Energia · Análise
Clima: a semana mais quente do Pacífico em 45 anos de medição
A tabela semanal da NOAA, atualizada nesta segunda, marcou 3,1 °C acima da média na faixa central do Pacífico, o maior valor semanal das quatro décadas e meia de medição por satélite, acima do auge do El Niño de 2015. Na costa do Peru, o desvio foi a 4,7 °C, também recorde. E a diferença entre os dois números que a série vinha registrando sem explicação tem uma: o índice relativo desconta o aquecimento geral dos trópicos.
Leituras
- A tabela semanal da NOAA marcou 3,1 °C acima da média no Pacífico central: é a semana mais quente das quatro décadas e meia de medição, acima do auge de novembro de 2015.
- Na costa do Peru, o desvio chegou a 4,7 °C, o maior da série para qualquer faixa do Pacífico; a comissão peruana já trabalha com 85% de chance de magnitude extraordinária.
- A diferença entre os 3,1 °C da tabela convencional e os 2,1 °C do índice relativo tem explicação: o índice desconta o aquecimento geral dos trópicos para isolar o fenômeno.
Este é o texto desta segunda-feira da série Crise Climática. A série acompanha os avanços medidos da crise ambiental e o que os cientistas dizem sobre eles, em leitura acumulada. O balanço de sábado fechou a semana com o Pacífico fazendo recordes diários seguidos. O dado novo desta segunda é semanal, e muda de categoria: não é mais um dia excepcional, é a semana inteira no topo da série.
O que a tabela semanal mediu
A NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, atualiza toda segunda-feira a tabela oficial de temperatura semanal das quatro faixas do Pacífico equatorial. Na semana centrada em 23 de setembro, a região Niño 3.4, a faixa central de referência do El Niño, marcou 29,7 °C. São 3,1 °C acima da média de 1991 a 2020. É o maior desvio semanal de toda a tabela, que começa em setembro de 1981. O valor mais alto até aqui era 3,0 °C, registrado duas vezes. A primeira foi na semana centrada em 18 de novembro de 2015, o auge do El Niño daquele ano; a segunda, na semana passada. A subida é contínua desde agosto: 2,8 °C, 2,9 °C, 3,0 °C e agora 3,1 °C.
O recorde da faixa central veio acompanhado. Na região Niño 1+2, diante da costa do Peru e do Equador, o desvio foi a 4,7 °C, o maior valor da tabela para qualquer faixa em 45 anos. Fora deste ano, o máximo histórico era 4,3 °C, de maio de 1983. A região Niño 3, entre as duas, marcou 3,9 °C, e a Niño 4, mais a oeste, 1,1 °C. O padrão importa pela data. O El Niño costuma atingir o pico entre novembro e janeiro. Estar acima do auge de 2015 já em setembro é o que sustenta a projeção oficial de 75% de chance de um evento histórico no trimestre de outubro a dezembro. Histórico, aqui, quer dizer acima de todos os medidos desde 1950. A projeção é do Centro de Previsão Climática da NOAA, de 10 de setembro, e a série a acompanha desde o primeiro texto.
A divergência entre os boletins tem explicação
A série vinha registrando, desde a segunda-feira passada, uma diferença sem explicação publicada entre dois produtos da mesma agência. A tabela semanal marcava 3,0 °C; outro boletim, perto de 2,1 °C. A explicação está no tipo de índice. A tabela convencional compara a temperatura da faixa com a média de 1991 a 2020 daquele mesmo lugar. O índice relativo, chamado RONI, desconta antes o aquecimento médio de todos os trópicos. Assim ele separa o que é fenômeno El Niño do que é aquecimento geral do planeta. Como os trópicos inteiros estão cerca de um grau mais quentes, o mesmo oceano rende 3,1 °C numa medida e 2,1 °C na outra. As duas estão certas; medem coisas diferentes. Para efeitos práticos, a atmosfera responde ao contraste que o índice relativo captura, e é sobre ele que a NOAA calcula a probabilidade de evento histórico.
O que os cientistas dizem
O pano de fundo do recorde é o oceano inteiro. Entre 2 de junho e 10 de setembro, a temperatura média da superfície do mar fora das regiões polares passou 100 dias seguidos em nível recorde para a data. O pico foi uma média de 21,18 °C no fim de agosto, como mostrou o site de jornalismo ambiental Mongabay. O motor deste calor recorde é a mudança climática, disse à publicação Zachary Labe, cientista climático da organização americana Climate Central. Mais de 90% do excesso de calor da queima de combustíveis fósseis, afirmou ele, vai para o oceano. Claire Bergin, pesquisadora do ICARUS, o centro de pesquisa climática da Universidade Maynooth, na Irlanda, falou na mesma reportagem. Ela aponta ligação direta entre a temperatura do mar e a intensidade das ondas de calor em terra. A Organização Meteorológica Mundial, o braço da ONU para o clima, mantém a leitura da semana passada. A probabilidade de o El Niño durar até fevereiro segue perto de 100%, como o COMPASSO registrou no sábado.
O que muda na leitura acumulada
A semana acrescenta duas peças. A primeira é de categoria. O evento já liderava a série nos dados diários, como registrou o texto de sexta. Agora lidera também na média semanal, a medida que os centros de previsão usam de referência. Oscilação de um dia pode ser ruído; uma semana inteira acima de 2015 não é. A segunda peça vem do Peru. A comissão oficial ENFEN, que reúne os institutos peruanos de oceano e clima, elevou de 75% para 85% a chance de magnitude extraordinária do El Niño costeiro já em setembro. O número foi publicado pelo site peruano Altavoz, em espanhol. A comissão mantém o estado de alerta e prevê efeitos até meados do outono de 2027. A anchova, o peixe que sustenta a maior pesca do país, está afundando e se recolhendo à costa.
Os impactos por aqui
No Brasil, o padrão esperado do fenômeno segue o roteiro dos dois sinais trocados. No Sul e no Sudeste, chuva acima da média. Foi ela que encheu os reservatórios e pôs a bandeira da conta de luz em verde para outubro, como o COMPASSO registrou no sábado. No Norte, seca e fogo. O Amazonas soma 3.395 focos de calor de 1º a 25 de setembro, perto do quádruplo do mesmo período de 2025. Os dados são do INPE, o instituto espacial brasileiro, registrados no balanço de sábado. Para a safra 2026-27, a primeira desenhada sob este El Niño, vale a projeção oficial da Conab registrada pela série em 15 de setembro. Ela aponta mais grão no Sul e risco no Matopiba e no semiárido. Um evento que passe de 2015, como a probabilidade oficial indica, tende a esticar esses dois extremos pelo verão.
O que observar
- Primeira semana de outubro: o boletim mensal do serviço europeu Copernicus fecha os números globais de setembro. A NOAA também publica o CO2 de setembro medido em Mauna Loa, no Havaí.
- Segunda, dia 5: a próxima tabela semanal da NOAA diz se a marca de 3,1 °C foi pico ou degrau.
- Quinta, dia 8: sai o ENSO Diagnostic Discussion, o boletim mensal oficial da NOAA sobre o El Niño, com a revisão das probabilidades que esta série acompanha.
Fontes
NOAA, tabela semanal das regiões Niño contra a média de 1991-2020 (documento primário) · NOAA, Centro de Previsão Climática, ENSO Diagnostic Discussion de 10 de setembro (documento primário) · NOAA, probabilidades de força do evento pelo índice relativo RONI (documento primário) · Mongabay, o site de jornalismo ambiental (os 100 dias de recorde e as falas de Labe e Bergin) · Altavoz, em espanhol, o site peruano (a comissão ENFEN eleva a 85% a chance de magnitude extraordinária) · Climate Reanalyzer, a plataforma da Universidade do Maine (os dados diários que a série acompanha)
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Os sinais do clima
- Evento histórico, acima de todos desde 195075%
- Qualquer outro desfecho25%
NOAA, projeção para outubro-dezembro de 2026, atualizada em 10 de setembro
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