Energia · Análise
Clima: a semana fecha com o Pacífico no topo da série
O balanço de sábado da série climática: a faixa central do Pacífico bateu na segunda o recorde diário de 45 anos de medições, a 3,08 °C acima da média, e recuou a 2,93 °C na quinta. A média semanal segue em 3,0 °C, a costa do Peru marca 4,6 °C na tabela oficial e a agência meteorológica mundial vê chance perto de 100% de o El Niño durar até fevereiro. No Brasil, a chuva que o fenômeno mandou ao Sul já pôs a bandeira da conta de luz em verde.
Leituras
- A faixa que define o El Niño bateu 3,08 °C acima da média no dia 21 e recuou a 2,93 °C três dias depois: o pico oscila, a tendência segue de alta.
- A agência meteorológica mundial vê chance perto de 100% de o El Niño durar até fevereiro e prevê um trimestre a 3,6 °C acima da média: seria o evento mais forte já medido.
- No Brasil, a chuva que o fenômeno mandou ao Sul já pôs a bandeira da conta de luz em verde; a seca que ele costuma mandar ao Norte ainda não chegou à conta.
Este é o balanço de sábado da série Crise Climática, que acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. A semana fechou o quadro que a série vinha montando. O Pacífico equatorial passou pelo maior desvio diário de 45 anos de satélites e segue no topo da série, mesmo depois de um recuo. E as instituições internacionais subiram o tom na mesma direção dos números.
O que a semana mediu
O número central saiu na segunda e foi registrado pela série na sexta. A temperatura diária da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou a 3,08 °C acima da média de 1991 a 2020 no dia 21. A região é a faixa central do Pacífico que serve de referência oficial do El Niño. É o maior desvio diário desde o início das medições por satélite, em 1981. O recorde anterior, de 3,02 °C, era de novembro de 2015. Os dias seguintes recuaram: 3,02 °C na terça, 2,92 °C na quarta e 2,93 °C na quinta. O dado é da plataforma Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine. Ela organiza a série de satélites e boias da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera. O recuo de um pico diário é oscilação normal; a referência do fenômeno é a média semanal e mensal.
As médias seguem no alto. A tabela semanal oficial da NOAA marca 3,0 °C acima da média na região Niño 3.4, na semana centrada em 16 de setembro. Na região Niño 1+2, a faixa diante do Peru e do Equador, a mesma tabela marca 4,6 °C acima da média. É o valor mais alto do ciclo. O boletim semanal da mesma agência, o outro produto que a série acompanha, marcava números menores na segunda. A divergência entre os dois produtos segue sem explicação publicada, como a série registrou na segunda-feira. A temperatura global da superfície dos oceanos, medida entre 60 graus sul e 60 graus norte, estava em 21,12 °C na quinta, perto do recorde absoluto de agosto.
O que os cientistas dizem
A Organização Meteorológica Mundial, o braço da ONU para o clima, atualizou a previsão no início do mês e a semana confirmou a direção. A agência vê probabilidade perto de 100% de o El Niño durar até fevereiro de 2027. Para o trimestre de setembro a novembro, ela prevê uma média perto de 3,6 °C acima do normal na faixa central. Celeste Saulo, a secretária-geral da organização, disse que um El Niño excepcional exige preparação e resposta excepcionais. O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi mais direto: o El Niño está sendo superdimensionado diante dos nossos olhos, e a ciência não deixa margem de dúvida. As duas falas estão no registro do serviço de notícias da ONU.
Os centros de previsão convergem. O instituto de pesquisa climática IRI, da Universidade Columbia, registra que os 22 modelos que acompanha indicam intensificação, com a maioria projetando o fenômeno em 3,0 °C ou mais. Daniel Swain, climatologista da Universidade da Califórnia, mantém em cerca de 70% a chance de este ser o evento mais forte desde pelo menos 1950. Ele espera contribuição do fenômeno para secas, enchentes e calor extremo regionais, segundo o site de divulgação científica EarthSky. E a projeção oficial da NOAA, de 10 de setembro, segue dando 75% de chance de um evento histórico no trimestre de outubro a dezembro. A série acompanha essa projeção desde o primeiro texto.
O que muda na leitura acumulada
A semana acrescentou uma marca e uma correção. A marca: pela primeira vez neste ciclo, um número medido, e não projetado, superou o auge de 2015. A correção é do gelo. O centro americano de dados de neve e gelo, o NSIDC, consolidou a análise do degelo do Ártico. O mínimo de 2026 foi de 4,60 milhões de quilômetros quadrados, em 12 de setembro. Ele empata como o 10º menor da série, junto com 2008, 2010 e 2025. A série tinha registrado 11º menor no texto de 18 de setembro, com base no anúncio preliminar, e fica corrigida. Os 20 menores mínimos ocorreram nos últimos 20 anos, diz a análise do centro. No Antártico, o máximo de inverno foi o 3º menor da série.
As peças que não oscilam seguem no lugar. O gás carbônico medido em Mauna Loa, no Havaí, fechou agosto em 427,55 partes por milhão, 2,07 a mais que em agosto de 2025, na série oficial da NOAA. Agosto segue empatado com julho de 2023 como o mês mais quente já medido, como a série registrou em 16 de setembro. No Peru, a comissão oficial ENFEN mantém 48% de chance de magnitude extraordinária no verão. A probabilidade de El Niño costeiro em setembro é de 85%, segundo o jornal peruano La República, em espanhol. E no Brasil o fogo voltou a subir onde a seca aperta. O Amazonas registrou 2.384 focos de queimada de 1º a 19 de setembro, quase o quádruplo do mesmo período de 2025. Os dados são do INPE, o instituto espacial brasileiro, reproduzidos pelo site amazonense BNC.
Os impactos por aqui
O efeito no bolso chegou nesta semana com sinal trocado. A chuva acima da média no Sul e no Sudeste, o padrão que o El Niño torna mais provável, encheu os reservatórios. Com isso a ANEEL, a agência do setor elétrico, anunciou bandeira verde para outubro. A conta de luz fica sem cobrança extra pela primeira vez em cinco meses, como analisa o texto de finanças desta edição. O outro lado do mesmo fenômeno ainda não chegou à conta. O padrão histórico projeta seca e calor no Norte e no Nordeste no verão, com pressão sobre as hidrelétricas. A safra já está projetada em recuo pela Conab, a estatal de acompanhamento agrícola, como a série registrou em 15 de setembro. No curto prazo, a previsão indica um ciclone extratropical se formando no litoral do Rio Grande do Sul entre domingo e segunda. Há alerta de tempestades no Sul e de calor acima de 40 °C no Centro-Oeste, segundo boletins meteorológicos reproduzidos pela imprensa. O aviso da série é o de sempre: o fenômeno torna esses efeitos mais prováveis, sem garantir nenhum deles em data e lugar marcados.
O que observar
Segunda-feira, dia 28: a NOAA atualiza a tabela semanal e o boletim do El Niño, com a chance de a média semanal também superar o pico de 2015. Primeira semana de outubro: o serviço europeu Copernicus fecha a temperatura global de setembro, e a NOAA publica o gás carbônico do mês em Mauna Loa. Dia 8 de outubro: sai a atualização mensal completa da previsão do fenômeno, o ENSO Diagnostic Discussion. Início de outubro: o NSIDC publica a análise mensal do gelo marinho. E em meados de outubro o ENFEN, no Peru, atualiza o comunicado oficial sobre a magnitude do verão.
Fontes
Climate Reanalyzer (a série diária da superfície do mar, documento primário) · NOAA (a tabela semanal das regiões do Pacífico, documento primário) · NOAA (a série mensal de gás carbônico em Mauna Loa, documento primário) · NSIDC (a análise do mínimo do Ártico, documento primário) · Organização Meteorológica Mundial (a previsão do fenômeno, documento primário) · IRI, Universidade Columbia (os 22 modelos de previsão, documento primário) · ONU (as falas de Celeste Saulo e António Guterres) · EarthSky (a estimativa de Daniel Swain) · La República, em espanhol (o comunicado do ENFEN peruano) · BNC Amazonas (os focos de queimada do INPE no estado) Os outros textos do dia: O movimento da semana em Segurança · O movimento da semana em Produção · O movimento da semana em Finanças · O movimento da semana em Conhecimento · Eleição 2026: oito pesquisas fecham a semana em empate.
Os sinais do clima
- Evento histórico, acima de todos desde 195075%
- Qualquer outro desfecho25%
NOAA, projeção de 10 de setembro para outubro-dezembro. Os sinais da semana: Niño 3.4 a 3,0 °C acima da média na tabela semanal e 2,93 °C no dado diário de quinta (pico de 3,08 °C na segunda); oceano global 60S-60N a 21,12 °C na quinta; agosto empatado como mês mais quente da série (Copernicus); CO2 em Mauna Loa a 427,55 ppm em agosto; mínimo do Ártico de 4,60 milhões de km², o 10º menor (NSIDC)
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