soja fica em 181,6 milhões de toneladas, e o milho, em 148 milhões. O texto da companhia cita o fenômeno pelo nome ao justificar a cautela: espera "menor produtividade, decorrente principalmente do risco climático associado ao El Niño". A conta embute o padrão histórico do fenômeno no país: chuva a mais no Sul, chuva a menos no Norte e no Nordeste, e calor acima da média no Centro-Sul. É o desenho que o instituto nacional de meteorologia projeta para o trimestre que começa agora. O plantio da soja começa neste mês no Centro-Oeste.

O Pacífico com dois números

A medição do oceano ganhou uma dúvida que precisa ficar registrada. O boletim semanal do Centro de Previsão Climática da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, saiu na segunda. Ele traz +2,0 °C de anomalia na região Niño 3.4, a faixa central do Pacífico usada como referência, como o COMPASSO registrou no texto de segunda. A tabela histórica da série semanal, mantida pela mesma agência, traz outro valor para a mesma semana, a centrada em 9 de setembro. São 29,6 °C de temperatura na superfície e +2,9 °C de anomalia, depois de +2,7 °C na semana anterior. Os documentos não explicam a diferença entre os dois produtos. É fato que os dois números existem, cada um em documento primário da NOAA. A série passa a acompanhar os dois até a agência consolidar. Vale o cuidado registrado desde a estreia: a classificação oficial de um evento usa a média de três meses, não a de uma semana, como o COMPASSO registrou na estreia da série. Pelos dois números, o evento segue na faixa dos muito fortes. A chance de um episódio histórico acima de +2,5 °C no trimestre de outubro a dezembro segue estimada em 75% pela agência.

O que os cientistas dizem

A fala científica mais recente sobre o efeito no Brasil é de Carlos Nobre, o climatologista copresidente do Painel Científico para a Amazônia. Em fórum em São Paulo na sexta-feira, ele disse que o evento pode ser "o mais forte em mais de 100 anos". Disse ainda que o fenômeno já provoca seca na Amazônia e ondas de calor no inverno do Sudeste. O registro é da agência de notícias EFE, reproduzido pela revista Exame. A leitura internacional segue a registrada pela série. Para Celeste Saulo, a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, a previsão está "literalmente fora dos gráficos que usamos há quatro décadas". E o oceano global vem de um recorde de 21,1 °C na superfície, medido em 22 de agosto pelo serviço climático europeu Copernicus, como o COMPASSO registrou no sábado. Na costa do Peru, o desembarque de anchoveta, a base da pesca local, segue 80% menor, segundo a rádio RPP, em espanhol.

Os impactos por aqui

O quadro brasileiro combina colchão e risco. O colchão: a safra recorde recém-fechada segura o preço do alimento, e os reservatórios das hidrelétricas do Sul devem terminar setembro com 91,4% da capacidade. O número é do boletim do operador nacional do sistema elétrico, compilado pelo site especializado Cenário Energia. As demais regiões ficam com 73,5% no Norte, 67,1% no Nordeste e 55,8% no Sudeste e Centro-Oeste, o principal subsistema. O risco: a conta de luz já roda com bandeira amarela pelo quinto mês seguido, custo extra de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora. E a produtividade da safra nova depende de o padrão de chuva do El Niño não passar do histórico. Se o Sul receber chuva demais na colheita do trigo e o Norte secar além do projetado, o número de 366,6 milhões cai. É projeção com hipótese declarada, não medição.

O que observar

  • Nos próximos dias: o anúncio do mínimo anual do gelo marinho do Ártico pelo NSIDC, o centro americano de dados de neve e gelo, cuja última análise é de 3 de setembro.
  • Segunda, dia 21: o próximo boletim semanal do El Niño da NOAA, e a eventual convergência entre os dois números da agência.
  • Primeira semana de outubro: o boletim mensal do Copernicus com a anomalia global de setembro.
  • Quinta, dia 8 de outubro: a discussão diagnóstica mensal do El Niño da NOAA, que pode elevar a classificação oficial do evento.
  • Quinta, dia 15 de outubro: o primeiro levantamento oficial da safra 2026/27 da Conab, que substitui a projeção divulgada nesta terça.

Fontes

Conab (o fechamento da safra 2025/26, documento primário) · Conab (a primeira projeção da safra 2026/27, documento primário) · NOAA, Centro de Previsão Climática (o boletim semanal com +2,0 °C, documento primário) · NOAA (a tabela histórica da série semanal com +2,9 °C, documento primário) · NOAA (a discussão diagnóstica vigente, com os 75% de chance de evento histórico, documento primário) · Exame, via a agência EFE (a fala de Carlos Nobre) · ONU (a fala de Celeste Saulo, da Organização Meteorológica Mundial) · Copernicus (o recorde de temperatura do oceano, documento primário) · RPP, em espanhol (a queda de 80% no desembarque de anchoveta) · Inmet, o instituto nacional de meteorologia (o padrão de chuva projetado, documento primário) · Cenário Energia (os reservatórios projetados pelo operador do sistema) · O Tempo (a bandeira amarela de setembro) · NSIDC (as análises do gelo marinho, documento primário)

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