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Arquitetura de segurança · Análise

O dia em seis regiões: Ormuz negociado e o Marrocos nas urnas

As seis regiões nesta quarta-feira: o presidente do Irã discursou na ONU dizendo que não teme a guerra nem foge da negociação, enquanto os mediadores seguem circulando entre as delegações em Nova York e o petróleo volta a 101 dólares. Quatorze países anunciaram sanções coletivas contra 24 facções, duas delas brasileiras, com o Brasil fora da coalizão. A Corte Constitucional da Indonésia ouve o caso que pede a desqualificação do vice-presidente. E o Marrocos vota com participação baixa até o meio-dia.

Por COMPASSO23 de setembro de 202610 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. Quatorze países aceitaram sancionar em bloco 24 facções, duas delas brasileiras: a lista congela ativos e pede a ativação do pacto militar do continente, com o Brasil fora da decisão.
  2. O petróleo voltou a 101 dólares porque a oferta segue travada enquanto a diplomacia avança: o mercado cobra por dia de bloqueio em Ormuz, e não por promessa de acordo.
  3. No Marrocos, a participação ao meio-dia era de 11,34%: a abstenção mede a distância entre os partidos que disputam as 395 cadeiras e a geração que protesta fora deles.

Esta é a leitura cruzada desta quarta-feira, 23 de setembro. Ela traz o movimento do dia em cada uma das seis regiões e o contraste entre as versões de quem conta. O fato do dia, a chegada de Xi Jinping a Washington com a trégua comercial por renovar, tem texto próprio nesta edição.

Américas

Na sede da ONU, os Estados Unidos e catorze países da América Latina e do Caribe anunciaram a primeira ação conjunta do Escudo das Américas, a coalizão de segurança lançada em março. O grupo vai sancionar em bloco 24 organizações criminosas, tratadas no documento como ameaça imediata e compartilhada. A lista inclui os principais cartéis mexicanos, o venezuelano Tren de Aragua, a guerrilha colombiana ELN e o peruano Sendero Luminoso. Inclui também duas facções brasileiras: o PCC, o Primeiro Comando da Capital, nascido nos presídios de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro. As medidas incluem congelamento de ativos e restrições de visto para integrantes e apoiadores, segundo o jornal argentino Infobae, em espanhol.

Os signatários vão pedir ao conselho da OEA, a Organização dos Estados Americanos, a ativação do TIAR, o tratado de defesa mútua do continente assinado em 1947. O pacto contempla o uso de força militar, nota o jornal mexicano La Razón, em espanhol. Brasil e México ficaram fora. A agência brasileira de jornalismo investigativo Apública documenta que a lista inclui o Cartel de los Soles, que não existe como organização: o nome é gíria venezuelana para corrupção militar, usada pelo governo americano para acusar Nicolás Maduro. O efeito da lista sobre a corrida brasileira, a doze dias do voto, está no texto do dia da série Eleição 2026. A linha que liga Caracas, o hemisfério e a pressão sobre o Brasil é acompanhada desde o especial Depois de Caracas.

Ásia oriental

Enquanto Xi Jinping desembarcava em Washington, movimento lido no texto do dia, Taipé media o preço da visita. Os Estados Unidos estudam adiar para o fim do ano um pacote importante de armas para Taiwan, informou o jornal taiwanês Taipei Times. Trump já segura a aprovação de 400 milhões de dólares em ajuda militar à ilha e, depois de um encontro anterior com Xi, pausou uma venda recorde de 14 bilhões. O presidente americano descreveu as vendas de armas como uma moeda de negociação muito boa com Pequim. O governo taiwanês respondeu em público com confiança de que as vendas continuam, e o exército fez exercícios de tiro real com um blindado de fabricação própria, segundo a agência de notícias americana Associated Press. A mensagem dos exercícios é de autonomia: se a arma americana vira moeda, a ilha mostra a fábrica local.

Sul e Sudeste da Ásia

Na Indonésia, a Corte Constitucional ouve nesta quarta à noite a comissão eleitoral KPU e o órgão de fiscalização Bawaslu no caso que pede a desqualificação do vice-presidente Gibran Rakabuming Raka. Gibran, de 38 anos, é filho do ex-presidente Joko Widodo. O processo, registrado sob o número 01/PHPU.PRES-XXIV/2026, o código do caso na corte, sustenta que ele não comprovou a conclusão do ensino médio, requisito legal para a candidatura de 2024. A primeira audiência ocorreu na segunda à noite, segundo o jornal indonésio Kompas, em indonésio. Entre os autores estão um comitê independente de monitoramento eleitoral, um partido de oposição e um ex-vice-ministro da Justiça. O site indonésio Suara, em indonésio, pergunta o que acontece se a corte aceitar: a Constituição não diz quem assume a vice-presidência nesse caso. No Paquistão, vizinho da guerra, o governo apareceu em outro papel: o país atua como mediador, ao lado do Catar, na negociação entre Estados Unidos e Irã em Nova York, segundo a rede Al Jazeera.

Golfo e Oriente Médio

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, discursou nesta quarta na Assembleia Geral, um dia depois do prazo que Trump deu para um acordo, registrado no texto do dia de terça. Não tememos a guerra e não fugimos da negociação, disse. Sobre o estreito de Ormuz, a saída marítima do Golfo Pérsico fechada desde o início da guerra, o tom foi de condição. Não é aceitável que todos se beneficiem da passagem enquanto o Irã fica privado de navegar nas próprias águas, afirmou. Ou o estreito beneficia a todos, ou permanece fechado, disse, segundo o site iraniano de economia Eghtesad Online, em persa. A delegação americana deixou o plenário no início da fala, segundo a CNN Brasil. Fora do plenário, os mediadores seguem trabalhando. O preço reagiu à conta dos dois movimentos: o Brent, o barril de referência internacional, subiu 2,4% e voltou a 101,61 dólares depois de cinco quedas seguidas, segundo a rede americana de negócios CNBC. Pesou também a Arábia Saudita, que planeja retomar até sábado o fluxo do oleoduto Leste-Oeste, a rota alternativa ao estreito atacada neste mês.

AS VERSÕES

  • A imprensa ocidental: a negociação indireta avança com Catar e Paquistão circulando entre as delegações, e Trump fala em muito impulso para um acordo que reabra Ormuz. Al Jazeera.
  • A imprensa de Teerã: o discurso como recusa à rendição: não somos terroristas, somos vítimas de terrorismo, e a segurança da região será de todos ou de ninguém. Donya-e-Eqtesad, jornal econômico iraniano, em persa.
  • A ala dura iraniana: o site alinhado à Guarda Revolucionária leu as manchetes anglófonas sobre o discurso como prova de hostilidade, e cobra que a diplomacia não ceda o estreito. Mashregh, em persa.

As três versões concordam num ponto: a negociação existe e passou a ser pública. Divergem sobre quem precisa dela primeiro. Para a imprensa ocidental, o Irã bloqueado; para Teerã, um governo americano pressionado pelo diesel caro a seis semanas da eleição legislativa.

Europa e o espaço pós-soviético

A guerra da Ucrânia entrou na semana da ONU por um caminho estreito: a trégua energética. Trump disse que Rússia e Ucrânia concordaram em não atacar a infraestrutura de energia uma da outra, registrou o jornal russo de negócios Kommersant, em russo. A realidade foi mais lenta que o anúncio: os dois países voltaram a atacar instalações de energia nos dias seguintes, e um ataque de drone atingiu um posto de combustível em Kiev nesta semana. A rede Al Jazeera explica o cálculo americano: o diesel em alta virou tema da eleição legislativa de novembro, e Trump atribui o preço à guerra. Volodymyr Zelensky disse que a Ucrânia está pronta para um acordo se a proteção for garantida. Do lado russo, fontes próximas ao Kremlin dizem que Vladimir Putin não quer fechar acordo de energia antes do inverno, quando os ataques pesam mais sobre Kiev, segundo o jornal britânico The Guardian. A nova Duma, contada na leitura de segunda, toma posse com a guerra como orçamento permanente.

África

O Marrocos vota nesta quarta para renovar as 395 cadeiras da Câmara dos Representantes, 305 eleitas em distritos locais e 90 em listas regionais. A participação nacional era de 4,23% às 10h e de 11,34% ao meio-dia, segundo o site marroquino Hespress, em árabe, o mais lido do país. A referência é a eleição de 2021, que terminou com 50,35% de participação. A votação fecha um ciclo aberto pelos protestos da geração Z contra saúde e educação precárias e pela migração recorde em direção a Ceuta, o enclave espanhol no norte do país, segundo a agência de notícias americana Associated Press. Vinte e sete partidos disputam, depois de uma campanha curta encerrada na terça, como o COMPASSO registrou na leitura de terça. Os resultados provisórios começam a sair na quinta.

Os impactos por aqui

Dois movimentos do dia tocam o Brasil diretamente. O primeiro é a lista do Escudo das Américas. O congelamento coletivo de ativos do PCC e do Comando Vermelho alcança o sistema financeiro que processa o dinheiro dessas redes, inclusive bancos e fintechs brasileiros, que tendem a aplicar a lista por precaução para não perder acesso ao dólar. O Brasil ficou fora da coalizão, e a decisão sobre quem entra na lista é tomada sem o Estado brasileiro. O país perde capacidade de regular o próprio território financeiro. O tema entra na campanha, como mostra o texto do dia da série. O segundo é o petróleo de volta acima de 100 dólares, que encarece a cada semana o corte de tributos que segura o preço da gasolina até logo depois do primeiro turno. O consumidor ganha alívio agora; o Tesouro Nacional paga cerca de 2 bilhões de reais por mês pela espera.

Entenda a região

O Golfo Pérsico exporta cerca de um quinto do petróleo do mundo, e quase tudo sai por duas rotas. A principal é o estreito de Ormuz, a passagem marítima entre o Irã e Omã. A alternativa é o oleoduto saudita Leste-Oeste, que atravessa o país até o Mar Vermelho. A guerra aberta em 28 de fevereiro entre Estados Unidos e Irã fechou o estreito, e ataques houthis chegaram a parar o oleoduto em setembro. Desde então a travessia funciona por exceção: escolta militar, seguro caro e transferência de carga em alto mar. É essa exceção que o barril acima de 100 dólares mede. A região vive disso há oitenta anos: quem controla a rota do petróleo cobra, de alguma forma, de todo mundo que depende dela. A novidade de 2026 é a rota estar, pela primeira vez desde os anos 1980, sob decisão militar aberta das duas margens ao mesmo tempo.

Fontes

Infobae, em espanhol (as sanções coletivas do Escudo das Américas) · La Razón, em espanhol (a rota do TIAR e o uso de força) · Apública, a agência brasileira de jornalismo investigativo (o cartel que não existe) · Taipei Times, o jornal taiwanês (o adiamento do pacote de armas) · Associated Press, a agência de notícias americana (Taiwan diante do encontro) · Kompas, em indonésio (o pedido de desqualificação do vice-presidente) · Suara, em indonésio (as consequências do caso) · Al Jazeera, a rede do Catar (a negociação mediada) · Eghtesad Online, em persa (o trecho de Ormuz no discurso) · Donya-e-Eqtesad, em persa (o discurso ao vivo) · Mashregh, em persa (a reação da ala dura) · CNN Brasil (a saída da delegação americana) · CNBC, a rede americana de negócios (o petróleo a 101 dólares) · Kommersant, em russo (o anúncio da trégua energética) · Al Jazeera (a trégua energética em teste) · Hespress, em árabe (a participação no Marrocos) · Associated Press (o contexto da eleição marroquina) · ONU (a ordem dos discursos do debate geral)

Os outros textos do dia: Xi chega a Washington com a trégua comercial por renovar · Eleição 2026: a AtlasIntel devolve a dianteira a Lula.

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