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Arquitetura de segurança · Análise

O dia em seis regiões: duas delegações deixam o plenário

As seis regiões no dia da abertura do debate de líderes da ONU: as delegações de Cuba e do Irã saíram do plenário durante o discurso de Donald Trump, que reivindicou o hemisfério ocidental como zona de interesse dos Estados Unidos. A China confirmou a visita de Estado de Xi Jinping a Washington, de quarta a sexta. As refinarias da Índia começaram a cotar novembro sem petróleo russo. A Rússia terminou de contar os votos da nova Duma. E o Marrocos encerrou a campanha da eleição de amanhã.

Por COMPASSO22 de setembro de 202610 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. As saídas de Cuba e do Irã do plenário mostram o estado da ONU como espaço comum: os países citados como alvo responderam com ausência, não com direito de resposta.
  2. A visita de Estado de Xi Jinping decide a prorrogação da trégua comercial que vence em 10 de novembro; sem ela, tarifas e controles de exportação voltam entre as duas maiores economias.
  3. Na Índia, as refinarias já cotam cargas de novembro sem petróleo russo: a lei americana de 19 de setembro muda contratos antes de qualquer decreto sair do papel.

Esta é a leitura cruzada desta terça-feira, 22 de setembro. Ela traz o movimento do dia em cada uma das seis regiões e o contraste entre as versões de quem conta. O fato do dia, o prazo que Trump deu na tribuna da ONU para um acordo com o Irã, tem texto próprio nesta edição.

Américas

O trecho hemisférico do discurso de Trump na Assembleia foi o mais duro do ano. Sobre a Venezuela, o presidente americano tratou a captura de Nicolás Maduro, em janeiro, como troféu de guerra. Nossas ações na Venezuela são a prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América criem raízes no hemisfério ocidental, disse. Citou o acordo de petróleo com o governo interino de Delcy Rodríguez. Usou uma expressão antiga da política americana, ao vencedor pertencem os despojos, registrada pela imprensa que cobria o plenário. Sobre Cuba, afirmou que o país é um Estado que falhou completamente e que vai cair. O secretário de Estado Marco Rubio, disse, conduz a busca por uma mudança fundamental na ilha. A delegação cubana levantou e saiu do plenário, conduzida pelo chanceler Bruno Rodríguez Parrilla. Mais cedo, o presidente brasileiro tinha aberto o debate com um aviso contra ingerência na eleição de outubro, movimento lido no texto do dia da série Eleição 2026. A linha que liga Caracas, Havana e a pressão sobre o Brasil é acompanhada pelo site desde o especial Depois de Caracas.

AS VERSÕES

  • A imprensa ocidental: um discurso de ameaça aberta de queda do governo cubano, com o anúncio de pressão diplomática e a saída da delegação como gesto de protesto. Infobae, em espanhol.
  • A versão do governo de Cuba: o chanceler Bruno Rodríguez respondeu que o governo americano é incapaz de aceitar que Cuba é, e tem o direito de ser, um país plenamente independente e soberano. O embargo, disse, é castigo coletivo. Cuba en Resumen, site alinhado a Havana, em espanhol.
  • A imprensa cubana independente: a saída dos quatro delegados contada junto com o dado que o governo não destaca: Trump disse que negocia com Havana enquanto promete a queda do sistema. OnCuba, em espanhol.

As três versões concordam no gesto e divergem no que ele significa. Para a imprensa de fora, a saída é protesto simbólico. Para Havana, é defesa de soberania diante de uma ameaça declarada. Para a imprensa independente, é teatro dos dois lados, porque a conversa entre os dois governos continua por baixo. O dado prático é um só: Washington disse na tribuna da ONU que trabalha pela troca de um governo do hemisfério, e nenhuma potência contestou no plenário.

Ásia oriental

A China oficializou a viagem mais vigiada do trimestre. O porta-voz da chancelaria Guo Jiakun anunciou que Xi Jinping faz visita de Estado aos Estados Unidos de quarta a sexta, a convite de Trump. É a primeira dele a Washington em mais de dez anos. A versão do governo chinês fala em troca de opiniões aprofundada sobre as grandes questões da relação e da paz mundial. O jornal japonês Nikkei acrescenta o desenho da recepção: Trump recebe Xi pessoalmente na chegada, um gesto raro. Os dois discursam no jantar de Estado de quinta, com nomes como Jensen Huang, da Nvidia, e Sam Altman, da OpenAI, na lista. O mesmo Nikkei nota o que ficou de fora: Xi não discursa na Assembleia Geral, para não dividir a semana com a tribuna de Nova York. Na agenda estão a trégua comercial firmada em Busan, que vence em 10 de novembro, os controles de chips e as terras raras. O fluxo desses minerais segue perto da metade do nível anterior às restrições. A decisão de juros da própria China, sem mudança na taxa de referência, foi registrada na leitura de segunda-feira.

Sul e Sudeste da Ásia

Na Índia, a lei americana que autoriza tarifas contra compradores de energia russa começou a mudar contratos antes de qualquer decreto. Refinarias que cotam as cargas de novembro estudam limitar o petróleo russo a uma faixa de 20% a 30% das importações, segundo a agência financeira Bloomberg. As compras diretas cairiam a partir de dezembro. A Índia é a maior compradora do petróleo russo por mar e chegou a tirar de Moscou mais da metade do que importa. A conta política desse recuo, feita em Nova Délhi entre o desconto russo e o acesso ao mercado americano, foi descrita na leitura de segunda-feira. O efeito colateral aparece no Golfo. Cada barril que a Índia deixa de comprar da Rússia vira demanda por barris do Oriente Médio e dos Estados Unidos, numa rota que ainda depende de escolta.

Golfo e Oriente Médio

O dia da região se passou em Nova York. A delegação iraniana saiu do plenário quando Trump começou o trecho sobre o Irã. Só um funcionário de escalão baixo ficou na cadeira, segundo a agência iraniana IMNA. O chanceler Abbas Araghchi, que está em Nova York, não foi visto no plenário. O site Mashregh, alinhado à Guarda Revolucionária, classificou o discurso como repetição de bravatas e delírios contra o Irã. O presidente Masoud Pezeshkian, que circula sob restrição de seis quarteirões imposta pelo Departamento de Estado, o ministério das Relações Exteriores americano, discursa nesta quarta. As sete condições de Teerã para negociar, anunciadas no fim de semana, começam pelo fim dos ataques em todas as frentes, como o COMPASSO registrou na segunda. No mar, a travessia de Ormuz segue por exceção, com escolta e transferência de carga em alto mar, o regime descrito no balanço de sábado. Na quinta, é a vez de Benjamin Netanyahu na tribuna.

Europa e o espaço pós-soviético

A Rússia terminou de contar a eleição da Duma, a câmara baixa do parlamento. A comissão eleitoral processou 100% das atas. O partido do governo fica com 57,83% dos votos de lista e 355 das 450 cadeiras, maioria que permite emendar a Constituição sem negociar. O Rússia Justa, da oposição tolerada, ficou fora ao não cruzar a barreira de 5%, segundo o jornal russo Kommersant. O resultado oficial sai na quinta. O desenho da nova câmara, e o ataque recorde de drones ucranianos durante a votação, foram lidos na edição de segunda. Do lado da guerra, a novidade é técnica: a Rússia passou a usar drones com motor a jato, mais rápidos e mais altos. Eles forçam a defesa ucraniana a gastar mísseis caros em alvos baratos, segundo o levantamento da revista americana US News. O presidente ucraniano Volodimir Zelenski discursa na Assembleia nesta quarta.

África

Na Nigéria, o caso dos 37 garimpeiros mortos sob custódia ganhou duas respostas de Estado. O governo do estado do Níger criou uma comissão judicial de inquérito, presidida por um juiz, para apurar as mortes, segundo a emissora estatal Voice of Nigeria. E a própria corporação de defesa civil, a NSCDC, que fazia a operação contra o garimpo ilegal, deteve 24 dos seus agentes. A oposição transformou o caso em argumento: o ex-vice-presidente Atiku Abubakar disse que o país não pode ser governado por postagens feitas da Europa. A cobrança mira o presidente Bola Tinubu, em viagem, pela condução da crise. O registro inicial do caso está na leitura de segunda. No Marrocos, a campanha terminou nesta terça. Amanhã, 15,8 milhões de eleitores elegem os 395 deputados da Câmara dos Representantes. São 27 partidos na disputa e 3.006 observadores credenciados, segundo o jornal marroquino Le Matin.

Os impactos por aqui

Três fios do dia chegam ao Brasil. O primeiro é o hemisfério. Washington disse na tribuna da ONU que derrubou um governo vizinho e trabalha pela queda de outro. Diante disso, o aviso do presidente brasileiro contra ingerência, feito da mesma tribuna, deixa de ser retórica de campanha. Vira resposta a uma doutrina declarada. O segundo é a reunião de quinta na Casa Branca. Se a trégua for prorrogada com compromisso chinês de comprar mais produto agrícola americano, parte do prêmio da soja brasileira nesse desvio de comércio encolhe. O terceiro é o petróleo. A Índia trocando barril russo por barril do Golfo aperta a oferta que abastece o Brasil de diesel importado, com efeito no frete e no preço do alimento. Renda, preço e juro continuam atados a decisões tomadas fora do país.

Entenda a região

A ideia de que o hemisfério ocidental é zona de segurança dos Estados Unidos é mais velha que a ONU. Ela foi formulada em 1823, quando Washington avisou as potências europeias de que não aceitaria novas colônias nas Américas. No século 20, virou prática: intervenções no Caribe e na América Central, apoio a trocas de governo durante a Guerra Fria e o embargo a Cuba, em vigor desde 1962. Nas últimas décadas, a doutrina parecia arquivada, e a região negociava comércio e migração com Washington como qualquer outra. A sequência de 2026 reabriu o padrão antigo por outra via: operação militar na Venezuela em janeiro, prisão de um presidente estrangeiro e acordo de petróleo com o governo que o substituiu. Agora, soma-se a promessa pública de queda do governo cubano. A diferença atual está no palco. O que antes se fazia por embaixadas e operações discretas agora é dito no plenário das Nações Unidas, diante das delegações citadas.

Fontes

Chancelaria da China, em chinês (o anúncio da visita de Estado, documento primário, a versão do governo chinês) · Nikkei, em japonês (a agenda da visita e a recepção) · Nikkei, em japonês (a ausência de Xi na tribuna da ONU) · NPR, a rede pública americana (o que está na agenda da reunião) · CBS News, a rede americana (o discurso na Assembleia) · Fox News, a rede conservadora (a Venezuela na Assembleia) · Infobae, em espanhol (a saída da delegação cubana) · Cuba en Resumen, em espanhol (a resposta do chanceler cubano) · OnCuba, em espanhol (a imprensa cubana independente) · Business Standard, o diário financeiro indiano (as refinarias e as cargas de novembro) · The Tribune, o diário indiano (o corte das compras diretas a partir de dezembro) · IMNA, em persa (a saída da delegação iraniana) · Mashregh, em persa (a reação alinhada à Guarda Revolucionária) · Kommersant, em russo (a contagem de 95% e o desenho final da Duma) · Kommersant, em russo (o comparecimento acima de 59%) · US News, a revista americana (os drones a jato contra a defesa ucraniana) · Voice of Nigeria, a emissora estatal (a comissão judicial de inquérito, documento primário) · allAfrica (a crítica de Atiku Abubakar ao presidente em viagem) · Le Matin, em francês (o fim da campanha marroquina) · Nações Unidas, o calendário do debate geral (documento primário)

Os outros textos do dia: Trump põe o acordo com o Irã depois da eleição americana · Eleição 2026: Lula avisa a ONU e a Quaest encolhe a diferença.

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