Energia · Análise
Clima: agosto empata com julho de 2023 como o mês mais quente
O serviço climático europeu Copernicus consolidou agosto de 2026 como o mês mais quente já registrado no planeta, empatado com julho de 2023: 16,96 °C de média do ar, 1,65 °C acima do período pré-industrial, o primeiro mês acima de 1,5 °C desde novembro de 2025. O oceano bateu recorde mensal fora dos polos, o gelo dos dois polos ficou abaixo da média, e a divergência entre os dois números do Pacífico da NOAA segue sem correção.
Leituras
- O serviço climático europeu mediu agosto de 2026 como o mês mais quente já registrado, empatado com julho de 2023, e o primeiro acima de 1,5 °C sobre o pré-industrial desde novembro.
- O oceano sustenta o recorde em duas séries independentes: a europeia mediu 21,07 °C de média em agosto, e a série diária americana traz pico preliminar de 21,23 °C em 8 de setembro.
- Um mês acima de 1,5 °C não rompe o limite do Acordo de Paris, que vale para a média de longo prazo: o dado mede o degrau em que o El Niño muito forte opera.
Este é o texto do dia da série Crise Climática, que acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. A série não pergunta quem ganha e quem perde: registra o que está medido. O dado novo desta quarta veio do ar. O serviço climático europeu Copernicus publicou nesta quarta a nota que consolida agosto de 2026 como o mês mais quente já registrado no planeta, empatado com julho de 2023. Foi também o primeiro mês acima de 1,5 °C sobre o período pré-industrial desde novembro de 2025. O boletim de origem é de 10 de setembro, e os números ainda não estavam na leitura acumulada da série.
O que o Copernicus mediu
A temperatura média do ar na superfície do planeta ficou em 16,96 °C em agosto, pela série europeia que começa em 1940. O valor supera por um centésimo o recorde anterior de julho de 2023 e, pela margem do próprio serviço, conta como empate. Foram 0,85 °C acima da média de 1991 a 2020. E foram 1,65 °C acima da estimativa para 1850 a 1900, o período pré-industrial. O trimestre de junho a agosto empatou com 2024 como o verão mais quente já medido no hemisfério norte. Um mês acima de 1,5 °C não rompe o Acordo de Paris, o tratado climático de 2015. O limite do acordo vale para a média de longo prazo, e um mês isolado não a define. É o cuidado que a série mantém desde a estreia. O oceano acompanhou. A temperatura média da superfície do mar fora dos polos ficou em 21,07 °C em agosto, recorde para o mês, empatado com março de 2024. No gelo, o Ártico de agosto ficou 0,6 milhão de km² abaixo da média, o 12º menor agosto da série. O entorno da Antártida ficou 1,2 milhão abaixo, o 4º menor.
As séries diárias seguem no mesmo sentido. A medição diária da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, é lida no Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine. Ela registrava 21,155 °C de média na superfície do mar entre as latitudes 60 Sul e 60 Norte em 14 de setembro. O pico preliminar de 21,23 °C de 8 de setembro, que o COMPASSO registrou no sábado, segue acima do maior valor consolidado da série, os 21,18 °C de 26 de agosto. O dado dos últimos catorze dias é preliminar e pode ser revisto. Já a medição semanal do Pacífico segue com dois números oficiais. O boletim da NOAA de segunda-feira manteve +2,0 °C de anomalia na região Niño 3.4, a faixa central de referência do El Niño. A tabela histórica da mesma agência traz +2,9 °C para a mesma semana. A divergência que o COMPASSO registrou na terça não foi corrigida, e a série segue acompanhando os dois números até a agência consolidar. O anúncio do mínimo anual do gelo ártico pelo NSIDC, o centro americano de dados de neve e gelo, ainda não saiu: a análise mais recente é de 3 de setembro.
O que os cientistas dizem
A leitura científica da nota europeia é de Samantha Burgess, a líder estratégica de clima do centro europeu de previsão do tempo, que opera o Copernicus. Ela escreveu: “agosto de 2026 foi um mês notável no registro climático global. Foi ao mesmo tempo o agosto mais quente e o mês mais quente já registrados, com temperaturas globais 1,65 °C acima dos níveis pré-industriais, marcando o retorno das temperaturas globais acima de 1,5 °C”. O quadro combina com a projeção americana para o Pacífico. A NOAA dá mais de 90% de chance a um El Niño muito forte no inverno do hemisfério norte. E dá 75% de chance a um evento histórico, acima de +2,5 °C, entre outubro e dezembro, como a série registrou na segunda-feira passada. Em espanhol, o site de meteorologia Meteored resumiu a nota europeia com a mesma hierarquia: recorde global, verão recorde na Europa ocidental e o degrau de 1,5 °C cruzado de novo.
O que muda na leitura acumulada
A série vinha registrando o calor pelo oceano e pelo Pacífico. O dado de agosto fecha o circuito pelo ar. O agosto mais quente da série da NASA, a agência espacial americana, já estava registrado, com +1,40 °C sobre a média de 1951 a 1980. Agora a série europeia, com base e método diferentes, chega à mesma posição e acrescenta a marca de 1,5 °C. Ar, oceano global, Pacífico equatorial e gelo dos dois polos apontam na mesma direção no mesmo mês. É fato que cada uma dessas séries está em recorde ou perto dele. É leitura possível, não fato medido, que o El Niño em curso empurre 2026 e 2027 para cima na tabela dos anos mais quentes: a resposta depende dos meses que ainda não aconteceram.
Os impactos por aqui
O quadro brasileiro segue o registrado na terça: colchão cheio, risco à frente. Os reservatórios das hidrelétricas do Sul devem terminar setembro com 91,4% da capacidade. A estratégia declarada do operador do sistema é preservar água por causa do El Niño, segundo o boletim compilado pelo site especializado Cenário Energia. A conta de luz roda com bandeira amarela. A bandeira de outubro sai no dia 25, pelo calendário da agência reguladora publicado pela Agência Brasil, a agência estatal de notícias. A safra 2026/27, projetada com o El Niño citado como risco, começa a ser plantada agora, como o COMPASSO registrou na terça. Um verão mais quente que o normal no Centro-Sul, o padrão histórico do fenômeno, pressiona o consumo de energia, a produtividade das lavouras e a saúde nas cidades.
O que observar
Nos próximos dias: o anúncio do mínimo anual do gelo ártico pelo NSIDC.
Segunda, dia 21: o próximo boletim semanal do El Niño da NOAA, e a eventual convergência entre os dois números da agência.
Sexta, dia 25: o anúncio da bandeira tarifária de outubro.
Primeira semana de outubro: o boletim mensal do Copernicus com a anomalia global de setembro.
Quinta, dia 8 de outubro: a discussão diagnóstica mensal do El Niño da NOAA.
Fontes
Copernicus (a nota desta quarta sobre agosto, documento primário) · Copernicus (o boletim de 10 de setembro e a fala de Samantha Burgess, documento primário) · Climate Reanalyzer (a temperatura diária do oceano, documento primário) · NOAA (o boletim semanal do El Niño de 14 de setembro, documento primário) · NOAA (a tabela histórica semanal do Niño 3.4, documento primário) · NOAA (o CO2 de agosto em Mauna Loa, documento primário) · NSIDC (a análise do gelo marinho de 3 de setembro, documento primário) · CNN (a classificação do El Niño muito forte) · Cenário Energia (os reservatórios e a estratégia do operador) · Agência Brasil, a agência estatal de notícias (o calendário das bandeiras) · Meteored, em espanhol (a leitura regional do recorde)
Os outros textos do dia: Copom e Federal Reserve decidem hoje em sentidos opostos · A conta da guerra chega ao Pentágono e o mundo espera o juro · Eleição 2026: quarto empate e a sanção pedida em Washington.
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