Comércio global · Análise
O barril cai a 103 e o petróleo saudita volta a cruzar Ormuz
O Brent caiu a cerca de 103 dólares nesta quinta, o segundo dia seguido de queda, depois de rodar entre 107 e 109 na véspera. A Aramco, a petroleira estatal saudita, vendeu cerca de 20 milhões de barris a refinarias da Ásia e voltou a embarcar petróleo pelo estreito de Ormuz, transferido de navio a navio sob proteção da marinha americana. Trump disse que a guerra está, nas palavras dele, com sorte perto do fim, e o chanceler do Irã acenou em Pequim com a volta da diplomacia.
Leituras
- A queda do barril veio de sinais diplomáticos e de uma passagem improvisada, não de petróleo novo: as exportações do Golfo seguiram em agosto 39% abaixo do nível de janeiro.
- Quem define quais barris cruzam o estreito hoje é a escolta militar americana, e a renda do petróleo passa a depender dessa decisão: o comércio de energia perdeu a regra comum que valia para todos.
- Para o Brasil, o barril mais baixo alivia a inflação com semanas de atraso, mas a bolsa responde no dia: a Petrobras caiu junto com o petróleo, e o câmbio ganhou uma folga.
Atualização, 19h25. O barril recuperou parte da queda no fim do dia. O Brent fechou a 104,82 dólares, em recuo de 1%, depois de rodar perto de 103 à tarde, segundo a CNBC, a rede financeira americana (o fechamento desta quinta). O corpo do texto foi corrigido com o número do fechamento. A Petrobras acompanhou o movimento: a ação preferencial reduziu a queda de 1,27% do meio do dia para 0,08% no encerramento, segundo a revista de negócios Exame (o fechamento da bolsa). A leitura segue a mesma: o mercado viu uma pausa nos ataques e uma passagem vigiada, não um acordo assinado, e o barril terminou o dia acima de 100 dólares.
Atualização, 02h45. O barril estendeu a queda na madrugada desta sexta. No horário de negociação da Ásia, o Brent rodava a 103,57 dólares, em recuo de 1,2%, a terceira sessão seguida de baixa, segundo o serviço de dados de mercado Trading Economics (o Brent nesta madrugada). O motivo novo está na segunda saída do petróleo saudita. A Aramco, a petroleira estatal, trabalha para religar metade da capacidade do oleoduto Leste-Oeste em dias, e a totalidade em cerca de seis semanas, segundo a agência financeira Bloomberg (o plano de recuperação do oleoduto). O oleoduto, parado desde o dia 11 pelo ataque de drones, levava de 4 a 5 milhões de barris por dia ao mar Vermelho, de 4% a 5% da oferta mundial. Se o cronograma se confirmar, a transferência navio a navio descrita no texto vira uma solução de curto prazo. Parte do frete recorde e do seguro de guerra tende a ceder antes de qualquer acordo sobre o estreito.
O Brent, o petróleo de referência, fechou esta quinta a 104,82 dólares, em queda de 1%. À tarde, chegou a rodar por volta de 103 dólares, em queda de 2,6%. Os dados são da CNBC, a rede financeira americana. Na quarta, o barril já havia caído 2,7%, para 105,83 dólares. É o nível mais baixo desde a semana passada. O recuo veio no dia 201 de fechamento do estreito de Ormuz, a saída do golfo Pérsico por onde passava cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. Por trás da queda há um fato físico e um conjunto de sinais políticos. O fato físico: a Aramco, a petroleira estatal saudita, vendeu cerca de 20 milhões de barris a refinarias da Ásia. O petróleo voltou a cruzar o estreito, com escolta militar americana. Os sinais políticos: Donald Trump disse que a guerra com o Irã está, em tradução do inglês, “com sorte, perto do fim”. E a diplomacia iraniana acenou em Pequim com uma saída negociada.
A passagem de navio a navio
O petróleo saudita estava sem as duas saídas. O estreito de Ormuz segue fechado à navegação comum desde o início de março, como o COMPASSO registrou quando o barril passou dos 100 dólares. A segunda saída parou no dia 11. O oleoduto Leste-Oeste, o tubo que cruza a Arábia Saudita até o mar Vermelho, foi atingido por drones lançados do Iraque. O COMPASSO registrou o fechamento no balanço da semana passada. A resposta da Aramco foi improvisar. A empresa carregou petróleo em Ras Tanura e Juaymah, os dois maiores terminais sauditas. Levou os navios ao golfo de Omã sob proteção da marinha americana. Ali, transferiu a carga para outros petroleiros em mar aberto, no procedimento chamado transferência navio a navio. Foram cerca de 20 milhões de barris vendidos a refinarias asiáticas por essa via, segundo a CNBC. Quatro superpetroleiros seguiam carregando nos terminais.
A passagem é estreita e cara. A agência Reuters contou 4 trânsitos de navios de carga no estreito na terça. A Windward, empresa de inteligência marítima, contou 12 na quarta, três deles com o sinal de localização desligado. Antes da guerra, eram mais de 130 trânsitos por dia, segundo a Lloyd's List Intelligence, o serviço de dados de navegação. O frete de um superpetroleiro do Golfo à China chegou ao recorde de 1,035 milhão de dólares por dia. É 391 mil a mais do que a rota que evita o estreito, segundo o monitor especializado Hormuz Strait Monitor. A falta de petróleo segue na conta física. As exportações do Golfo ficaram em agosto 39% abaixo do nível de janeiro e fevereiro. As do Irã estão em zero, contra 1,68 milhão de barris por dia antes da guerra, segundo o rastreador TankerTrackers. Por isso o petróleo de Omã, o barril físico entregue na Ásia, subiu a 132,09 dólares, o maior valor desde março. O contrato futuro caiu; o barril físico seguiu na direção contrária.
Os sinais de fim de guerra e o que eles valem
Os sinais vieram dos dois lados. Trump afirmou na quarta que os Estados Unidos estão “com sorte, perto do fim” da guerra. Disse que Teerã está “querendo muito fazer um acordo” e que falou “diretamente” com os iranianos, em tradução do inglês. Em Pequim, Abbas Araghchi, o chanceler do Irã, disse ao chanceler chinês Wang Yi que o país não quer continuar o conflito. Araghchi afirmou já existir um plano combinado com Omã para reabrir o estreito. O governo de Omã não confirmou o plano até esta quinta. No terreno, a pausa é real. Os balanços militares registram o décimo dia sem ataques americanos anunciados contra o território iraniano. E o oitavo sem mísseis balísticos do Irã contra países que abrigam bases americanas, o intervalo mais longo desde agosto. Os números são do serviço de acompanhamento militar GlobalSecurity. A versão do governo do Irã, pela agência estatal IRNA, em persa, resume a fase: “a guerra entre Estados Unidos e Irã transformou-se numa disputa pelo estreito de Ormuz”.
Os sinais têm limites. A reunião de Salalah, que apresentaria uma rota temporária para Ormuz, segue adiada sem nova data, como o COMPASSO registrou na segunda-feira. A proposta de cessar-fogo de dez dias, mediada por Paquistão e Catar, não avançou. E a ONU, a organização das nações unidas, deu o contraponto do dia. Rússia e China vetaram a resolução americana que prorrogaria o painel de peritos das sanções ao Irã, o grupo que fiscaliza o cumprimento das punições. Foram 11 votos a favor e 2 contra, com abstenções que incluíram o Paquistão, um dos mediadores. Ler a queda do barril como aposta no fim da guerra é uma leitura possível, não um fato. O que o mercado viu até aqui foi uma pausa nos ataques e uma passagem vigiada, sem acordo assinado.
Quem fica com a renda da rota vigiada
A renda de escassez do petróleo não sumiu com a queda do contrato futuro: ela mudou de mãos. O recurso natural saudita voltou a gerar receita. O iraniano segue sem comprador, com exportação zero. O capital que controla a infraestrutura de que todos dependem captura a fatia nova. O dono do superpetroleiro embolsa o frete recorde de mais de 1 milhão de dólares por dia. O segurador cobra o prêmio de risco de guerra definido pelo comitê do mercado de Londres. O trabalho e o consumo pagam a conta na ponta. O diesel americano passou de 6 dólares o galão pela primeira vez, a 6,31. A gasolina está a 4,37 dólares, contra 3,19 um ano atrás. O Estado americano quase não arrecada nesse arranjo, mas ganha o que mais vale nele: a capacidade de decidir. É a marinha dele que define quais barris passam. O arranjo é apropriação concentrada, não ampliação de liberdade. Cada carregamento depende de uma autorização enquanto a escolta substituir a regra de livre navegação. A sociedade que consome energia perde um grau de liberdade, e ele só volta com o estreito reaberto.
Os impactos por aqui
No Brasil, o barril mais baixo chega primeiro aos preços dos ativos e só depois à bomba. A Petrobras oscilou com o petróleo nesta quinta. A ação preferencial chegou a cair 1,27% no meio do dia e fechou em queda de 0,08%, segundo a revista Exame. A receita da empresa acompanha o Brent. A gasolina e o diesel internos seguem a política de preços da estatal, que repassa as oscilações com semanas de defasagem. A queda de agora só vira alívio no bolso se durar. Para a inflação, o sentido é o mesmo. Combustível mais barato à frente reduz a pressão sobre o IPCA, o índice oficial de preços. Isso dá espaço ao ciclo de cortes do Banco Central, que reduziu a Selic a 13,75% na véspera, como o COMPASSO registrou no texto das duas decisões de juros. Há um porém. O Brasil importa parte do diesel que consome, e o frete e o seguro de guerra encarecem a importação mesmo com o Brent em queda. No jogo do excedente, o dia mostrou quem manda no preço: a renda do petróleo passou a ser distribuída por quem controla a escolta, e não pelo mercado que existia antes da guerra.
Entenda o contexto
O estreito de Ormuz é a passagem marítima de petróleo mais importante do mundo. Por ali escoava cerca de um quinto do consumo global, segundo a EIA, a agência americana de estatísticas de energia. A escolta militar de petroleiros tem precedente. Entre 1987 e 1988, na guerra entre Irã e Iraque, os Estados Unidos rebatizaram petroleiros do Kuwait com bandeira americana e os escoltaram pelo mesmo estreito. Foi naquela década que a Arábia Saudita construiu o oleoduto Leste-Oeste. O objetivo era ter uma saída de petróleo fora de Ormuz, pelo mar Vermelho. A guerra de 2026 fechou as duas saídas ao mesmo tempo. O estreito parou em março, por decisão iraniana. O oleoduto parou em setembro, por drones. E os houthis, o grupo armado do Iêmen, tomaram a saída sul do mar Vermelho, como o COMPASSO registrou no dia 196. A transferência navio a navio desta semana repete o desenho dos anos 1980, em escala maior e num mundo mais dependente do petróleo do Golfo.
Fontes
CNBC, a rede financeira americana (o Brent e o WTI desta quinta) · CNBC (as imagens de satélite do oleoduto e a venda navio a navio) · Al Jazeera, a rede estatal do Catar (o fechamento do oleoduto Leste-Oeste) · GlobalSecurity (o balanço militar do dia) · Lloyd's List Intelligence (os trânsitos no estreito) · Hormuz Strait Monitor (o frete e o seguro de guerra) · IRNA, em persa (a versão do governo do Irã: a guerra virou disputa pelo estreito) · Bloomberg, a agência financeira (o adiamento da reunião de Salalah) · Representação dos Estados Unidos na ONU (a explicação de voto da resolução vetada, documento primário) · Pentágono (o relatório trimestral da operação ao Congresso, documento primário) · EIA (o peso de Ormuz no petróleo mundial, documento primário) · Dawn, o jornal paquistanês (a abstenção do Paquistão na ONU) · Exame, a revista de negócios (a Petrobras e a bolsa nesta quinta)
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