Política monetária · Análise
A semana em que a inflação apertou e a bandeira ficou verde
O movimento da semana em Finanças: a última prévia de inflação antes do voto veio acima do esperado, a 0,70% no mês e 4,47% em doze meses, e o juro americano de dez anos tocou o maior nível desde 2007. No mesmo dia, a agência reguladora de energia anunciou bandeira verde para outubro, sem cobrança extra na conta de luz, depois de cinco meses de bandeira amarela. E o governo fez o primeiro contingenciamento do ano, de 13,6 bilhões de reais.
Leituras
- A prévia da inflação veio em 0,70% e acumula 4,47% em doze meses: o número encosta no teto da meta e reduz o espaço do Banco Central para seguir cortando o juro.
- O juro americano de dez anos tocou o maior nível desde 2007: dinheiro mais caro lá fora aperta o câmbio e encarece a rolagem da dívida de quem deve em dólar.
- A bandeira verde tira a cobrança extra da conta de luz em outubro, depois de cinco meses: o alívio chega na véspera do voto e veio da chuva que encheu os reservatórios do Sul.

A semana das finanças terminou com três números que puxam em direções diferentes. A prévia da inflação de setembro veio em 0,70%, acima do 0,53% que o mercado esperava. Em doze meses, ela acumula 4,47%, a um passo do teto da meta, que é 4,5%. O juro do título americano de dez anos, a referência que ancora o custo do dinheiro no mundo, tocou na quinta-feira o maior nível desde junho de 2007. E a ANEEL, a agência federal que regula o setor elétrico, anunciou bandeira verde para outubro: a conta de luz fica sem cobrança extra pela primeira vez em cinco meses. A inflação aperta, o mundo cobra mais caro pelo dinheiro, e a luz dá um alívio na véspera do voto.
A prévia da inflação encosta no teto da meta
O IPCA-15 é a prévia da inflação oficial, medida pelo IBGE com os preços coletados até a metade do mês. O índice de setembro subiu 0,70%, segundo o release do instituto. O maior peso veio da conta de luz, 7,42% mais cara com o fim do desconto do bônus de Itaipu, o abatimento que a usina binacional deu na fatura de agosto. O tomate subiu 20,76% e as carnes, 1,30%. Foi o último índice de preços antes do primeiro turno, e entrou na disputa eleitoral no mesmo dia, como o COMPASSO registrou no texto de sexta da série eleitoral.
Para o juro, o número veio na direção errada. O Copom, o comitê do Banco Central que decide a taxa Selic, cortou o juro de 14% para 13,75% há dez dias, no quinto corte seguido. O Federal Reserve americano subiu o dele na mesma quarta, como o COMPASSO registrou no dia da decisão. A ata do comitê, publicada na terça, citou aumento de incerteza e lembrou que a inflação projetada segue acima da meta. Na segunda, o boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com o mercado, já tinha mostrado a aposta em mais um corte. A projeção pôs a Selic em 13,50% no fim do ano. Uma prévia de 0,70% torna essa aposta menos segura. É uma leitura possível, não um fato: a decisão seguinte do comitê sai em novembro, depois da eleição.
O juro americano volta a 2007 e aperta os outros
O pano de fundo da semana foi o mesmo da anterior, quando o mundo rico subiu o juro e o Brasil cortou, como mostra o balanço de sábado passado. O Federal Reserve, o banco central americano, elevou a taxa para a faixa de 3,75% a 4% em 16 de setembro, na primeira alta desde 2023. O comunicado oficial citou uma inflação que segue elevada. Nesta semana o efeito chegou ao mercado de dívida. O título do Tesouro americano de dez anos é o papel que serve de referência para o custo do crédito no mundo. Ele pagou na quinta o maior juro desde junho de 2007 e fechou a sexta perto de 5,16%, segundo a rede financeira americana CNBC.
Os bancos centrais médios reagiram cada um de um jeito. O da África do Sul subiu o juro em 0,25 ponto no meio da semana, para 7,25%, em decisão unânime. O comunicado do banco disse que o choque dos combustíveis, que parecia se dissipar, voltou a se intensificar. É o petróleo da guerra chegando ao preço interno de um país importador, o canal que o COMPASSO descreve desde o fechamento do estreito de Ormuz. O do México manteve a taxa em 6,50% pela terceira vez seguida. A diretoria escreveu que as condições mexicanas são distintas das americanas e que a política monetária não precisa reagir de maneira mecânica ao Federal Reserve, segundo o jornal financeiro El Financiero. O da China manteve as taxas de referência pelo 16º mês, com crédito barato para uma demanda fraca. Cada resposta mede o espaço que sobra a cada país quando o dinheiro do mundo fica mais caro.
O governo arrecada em recorde e contingencia pela primeira vez
No meio disso, o orçamento brasileiro deu dois sinais em sentidos opostos na mesma semana. Na terça, a Receita Federal anunciou a arrecadação de agosto: 235,6 bilhões de reais, recorde para o mês na série iniciada em 1995. A alta real foi de 8,25% sobre agosto de 2025, segundo o Ministério da Fazenda. Na quinta, o relatório bimestral que acompanha o Orçamento piorou a projeção do resultado primário do governo central. A conta foi de um superávit de 10,8 bilhões para um déficit de 13,6 bilhões de reais. O resultado primário é a conta de receitas menos despesas antes dos juros da dívida. Para caber na meta, o governo fez o primeiro contingenciamento do ano, um congelamento de 13,6 bilhões em despesas, somado a um bloqueio de 2,4 bilhões.
Os dois sinais fecham numa conta só, e ela se lê por fator de produção. O capital que empresta captura a renda da semana: juro de 13,75% aqui e de 5,16% no papel americano remuneram quem tem dinheiro para emprestar, sem produzir nada de novo. O Estado arrecada em recorde e ainda assim corta despesa, porque o serviço da dívida cresce com o juro e come a receita nova. O trabalho paga duas vezes: no crédito mais caro, que segura contratação e consumo, e no orçamento contingenciado, que adia o serviço público que o imposto recorde deveria comprar. É apropriação difusa na origem, de milhões de pagadores, e concentrada no destino, nos detentores de títulos. A sociedade perde um grau de liberdade quando o orçamento passa a ser desenhado pelo custo de rolar a dívida, não pela escolha pública de onde gastar.
O placar da semana
A prévia da inflação de setembro subiu 0,70% no mês e 4,47% em doze meses, segundo o IBGE. A Selic está em 13,75% e o juro americano na faixa de 3,75% a 4%. O título americano de dez anos fechou a sexta perto de 5,16% ao ano, o patamar mais alto desde junho de 2007, segundo a CNBC. O dólar fechou a semana a 5,18 reais, com alta de 0,7%. O Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, caiu 0,95% na semana, a 183.477 pontos, na segunda semana seguida de queda, segundo a revista Exame. A arrecadação federal de agosto somou 235,6 bilhões de reais, recorde para o mês, segundo a Fazenda. O contingenciamento anunciado na quinta é de 13,6 bilhões. E a bandeira de outubro é verde, depois de cinco meses de bandeira amarela a 1,885 real por 100 quilowatts-hora, segundo a ANEEL.
Os impactos por aqui
Para quem vive de salário, a semana deixou um alívio datado e duas pressões longas. O alívio é a conta de luz de outubro sem cobrança extra. Numa casa que consome 200 quilowatts-hora, são cerca de 3,77 reais a menos por mês. A agência atribuiu a folga à chuva que encheu os reservatórios do Sul e do Sudeste. A chuva no Sul é o padrão que o El Niño torna mais provável, como a série climática registrou na segunda-feira. O mesmo fenômeno ameaça as hidrelétricas do Norte na seca do verão. O alívio de outubro não está garantido para dezembro. As pressões longas são o juro e o câmbio. Com o dinheiro americano no nível de 2007, o real fecha a semana mais fraco mesmo com o petróleo em queda, e importar fica mais caro. E a inflação a 4,47% trava o espaço do Banco Central: o crédito do carnê, do cartão e da empresa pequena segue caro por mais tempo. No jogo do excedente, a semana mostrou o desenho inteiro: o imposto recorde entra, o juro leva, e a escolha de onde gastar encolhe.
Entenda o contexto
A bandeira tarifária é o sistema que repassa à conta de luz o custo de gerar energia. A verde não cobra nada. A amarela e a vermelha cobram um extra por 100 quilowatts-hora quando as termelétricas entram no lugar das hidrelétricas. A bandeira estava amarela desde maio. A meta de inflação do Brasil é de 3%, com tolerância até 4,5%, e o IPCA-15 de setembro chegou a 4,47%. O aperto global de juros nasceu do petróleo. A guerra fechou o estreito de Ormuz em março e o barril passou de 100 dólares em setembro, como o COMPASSO registrou no início do ciclo. O Federal Reserve subiu o juro em 16 de setembro pela primeira vez desde 2023, e o Japão levou o dele a 1,25% dois dias depois. O Brasil seguiu na direção contrária, cortando pela quinta vez. A conta dessa divergência aparece no câmbio: quando o juro de lá sobe e o daqui cai, o dólar tende a se fortalecer contra o real.
Fontes
IBGE (o IPCA-15 de setembro, documento primário) · ANEEL (a bandeira verde de outubro, documento primário) · Federal Reserve (o comunicado da alta de setembro, documento primário) · Ministério da Fazenda (a arrecadação recorde de agosto, documento primário) · Banco central da África do Sul (o comunicado da alta, documento primário) · Banco Central do Brasil (a ata do Copom, documento primário) · El Financiero, em espanhol (a decisão do banco central mexicano) · Exame (o fechamento da semana na bolsa e no câmbio) · CNBC (o juro americano de dez anos) · Agência Brasil, a agência estatal de notícias (a bandeira verde) Os outros textos do dia: O movimento da semana em Segurança · O movimento da semana em Produção · O movimento da semana em Conhecimento · Eleição 2026 · Clima.
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.