Energia · Análise
Clima: o El Niño sai da escala e pode ser o maior do milênio
O Pacífico equatorial registrou em 25 de setembro a maior temperatura absoluta da série da NOAA na faixa que define o El Niño: 29,822 °C, acima dos 29,82 °C de novembro de 2015. O dado se soma aos recordes de desvio que a série já registrou na semana passada. Em reportagens publicadas nesta terça, cientistas dizem que o evento já não cabe na classificação existente, que termina em muito forte, e um estudo na revista Science o aponta como provavelmente o mais intenso em mais de mil anos.
Leituras
- A faixa Niño 3.4 marcou 29,822 °C em 25 de setembro, a maior temperatura absoluta já medida ali: o desvio recorde vem por cima de um oceano que já era o mais quente da série.
- A escala oficial de intensidade termina em muito forte, e o evento passou dela meses antes do pico: a projeção para dezembro fica perto de 4 °C acima da média.
- Para o Brasil, a leitura não muda de direção, muda de tamanho: mais chuva no Sul, seca no Norte e no Nordeste no verão, e a conta passando por safra, hidrelétricas e bandeira.
Este é o texto desta terça da série sobre a crise climática, que acompanha os dados e o que dizem os cientistas como um processo acumulado. O texto de segunda registrou a semana mais quente do Pacífico central em 45 anos de medição, com desvio de 3,1 °C acima da média. O dado novo desta terça é de outra natureza: não é o desvio, é a temperatura absoluta da água.
O que o dado novo mede
A faixa Niño 3.4 é o trecho do Pacífico equatorial que define oficialmente o El Niño. Ela atingiu 29,822 °C em 25 de setembro, segundo o monitoramento da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera. O dado foi destacado pelo site canadense The Weather Network. É a maior temperatura absoluta da série de medições. O recorde anterior, de 29,82 °C, era de 17 de novembro de 2015, no auge do El Niño daquele ano. A diferença é de centésimos, mas a data importa. O valor de 2015 foi o pico daquele evento; o de agora chega dois meses antes da época em que o fenômeno costuma ser mais forte.
Temperatura absoluta e desvio contam coisas diferentes. O desvio mede a distância da média histórica. Foi ele que bateu recorde em 21 de setembro, com 3,08 °C, como a série registrou na sexta, e de novo no fim da semana, com 3,11 °C, no balanço de sábado. A temperatura absoluta soma esse desvio à base sobre a qual ele acontece. Como o oceano global vem do período mais quente já medido, o mesmo desvio de dez anos atrás produz hoje uma água mais quente do que a de 2015. Os dois recordes juntos dizem que este El Niño trabalha sobre um oceano que já não é o mesmo.
O que os cientistas dizem
Nathaniel Johnson é cientista do clima do laboratório de dinâmica de fluidos geofísicos da NOAA, em Princeton. À Science News, a revista americana de divulgação científica, ele chama o fenômeno de evento notável. E estima que o pico chegue nos próximos meses. Sobre quanto do recorde se deve ao aquecimento causado pelo homem, Johnson é direto: é uma pergunta ainda sem resposta. Nathan Lenssen, cientista do clima do centro americano de pesquisa atmosférica, o NCAR, aponta o mecanismo geral. Com o planeta mais quente, há mais energia armazenada nos oceanos. O El Niño é o momento em que o oceano libera parte desse calor.
Daniel Swain, cientista do clima da Universidade da Califórnia, descreve o problema de classificação ao site americano Inside Climate News, em reportagem desta terça. A escala oficial de intensidade termina na categoria muito forte. Não existe categoria para o que está acontecendo. Na frase dele, o índice está tão acima de tudo o que já se viu que nem cabe no mesmo eixo dos eventos anteriores. A mesma reportagem cita um estudo recente na revista Science. Segundo ele, este é provavelmente o El Niño mais forte em mais de mil anos, com base em registros indiretos como corais e sedimentos. Swain projeta que, até o fim do outono do hemisfério norte, o evento deve ser recorde por qualquer índice que se use.
O que muda na leitura acumulada
A série vinha registrando recordes de desvio diário, semanal e de média móvel. Agora tem também o recorde absoluto, e uma classificação oficial que ficou pequena. As projeções seguem subindo. O rastreador do jornal Washington Post estima pico médio perto de 4,1 °C acima da média em dezembro, cerca de um grau acima do auge de 2015. A agência meteorológica mundial vê chance perto de 100% de o evento durar até fevereiro, como o balanço de sábado registrou. E a Science News relata uma projeção de mais de 450 mil mortes adicionais ligadas ao calor até fevereiro de 2027, se o evento seguir a trajetória prevista. A projeção da NOAA para outubro a dezembro segue a mesma da atualização de 10 de setembro: 75% de chance de um evento histórico, acima de todos desde 1950. A próxima atualização sai em 8 de outubro.
Os impactos por aqui
Para o Brasil, um evento fora da escala não muda a direção dos efeitos, muda o tamanho. O padrão do El Niño forte é chuva acima do normal no Sul e seca e calor no Norte e no Nordeste, com o centro do país entre os dois regimes. A primeira safra desenhada sob o fenômeno já está projetada, como a série mostrou em 15 de setembro. Soja e milho podem recuar no Sul se o excesso de chuva atrapalhar o plantio, e o semiárido depende das cisternas. A chuva do Sul mantém por ora os reservatórios do Sudeste em nível confortável e a bandeira da conta de luz verde. Um verão a 4 °C acima da média no Pacífico tende a esticar a seca no Norte, com rios baixos na Amazônia, fumaça e navegação comprometida. Nas cidades, tende a elevar a demanda por ar-condicionado e o risco de quem trabalha no calor. O dado de hoje não muda a previsão da próxima semana; muda o tamanho do que o verão pode trazer.
O que observar
Segunda-feira, 5 de outubro: a tabela semanal da NOAA, com a média da última semana de setembro. Primeira semana de outubro: o boletim mensal do serviço europeu Copernicus, com a temperatura global de setembro. Quinta, 8 de outubro: a atualização mensal do diagnóstico do El Niño pela NOAA, com as novas probabilidades para o trimestre. No Peru: a comissão oficial que acompanha o fenômeno na costa, que em setembro elevou a 85% a chance de magnitude extraordinária.
Fontes
NOAA, tabela semanal das regiões Niño contra a média de 1991-2020 (documento primário) · NOAA, Centro de Previsão Climática, diagnóstico do El Niño de 10 de setembro (documento primário) · The Weather Network, o site canadense de meteorologia (o recorde absoluto de 29,822 °C) · Inside Climate News, o site americano de jornalismo climático (as falas de Daniel Swain e o estudo da Science) · Science News, a revista americana de divulgação científica (Johnson, Lenssen e a projeção de mortes por calor) · Washington Post, o jornal americano (o rastreador e a projeção de dezembro) · Altavoz, em espanhol, o site peruano (a comissão peruana e a magnitude extraordinária)
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Os sinais do clima
- Evento histórico, acima de todos desde 195075%
- Qualquer outro desfecho25%
NOAA, projeção para outubro-dezembro de 2026, atualizada em 10 de setembro
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