Arquitetura de segurança · Análise
O dia em seis regiões: mísseis em Kiev e o orçamento da guerra
A Rússia lançou na madrugada desta quarta um dos maiores ataques combinados do ano contra a Ucrânia, com mísseis hipersônicos e 188 drones, um dia depois de confirmar o maior orçamento militar desde o início da guerra. Dois aeroportos poloneses chegaram a fechar. No Golfo, a resposta americana à oferta de reabertura de Ormuz chegou a Teerã pelas mãos do Catar, que somou uma proposta própria. A indústria chinesa voltou a crescer, a inflação americana desacelerou, e a guerra reabriu no norte da Etiópia.
Leituras
- A Rússia respondeu ao próprio orçamento: um dia depois de confirmar 202 bilhões de dólares para a defesa em 2027, lançou contra a Ucrânia uma das maiores noites de mísseis e drones do ano.
- A resposta americana à oferta de Ormuz chegou a Teerã pelo Catar, que somou proposta própria: a reabertura do estreito depende agora da ordem dos passos, com o conteúdo ainda reservado.
- A indústria chinesa voltou a crescer e o núcleo de inflação americano desacelerou a 3%: a economia global absorve o choque de Ormuz com o estreito ainda em um trânsito por dia.
A leitura cruzada desta quarta percorre as seis regiões com a Europa em primeiro plano: a noite de mísseis e drones sobre a Ucrânia, contada por três vozes que parecem descrever países diferentes. O fato do dia para o leitor brasileiro é outro e tem texto próprio: a China esgotou a cota e passou a taxar a carne do Brasil em mais 55%.
Américas
A intimação argentina ao Reino Unido pelo petróleo das Malvinas entrou no segundo dia sem resposta formal de Londres. O comunicado oficial argentino diz que o país não ficará de braços cruzados e seguirá defendendo com firmeza seus direitos soberanos. A citação é do MDZ, o site da província de Mendoza, em espanhol. O presidente Javier Milei escreveu nas redes que as Malvinas se defendem com fatos. A imprensa londrina tratou o prazo de duas semanas como excentricidade. O governo britânico repete a autodeterminação dos ilhéus, confirmada em referendo em 2013. O caminho judicial, o tribunal do mar de Hamburgo, ficou registrado ontem.
Nos Estados Unidos, o ano fiscal terminou nesta quarta sem risco de paralisação do governo. A lei provisória de gastos, sancionada em 2 de setembro, financia as agências federais até 11 de dezembro, segundo a Casa Branca. O dado do dia foi de preços. O índice de despesas de consumo (PCE), a medida de inflação preferida do Federal Reserve, o banco central americano, subiu 3,4% em 12 meses até agosto. O núcleo, sem alimentos e energia, desacelerou a 3,0%, abaixo do que o mercado esperava, segundo o escritório de estatísticas econômicas do governo, o BEA. E a fronteira norte apertou mais um grau. Desde terça, cerca de 1 bilhão de dólares por ano em produtos canadenses estão proibidos de entrar nos Estados Unidos, de bebidas a motos de alta cilindrada. É o degrau acima das tarifas de 50% cuja conta o COMPASSO mediu em 12 de setembro. A Radio-Canada, a emissora pública, em francês, pergunta ao próprio público qual será o efeito sobre a economia do país.
Ásia oriental
A indústria chinesa voltou a crescer na véspera do feriado de 1º de outubro. O PMI, o índice dos gerentes de compras que mede a atividade fabril, subiu a 50,1 em setembro, segundo o escritório nacional de estatísticas da China. O índice volta ao terreno de expansão depois de dois meses abaixo da linha de 50. A agência estatal Xinhua, em chinês, resumiu na linha oficial: a produção e a demanda das fábricas continuam melhorando. Para o Brasil, a leitura é direta: é esse comprador que sustenta minério e soja, o mesmo que a partir de quinta taxa a carne.
Na península coreana, Kim Yo-jong, a irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un, chamou de farsa a conclusão preliminar de Seul e do Comando das Nações Unidas sobre as explosões de 21 de setembro na zona desmilitarizada. A investigação apontou minas do Norte como causa do episódio, que feriu três soldados sul-coreanos. Ela ameaçou retaliação imediata e impiedosa, segundo o Korea Times, o jornal sul-coreano em inglês. As linhas militares de comunicação entre as duas Coreias seguem desligadas.
Sul e Sudeste da Ásia
O movimento do dia é diplomático. A Índia participa até esta quarta, em Islamabad, da reunião de coordenadores da Organização de Cooperação de Xangai, o bloco de segurança liderado por China e Rússia, sob presidência do Paquistão. É uma presença rara em solo paquistanês num momento de relações congeladas entre os dois vizinhos nucleares. A imprensa indiana já discute se o primeiro-ministro Narendra Modi irá à cúpula de 2027. Em Mianmar, o secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou o bombardeio da junta militar que matou 50 pessoas num mercado do estado de Rakhine. O ataque ficou registrado na terça. A junta não reconhece o alvo civil; o balanço é do grupo armado que controla a área.
Golfo e Oriente Médio
A resposta chegou a Teerã. A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, anunciou que o chanceler Abbas Araghchi recebeu dos mediadores do Catar a resposta de Washington à oferta iraniana de reabrir o estreito de Ormuz em sete dias. O texto foi entregue ao presidente Masoud Pezeshkian na reunião de gabinete desta quarta. O conteúdo não foi divulgado. A oferta original, com cessar-fogo, liberação de ativos congelados e suspensão de sanções ao petróleo, o COMPASSO registrou em 25 de setembro, e a primeira rejeição americana abriu a semana.
O Catar somou ao processo uma proposta própria, descrita como paralela e de duas páginas. A Euronews em árabe resume o estado da conversa: Teerã recebe a resposta americana, o Catar apresenta proposta nova e a negociação dos sete dias entra em fase decisiva. O nó, segundo fonte ouvida pela agência Reuters, é a ordem dos passos: Teerã quer sanções, ativos e o estreito resolvidos antes do capítulo nuclear. Washington quer tudo simultâneo. Enquanto isso, o estreito segue quase parado: um único trânsito em 27 de setembro, contra 85 por dia antes da guerra, segundo o monitor de portos do Fundo Monetário Internacional (FMI). O barril de petróleo Brent era negociado nesta quarta perto de 103,70 dólares. Na terça, três embarcações foram atingidas por projéteis não identificados na região, segundo a autoridade marítima comercial britânica. No Iraque, o primeiro dia sem a coalizão: Bagdá chama a data de início da fase da soberania, um dia depois de encerrada a missão americana de 23 anos.
Europa e o espaço pós-soviético
A madrugada desta quarta foi uma das mais pesadas do ano sobre a Ucrânia. A Rússia combinou mísseis hipersônicos Zircon e Oniks, balísticos Iskander-M e 188 drones de ataque, 86 deles a jato, com a região de Kiev e a rede elétrica como alvos principais. Ao menos cinco pessoas morreram, uma criança entre elas. Na Polônia, país da OTAN, a aliança militar ocidental, os aeroportos de Lublin e Rzeszów suspenderam voos durante o ataque e reabriram às 7h10, segundo a agência Reuters. O padrão se repete: foi uma noite de 170 drones que abriu a semana, como o COMPASSO registrou na segunda.
O ataque veio um dia depois do orçamento. O governo russo confirmou 17,1 trilhões de rublos para a defesa em 2027, cerca de 202 bilhões de dólares, alta de 27%. A conta corta 7% da política social e cerca de 6% de educação e saúde, segundo o Meduza, o site russo independente editado do exílio, na edição em inglês. Mais de um terço do gasto federal russo passa a ser militar. O orçamento e a noite dizem a mesma coisa: a guerra está planejada para continuar.
AS VERSÕES
- A imprensa de fora: a Rússia matou cinco pessoas, uma criança entre elas, ao concentrar o ataque na rede de energia da Ucrânia. Rádio Europa Livre.
- A versão de Kiev, em ucraniano: a Força Aérea contabiliza 193 armas lançadas e 160 abatidas, com impactos em 18 pontos, no 1.680º dia da guerra. Fakty ICTV, em ucraniano.
- A versão do governo russo, em russo: o Ministério da Defesa descreve um ataque massivo de precisão contra um centro de comunicações e a energia que sustenta a indústria militar ucraniana, sem uma palavra sobre vítimas civis. RIA Novosti, a agência estatal russa, em russo.
África
A guerra voltou ao norte da Etiópia. Os combates entre o exército federal e a TPLF, a frente que governa a região do Tigré, se intensificaram na última semana. A luta se espalhou pelas regiões vizinhas de Afar e Amhara, com tropas federais avançando na direção de Mekelle, a capital regional. O movimento ameaça o acordo de Pretória, que encerrou em 2022 uma das guerras mais letais do século. O chefe do exército etíope, Birhanu Jula, acusou Eritreia, Sudão e Egito de apoiar grupos armados no país; os três governos negam. O papa Leão XIV pediu diálogo, em apelo registrado pela emissora estatal nigeriana Voice of Nigeria.
Os impactos por aqui
O dia alcança o Brasil por três canais. O petróleo perto de 104 dólares mantém a pressão sobre diesel e frete, com a trava do preço da gasolina valendo até segunda, dia 5. A indústria chinesa de volta ao crescimento sustenta a demanda por minério e soja, no mesmo dia em que a carne ganha sobretaxa. E o núcleo de inflação americano em desaceleração alivia, na margem, o juro global que encarece o crédito por aqui.
Entenda a região
O espaço pós-soviético vive o quinto outono de guerra desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. A cada ano, antes do frio, a Rússia concentra ataques na rede elétrica ucraniana, e a Ucrânia responde sobre refinarias e depósitos russos. A novidade de 2026 é dupla. O orçamento russo assume a economia de guerra como regime permanente, com mais de um terço do gasto federal na defesa e cortes nas áreas sociais. E o atrito transbordou para o espaço aéreo da OTAN, com aeroportos fechados na Polônia e sabotagens investigadas no Báltico. É a região que mais pesa hoje no preço da energia europeia e no ritmo do rearmamento global.
Fontes
Escritório nacional de estatísticas da China, o PMI de setembro (documento primário, em chinês) · Xinhua, em chinês, a agência estatal chinesa (a leitura oficial do PMI) · BEA, o escritório de estatísticas econômicas americano, renda e consumo de agosto (documento primário) · Casa Branca, a sanção da lei provisória de gastos (documento primário) · Monitor de portos do FMI, os trânsitos em Ormuz (documento primário) · Fakty ICTV, em ucraniano (o balanço ucraniano do ataque) · RIA Novosti, em russo, agência estatal (a versão do governo russo) · Meduza, o site russo independente no exílio, edição em inglês (o orçamento militar) · Reuters, via US News (os aeroportos poloneses) · MDZ, em espanhol, o site de Mendoza (a intimação argentina) · Euronews, em árabe (a proposta do Catar e a resposta americana) · Radio-Canada, em francês, a emissora pública canadense (o banimento e a economia do país) · Korea Times, o jornal sul-coreano em inglês (a ameaça norte-coreana) · Voice of Nigeria, a emissora estatal nigeriana (o Tigré e o apelo do papa)
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