Pular para o conteúdo

Arquitetura de segurança · Análise

Washington bombardeia o Irã e Pequim discursa sobre outro mundo

Ao meio-dia de Washington, o comando central americano começou a bombardear alvos da Guarda Revolucionária no sul do Irã, resposta aos petroleiros atingidos no estreito de Ormuz, e Teerã devolveu com mísseis contra bases na Jordânia, com o Brent chegando perto dos 94 dólares. No mesmo dia, Xi Jinping fechou a cúpula de Bishkek chamando a ordem multipolar de irreversível e desembarcou no Cairo sem dizer uma palavra sobre o aliado bombardeado, a três semanas de sentar com Trump.

Por COMPASSO1 de setembro de 20266 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. Ao atacar os radares que o Irã tentava reconstruir, com o próprio presidente americano confirmando que esperou o sistema ficar quase pronto para destruí-lo, Washington converte o embargo em campanha militar de manutenção: não é mais um bloqueio que se fiscaliza, é uma capacidade adversária que se apara toda vez que cresce, sem data para acabar.
  2. O silêncio chinês é a política: nem o discurso de Xi em Bishkek nem a mídia estatal mencionaram o Irã no dia do bombardeio, porque defender Teerã custaria a visita de 24 de setembro e abandoná-lo custaria a vitrine multipolar; não dizer nada preserva os dois ativos.
  3. A frase do secretário do Tesouro, de que os chineses concordam que o Irã não pode ter uma arma nuclear, é a ponte que Washington constrói para separar o dossiê nuclear, onde cabe acordo com Pequim, dos bancos que pagam pelo petróleo, onde a ameaça segue suspensa desde agosto.

Ao meio-dia de Washington desta terça-feira, o comando central americano, o CENTCOM, anunciou que suas forças começaram a atacar alvos da Guarda Revolucionária iraniana, citando as tentativas recentes de ataque à navegação comercial no estreito de Ormuz e a militares americanos na região, conforme o comunicado registrado pelo Washington Times. No fim do dia, o presidente americano resumiu no seu idioma: este foi um golpe muito grande, e se houver uma terceira vez eles serão completamente varridos, pela cobertura ao vivo da Fox News. No mesmo dia, do outro lado do tabuleiro, Xi Jinping encerrou a cúpula da Organização para Cooperação de Xangai em Bishkek e desembarcou no Cairo sem dizer uma palavra sobre o aliado bombardeado. O lance do dia no eixo Washington, Pequim é essa assimetria: um lado atira, o outro muda de assunto.

Do embargo à campanha militar

A semana que começou com um tiro de aviso virou rotina de fogo. No domingo, caças americanos destruíram lançadores com minas navais na ilha de Larak; na noite de segunda, dois petroleiros, um saudita e um de armador sul-coreano, foram atingidos perto de Ormuz; nesta terça, um terceiro navio-tanque foi alcançado por três projéteis não identificados, pelo registro do escritório britânico de operações marítimas comerciais, o UKMTO, citado pela CNBC. A resposta americana do meio-dia atingiu a região de Bandar Abbas e as áreas de Qeshm, Konarak, Chabahar e Sirik, no sul do Irã, pelo Washington Times. O alvo preferencial explica a lógica: radares que o Irã tentava reconstruir. Esperamos até estar quase pronto e então atingimos, disse o presidente americano, confirmando o plano de ataques limitados para impedir a reconstituição de radares e mísseis no estreito, relatado pela Axios e compilado pelo Just Security. O Irã respondeu à noite com mísseis balísticos contra bases americanas na Jordânia e prometeu, pela agência Fars, ligada ao Estado iraniano, que Washington vai se arrepender. O Brent subiu 3,8% e chegou a 93,93 dólares antes de devolver parte da alta, pela Fox News; a Fortune registrou 94,11 dólares pela manhã. Não é mais um embargo que se fiscaliza: é uma capacidade adversária que se apara toda vez que cresce, sem data para acabar.

O sócio que muda de assunto

Pequim passou o dia do bombardeio falando de outra coisa, com esmero. No discurso de encerramento em Bishkek, Xi Jinping declarou que a tendência rumo a um mundo multipolar é irreversível e criticou hegemonismo, unilateralismo e protecionismo, sem citar o Irã nem os Estados Unidos, pela Xinhua, a agência estatal chinesa, o jogador falando. De Bishkek, Xi seguiu para o Cairo, primeira visita de Estado ao Egito em uma década, com artigo assinado na imprensa egípcia, pelo escritório de informação do governo chinês. O contraste ficou por conta do presidente iraniano, que na mesma cúpula ofereceu reciprocidade imediata se Washington voltar aos compromissos do memorando de junho, pela ANI, agência indiana. Enquanto isso, a única frase americana sobre a China no dia veio do secretário do Tesouro: os chineses concordam, o Irã não pode ter uma arma nuclear, pela Fox News. Os bancos chineses que pagam pelo petróleo iraniano seguem fora da lista de sanções, como estão desde o pacote de 24 de agosto, e a visita de Estado de 24 de setembro segue de pé, com inteligência artificial e comércio na agenda declarada. Defender Teerã custaria a visita, abandoná-lo custaria a vitrine multipolar montada em Bishkek: não dizer nada preserva os dois ativos, ao menos até o dia em que um míssil erre de endereço.

Os impactos por aqui

O canal mais direto é o barril. Com o Brent acima dos 90 dólares desde os ataques do fim de semana, a Petrobras subiu mais de 4% e puxou a décima alta seguida do Ibovespa nesta terça, pela cobertura do Money Times, o tipo de bônus que embute o próprio risco: o mesmo barril que sustenta o índice pressiona o combustível que já morde o consumo das famílias. O segundo canal é o juro: a gasolina americana passou agosto inteiro acima de 4 dólares o galão, pela Fortune, e entra no cálculo do Federal Reserve de 16 de setembro, que define o dólar que pressiona a campanha brasileira. E o terceiro é a mesa: o governo americano que atira para fazer valer um embargo é o mesmo que combina reuniões técnicas com Brasília nas próximas semanas. O apetite de Washington por transformar instrumento econômico em instrumento de força não é hipótese para o Brasil, é o pano de fundo da negociação.

Entenda o jogo

Bloqueios econômicos têm trajetória conhecida na longa duração: ou morrem como papel, ou viram operação militar. Quem decreta um embargo eficaz herda a obrigação de fazê-lo cumprir, navio a navio, e cada fiscalização cria a ocasião do incidente que pede escolta, que pede ataque preventivo ao radar da margem. Foi assim nos bloqueios continentais e na guerra dos petroleiros dos anos 1980, quando comboios sob bandeira trocada atravessavam o mesmo estreito de hoje. A novidade desta rodada é o terceiro jogador: a potência que mais compra o petróleo embargado é também a que Washington menos pode alienar antes de uma cúpula. Por isso o embargo atira nos radares e poupa os bancos, e por isso o sócio maior do embargado discursa sobre a ordem multipolar em vez de defender o sócio menor. Nos jogos de coerção, o que não se diz também é lance, e costuma ser o mais caro.

Fontes

Washington Times, 01/09 (o comunicado do CENTCOM e os alvos) · Fox News, 01/09 (a cobertura ao vivo e as falas presidenciais) · CNBC, 01/09 (os petroleiros atingidos e o registro do UKMTO) · Just Security, 01/09 (o plano de ataques limitados relatado pela Axios) · Xinhua, estatal chinesa, 01/09 (o discurso de Xi em Bishkek, o jogador falando) · Governo chinês, 01/09 (a chegada ao Cairo, o jogador falando) · ANI, agência indiana, 01/09 (a oferta de reciprocidade de Teerã) · Fortune, 01/09 (o petróleo do dia) · Fortune, 31/08 (a gasolina americana acima de 4 dólares) · Money Times, 01/09 (a Petrobras e a décima alta)

Os outros lances do dia: Global · Economia Política das IAs · Brasil · O placar da hipótese Brasil.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.