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Arquitetura de segurança · Análise

A Rússia abre três dias de votação com observadores barrados

A leitura cruzada desta sexta: a Rússia começou a eleger os 450 deputados da Duma com voto online em escala inédita, quase 1.300 observadores barrados e mais de 1 milhão de votos antecipados no Donetsk ocupado. A Índia viu a lei Graham transformar em alvo a metade russa do petróleo que importa. Wall Street chega ao vencimento trimestral um dia depois de subir com a alta do Fed, a Argentina voltou a encolher, a semana saudita terminou sob ataques cruzados com os houthis, e a maior abertura de capital da África segue aberta até 13 de outubro.

Por COMPASSO18 de setembro de 2026atualizado às 19h1312 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. A eleição russa começa com voto online em escala inédita e quase 1.300 observadores barrados: a apuração que ninguém vê decide 450 cadeiras em plena guerra.
  2. A Índia comprou da Rússia metade do petróleo importado em julho e virou o alvo real da tarifa de 100% da lei Graham: a energia de 1,4 bilhão de pessoas entrou na guerra comercial.
  3. Um dia depois da alta do Fed, Wall Street subiu 1,14% e chega nesta sexta ao vencimento trimestral que movimenta bilhões: o mercado americano, por ora, tratou o juro maior como notícia boa.

Atualização, 19h13. O primeiro dia de votação terminou com comparecimento acima de 21%, segundo a comissão eleitoral central russa, relatada pelo Meduza, o site russo independente editado no exílio, em russo. Mais da metade dos inscritos no voto online já tinha votado. O mesmo Meduza registrou dois fatos novos. O sistema eletrônico de Moscou passou a verificar se o eleitor usa VPN, o programa que esconde de onde vem a conexão. E na região de Kirov dois candidatos ficaram fora da cédula impressa, e a votação regional dali foi adiada para 2027. Em Sochi, seções fecharam temporariamente por alertas de ataque aéreo, segundo a emissora europeia Euronews. O quadro que o texto descreve se acentua: o voto que ninguém audita cresce, e a fiscalização encolhe.

Nos Estados Unidos, o vencimento trimestral passou sem sobressalto. O S&P 500 subiu 0,17% e o Nasdaq subiu 0,39%, com o rebalanceamento que dobrou o peso da SpaceX concluído no fechamento, segundo a revista Exame. O Brent, o barril de referência, caiu 0,91% e fechou a 103,87 dólares, no terceiro dia seguido de queda. A lei Graham seguia sem a assinatura de Donald Trump até o fim da tarde.

Esta é a leitura cruzada desta sexta-feira, 18 de setembro. O texto percorre as seis regiões e compara as versões de cada uma. O fato do dia tem texto próprio: o Banco do Japão subiu o juro a 1,25% e fechou a semana em que o crédito do mundo rico encareceu junto. Aqui entra o resto do mundo em movimento. A Rússia abriu três dias de votação para a Duma, a câmara baixa do parlamento. A Índia mediu o tamanho da própria exposição à lei americana de sanções. E a Arábia Saudita fechou a semana trocando ataques com os houthis do Iêmen.

Américas

Nos Estados Unidos, a sexta é de vencimento trimestral simultâneo de contratos futuros e opções, o pregão que concentra volume e oscilação na última hora. Há um ingrediente extra neste trimestre. No rebalanceamento do índice Nasdaq-100, o peso da SpaceX, a empresa espacial de Elon Musk, mais que dobra no fechamento. A mudança deve disparar de 15,5 a 22 bilhões de dólares em compras automáticas dos fundos que seguem o índice, segundo o site financeiro TheStreet. A véspera foi de alta: o S&P 500 subiu 1,14% na quinta. Foi a primeira sessão cheia depois da alta do Federal Reserve, que o texto do dia descreve. Donald Trump, por sua vez, ainda não assinou a lei Graham, aprovada na quarta. A revista Newsweek nota que os conselheiros recomendam a assinatura. A caneta virou o teste da disposição real do presidente de apertar Moscou.

Na Argentina, a economia voltou a encolher. O PIB caiu 0,6% no segundo trimestre ante o primeiro, a primeira queda em dois anos, segundo o INDEC, a agência argentina de estatística. O desemprego subiu a 7,9%, o maior nível desde 2021, alcançando 1,73 milhão de pessoas. A informalidade chegou a 45% dos ocupados. O Infobae, o site portenho, em espanhol, registra a queda de 2,4% do consumo das famílias no trimestre. Só a exportação cresceu. O risco-país, o prêmio cobrado para emprestar ao governo, tocou 515 pontos na véspera. É o maior nível desde agosto.

Ásia oriental

O fato da região é a alta do juro japonês, que tem texto próprio nesta sexta. No estreito de Taiwan, o ministério da Defesa da ilha registrou uma patrulha de prontidão de combate chinesa na manhã desta sexta. Foram 20 saídas de aeronaves desde as 8h24, além de navios de guerra. Doze aeronaves cruzaram a linha média, a divisa informal no meio do estreito. O balanço oficial, em chinês, é documento primário, e veio com a resposta padrão: aeronaves, navios e mísseis de costa para monitorar. O movimento acontece a seis dias da viagem de Xi Jinping a Washington, marcada para o dia 24. A preparação segue por videochamadas entre o Tesouro americano e o vice-premiê chinês, como o COMPASSO registrou na quinta.

Sul e Sudeste da Ásia

A Índia acordou nesta sexta fazendo a conta da própria exposição. A lei Graham autoriza tarifas de até 100% sobre os cinco maiores compradores de petróleo e gás russos. E mira uma dependência que a guerra criou. A fatia russa nas importações indianas de petróleo saltou de 18,7% em fevereiro para perto de 50% em julho. São 2,96 milhões de barris por dia, segundo o jornal The National, de Abu Dhabi. No mesmo período, a compra do Oriente Médio caiu 63%. O ministério das Relações Exteriores indiano respondeu que o país “segue firmemente comprometido com a segurança energética de 1,4 bilhão de pessoas”, em tradução do inglês. E que tomará “todas as medidas necessárias” para proteger o próprio comércio. Rachel Ziemba, analista de energia e sanções ouvida pelo mesmo jornal, aponta um efeito paradoxal. A ameaça pode antecipar compras russas, para aproveitar o desconto antes de a tarifa existir. A China, o outro alvo, comprava 1,89 milhão de barris por dia da Rússia em julho, 15% menos que em fevereiro. E recebe cerca de 800 mil barris diários por oleoduto, fora do alcance de uma tarifa sobre carga marítima.

Golfo e Oriente Médio

A Arábia Saudita fechou a semana em guerra aberta com os houthis, o grupo do Iêmen alinhado ao Irã. Na quinta, os dois lados trocaram ataques pela fronteira. A aviação saudita atingiu as províncias de Jawf, Bayda, Marib e Taiz. Os houthis mantiveram drones e mísseis contra o sul do reino, segundo a CNBC, a rede financeira americana. A semana teve um marco. A defesa saudita derrubou na terça um drone ao sul de Meca, antes do espaço aéreo proibido sobre a cidade santa. Autoridades falaram em “linha vermelha” cruzada. O jornal Al-Quds Al-Arabi, em árabe, registrou o segundo ataque em cinco dias à refinaria da Aramco em Jazan. A unidade processa 400 mil barris por dia na costa do mar Vermelho. Os ataques do dia 8 tinham ferido 73 civis em quatro cidades sauditas, como o COMPASSO registrou na ocasião. No mercado, o barril seguiu cedendo, na terceira sessão seguida de queda. O Brent rodava em 104,64 dólares, e o petróleo americano passou instantes abaixo de 100. A diplomacia que pode reabrir o estreito de Ormuz está no texto de quinta.

Europa e o espaço pós-soviético

A Rússia abriu nesta sexta três dias de votação para as 450 cadeiras da Duma, a câmara baixa do parlamento. É a primeira eleição legislativa desde o início da guerra em escala total na Ucrânia. O partido governista Rússia Unida defende a maioria que tem desde 2003. A marca do primeiro dia foi o voto online. Até o meio-dia de Moscou, o total de votos eletrônicos era 100 vezes maior que o da eleição de 2021. O registro é do Meduza, o site russo independente no exílio. A comissão eleitoral central contou mais de 20% de comparecimento já no primeiro dia. O mesmo Meduza lista o outro lado do recorde. Quase 1.300 observadores do partido comunista e do liberal Yabloko foram barrados das seções. Servidores públicos relataram ordem de votar online sob ameaça de demissão. E Yulia Kuznetsova, candidata do partido Verde, está desaparecida desde a véspera. No Donetsk ocupado, a autoridade instalada pela Rússia declarou comparecimento antecipado de 75%, mais de 1 milhão de votos. Monitores consideram o número implausível.

AS VERSÕES, sobre o primeiro dia de votação:
Na imprensa ocidental: os russos começam três dias de voto numa eleição desenhada para consolidar o poder do Kremlin, segundo o despacho da agência AP publicado pela emissora texana KSAT.
Na versão do governo da Rússia, pela agência estatal RIA Novosti, em russo: o voto eletrônico em Moscou “começou em regime normal”. Cerca de 1 milhão votou online na capital no primeiro dia, e mais de 4 milhões se inscreveram para votar pela internet.
Na imprensa russa independente: o Meduza, editado no exílio em Riga, conta os observadores barrados e as panes nas urnas eletrônicas de Moscou. E registra tentativas de suborno de fiscais, com vodca em Ufá e dinheiro na Tchuváchia.

A eleição corre um dia depois do maior ataque do mês contra Kiev, que feriu 20 pessoas. O ataque veio horas depois de a Câmara americana aprovar a lei de sanções, como o COMPASSO registrou na quinta. A lei espera a assinatura de Trump, e os conselheiros da Casa Branca recomendam sancionar, segundo a Newsweek.

África

A maior abertura de capital da história africana entrou no quarto dia de subscrição. A refinaria Dangote, de Lagos, quer levantar 1,6 bilhão de dólares. O plano é dobrar a capacidade até 1,4 milhão de barris por dia em 2028 e virar a maior refinaria do mundo. O pacote mínimo custa 5.250 nairas por 10 ações, cerca de 4 dólares. A procura derrubou aplicativos de investimento no primeiro dia, como o COMPASSO registrou na quinta. A subscrição vai até 13 de outubro, e a negociação em bolsa começa em novembro. Aliko Dangote, o dono do grupo, defende a avaliação de 49 bilhões de dólares. A comparação incômoda é com refinarias americanas e turcas que valem um quarto disso, segundo o site The Africa Report. O grupo também marcou para o dia 30 a pedra fundamental da refinaria de Lamu, no Quênia, orçada em cerca de 16 bilhões de dólares. Quênia, Etiópia e Ruanda receberam oferta de 30% de participação, segundo o boletim de negócios Billionaires Africa.

Os impactos por aqui

Três movimentos do dia tocam o Brasil por caminhos diferentes. O primeiro é o do dinheiro. O aperto do mundo rico, que tem texto próprio, encareceu o financiamento externo e obrigou o Banco Central a vender dólares nesta manhã. O segundo é a Argentina em recessão: o vizinho é um dos principais compradores da indústria brasileira. Consumo argentino caindo 2,4% no trimestre é encomenda a menos para fábrica daqui. O terceiro é a lei Graham. Se a tarifa de 100% sair do papel, o petróleo russo com desconto que abastece Índia e China procura outros destinos. O preço do diesel importado pelo Brasil entra nessa conta. É um efeito possível, não um fato: a lei ainda espera a assinatura.

Entenda a região

A eleição que a Rússia abriu nesta sexta é a nona da Duma desde o fim da União Soviética. A competição real acabou cedo nessa série. Desde 2003, o Rússia Unida controla a casa. As regras foram sendo ajustadas a cada ciclo: partidos de oposição impedidos de registrar candidatos, o voto espalhado por três dias desde a pandemia, e o voto eletrônico remoto expandido a cada eleição. Esse formato não permite recontagem independente. Em 2011, a fraude denunciada nas urnas levou às maiores manifestações do período Putin. Em 2021, os aliados de Alexei Navalny organizaram o voto útil contra o governo. A resposta foi a censura aos aplicativos que o distribuíam. A eleição de 2026 acrescenta duas camadas. É a primeira da guerra em escala total, com votação nos territórios ucranianos ocupados. E é a primeira em que o voto online, que nenhum observador consegue auditar, disputa com a urna física o posto de canal principal do eleitor russo.

Fontes

AP, via KSAT (a abertura da votação de três dias) · RIA Novosti, em russo (a versão do governo da Rússia sobre o voto online) · RIA Novosti, em russo (o 1 milhão de votos eletrônicos em Moscou) · Meduza, o site russo no exílio (os observadores barrados e o Donetsk ocupado) · TheStreet (o vencimento trimestral e o rebalanceamento da SpaceX) · Newsweek (a assinatura pendente da lei Graham) · Infobae, em espanhol (a queda do PIB argentino) · INDEC (as contas nacionais do segundo trimestre, documento primário) · Rio Times (o risco-país argentino em 515 pontos) · Ministério da Defesa de Taiwan, em chinês (a patrulha desta sexta, documento primário) · The National (a exposição de Índia e China ao petróleo russo) · CNBC (o barril e os ataques cruzados de quinta) · ABC News (o drone derrubado perto de Meca) · Al Jazeera (a resposta firme prometida por Riad) · Al-Quds Al-Arabi, em árabe (o segundo ataque em cinco dias à refinaria de Jazan) · The Africa Report (a defesa da avaliação de 49 bilhões) · Billionaires Africa (a subscrição da Dangote e o projeto de Lamu)

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