Pular para o conteúdo

Arquitetura de segurança · Análise

Kiev sob ataque no dia em que as sanções chegam a Trump

A leitura cruzada desta quinta: a Rússia lançou 157 drones e mísseis contra a Ucrânia na madrugada em que a Câmara americana aprovou, por 262 a 159, a lei que pune com tarifas de até 100% os compradores de energia russa. O Banco da Inglaterra segurou o juro em 3,75% um dia depois da alta do Federal Reserve. A missão da ONU viu indícios de crimes de guerra americanos no Irã, o Japão trocou ministros sem trocar a política econômica, e a abertura de capital da refinaria Dangote derrubou aplicativos de investimento na Nigéria.

Por COMPASSO17 de setembro de 2026atualizado em 18 de setembro às 2h4513 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. A lei aprovada na Câmara muda o alvo da punição: sai do sancionado e passa ao cliente, com tarifas de até 100% sobre quem compra energia russa, alcançando países que não são parte da guerra.
  2. O ataque que feriu 20 pessoas em Kiev veio na madrugada da votação em Washington: a Rússia respondeu ao aperto econômico no terreno militar, onde ainda leva vantagem, e abre as urnas nesta sexta.
  3. A missão da ONU registrou formalmente indícios de crimes de guerra dos Estados Unidos no Irã e de crimes contra a humanidade na repressão iraniana: os dois lados da guerra ganham um processo contra si.

Atualização, 02h45. O Banco do Japão confirmou nesta sexta a alta que o texto antecipava. O juro subiu de 1% para 1,25%, o maior nível desde 1995, por 7 votos a 2, segundo o comunicado do banco central japonês, documento primário (a decisão desta sexta). O banco justificou o aperto pelo risco de a inflação passar da meta de 2%, empurrada pelo petróleo caro e pelo iene fraco, segundo o Nikkei, o jornal econômico japonês, em japonês (a leitura do Nikkei). O intervalo entre uma alta e outra caiu de seis para três meses, o ritmo mais rápido desde que o banco começou a subir o juro, em 2024. O iene se valorizou e os juros dos títulos públicos japoneses subiram depois do anúncio, segundo a CNBC, a rede financeira americana (a reação do mercado). Para o leitor daqui, o quadro do texto se completa: as três decisões do mundo rico foram na mesma direção, e o dinheiro que financia países como o Brasil ficou mais caro.

Esta é a leitura cruzada desta quinta-feira, 17 de setembro, o texto que percorre as seis regiões e compara as versões de cada uma. O fato do dia tem texto próprio: o petróleo saudita voltou a cruzar Ormuz sob escolta americana, e o barril caiu a 103 dólares. Aqui entra o resto do mundo em movimento. A Rússia fez o maior ataque do mês contra Kiev. Horas antes, a Câmara americana tinha aprovado a lei que pune os compradores de energia russa. O Banco da Inglaterra segurou o juro um dia depois da alta do Federal Reserve. E a maior abertura de capital da história da África derrubou aplicativos de investimento na Nigéria.

Américas

Os Estados Unidos tiraram a Venezuela da lista dos países que, na avaliação anual da Casa Branca, falham no combate ao narcotráfico. A decisão cita a cooperação do governo interino de Delcy Rodríguez. Ela vem oito meses depois da operação militar que capturou Nicolás Maduro. O registro é do Diario Libre, o jornal da República Dominicana, em espanhol. O mesmo documento acusa o governo brasileiro de falhar contra as facções. O gesto entra na conta da eleição e está no texto do dia da série. No México, dois dias depois do Grito, Claudia Sheinbaum comandou o desfile militar da independência. Foram 15 mil integrantes das forças e, pela primeira vez, 99 aeronaves sobre a praça central da capital. O registro é do La Jornada, o jornal próximo do governo, em espanhol. Na Argentina, o risco-país, o prêmio cobrado para emprestar ao país, voltou à casa dos 508 pontos, com o peso a 1.513 por dólar. A Infobae, o site portenho, em espanhol, resume a avaliação de bancos estrangeiros sobre o programa de Javier Milei. Em tradução do espanhol: “o câmbio real efetivo está forte demais para a atual combinação de políticas”. A projeção de crescimento de 2026 caiu de 3,5% para 2,1%. O PIB do segundo trimestre encolheu 0,9%.

Ásia oriental

O Japão trocou ministros sem trocar a política. Sanae Takaichi, a primeira-ministra, fez nesta quinta a primeira reforma do gabinete. Manteve 8 dos 18 ministros, entre eles os das Finanças, da Indústria e da Defesa. E levou o partido Ishin ao governo pela primeira vez. O Nikkei, o jornal econômico de referência, em japonês, descreve uma troca que “mantém a estrutura do governo”. A mudança vem na véspera da decisão do Banco do Japão desta sexta. A taxa deve subir de 1% para 1,25%, a maior desde 1995, como o COMPASSO registrou no texto das decisões de juros. Em Taiwan, o balanço diário do Ministério da Defesa, documento primário em chinês, contou 17 aeronaves militares chinesas nas 24 horas até as 6h desta quinta. Contou também 8 navios de guerra e 2 navios oficiais, com travessias da linha média, a divisa informal no meio do estreito. A agência CNA, em chinês, registrou a resposta padrão: aeronaves, navios e mísseis de costa para monitorar. O ritmo ficou acima da rotina dos últimos dias. Na China, a preparação da viagem de Xi Jinping a Washington, marcada para o dia 24, seguiu por videochamadas entre o Tesouro americano e o vice-premiê chinês. Não houve fato novo nesta quinta.

Sul e Sudeste da Ásia

A Índia abriu a maior feira de semicondutores do país no dia em que virou alvo potencial de uma lei americana. Narendra Modi, o primeiro-ministro, inaugurou em Nova Délhi a SEMICON India 2026, que vai até sábado. O lema, em tradução do inglês, é “do silício aos sistemas”: a aposta de transformar o país em elo da cadeia de chips. No mesmo dia, a lei de sanções aprovada em Washington listou os grandes compradores de petróleo russo como alvos de tarifas de até 100%. A Índia é um dos três maiores. A lei está detalhada abaixo, na seção da Europa. O país já reorganizou a importação de petróleo pela guerra. Cerca de 70% do que compra entra por rotas fora de Ormuz, segundo a rádio estatal indiana. Nas Filipinas, o jornal financeiro BusinessWorld publicou nesta quinta uma projeção de longo prazo. O país aparece como a segunda economia que mais deve crescer no Sudeste Asiático até 2035, com 5,8% ao ano. O Vietnã lidera, com 6,2%; a Indonésia vem atrás, com 5,4%.

Golfo e Oriente Médio

A guerra ganhou um registro jurídico formal. A missão de apuração de fatos sobre o Irã, criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, reportou nesta quinta “motivos razoáveis para crer” em crimes de guerra americanos. A expressão, em tradução do inglês, cobre dois ataques. Um destruiu uma escola primária em Minab, com mais de 150 mortos, cerca de 120 deles crianças. O outro atingiu um centro esportivo em Lamerd. O mesmo relatório classifica a repressão iraniana aos protestos como crime contra a humanidade. O documento primário está na página do escritório de direitos humanos da ONU. Dentro do Irã, o quarto aniversário da morte de Mahsa Amini, a jovem curda morta sob custódia em 2022, teve greves em ao menos dez cidades curdas. O chefe da polícia falou em mais de 6 mil presos. No Egito, Abdel Fattah al-Sisi recebeu Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, e rejeitou qualquer deslocamento forçado dos palestinos. A agência oficial palestina WAFA, em árabe, descreveu a visita oficial de dois dias. Em Israel, em plena campanha eleitoral, a Suprema Corte proibiu os partidos de rastrear eleitores em tempo real no dia da votação. Na cidade de Gaza, um prédio desabou e matou ao menos 20 pessoas; o exército nega tê-lo atingido. Os registros são do Times of Israel. Na economia, o site financeiro AGBI calcula que todas as economias do Golfo, menos Omã, devem encolher em 2026. O déficit saudita já consome 97% da projeção anual.

Europa e o espaço pós-soviético

A madrugada desta quinta foi a mais pesada do mês em Kiev. A Rússia lançou 157 drones de ataque e mísseis balísticos, de cruzeiro e antinavio, segundo as Forças Aéreas ucranianas. A defesa neutralizou 131 drones, e houve impactos em 36 locais. Em Kiev, ao menos 20 pessoas ficaram feridas, cinco delas hospitalizadas, entre elas duas crianças. Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, contou mais de 3.500 drones e cerca de 190 mísseis lançados contra o país só em setembro.

AS VERSÕES, sobre o ataque desta madrugada:
Na imprensa ocidental: ao menos 19 feridos, incluindo duas crianças, e mais de dez pontos atingidos na capital, segundo a cobertura ao vivo da France 24.
Na versão do governo da Rússia, pela agência estatal RIA Novosti, em russo: o ataque de precisão mirou “indústria de defesa, energia e infraestrutura portuária”, incluindo uma fábrica de drones em Kiev. Feridos civis não são mencionados.
Na imprensa ucraniana: a Ukrainska Pravda, o jornal independente de Kiev, em ucraniano, publica o balanço militar, “há impactos em 36 locais”. A agência estatal Ukrinform, em ucraniano, conta “já são 20 feridos, cinco deles em hospitais”.

Horas antes do ataque, a Câmara americana aprovou a lei de sanções por 262 votos a 159. O projeto leva o nome do senador Lindsey Graham e foi enviado a Donald Trump, que sinalizou que sanciona. O texto autoriza tarifas de até 500% sobre produtos russos. E de até 100% sobre países que compram energia russa; China, Índia e Turquia são os maiores. A lei mira ainda a frota que transporta petróleo russo fora dos registros e proíbe a compra de dívida do governo russo. Na votação, 152 democratas foram contra. O argumento deles: a lei entrega poderes demais ao presidente, que decide quando e contra quem aplicar. A ficha do projeto está no Congresso americano, documento primário. O Kommersant, o jornal econômico russo, em russo, chamou o pacote de “sanções infernais”. Um analista de energia ouvido pelo jornal resumiu, em tradução do russo: “vão continuar comprando nosso petróleo, mas, sob pressão dos Estados Unidos, teremos de vendê-lo com desconto grande”. O porta-voz do Kremlin respondeu que novas sanções “vão complicar a busca por uma resolução pacífica”.

A Rússia abre nesta sexta três dias de eleições parlamentares. Haverá seções de votação em pontos de fronteira com Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia, e o partido do governo não enfrenta oposição real. Donald Tusk, o premiê polonês, alertou o parlamento do país para planos russos de ataques com drones e mísseis contra quem apoia a Ucrânia. No meio disso, uma troca: a Ucrânia recebeu 252 corpos de militares mortos, e a Rússia, 23. Em Londres, o Banco da Inglaterra manteve a taxa em 3,75% ao ano, por 6 votos a 3. A decisão veio um dia depois da primeira alta do Federal Reserve desde 2023. O comunicado, documento primário, registra que o petróleo e o gás no atacado britânico subiram 36% e 78% desde julho. A projeção é de inflação um pouco acima de 4% no início de 2027. O presidente do banco resumiu, em tradução do inglês: “quanto mais essa volatilidade persistir, maior será o impacto sobre a inflação”.

África

A procura pela abertura de capital da refinaria Dangote derrubou a infraestrutura que deveria vendê-la. No aplicativo de investimentos Bamboo, o tráfego multiplicou por dez em meia hora, com falhas em série, segundo o serviço financeiro bne IntelliNews. A oferta busca 1,6 bilhão de dólares de pequenos investidores até 13 de outubro, como o COMPASSO registrou na leitura cruzada de quarta. Ela embalou a quinta alta seguida da bolsa de Lagos, na contramão de Joanesburgo e Nairóbi. O grupo confirmou ainda o início das obras de uma refinaria de 17 bilhões de dólares em Lamu, no Quênia, até o fim de setembro. Há um oleoduto planejado de 2.650 quilômetros até a África do Sul, segundo o site financeiro nigeriano Nairametrics.

Os impactos por aqui

O que mais toca o Brasil neste dia é a lei de sanções. O Brasil compra diesel e fertilizantes da Rússia desde 2022. A lei autoriza tarifas de até 100% sobre compradores de energia russa, e a Casa Branca decide quando e contra quem aplicar. O alvo declarado são os três maiores compradores. Alcançar clientes menores, como o Brasil, é uma possibilidade aberta pelo texto, não um fato. É um risco a vigiar, com efeito direto no preço do frete agrícola e do adubo se um dia for usado. O juro completa o quadro. O aperto americano de quarta, o juro inglês parado e o japonês prestes a subir encarecem o dinheiro no mundo rico. Isso disputa os dólares que financiam países como o Brasil, e o real depende da distância entre a Selic e esses juros. No jogo do excedente, o dia mostrou a punição comercial virando arma de guerra: quem controla o mercado comprador cobra dos clientes do adversário.

Entenda a região

O espaço pós-soviético é a faixa de países que saíram da União Soviética em 1991. A guerra da Ucrânia é a disputa mais dura sobre quem manda nele. A Rússia anexou a Crimeia em 2014 e invadiu a Ucrânia em grande escala em 2022. Desde então, reorganizou a própria economia para a guerra: orçamento militar recorde, petróleo com desconto para a Ásia e eleições sem competição real. O Ocidente respondeu com sanções em camadas. Primeiro congelou ativos e desligou bancos russos do sistema de pagamentos. Depois impôs um teto de preço ao petróleo russo. Agora discute punir os clientes da Rússia, e não só a Rússia. A lei aprovada nesta semana é o passo mais longo dessa escalada. Ela transforma o acesso ao mercado americano em instrumento de guerra, o mesmo desenho das tarifas das disputas comerciais. Para quem compra energia russa, a escolha passa a ser entre o desconto de Moscou e o mercado americano.

Fontes

France 24, a rede pública francesa (a cobertura ao vivo do ataque e das eleições russas) · RIA Novosti, em russo (a versão do governo da Rússia sobre o ataque) · Ukrainska Pravda, em ucraniano (o balanço das Forças Aéreas) · Ukrinform, em ucraniano (os feridos de Kiev) · Congresso dos Estados Unidos (a ficha da lei de sanções, documento primário) · NBC News, a rede americana (a votação de 262 a 159) · Kommersant, em russo (as “sanções infernais” vistas de Moscou) · Banco da Inglaterra (o comunicado da decisão, documento primário) · Nikkei, em japonês (a reforma ministerial de Takaichi) · Ministério da Defesa de Taiwan, em chinês (o balanço diário, documento primário) · CNA, em chinês (as patrulhas chinesas desta quinta) · Diario Libre, em espanhol (a Venezuela fora da lista antidrogas) · La Jornada, em espanhol (o desfile militar mexicano) · Infobae, em espanhol (o peso forte e a atividade argentina) · Escritório de direitos humanos da ONU (o relatório da missão sobre o Irã, documento primário) · WAFA, em árabe (a visita de Abbas ao Egito) · Times of Israel (a decisão da Suprema Corte israelense e o dia em Gaza) · AGBI (as contas fiscais do Golfo) · BusinessWorld (a projeção para o Sudeste Asiático) · bne IntelliNews (a corrida à oferta da Dangote) · Nairametrics (a refinaria de Lamu)

Os outros textos do dia: O barril cai a 103 e o petróleo saudita volta a cruzar Ormuz · Eleição 2026: a rodada pende a Flávio e a corte fica sem data.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.