Arquitetura de segurança · Análise
O dia em seis regiões: os Estados Unidos deixam o Iraque
Depois de 23 anos, as últimas tropas americanas saem do Iraque até quarta-feira, e três vozes contam três saídas diferentes. Em Kiev, um drone russo atingiu o prédio da Academia Nacional de Ciências. Milei deu duas semanas ao Reino Unido para parar o petróleo das Malvinas. Um bombardeio matou 50 pessoas num mercado no oeste de Mianmar. E a agência de refugiados da ONU avisou que 8,3 milhões de pessoas podem ficar sem assistência neste ano por falta de dinheiro.
Leituras
- A retirada americana do Iraque fecha 23 anos de presença militar em plena guerra com o Irã: a decisão sobre a segurança iraquiana passa a ser negociada entre Bagdá, as facções e Teerã.
- A Rússia orça 202 bilhões de dólares de defesa para 2027, o maior valor desde 2022, no dia seguinte a atacar o prédio da ciência ucraniana: a guerra segue planejada para durar.
- O prazo de duas semanas de Milei ao Reino Unido põe o petróleo das Malvinas no centro da vizinhança: a renda de 55 mil barris por dia volta a mover uma disputa de soberania.
A leitura cruzada desta terça percorre as seis regiões com um fato dominante: a saída das últimas tropas americanas do Iraque, prevista para quarta-feira. O texto compara como cada parte contou o mesmo dia. Em Washington, o dia foi da inteligência artificial: seis executivos almoçaram com Trump e Mike Johnson, o fato que o texto principal do dia analisa.
Américas
A Argentina transformou as Malvinas em prazo. O presidente Javier Milei notificou formalmente o Reino Unido de que tem duas semanas para impedir o início da exploração de petróleo no campo Sea Lion, sob ameaça de ação judicial internacional. O projeto, das petroleiras Navitas e Rockhopper, prevê extrair 55 mil barris por dia a cerca de 200 quilômetros ao norte das ilhas. O pedido de arbitragem contra Londres e a denúncia de voos de uma empresa britânica entre as ilhas e o Chile completam a ofensiva. Os detalhes, prazo incluído, são do jornal argentino La Nación, em espanhol. O governo das ilhas, sob autoridade britânica, estendeu por cinco anos todas as licenças de petróleo em 21 de setembro.
Washington moveu outro instrumento na região. Revogou os vistos de 27 autoridades e ex-autoridades de Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, sob acusações de corrupção e de ligação com o narcotráfico, segundo a agência de notícias AP. Entre os alvos está o procurador-geral boliviano Roger Mariaca. Os quatro países têm hoje governos próximos de Trump; o alvo são burocracias judiciais, não os aliados. Na Venezuela, o fim de semana de ruas pedindo a volta de María Corina Machado, registrado pelo COMPASSO na segunda, não teve resposta do governo nesta terça.
Ásia oriental
Taiwan mediu em público o custo da cúpula entre Trump e Xi Jinping, registrada pelo COMPASSO em 24 de setembro. O ministro da Defesa, Wellington Koo, disse que a política americana para a ilha não mudou depois do encontro, segundo a agência taiwanesa CNA, em chinês. As vendas de armas, acrescentou, seguem em discussão. Cerca de 14 bilhões de dólares em vendas aprovadas seguem pendentes de liberação final, e os caças F-16V encomendados estão prontos para entrega. O embaixador americano na China, David Perdue, reforçou a versão: Trump não adiou vendas para agradar Pequim. A fila de entregas, porém, existe desde antes da cúpula, e é ela que Taipé observa.
Sul e Sudeste da Ásia
Em Mianmar, o balanço do bombardeio de domingo sobre um mercado de Kyauktaw, no estado de Rakhine, subiu a 50 mortos e 58 feridos. O Exército de Arakan, o grupo armado que controla a área, acusa a junta militar de mirar deliberadamente mercados, escolas e áreas residenciais, segundo a rede Al Jazeera. O site local Narinjara, que cobre Rakhine, confirma o balanço com um trabalhador humanitário da cidade. É o ataque mais letal na região desde o bombardeio de um hospital em dezembro, com 30 mortos. Na Malásia, o governo começou a repatriar 1.476 cidadãos de Mianmar, primeiro grupo de cerca de 5 mil, segundo a agência AP. A agência de refugiados da ONU alertou contra o risco de devolver pessoas a um país em guerra civil.
Golfo e Oriente Médio
A região mais quente do dia é o Iraque. As últimas tropas americanas deixam o país até quarta-feira, cumprindo o acordo fechado em 2024, ainda no governo Biden. A saída acontece no sétimo mês da guerra entre Estados Unidos e Irã. A negociação com Teerã ficou para depois da eleição legislativa americana, como o COMPASSO registrou em 22 de setembro. Foram mais de duas décadas de presença, com 4.500 americanos mortos desde a invasão de 2003. O Tesouro americano liberou, no mesmo dia, uma exceção às sanções para voos de peregrinação entre o Irã e a cidade sagrada iraquiana de Najaf, por um mês.
AS VERSÕES
- A imprensa de fora: a saída abre espaço ao Irã e ao Estado Islâmico, e um líder tribal sunita de Faluja resume que o Iraque ainda não está pronto para assumir a própria segurança. Reuters.
- A versão do governo do Iraque: uma transição planejada e concluída no prazo. O porta-voz do comandante-em-chefe, Sabah al-Numan, anuncia que a retirada das forças americanas e da coalizão se completa em 30 de setembro. Agência estatal iraquiana, em árabe.
- A imprensa local independente: Washington confirma o foco em concluir a retirada até dia 30, e o Curdistão teme ficar sem defesa contra mísseis e drones ao perder o apoio militar americano. Shafaq News, em árabe.
A quem interessa a data, disse quem celebra. Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica no Iraque, o grupo que reúne facções armadas alinhadas ao Irã, chamou a retirada de vitória histórica, à Reuters. Na mesma fala, descreveu uma derrota esmagadora do projeto americano. No Iêmen, a Organização Mundial da Saúde contou mais de 800 mortos desde que a luta entre os houthis, aliados do Irã, e o governo apoiado pelos sauditas recomeçou. E a Arábia Saudita retomou a exportação de petróleo pelo oleoduto Leste-Oeste, reparado após ataques de drones, o mesmo que o COMPASSO acompanhou na abertura da semana.
Europa e o espaço pós-soviético
Um drone russo atingiu na segunda à noite o prédio da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, em Kiev, a instituição que organiza a pesquisa científica do país desde 1918. No ataque morreu Natalia Bukalo, assessora do ex-secretário do conselho de segurança Volodymyr Horbulin. No dia, a capital contou 2 mortos e 26 feridos, segundo o site Ukrainska Pravda, em ucraniano. O presidente francês Emmanuel Macron condenou o ataque à instituição científica. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que mais de 8 mil soldados norte-coreanos estão em território russo e outros 10 mil se preparam para ir.
O orçamento russo pôs número na duração da guerra. O projeto para 2027 prevê o equivalente a 202 bilhões de dólares em defesa, alta de 27% sobre o plano original e o maior valor desde 2022, segundo a Reuters. O jornal russo Kommersant, em russo, detalha o desenho: despesa total de 48,8 trilhões de rublos, déficit de 2,2% do produto e a defesa como prioridade declarada. A fatia militar exata de 2027 ainda não foi informada. Em 2026, defesa e segurança levaram 38% de todo o gasto. Na Estônia, o primeiro-ministro Kristen Michal concluiu que o incêndio de agosto na Milrem Robotics foi encomendado pelos serviços de segurança russos. A empresa fabrica veículos terrestres não tripulados usados pela Ucrânia. O Kremlin nega. A onda de 170 drones numa noite, que abriu a semana, está registrada no texto de segunda.
África
O ACNUR, a agência da ONU para refugiados, avisou nesta terça que a crise de financiamento pode deixar 8,3 milhões de refugiados e deslocados sem assistência neste ano. No Sudão, cerca de 140 mil pessoas ficaram sem registro porque o serviço esteve suspenso nos cinco primeiros meses de 2026. O número dá escala à travessia de mais de 400 pessoas por dia para o Chade, registrada pelo COMPASSO na segunda. Só 18% do dinheiro da resposta humanitária está garantido. No Quênia, o grupo nigeriano Dangote confirmou para quarta-feira o início das obras da refinaria de 700 mil barris por dia em Lamu, segundo o resumo diário do site Rio Times. Uma decisão judicial sobre a posse da terra não mudou o cronograma. E a África do Sul registrou entrada de 49,8 bilhões de rands em investimento direto no segundo trimestre, mais que o dobro dos 20,3 bilhões do primeiro.
Os impactos por aqui
A retirada do Iraque chega ao Brasil pelo preço do petróleo. O barril de Brent rondou os 105 dólares nesta terça, segundo a plataforma de dados Trading Economics, e a saída americana adiciona incerteza à oferta da região no meio da guerra. A conta doméstica segue a mesma da abertura da semana. O preço da gasolina está travado até 5 de outubro, um dia depois do voto, e o barril caro chega à bomba depois da eleição. As Malvinas importam pelo precedente: uma disputa de soberania com petróleo e arbitragem internacional na vizinhança do Mercosul mexe com o ambiente de investimento no Atlântico Sul. E a crise de financiamento dos refugiados pressiona um sistema humanitário que o Brasil também usa, da acolhida de venezuelanos à cooperação com o Chade.
Entenda a região
A presença militar americana no Iraque começou com a invasão de 2003, que derrubou Saddam Hussein e desmontou o Estado iraquiano. Da ocupação nasceram uma insurgência, uma guerra civil e, em 2014, o Estado Islâmico, que chegou a controlar um terço do país. A coalizão internacional voltou para combatê-lo e ficou. O acordo de 2024 marcou o fim dessa missão para setembro de 2026, e a guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada neste ano, não mudou a data. O que muda com a saída é quem decide sobre o território. A segurança iraquiana passa a ser negociada entre o governo de Bagdá, as facções alinhadas a Teerã e os vizinhos do Golfo. O petróleo, a renda central da região, segue atravessando um estreito vigiado por escolta americana. O território atrás dele, porém, fica sem tropas americanas pela primeira vez em 23 anos.
Fontes
Reuters, a agência de notícias (a retirada do Iraque e as vozes locais) · Agência estatal iraquiana, em árabe (a versão do governo do Iraque) · Shafaq News, em árabe (Washington e o receio curdo) · Monte Carlo Doualiya, em árabe (os testes à frente de Bagdá) · La Nación, em espanhol (o prazo de duas semanas, a arbitragem e os voos denunciados) · AP, a agência americana (os vistos revogados de 27 autoridades) · CNA, em chinês (Taiwan e as vendas de armas após a cúpula) · Al Jazeera, a rede catariana (o bombardeio em Rakhine) · Narinjara, o site local de Rakhine (o balanço confirmado em Kyauktaw) · Ukrainska Pravda, em ucraniano (o drone na Academia de Ciências) · Ukrainska Pravda, em ucraniano (a condenação de Macron) · Kommersant, em russo (o desenho do orçamento russo de 2027) · Rio Times, o site de notícias (o dia africano: ACNUR, Dangote e a África do Sul) · Trading Economics, a plataforma de dados (o barril de Brent)
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