Arquitetura de segurança · Análise
A conta da guerra chega ao Pentágono e o mundo espera o juro
A leitura cruzada desta quarta: o inspetor-geral do Pentágono contou 33,4 bilhões de dólares de custo de guerra e centenas de prédios danificados em bases americanas de oito países. A inflação britânica subiu a 3,1% na véspera da decisão do Banco da Inglaterra, o Japão espera a maior taxa de juros desde 1995, e o estreito de Ormuz chegou ao dia 200 com dois navios atacados desde sábado. No México, o segundo Grito de Sheinbaum reuniu mais de 300 mil pessoas, e em Lagos a abertura de capital da refinaria Dangote segue aberta até 13 de outubro.
Leituras
- O relatório do inspetor-geral do Pentágono põe número no custo da guerra para os Estados Unidos: 33,4 bilhões de dólares e centenas de prédios atingidos em bases de oito países, sem contar reparos.
- A inflação britânica subiu a 3,1% na manhã anterior à decisão do Banco da Inglaterra, com os combustíveis na conta de transporte: o juro do mundo rico decide sob o mesmo barril.
- Na Nigéria, a maior abertura de capital da história da África fica aberta até 13 de outubro: a refinaria Dangote busca 1,6 bilhão de dólares de milhões de pequenos investidores.
Atualização, 19h15. O juro que o mundo esperava saiu. O Federal Reserve, o banco central americano, subiu a taxa em 0,25 ponto, para 3,75% a 4% ao ano, a primeira alta desde 2023, segundo o comunicado do comitê, documento primário. A mediana das projeções dos dirigentes indica mais uma alta ainda em 2026. À noite, o Copom, o comitê de juros do Banco Central brasileiro, cortou a Selic para 13,75%, o quinto corte seguido. A leitura completa das duas decisões está no texto do dia sobre os juros. Para o quadro desta página, muda o pano de fundo de quinta e sexta. O Banco da Inglaterra e o Banco do Japão decidem depois de um aperto americano confirmado, e a pressão sobre as moedas emergentes citadas acima aumenta.
Esta é a leitura cruzada desta quarta-feira, 16 de setembro, o texto que percorre as seis regiões e compara as versões de cada uma. O fato do dia, a dupla decisão de juros do Federal Reserve e do Copom em sentidos opostos, tem texto próprio. Aqui entra o resto do mundo que decide junto. A inflação voltou a subir em Londres. A guerra do Golfo ganhou uma conta oficial em Washington. E a maior abertura de capital da história da África segue juntando dinheiro no meio disso.
Américas
A disputa comercial com o Canadá entrou em fase nova. A sobretaxa americana adicional de 50% sobre colchões, bebidas, barcos, queijos, papéis, aço e alumínio canadenses entrou em vigor na terça, segundo o La Presse, o jornal de Montreal, em francês. No dia 29, as tarifas sobre bebidas alcoólicas, motocicletas e derivados de leite viram proibição de importação. São as proclamações que o COMPASSO registrou na semana passada. Mark Carney, o primeiro-ministro canadense, repetiu em francês que “o Canadá está sempre pronto a concluir um acordo justo”, segundo o mesmo jornal. As contratarifas canadenses sobre 28 bilhões de dólares em produtos americanos seguem de pé. No México, Claudia Sheinbaum, a presidente, deu o segundo Grito da independência da sacada do Palácio Nacional. Mais de 300 mil pessoas lotaram a praça central da capital, a maior marca já registrada na cerimônia, com vivas aos migrantes, segundo o site Latin Times. Na Argentina, o risco-país voltou a passar de 500 pontos, com o peso perto de 1.500 por dólar. O orçamento de 2027 enviado ao Congresso projeta crescimento de 4% com inflação de 18%, segundo o Rio Times, o site brasileiro de notícias em inglês.
Ásia oriental
O Japão vive a véspera da própria decisão. O Banco do Japão se reúne quinta e sexta. O Nikkei, o jornal econômico de referência, escreve em japonês que a alta de 1% para 1,25% viria “para conter o risco de estouro dos preços causado pelo petróleo caro e pelo iene fraco”. Seria a maior taxa japonesa desde 1995, no menor intervalo entre altas do ciclo iniciado em 2024. Na China, o Ministério das Relações Exteriores manteve os informes diários da semana com o porta-voz Guo Jiakun, documento primário em chinês. A preparação da viagem de Xi Jinping a Washington, no dia 24, avança por videochamadas entre o secretário do Tesouro americano e o vice-premiê chinês, segundo o site americano Axios. Será a segunda reunião de cúpula do ano entre os dois presidentes, depois da de Pequim, em maio, e Xi deve levar executivos. Em Taiwan, o balanço diário do Ministério da Defesa, documento primário, contou 4 aeronaves e 6 navios militares chineses no domingo. Na segunda, foram 8 aeronaves e 9 navios, dentro da rotina de patrulhas em volta da ilha.
Sul e Sudeste da Ásia
Na Índia, o petróleo de guerra chegou ao índice de preços. A inflação ao consumidor subiu de 4,45% para 4,82% em agosto. Os preços na bomba seguem congelados, com a gasolina a 102 rupias por litro em Délhi, mas altas “não estão descartadas”, segundo o site indiano News24. A rádio estatal indiana já havia contado que cerca de 70% do petróleo importado pelo país entra por rotas fora do estreito de Ormuz. No Paquistão, a mediação segue. Com o Catar, o governo apresentou uma proposta de cessar-fogo de dez dias entre Washington e Teerã, segundo o agregador independente IranWarLive. Não havia confirmação oficial das partes até esta quarta. Na Indonésia, o governo prometeu segurar o preço do combustível subsidiado “até 31 de dezembro de 2026, mesmo com o petróleo a 106 dólares o barril”. O registro é do IDN Times, o site indonésio de notícias, em indonésio.
Golfo e Oriente Médio
O estreito de Ormuz chegou ao dia 200 de fechamento, e a conta da guerra apareceu por escrito em Washington. O inspetor-geral do Pentágono, o auditor interno da Defesa americana, publicou relatório sobre os ataques iranianos às bases dos Estados Unidos. O documento fala em centenas de prédios danificados ou destruídos em oito países, dezenas de aeronaves atingidas e custo estimado de 33,4 bilhões de dólares, sem contar reparos de infraestrutura. O registro é da cobertura ao vivo do Times of Israel, o site israelense em inglês. Imagens obtidas pela CBS, a rede americana, mostram danos em instalações na Arábia Saudita, no Kuwait e no Bahrein. No mar, pelo menos dois navios foram atacados desde sábado, apesar da rota escoltada pela marinha americana na costa de Omã, segundo a CNBC, a rede financeira americana. O seguro de guerra roda em dezenas de milhões de dólares por viagem, segundo a publicação de navegação Lloyd’s List. A reunião de Salalah, que apresentaria a rota temporária para Ormuz, segue sem nova data, como o COMPASSO registrou na segunda.
A dúvida do dia é o oleoduto Leste-Oeste, a alternativa saudita que atravessa o país até o mar Vermelho. Ele está fechado desde o ataque de drones do dia 10 a duas estações de bombeamento. Chris Wright, o secretário de Energia americano, disse que ele volta “em dias”, e a fala derrubou o Brent na abertura. Analistas ouvidos pelo site especializado Rigzone falam em semanas. A parada tira do mercado até 120 milhões de barris em um mês, e os estoques no porto de Yanbu cobrem cerca de quatro dias. Na saída sul do mar Vermelho, os houthis seguem no controle que o COMPASSO registrou na sexta-feira, agora com o porto de Mokha e uma ilha na entrada do estreito.
AS VERSÕES, sobre a guerra no dia 200:
Na imprensa ocidental: o relatório do inspetor-geral do Pentágono expõe o custo para os Estados Unidos, 33,4 bilhões de dólares e centenas de prédios atingidos, segundo o Times of Israel.
Na versão do governo do Irã, pela agência estatal IRNA, em persa: o porta-voz Esmail Baghaei defende o fechamento do estreito e chama de “vergonhosa” a crítica do ministro do Exterior da Alemanha ao ato iraniano.
Na imprensa do Golfo: o Asharq Al-Awsat, em árabe, descreve Riade combinando “segurança de suprimento e diplomacia para acalmar os mercados de energia”, com 4 a 5 milhões de barris diários embarcados fora de Ormuz.
Europa e o espaço pós-soviético
A Rússia lançou 80 drones contra a Ucrânia entre a noite de terça e a manhã desta quarta, a partir de cinco pontos, incluindo a Crimeia. A defesa aérea neutralizou 63, e houve impactos em 7 localidades. O balanço é das Forças Armadas ucranianas, publicado pela Ukrainska Pravda, o jornal de referência de Kiev, em ucraniano: “80 drones russos atacaram a Ucrânia: a defesa aérea neutralizou mais de 60, há impactos”. Em Bruxelas, a União Europeia estuda sanções novas contra bancos russos e o comércio de petróleo do país, segundo reportagem da agência financeira Bloomberg reproduzida pelo Yahoo. Em Londres, o dado do dia saiu de manhã. A inflação britânica subiu de 2,9% para 3,1% em agosto, a maior em cinco meses, com o transporte puxado pelos combustíveis. O número é do escritório nacional de estatísticas do Reino Unido, documento primário. O Banco da Inglaterra decide juros na quinta. O mercado dá 97% de chance à manutenção em 3,75%, com risco de sinalização mais dura por causa do petróleo, segundo o site financeiro InvestingLive.
África
Em Lagos, a maior abertura de capital da história do continente segue aberta. Aliko Dangote, o dono da maior refinaria da África, tocou o sino da bolsa nigeriana na segunda, como o COMPASSO registrou na terça. A venda de 4,1 bilhões de ações a 525 nairas, cerca de 35 centavos de dólar, fica aberta até 13 de outubro. O lote mínimo, de dez ações, custa o equivalente a três dólares e meio, desenhado para o pequeno investidor nigeriano. A refinaria foi avaliada em cerca de 49 bilhões de dólares. A listagem, prevista para novembro, pode aumentar em 40% o valor de toda a bolsa de Lagos, segundo o jornal nigeriano Vanguard. No Quênia, a agência reguladora de energia manteve os tetos de preço de combustível até 14 de outubro, apesar do custo maior de importação. A gasolina segue a 214 xelins por litro em Nairóbi, segundo o jornal queniano The Star.
Os impactos por aqui
O Brasil entra nesse quadro por três portas. A primeira é o barril: entre 107 e 109 dólares, ele pressiona o frete e a gasolina que o Tesouro segura por decreto até 5 de outubro. A promessa americana de reparo “em dias” do oleoduto saudita é, por ora, a única notícia que puxa o preço para baixo. A segunda é o juro global. Se o Japão e a Inglaterra confirmarem o aperto na sequência da decisão americana desta tarde, as moedas emergentes perdem atração, do peso argentino à rupia indonésia, e o real está nessa lista. A terceira é o comércio. A transformação de tarifa em proibição contra o Canadá, marcada para o dia 29, vira precedente na véspera da reunião ministerial do tarifaço entre Brasil e Estados Unidos, no dia 30, que a série eleitoral registrou na terça.
Entenda a região
A presença militar americana no Golfo tem quase meio século de camadas. Depois da revolução iraniana e da invasão soviética do Afeganistão, em 1979, Washington declarou o Golfo interesse vital. Em 1983, criou um comando militar próprio para a região. A Quinta Frota da marinha está sediada no Bahrein desde 1995. A maior base aérea americana do Oriente Médio fica no Catar. Há instalações na Arábia Saudita, no Kuwait, nos Emirados, em Omã, no Iraque e na Jordânia. Essa rede foi construída para garantir que o petróleo da região chegasse ao mundo sem que nenhuma potência local controlasse a saída. A guerra atual inverteu a conta: as bases viraram alvos, e o relatório desta semana mede em dólares o custo de mantê-las sob fogo. Quem controla a infraestrutura da rota segue decidindo a renda de escassez do petróleo. Pagar por essa infraestrutura, em prédios, aeronaves e seguros, virou parte do preço do barril.
Fontes
Times of Israel (o relatório do inspetor-geral do Pentágono) · Administração Marítima dos Estados Unidos (o aviso aos navios no mar Vermelho, documento primário) · Lloyd’s List (o seguro de guerra por viagem) · CNN (o adiamento de Salalah sem nova data) · IRNA, em persa (a defesa iraniana do fechamento do estreito) · Asharq Al-Awsat, em árabe (os embarques sauditas fora de Ormuz) · CNBC (os navios atacados e o Brent do dia) · Rigzone (o prazo real do oleoduto Leste-Oeste) · CNBC (a promessa de reparo “em dias”) · La Presse, em francês (a sobretaxa americana em vigor) · La Presse, em francês (a declaração de Carney) · Latin Times (o Grito de Sheinbaum) · Rio Times (os mercados argentinos) · Nikkei, em japonês (a alta esperada do Banco do Japão) · Ministério das Relações Exteriores da China, em chinês (os informes do porta-voz, documento primário) · Axios (a preparação da cúpula Trump-Xi) · Ministério da Defesa de Taiwan (o balanço diário, documento primário) · News24 (a inflação e a bomba na Índia) · News On Air, a rádio estatal indiana (o petróleo fora de Ormuz) · IranWarLive, agregador independente (a proposta de cessar-fogo de dez dias) · IDN Times, em indonésio (o congelamento do combustível subsidiado) · Ukrainska Pravda, em ucraniano (os 80 drones da noite) · Bloomberg, via Yahoo (as sanções europeias em estudo) · Escritório nacional de estatísticas do Reino Unido (a inflação britânica de agosto, documento primário) · InvestingLive (a expectativa para o Banco da Inglaterra) · Vanguard (a abertura de capital da Dangote) · The Star (os tetos de combustível no Quênia)
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