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Energia · Análise

Clima: o aquecimento do oceano dobrou de ritmo em 20 anos

O serviço marinho do Copernicus, o programa europeu de observação da Terra, publicou nesta quarta o décimo relatório do estado do oceano: o ritmo de aquecimento dobrou nos últimos vinte anos, o calor armazenado bateu recorde pelo nono ano seguido e o nível do mar sobe 3,8 milímetros por ano desde 1999. No Pacífico, a semana encerrada em 23 de setembro entrou no arquivo da NOAA com desvio de 3,1 °C, o maior do evento. A série segue o processo: um El Niño sem precedente medido sobre um oceano que aquece cada vez mais rápido.

Por COMPASSO30 de setembro de 20267 min de leituraTabuleiro: Energia

Leituras

  1. O relatório do estado do oceano, publicado nesta quarta, mede o processo por trás dos recordes: o ritmo de aquecimento dobrou em vinte anos e o calor armazenado bateu recorde pelo nono ano.
  2. O Pacífico segue subindo: a semana encerrada em 23 de setembro entrou no arquivo da NOAA com desvio de 3,1 °C, o maior do evento, sobre a água mais quente da série.
  3. Para o Brasil, a direção já mapeada se mantém: chuva e granizo no Sul e no Centro-Oeste, calor e queimadas no Norte, e a safra plantada sob um El Niño sem precedente medido.

Este é o texto desta quarta da série sobre a crise climática, que acompanha os dados e o que dizem os cientistas como um processo acumulado. O texto de terça registrou a maior temperatura absoluta já medida na faixa do Pacífico que define o El Niño. O dado novo desta quarta vem do outro lado do processo: o balanço anual do estado do oceano inteiro.

O que o relatório novo mede

O Ocean State Report é o balanço anual do serviço marinho do Copernicus, o programa de observação da Terra da União Europeia. A décima edição, publicada nesta quarta, reúne o trabalho de mais de cem cientistas sobre quatro décadas de medições. O número central: o ritmo de aquecimento do oceano dobrou nos últimos vinte anos. Em 2025, o oceano absorveu 23 zettajoules de calor a mais, recorde pelo nono ano consecutivo. Zettajoule é a unidade usada para medir energia na escala do planeta inteiro.

O relatório soma as consequências já medidas. O nível do mar sobe 3,8 milímetros por ano desde 1999, cerca de 10 centímetros acumulados. A acidez da água aumentou 17% entre 1985 e 2025. O Ártico perde cerca de 490 mil quilômetros quadrados de gelo marinho por década desde 1979. No Mediterrâneo, as ondas de calor marinhas chegaram a 4,6 °C acima da média. E a temperatura da superfície global do mar sobe 0,12 °C por década desde 1982, segundo o resumo da Franceinfo, em francês, a emissora pública francesa.

O que os cientistas dizem

Pierre Bahurel é o diretor-geral da Mercator Ocean International, a organização francesa que opera o serviço marinho do Copernicus. Na publicação do relatório, ele diz que o oceano está se transformando diante dos nossos olhos. Aquecimento, elevação do nível e degradação de ecossistemas seriam sinais interligados de uma mudança significativa e de longo prazo. Karina von Schuckmann, conselheira científica da mesma organização, descreve os mares europeus sob pressão intensa. Blanca Fernández-Álvarez, pesquisadora do instituto mediterrâneo de estudos avançados, na Espanha, resume as ondas de calor marinhas: elas deixaram de ser episódios isolados. Acontecem sobre um aquecimento sustentado do oceano.

Sobre o Pacífico, as falas novas apontam na direção do dado. Daniel Swain é cientista do clima do instituto de recursos hídricos da Universidade da Califórnia. Ao site americano Inside Climate News, ele disse que o evento atual está tão acima de qualquer coisa já vista que nem cabe no mesmo eixo de um gráfico. Mark Cane é professor da Universidade Columbia e um dos criadores dos modelos de previsão do El Niño. Ao site de jornalismo ambiental Mongabay, ele afirmou que as evidências se acumulam de que a mudança climática produz eventos mais potentes. No mesmo texto, Julia Cole, professora da Universidade de Michigan, apresenta um estudo com corais de Galápagos. A variação do fenômeno nos últimos 40 anos é 36,5% mais intensa que na era pré-industrial.

O que muda na leitura acumulada

O Pacífico segue subindo, agora no arquivo oficial. A semana encerrada em 23 de setembro entrou na tabela semanal da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera. A faixa Niño 3.4 marcou 29,7 °C, com desvio de 3,1 °C acima da média, o maior valor semanal do evento. Na semana anterior, o desvio era de 3,0 °C. O boletim mantém as probabilidades que a série registrou no balanço de sábado: mais de 90% de chance de evento muito forte na virada do ano. A chance de um evento acima de todos os medidos desde 1950 segue em 75%. O oceano global segue no mesmo sinal: 21,15 °C de média na faixa entre os paralelos 60, em 29 de setembro, recorde para a data.

Dois registros da série ganham precisão com os dados consolidados. O degelo do Ártico de 2026 fechou como o 10º menor da série, empatado com 2008, 2010 e 2025, segundo o centro americano de dados de neve e gelo, o NSIDC. A série o havia registrado como 11º menor em 18 de setembro, com o dado preliminar. E o pico diário do oceano global em 2026 foi de 21,183 °C, em 26 de agosto, na tabela consolidada. A leitura acumulada muda de base, e a direção continua a mesma. O relatório do Copernicus mede o processo de fundo sobre o qual este El Niño acontece. O mesmo desvio de dez anos atrás produz hoje uma água mais quente, mais ácida e um nível do mar mais alto.

Os impactos por aqui

No Brasil, o fim de setembro junta os dois extremos do padrão. O INMET, o instituto nacional de meteorologia, alertou na terça para um novo ciclone extratropical com chuva forte e possibilidade de granizo em partes do Centro-Oeste, do Sudeste e do Paraná. Um dia antes, registrava 43 °C em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul, com 42 estações acima de 40 °C. No Norte, o fogo. O Amazonas somou 2.384 focos de queimada entre 1º e 19 de setembro, alta de 282% sobre o mesmo período de 2025. Os levantamentos regionais usam dados do INPE, o instituto nacional de pesquisas espaciais, e a fumaça voltou a encobrir Manaus. Na agricultura, a Conab, a companhia nacional de abastecimento, informa que o plantio de arroz, milho e soja avança com o apoio das chuvas. O excesso de umidade já afeta o trigo no Sul. É o desenho de safra que a série descreveu em 15 de setembro.

O que observar

Nesta quinta, 1º de outubro, o INPE consolida os números de queimadas de setembro. Na primeira semana de outubro, o Copernicus publica o boletim mensal de temperatura de setembro. Por volta do dia 5, a NOAA divulga o CO2 de setembro medido em Mauna Loa. Na quinta-feira, 8 de outubro, sai o novo diagnóstico mensal do El Niño da NOAA. E a tabela semanal do Pacífico é atualizada toda segunda-feira.

Fontes

NOAA, tabela semanal das regiões Niño contra a média de 1991-2020 (documento primário) · NOAA, Centro de Previsão Climática, boletim de evolução do El Niño de 28 de setembro (documento primário) · Copernicus Marine, o décimo Ocean State Report (documento primário) · Climate Reanalyzer, Universidade do Maine (a temperatura diária do oceano) · NSIDC, o centro americano de dados de neve e gelo (o mínimo do Ártico consolidado) · Franceinfo, em francês, a emissora pública francesa (o resumo do relatório) · CP24, o canal canadense (as falas de Bahurel, von Schuckmann e Fernández-Álvarez) · Inside Climate News, o site americano de jornalismo climático (a fala de Daniel Swain) · Mongabay, o site americano de jornalismo ambiental (Cane, Cole e os corais de Galápagos) · INMET, o instituto nacional de meteorologia (o ciclone e o calor; documento primário) · Conab, a companhia nacional de abastecimento (o plantio; documento primário) · BNC Amazonas, o site regional (as queimadas e a fumaça em Manaus)

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Os sinais do clima

  • Evento histórico, acima de todos desde 195075%
  • Qualquer outro desfecho25%

NOAA, projeção para outubro-dezembro de 2026, atualizada em 10 de setembro

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