Energia · Análise
Clima: o Pacífico bate o recorde diário de toda a série
A temperatura diária da superfície do mar na região que define o El Niño chegou a 3,08 °C acima da média em 21 de setembro, o maior desvio já registrado desde o início das medições por satélite, em 1981. O recorde anterior, de 3,02 °C, era de novembro de 2015. O dado é da plataforma Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine, com a série de satélites e boias da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera. O pico do evento ainda está a meses de distância.
Leituras
- O desvio diário de 3,08 °C na faixa central do Pacífico supera o pico de 2015 antes mesmo do trimestre em que o El Niño costuma ser mais forte: o evento segue ganhando força.
- O oceano global somou cem dias seguidos de recorde diário entre junho e setembro: o calor que alimenta o El Niño vem por cima de uma base que já era a mais quente da série.
- Para o Brasil, o sinal aponta chuva além do normal no Sul e seca no Norte e no Nordeste no verão: a conta passa pela safra, pelas hidrelétricas e pela bandeira da conta de luz.
Este é um texto da série Crise Climática, que acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. O dado novo é um recorde absoluto. Em 21 de setembro, a temperatura diária da superfície do mar na região Niño 3.4 ficou 3,08 °C acima da média de 1991 a 2020. A região é a faixa central do Pacífico equatorial que serve de referência oficial do El Niño. É o maior desvio diário de toda a série de medições por satélite, iniciada em 1981. O recorde anterior, de 3,02 °C, tinha sido registrado em novembro de 2015, no auge do El Niño daquele ciclo.
O que o dado mede e de onde ele vem
O número sai da plataforma Climate Reanalyzer, do instituto de mudança climática da Universidade do Maine. A plataforma organiza a série diária de satélites e boias da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera. A revista Science News confirmou o recorde com os autores da medição. O desvio diário complementa as duas medidas semanais que a série acompanha e que divergem entre si, como o COMPASSO registrou na segunda. A tabela semanal oficial da NOAA marcou 3,0 °C na semana encerrada em 16 de setembro. O boletim da mesma agência marcou 2,1 °C, e a diferença segue sem explicação publicada. O recorde diário não depende dessa divergência: ele supera o pico de 2015 dentro do mesmo produto, comparado com ele mesmo.
O recorde vem por cima de um oceano que já estava no ponto mais quente da série. Entre 2 de junho e 10 de setembro, a temperatura média da superfície de todos os oceanos bateu o recorde diário da data por cem dias seguidos. O levantamento é do site de jornalismo ambiental Mongabay, com os dados do Climate Reanalyzer. O pico ficou entre 21,10 °C e 21,18 °C na segunda quinzena de agosto, conforme o produto usado. É o maior valor já medido, como a série registrou no primeiro texto. No fim de junho, 82% do oceano estava em onda de calor marinha, a permanência anormal de água quente que mata coral e desloca cardume.
O que os cientistas dizem
O auge ainda está à frente. Nathaniel Johnson, cientista do clima do laboratório da NOAA em Princeton, disse à revista Science News que o pico deve chegar nos próximos meses. É o padrão dos El Niño fortes: a temperatura do Pacífico costuma alcançar o topo entre outubro e janeiro. Daniel Swain, climatologista da Universidade da Califórnia, estima em cerca de 70% a chance de este evento se tornar o mais forte desde pelo menos 1950. A estimativa foi publicada pelo site de divulgação científica EarthSky. A projeção oficial da NOAA, atualizada em 10 de setembro, dá 75% de chance de um evento histórico no trimestre de outubro a dezembro. A série registrou a escalada em 14 de setembro, quando a faixa central cruzou os 2 °C. Sobre o oceano global, Zachary Labe, cientista do clima do instituto americano Climate Central, resumiu ao Mongabay a causa e a proporção. O motor do calor recorde é a mudança climática. Mais de 90% do calor extra retido pelo planeta vai para o oceano.
O que muda na leitura acumulada
Três sinais subiam juntos até aqui. Eram a projeção oficial de evento histórico, a faixa central acima de 2 °C e a costa do Peru a 3,9 °C, registrada na segunda. O recorde diário de 3,08 °C é o primeiro número deste ciclo que supera diretamente uma marca de 2015, sem depender de projeção. A comparação importa porque o El Niño de 2015 e 2016 ajudou a fazer de 2016 o ano mais quente da história até então. O ciclo atual repete a sequência com uma base mais alta. Agosto de 2026 empatou com julho de 2023 como o mês mais quente já medido, como a série registrou em 16 de setembro. No Peru, a comissão oficial que acompanha o fenômeno, conhecida como ENFEN, mantém 48% de chance de magnitude extraordinária no verão. É o cenário que desmonta a pesca da anchoveta e traz chuva torrencial ao litoral.
Os impactos por aqui
Para o Brasil, El Niño forte costuma significar chuva além do normal no Sul. No Norte e no Nordeste, o padrão é seca e calor, com o miolo do efeito no verão. A primeira safra desenhada sob o evento já está projetada com recuo, como a série registrou em 15 de setembro. Os números são da Conab, a estatal que acompanha as safras. A energia entra na mesma conta em dose dupla. Seca no Norte reduz as hidrelétricas e empurra a bandeira da conta de luz para cima. E a prévia da inflação desta sexta já mostrou a luz 7,42% mais cara pelo fim de um desconto, como analisa o texto do dia da série eleitoral. O aviso é o de sempre nesta série: o El Niño torna esses efeitos mais prováveis, sem garantir nenhum deles em lugar e data marcados.
O que observar
Segunda-feira, dia 28: sai o boletim semanal do El Niño da NOAA, com a chance de a média semanal também superar o pico de 2015. Primeira semana de outubro: o boletim mensal do serviço europeu Copernicus fecha a temperatura global de setembro. Dia 8 de outubro: a NOAA publica a atualização mensal completa da previsão do fenômeno. E o ENFEN, no Peru, atualiza o comunicado oficial sobre a magnitude do verão.
Fontes
Climate Reanalyzer (a série diária da superfície do mar) · NOAA (a tabela semanal das regiões do Pacífico) · NOAA (o boletim semanal do El Niño) · Science News (o recorde diário e as falas dos cientistas) · Mongabay (os cem dias de recorde do oceano global) · EarthSky (a estimativa de Daniel Swain) · ENFEN, em espanhol (o comunicado oficial peruano)
Os outros textos do dia: O Irã oferece reabrir Ormuz em sete dias e o barril cai · O dia em seis regiões: o plenário esvazia para Netanyahu · Eleição 2026: a rodada fecha empatada e a inflação vai a 4,47%.
Os sinais do clima
- Evento histórico, acima de todos desde 195075%
- Qualquer outro desfecho25%
NOAA, projeção para outubro-dezembro de 2026, atualizada em 10 de setembro
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.