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Política monetária · Análise

Setembro nas Finanças: juro global em alta e Selic na contramão

O deslocamento do mês em Finanças: o Federal Reserve fez a primeira alta de juros desde 2023, o Banco do Japão levou sua taxa ao maior nível em 31 anos e o Copom cortou a Selic a 13,75% na direção oposta. O Brasil começou setembro medindo deflação e terminou com a prévia da inflação a 4,47% em doze meses, encostada no teto da meta. O preço do dinheiro voltou a subir no mundo por causa do petróleo de guerra, e a conta chegou ao câmbio antes de chegar à bomba.

Por COMPASSO1 de outubro de 20269 min de leituraTabuleiro: Política monetária

Leituras

  1. O petróleo de guerra virou variável de banco central: o Federal Reserve subiu o juro pela primeira vez desde 2023, por 12 votos a 0, e o Japão foi ao maior nível em 31 anos.
  2. O Brasil decidiu na contramão e pagou em 48 horas: o Copom cortou a Selic a 13,75% na quarta, e na sexta o Banco Central vendeu 1 bilhão de dólares para dar liquidez ao câmbio.
  3. A inflação fechou o espaço durante o mês: a prévia saiu de deflação em agosto para 0,70% em setembro, com 4,47% em doze meses, encostada no teto de 4,5% perseguido pelo Banco Central.
Ilustração editorial escura: duas linhas de gráfico que se cruzam, uma subindo e outra descendo, com o ponto de cruzamento marcado em vermelho tijolo

Setembro foi o mês em que o custo do dinheiro voltou a subir no mundo rico. E em que o Brasil escolheu a direção oposta. Entre os dias 16 e 18, quatro decisões desenharam o quadro. O Federal Reserve, o banco central americano, fez sua primeira alta desde 2023. O Banco do Japão levou o juro a 1,25%, o maior nível em 31 anos. O Banco da Inglaterra manteve a taxa em nível alto. E o Copom, o comitê de política monetária do Banco Central brasileiro, cortou a Selic de 14% para 13,75%. O COMPASSO acompanhou a sequência em 19 de setembro. O deslocamento do mês é esse: a distância entre o juro brasileiro e o americano, que protege o real, encolheu meio ponto numa única semana, por decisão dos dois lados.

O petróleo entrou no juro

A causa da virada global tem nome: o petróleo de guerra, que tem análise própria nesta edição. Com o estreito de Ormuz operando por decisão militar, o barril do tipo Brent tocou 108 dólares na metade do mês. A gasolina pagou mais de um terço da inflação americana de agosto, como o COMPASSO registrou em 12 de setembro. O comunicado do Federal Reserve justificou a alta dizendo que a inflação segue elevada. A decisão saiu por 12 votos a 0, depois de uma semana de cobrança pública da Casa Branca por juros baixos. O preço do dinheiro americano seguiu fixado pela regra da meta de inflação, não pela vontade do governante. A projeção mediana do próprio comitê indica mais uma alta de 0,25 ponto ainda em 2026.

No Japão, a alta a 1,25% saiu com dois votos contrários entre nove integrantes do comitê. O jornal japonês Nikkei registrou a justificativa: conter os riscos de alta de preços vindos do petróleo e do iene fraco, que chegou a 157 por dólar no mês. A consequência para o resto do mundo é mecânica. O juro japonês era a fonte do dinheiro mais barato do planeta. Esse dinheiro financiava aplicações em países de juro alto, a chamada operação de carry trade. Quando ele sobe, o fluxo volta para casa, e países como o Brasil perdem parte do capital que segurava suas moedas. O título do Tesouro americano de dez anos, a referência global do custo do dinheiro longo, fechou o mês perto de 5,16% ao ano. É o nível mais alto desde 2007, segundo a CNBC, o canal financeiro americano.

A contramão brasileira

O Copom cortou a Selic a 13,75% no quinto corte seguido do ciclo iniciado em março, por unanimidade. A justificativa foi a atividade mais fraca e a desaceleração recente dos índices de preço. A ata registra que os riscos para a inflação seguem acima do usual, com assimetria para cima. O custo da contramão apareceu rápido. Na sexta da mesma semana, o Banco Central vendeu 1 bilhão de dólares no mercado para dar liquidez ao câmbio. O dólar fechou aquela semana a 5,18 reais. Quem deve em dólar, do Tesouro Nacional às empresas com dívida externa, viu a rolagem encarecer. Quem aplica em juro curto brasileiro seguiu recebendo um dos maiores retornos reais do mundo, perto de nove pontos acima da inflação. A renda do capital financeiro segue sendo a mais protegida da economia brasileira. O trabalho paga o ajuste no crédito caro e no consumo contido.

A virada não ficou nos três grandes bancos centrais. A média de juros do grupo das dez maiores moedas subiu no mês, segundo levantamento registrado pela CNN Brasil, o canal brasileiro de notícias. O banco central da África do Sul subiu sua taxa citando o petróleo. O do México manteve o juro em nível alto, segundo o jornal mexicano El Financiero, lido em espanhol. O movimento é coordenado sem ninguém coordenar: todos respondem ao mesmo barril. Para o investidor global, a conta ficou simples. Com o juro americano subindo e o japonês no maior nível em três décadas, aplicar em países de risco exige prêmio maior. O Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, sentiu: caiu 0,95% na última semana cheia do mês, a 183.477 pontos, na segunda semana seguida de queda, segundo a revista Exame.

A aposta do Banco Central era a inflação em queda, e o fim do mês a desmentiu. O IPCA-15, a prévia da inflação oficial medida pelo IBGE, saiu de uma deflação de 0,40% em agosto para alta de 0,70% em setembro. Veio acima de todas as projeções do mercado, puxado por alimentos e energia. Em doze meses, o índice acumula 4,47%. Está encostado no teto de 4,5%, já que a meta é de 3% com tolerância de 1,5 ponto. A deflação de agosto tinha prazo de validade, como o COMPASSO mostrou em 11 de setembro. Ela veio do crédito de Itaipu na conta de luz e de uma trava no preço da gasolina paga pelo Tesouro, que vence um dia depois do primeiro turno. O número de setembro mostra o que acontece quando os efeitos temporários saem da conta.

O fecho fiscal e a véspera do voto

O mês terminou com três números fiscais e um alívio na conta de luz. A arrecadação federal de agosto somou 235,6 bilhões de reais, recorde para o mês, segundo o Ministério da Fazenda. O governo fez o primeiro contingenciamento do ano, de 13,6 bilhões de reais, o bloqueio preventivo de gastos para cumprir a regra fiscal. E a ANEEL, a agência nacional de energia elétrica, anunciou bandeira verde para outubro, sem cobrança extra na conta de luz. Foram cinco meses seguidos de bandeira amarela, encerrados pela chuva que encheu os reservatórios do Sul. O COMPASSO reuniu os números em 26 de setembro. O alívio chega na véspera do voto; o barril caro, só depois dele.

O desenho fiscal de setembro tem os dois lados da mesma moeda. A arrecadação recorde mostra uma economia que ainda gera receita, puxada pelo emprego no menor nível da série histórica. O contingenciamento mostra um orçamento sem folga mesmo com receita recorde, porque o juro da dívida consome o espaço. A dívida bruta brasileira passa de 80% do PIB, como a mensal de agosto registrou. Cada ponto de Selic custa dezenas de bilhões de reais por ano ao Tesouro. É por isso que a direção do juro importa mais ao orçamento público do que qualquer corte de gasto em discussão.

Os impactos por aqui

Para quem vive de salário, setembro deixou três contas armadas para outubro. O crédito segue caro: a Selic a 13,75% ainda é um dos juros mais altos do mundo, e a inflação no teto da meta reduz o espaço de cortes à frente. A gasolina travada até 5 de outubro significa que o aumento represado do petróleo chega à bomba depois da eleição. O barril voltou a superar 100 dólares em 1º de outubro, como registra a mensal de Segurança, e a trava foi explicada em 28 de setembro. E o dólar pressionado pelo diferencial menor encarece o alimento exportável e o eletrônico importado. O que vem tem data. O relatório de emprego americano sai em 2 de outubro. O comitê do Federal Reserve volta a decidir em 27 e 28 de outubro. O Copom se reúne em 3 e 4 de novembro, já com o resultado da eleição conhecido.

Entenda o contexto

Desde a crise financeira de 2008, o mundo rico viveu quase quinze anos de dinheiro barato, com juros perto de zero. A inflação pós-pandemia encerrou esse regime em 2022. A guerra no Golfo reabriu a ferida em 2026: energia cara empurra os preços de tudo, e o remédio clássico dos bancos centrais é encarecer o crédito. Para países endividados em dólar ou dependentes de capital externo, cada ponto de juro americano a mais funciona como uma maré que baixa, expondo quem nadava sem proteção. O Brasil chega a essa maré com juro real alto, que atrai capital, e dívida bruta acima de 80% do PIB, que o torna sensível a qualquer aperto prolongado. No jogo do excedente, setembro transferiu renda de quem deve para quem empresta, no mundo inteiro. O Brasil decidiu testar até onde consegue andar na direção contrária.

Fontes

Federal Reserve (o comunicado da alta de setembro, documento primário) · Banco Central do Brasil (a ata do Copom de setembro, documento primário) · Banco do Japão (a decisão de 18 de setembro, documento primário) · IBGE (o IPCA-15 de setembro, documento primário) · ANEEL (a bandeira verde de outubro, documento primário) · Ministério da Fazenda (a arrecadação recorde de agosto, documento primário) · Banco da Inglaterra (a decisão de setembro, documento primário) · Nikkei, em japonês (a alta japonesa e os dois votos contrários) · El Financiero, em espanhol (a decisão do banco central mexicano) · CNN Brasil (a alta média dos juros do G10 e os leilões do Banco Central) · CNBC (o juro americano de dez anos no maior nível desde 2007) · Exame (o fechamento da bolsa e do câmbio na última semana cheia do mês)

Os outros textos do dia: O deslocamento do mês em Segurança · O deslocamento do mês em Produção · O deslocamento do mês em Conhecimento · O estado do jogo de setembro.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.