Comércio global · Análise
Agosto no Brasil: a economia que fala dois idiomas até a urna
O deslocamento do mês no Brasil: agosto entregou deflação, o menor desemprego da série e um PIB acima do consenso, e ao mesmo tempo indústria em queda, a Casas Bahia em recuperação judicial, dívida bruta de 82,5% do PIB e o preço dos ativos decidido em Wyoming. A campanha que abriu em 16 de agosto disputa qual dos dois idiomas o eleitor leva à urna. A primeira mensal do pilar.
Leituras
- Agosto entregou a combinação mais rara da série histórica, deflação na prévia da inflação, o menor desemprego já registrado e um PIB de 0,5% acima do consenso, e ainda assim o consumo das famílias caiu 0,4%: o pleno emprego convive com um juro real de nove pontos que consome a renda antes do consumo.
- A eleição virou preço de tela nas duas direções no mesmo mês: o rebaixamento por um banco americano derrubou a bolsa ao pior fechamento do ano em 12 de agosto, e o mês terminou com a melhor semana desde abril, com o preço dos ativos brasileiros sendo fixado menos em Brasília que em Wyoming e em Ormuz.
- O tarifaço mudou de natureza em agosto: deixou de ser um decreto que se sofre e virou um processo que se disputa, com contencioso na OMC, mesa formal instalada, novas reuniões marcadas e uma linha vermelha publicada, o Pix fora de qualquer negociação.

Esta é a primeira análise mensal do pilar Brasil: o deslocamento de agosto, o movimento que sobra quando os lances diários do mês são postos em sequência. E o de agosto é um mês que aprendeu a falar dois idiomas ao mesmo tempo. No primeiro, o país entregou deflação na prévia da inflação, o menor desemprego da série histórica e, nesta terça, um PIB acima do consenso. No segundo, a indústria caiu, o maior varejista de crediário pediu recuperação judicial, a dívida bruta bateu 82,5% do PIB e o preço dos ativos brasileiros passou a ser fixado em Wyoming e no estreito de Ormuz. A campanha eleitoral, que abriu em 16 de agosto, disputa exatamente qual dos dois idiomas o eleitor levará à urna em 4 de outubro.
O juro de 14% cobrou, e a conta apareceu primeiro na fábrica
O mês abriu com o Comitê de Política Monetária cortando a Selic de 14,25% para 14% ao ano, o quarto corte seguido, com um comunicado que condicionou os próximos passos ao quadro fiscal, como registrou a análise de 7 de agosto. A conta desse juro apareceu em capítulos ao longo do mês: a indústria caindo 1,8% em junho, com 16 dos 25 ramos no vermelho, já sob a tarifa americana; a atividade medida pelo Banco Central encolhendo 0,6% no mesmo mês; e a Casas Bahia, o varejo que vive de crediário, pedindo recuperação judicial com prejuízo trimestral de 10,1 bilhões de reais. Com a inflação corrente em 4,44% e depois em queda, o juro real brasileiro passou o mês perto de nove pontos, entre os mais altos do mundo, e a régua invisível seguiu operando: enquanto o título público paga 14% sem risco, o projeto produtivo que criaria emprego perde a comparação. O presidente da República nomeou em agosto o número que estrutura tudo: 1,2 trilhão de reais por ano em juros da dívida, a maior transferência de renda do país, que não aparece em programa social nem em orçamento de ministério.
Os preços cederam, o emprego encheu, e os dois retratos são verdadeiros
A segunda quinzena entregou a combinação mais rara da série histórica. O IPCA-15 de agosto, a prévia da inflação, registrou deflação de 0,40%, mais funda que a projetada, devolvendo a inflação de 12 meses para 4,24%, dentro do teto da meta, ainda que o motor tenha sido um bônus que não se repete, a devolução de Itaipu barateando a energia residencial em 6,25%. No dia seguinte, o IBGE registrou desemprego de 5,3% no trimestre até julho, o menor da série para o período, com 103,3 milhões de ocupados. E nesta terça o mês estatístico se fechou com o PIB do segundo trimestre crescendo 0,5%, acima do consenso de 0,4%, puxado pela agropecuária em alta de 2,8%, com serviços em 0,2% e indústria em 0,1%, segundo a divulgação do IBGE registrada pela Reuters e pelo The Rio Times. O mesmo relatório traz o segundo idioma dentro do primeiro: o consumo das famílias caiu 0,4% no trimestre, apesar da massa salarial recorde. Pleno emprego com consumidor recuando é a fotografia exata do que o juro de 14% faz: a renda existe, e é poupada, adiada ou consumida pelo serviço da dívida das famílias que a FGV descreveu, na quarta queda seguida da confiança do consumidor, como endividadas e inadimplentes.
O quadro fiscal completou o segundo idioma no último dia do mês: a dívida bruta do governo geral alcançou 82,5% do PIB em julho, 10,9 trilhões de reais, o maior nível desde abril de 2021, com um superávit primário de 1,4 bilhão de reais consumido por 99 bilhões de juros no mês, segundo os dados do Banco Central registrados pelo The Rio Times. É a mesma régua do comunicado do Copom, agora em número: o ajuste que a política monetária cobra do fiscal ainda não apareceu, e cada mês de espera custa quase 100 bilhões em juros.
A eleição virou preço de tela, e a tela virou urna paralela
O mês eleitoral começou antes da campanha: em 12 de agosto, o rebaixamento das ações brasileiras por um banco americano, citando volatilidade eleitoral, derrubou a bolsa ao pior fechamento desde janeiro, e a série fixou o marco: outubro passou a negociar em tela. A campanha abriu oficialmente em 16 de agosto, com Lula em São Bernardo e Flávio Bolsonaro em Copacabana, e a primeira pesquisa Datafolha registrada, em 21 de agosto, desenhou uma disputa mais apertada que a de junho: 39% a 33% no primeiro turno e 47% a 43% no segundo, à beira da margem de erro, segundo o levantamento registrado pelo O Povo. O mercado fez a própria pesquisa na véspera, tirando prêmio de risco do preço, e fechou o mês na direção oposta ao rebaixamento de 12 de agosto: a melhor semana da bolsa desde abril, alta de 3,06%, e um Ibovespa que chegou a esta terça em 177 mil pontos com o dólar em 5,18 reais, conforme o The Rio Times. Entre os dois extremos do mês, uma constante: o preço dos ativos brasileiros foi decidido menos em Brasília que em Wyoming, onde o primeiro discurso do novo presidente do Federal Reserve, admitindo que pode haver trabalho a fazer contra a inflação, devolveu o dólar aos 5,20 reais numa manhã, segundo o The Washington Post.
A campanha terminou o mês no cartório e no rádio: a propaganda eleitoral gratuita estreou em 28 de agosto com 44% do tempo de bloco presidencial nas mãos da coligação governista, e o fim de semana produziu as quatro representações da coligação de Lula contra a oposição no Tribunal Superior Eleitoral, por deepfakes e comício disfarçado. Os dois lados entram em setembro com retratos verdadeiros e opostos: o governo fala emprego recorde, deflação e PIB acima do consenso; a oposição fala dólar, juro de 14% e consumo das famílias em queda. Agosto não escolheu o idioma vencedor, encerrou a fase em que era possível disputar a eleição sem escolher um.
O tarifaço saiu do decreto e virou processo
A quarta linha do mês é a relação com Washington, e ela muda de natureza no meio do caminho. Agosto começou com a régua imposta: tarifa adicional de 25% pela Seção 301, a lei comercial americana, com sobretaxa possível de 12,5%, o comércio bilateral recuando 13% no ano e a China consolidada como principal destino das exportações brasileiras. A resposta institucional foi acumulando camadas: as consultas na Organização Mundial do Comércio com a China como terceira parte, o plano federal de 210 milhões de reais para diversificar mercados, a ligação presidencial de 21 de agosto e, na última segunda-feira do mês, a primeira reunião formal de negociação, precedida pelos 45 minutos de sábado entre o principal acionista do BTG Pactual e o presidente americano num campo de golfe. O resultado da mesa, conhecido nesta terça, foi processo puro: retomada de diálogo sem avanço setorial, novas reuniões técnicas marcadas e uma linha vermelha explícita do lado brasileiro, o Pix fora de qualquer negociação, segundo o ministro do Desenvolvimento em registro da agência indiana ANI e da Reuters. O deslocamento do mês é esse: o tarifaço deixou de ser um decreto que se sofre e virou um processo que se disputa, com agenda, pauta e linhas vermelhas publicadas.
Onde você está nesse lance
Se você vive de salário, agosto foi o mês em que o seu emprego ficou estatisticamente mais seguro e o seu crediário mais caro: o pleno emprego convive com o juro real de nove pontos, e a deflação da conta de luz é um bônus de Itaipu que não se repete em setembro. Se você produz, a régua é dupla: capital a 14% ao ano e, se exporta para os Estados Unidos, a tarifa de 25% enquanto a mesa não anda. Se você poupa, o mês deixou um aviso: o rali de oito pregões que levou a bolsa aos 177 mil pontos foi construído sobre a aposta de que a economia esfria sem quebrar e de que o Federal Reserve não sobe juros em 16 de setembro, e as duas apostas serão testadas fora do seu alcance, pelo relatório de emprego americano desta sexta e pelo barril de Ormuz. E se você vota, agosto entregou a matéria-prima da escolha: dois retratos verdadeiros da mesma economia, e 34 dias de rádio e televisão disputando qual deles é o país.
Entenda o jogo
Na longa duração, agosto de 2026 é um capítulo de uma disputa que o Brasil trava consigo mesmo desde a estabilização: a economia política do juro. O país construiu um arranjo em que a renda financeira é o porto seguro de quem tem excedente e o custo de capital é a barreira de quem produz, e cada ciclo eleitoral reencena a mesma pergunta, quem paga a conta da estabilidade. O que este agosto acrescentou é a camada externa: pela primeira vez desde a redemocratização, uma eleição presidencial brasileira corre sob tarifa punitiva de uma potência, com a política monetária americana operando como instrumento de pressão mais eficaz que qualquer decreto. A urna de outubro decidirá um governo; a maneira como o país processa essa pressão, como custo setorial a ser negociado exceção por exceção, ou como questão nacional que reorganiza prioridades, decidirá bem mais que isso.
Fontes
Reuters, via Investing.com (o PIB de 0,5% do segundo trimestre) · The Rio Times (a abertura setorial do PIB) · The Rio Times (a dívida bruta de 82,5% do PIB) · O Povo, 21/08 (o Datafolha de 39% a 33%) · TSE (o início da propaganda eleitoral em 16/08) · The Washington Post, 28/08 (o discurso de Jackson Hole) · ANI, 01/09 (o balanço da mesa com Washington e o Pix) · Reuters, via Investing.com (as novas reuniões marcadas) · The Rio Times, 01/09 (bolsa e câmbio no fechamento do mês)
Os outros deslocamentos do mês: Potências, Global e Economia Política das IAs. E o placar do dia da série especial: A hipótese Brasil.
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.