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Política monetária · Análise

Copom e Federal Reserve decidem hoje em sentidos opostos

O Federal Reserve, o banco central americano, anuncia às 15h de Brasília a decisão de juros desta quarta, e os contratos futuros dão 93% de chance à primeira alta desde 2023, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano. Depois das 18h30, o Copom, o comitê de juros do Banco Central brasileiro, deve anunciar o quinto corte seguido da Selic, de 14% para 13,75%. Se as duas apostas se confirmarem, a distância entre os dois juros encolhe meio ponto num único dia, com o petróleo perto de 108 dólares e o presidente americano pedindo em público o contrário do que o próprio Federal Reserve deve fazer.

Por COMPASSO16 de setembro de 2026atualizado em 17 de setembro às 2h4012 min de leituraTabuleiro: Política monetária

Leituras

  1. Se as duas decisões vierem como o mercado espera, a distância entre o juro brasileiro e o americano encolhe meio ponto num dia, e é essa distância que atrai os dólares que seguram o câmbio.
  2. O presidente americano passou a semana pedindo juro baixo, e a alta esperada testa em público a independência do Federal Reserve: o banco decidiria contra a vontade declarada de quem indicou seu presidente.
  3. O petróleo de guerra está dentro das quatro decisões da semana: ele puxa a inflação americana, a britânica e a japonesa para cima, e torna um corte brasileiro mais arriscado para o câmbio.

Atualização, 19h15. As duas decisões vieram como o mercado esperava. O Federal Reserve, o banco central americano, subiu o juro em 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, por 12 votos a 0. É a primeira alta desde 2023. O comunicado do comitê, documento primário, diz que a inflação “segue elevada” e que a alta “apoia um retorno mais tempestivo à meta de 2%”, em tradução do inglês. As projeções dos dirigentes, divulgadas junto com a decisão, indicam pela mediana mais uma alta de 0,25 ponto ainda em 2026, segundo a cobertura ao vivo do Yahoo Finance, o site financeiro americano. Na entrevista, Kevin Warsh, o presidente do Federal Reserve, resumiu, também em tradução: “o fato é simples: a inflação está alta demais, e há tempo demais”.

O Copom, o comitê de juros do Banco Central brasileiro, cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano. É o quinto corte seguido e o último antes do primeiro turno de 4 de outubro. O comunicado pede “serenidade e cautela” diante de um cenário de “elevação significativa da incerteza” e de expectativas de inflação desancoradas. O comitê não anunciou o fim do ciclo: “a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações”. Os trechos estão no BP Money, o site financeiro brasileiro; o texto integral fica na página do Copom, documento primário.

A distância entre o juro brasileiro e o americano encolheu meio ponto num único dia, como o texto abaixo antecipava. O dólar fechou quase estável, a R$ 5,15, antes do anúncio do Copom, segundo o site financeiro InfoMoney. A bolsa devolveu a alta da manhã depois da decisão americana: caiu 0,51%, aos 185.547 pontos, com a Petrobras em queda de mais de 3%, segundo a revista Exame. Nos Estados Unidos, o rendimento do Treasury de dez anos voltou a passar de 5%, e o índice Dow Jones caiu 1,2%. A leitura do texto se mantém: a alta veio apesar da semana de pressão pública, e o preço do dinheiro seguiu sendo fixado pela regra, e não pela vontade do governante.

Atualização, 02h40. Donald Trump reagiu à alta de juros na noite de quarta. Na própria rede social, escreveu, em tradução do inglês: “os juros nos Estados Unidos deveriam ser de 1%, ou menos, porque somos o melhor crédito do mundo”. No mesmo texto, pediu: “baixem os juros para os Estados Unidos da América, e rápido”, segundo a MS NOW, a rede americana de notícias a cabo antes chamada MSNBC. A repórteres, disse que mantém a confiança em Kevin Warsh, o presidente do Federal Reserve que ele próprio indicou. A crítica foi para o colegiado que votou com Warsh: “o conselho é muito hostil, eles são muito políticos, estão fazendo a coisa errada”, segundo a CNBC, a rede financeira americana. Disse ainda que não teria escolhido Warsh se quisesse alta de juros, segundo o site financeiro americano Seeking Alpha.

Atualização, 02h40. Para a leitura do texto, a decisão desta quarta está mantida, e o conflito ganhou prazo. Trump manteve o presidente que indicou e transferiu a crítica para o comitê. A mediana das projeções dos dirigentes, divulgada com a decisão, indica mais uma alta de 0,25 ponto ainda em 2026. A próxima reunião está marcada para 27 e 28 de outubro, segundo o calendário do Federal Reserve, documento primário. Até lá, cada dado de inflação americana deve reabrir a cobrança pública da Casa Branca sobre o banco central. Para o leitor brasileiro, o quadro do texto segue: juro americano mais alto atrai os dólares que seguram o câmbio e torna novos cortes da Selic mais arriscados.

As duas decisões de juros mais aguardadas do mês saem nesta quarta-feira, com três horas e meia entre elas. Às 15h de Brasília, o Federal Reserve, o banco central americano, encerra a reunião de dois dias do comitê que fixa a taxa básica. Os contratos futuros davam nesta manhã 93% de chance a uma alta de 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, segundo a publicação financeira americana Kiplinger. Seria a primeira alta do juro americano desde 2023. Depois das 18h30, o Copom, o comitê de política monetária do Banco Central brasileiro, anuncia a decisão sobre a Selic, a taxa básica daqui. As opções negociadas na bolsa brasileira dão 95% de chance a um corte de 0,25 ponto, de 14% para 13,75%, o quinto seguido, como o COMPASSO registrou na sexta-feira. É a última reunião do Copom antes do primeiro turno de 4 de outubro.

A semana não termina aí. O Banco da Inglaterra decide na quinta, e o Banco do Japão, na sexta, como o COMPASSO registrou na terça. O Nikkei, o jornal econômico japonês de referência, mantém em japonês a antecipação de alta de 1% para 1,25%, a maior taxa do Japão desde 1995, para conter o repasse do petróleo caro e do iene fraco. O pano de fundo é o mesmo para os quatro bancos centrais: o Brent, o petróleo de referência, fechou a terça a 108,75 dólares e era negociado entre 107 e 109 nesta quarta, segundo a plataforma de dados Investing.

Por que um deve subir enquanto o outro corta

A inflação americana explica a alta esperada. O índice de preços ao consumidor subiu 0,4% em agosto e acumula 3,4% em doze meses, segundo o escritório de estatísticas do trabalho dos Estados Unidos, documento primário. A energia acumula alta de 16,3% em doze meses. É o preço da guerra chegando à bomba, como o COMPASSO registrou quando o barril passou dos 100 dólares. O núcleo do índice, a conta que exclui alimentos e energia para enxergar a tendência, roda a 2,4% em doze meses, acima da meta de 2%. O mercado de títulos se antecipou. O rendimento do Treasury de dez anos, o título público que serve de referência para o crédito americano, tocou 5% nesta semana, o maior nível desde 2023. Nesta quarta, rodava a 4,97%, segundo a CNBC, a rede financeira americana.

A conta brasileira aponta para o outro lado. O IPCA, o índice oficial de preços, caiu 0,32% em agosto, a maior deflação em quatro anos, e o acumulado de doze meses desceu a 4,22%, segundo o site financeiro InfoMoney. A queda tem prazo de validade. Ela veio do bônus de Itaipu, o crédito da usina devolvido na conta de luz de agosto, que não se repete, e da gasolina travada por decreto até 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno. O boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com analistas, trouxe na segunda a terceira queda seguida da expectativa de inflação: 4,90% para 2026. O mesmo boletim, documento primário, manteve a projeção da Selic no fim do ano em 13,75%. Em outras palavras: o mercado espera o corte de hoje e mais nenhum até dezembro.

A decisão americana sai sob pressão pública rara. Donald Trump escreveu no dia 4, na própria rede social: “abaixem a taxa ou eu paro de negociar com países com os quais temos déficit”. No domingo, disse que os Estados Unidos são “tão fortes que deveriam pagar o menor juro do mundo”. Na véspera da decisão, mudou o tom: Kevin Warsh, o presidente do Federal Reserve, “fará o que tem de fazer”, segundo a PBS, a rede pública americana. Pela contagem da NBC, a rede americana de notícias, presidente, vice-presidente, secretário do Tesouro e o principal assessor econômico da Casa Branca criticaram a alta em público na última semana. Warsh assumiu neste ano prometendo prioridade ao controle de preços e mexeu no dólar brasileiro logo na estreia, como o COMPASSO registrou em agosto. No Brasil, Gabriel Galípolo, o presidente do Banco Central, sinalizou juro “em nível elevado” por período “bastante prolongado”, segundo a Gazeta do Povo, o jornal curitibano lido à direita. Lula, em comício no sábado, chamou a taxa de juros de “a grande dívida do Brasil”, segundo o site Hora do Povo, lido à esquerda.

Quem fica com a renda do juro

O juro é o preço do dinheiro, e as duas decisões repartem renda em sentidos opostos. Nos Estados Unidos, uma alta transfere renda de quem deve para quem empresta. O capital que carrega títulos públicos passa a receber perto de 5% ao ano do Tesouro americano, que paga mais caro para rolar a própria dívida. O trabalho paga duas vezes: o crédito da casa e do carro encarece agora, e a demanda que sustenta o emprego esfria depois. No Brasil, o corte devolve pouco. Uma Selic de 13,75% com inflação de 4,22% mantém um juro real perto de 9% ao ano, um dos maiores do mundo. O capital que empresta ao Estado brasileiro segue com a maior fatia da renda pública, e o Tesouro Nacional segue pagando por ela. O trabalho ganha na margem, com crédito um pouco mais barato, e continua pagando o juro embutido em cada preço.

Há uma segunda partilha em disputa, menos visível. Quando o preço do dinheiro é fixado por uma regra de meta, a sociedade sabe por que paga o que paga. Quando ele passa a depender da vontade declarada de um governante, o custo do crédito vira aposta sobre humor político, e a sociedade perde um grau de liberdade. A alta esperada desta tarde, se vier, mantém a regra funcionando. A semana de pressão mostra o tamanho da força que trabalha contra ela.

Os impactos por aqui

O primeiro efeito é o câmbio. O dólar rodava perto de R$ 5,15 nesta quarta, quase estável. A bolsa subia meio por cento, aos 186,5 mil pontos, com as ações da Petrobras em alta de mais de 3%, segundo o Rio Times, o site brasileiro de notícias em inglês. Se o corte e a alta vierem juntos, a distância entre os dois juros encolhe meio ponto num único dia. É essa distância que remunera quem traz dólares para o país; quanto menor ela fica, menor a proteção do real. O segundo efeito é a dívida e o crédito: cada 0,25 ponto a menos na Selic alivia em bilhões por ano o serviço da dívida pública e barateia na margem o financiamento de famílias e empresas. O terceiro é eleitoral. A decisão sai a 18 dias do primeiro turno, com a gasolina segurada até depois da votação, e entra na disputa de versões sobre a economia que a série eleitoral acompanha, como o COMPASSO registrou na terça.

Entenda o contexto

Bancos centrais decidem juros por mandato para tirar o preço do dinheiro da disputa política de curto prazo. O arranjo se firmou depois da inflação dos anos 1970, quando governos que controlavam o juro o mantiveram baixo demais por tempo demais. O Federal Reserve existe desde 1913 e presta contas ao Congresso. Presidentes americanos já pressionaram seus dirigentes antes, mas raramente em campanha aberta e diária. No Brasil, o Banco Central ganhou autonomia formal por lei em 2021, com mandatos fixos para a diretoria, criados justamente para atravessar eleições. O juro real brasileiro está entre os maiores do mundo há três décadas, herança de uma moeda que já quebrou e de uma dívida pública em boa parte atrelada ao próprio juro. Por isso cada reunião do Copom reparte, em proporção, mais renda do que uma decisão parecida reparte na maior parte do mundo. No jogo do excedente, a semana em que quatro bancos centrais decidem sob o mesmo barril define quem paga a conta da guerra: quem deve ou quem empresta.

Fontes

Federal Reserve (o calendário da reunião de 15 e 16 de setembro, documento primário) · Banco Central (a página do Copom, documento primário) · Banco Central (o boletim Focus de 14 de setembro, documento primário) · Escritório de estatísticas do trabalho dos Estados Unidos (a inflação americana de agosto, documento primário) · Nikkei, em japonês (a alta esperada do Banco do Japão) · Kiplinger (as probabilidades nos contratos futuros) · CNBC (o Treasury de dez anos perto de 5%) · PBS (a fala de Trump sobre Warsh na véspera) · NBC (a semana de pressão pública contra a alta) · Agência Brasil, a agência estatal de notícias (a expectativa de corte da Selic) · InfoMoney (o IPCA de agosto) · Exame (a reunião do Copom) · Gazeta do Povo, lida à direita (a sinalização de Galípolo) · Hora do Povo, lido à esquerda (as falas de Lula sobre o juro) · Rio Times (câmbio, bolsa e Petrobras nesta quarta) · Investing (o Brent do dia)

Os outros textos do dia: A conta da guerra chega ao Pentágono e o mundo espera o juro · Eleição 2026: quarto empate e a sanção pedida em Washington · Clima: agosto empata com julho de 2023 como o mês mais quente.

O que os futuros precificam para o Federal Reserve hoje

  • Alta de 0,25 ponto, para 3,75% a 4%93%
  • Manutenção ou corte7%

Precificação dos contratos futuros de juros americanos na manhã de 16/09/2026, segundo a publicação financeira Kiplinger.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.