Política monetária · Análise
A semana em que o mercado de trabalho americano travou o juro
O movimento da semana em Finanças: a economia americana criou 29 mil vagas em setembro, um terço do que o mercado esperava, e as revisões apagaram 60 mil vagas dos dois meses anteriores. A chance de nova alta de juro na reunião de outubro do Federal Reserve caiu a 17%. Para o Brasil, que corta a Selic na contramão do mundo rico, o alívio chegou na véspera da eleição: o dólar fechou estável a 5,21 reais e a bolsa subiu 2,63% no último pregão antes do primeiro turno, o maior fechamento desde abril.
Leituras
- As 29 mil vagas de setembro, com desemprego a 4,2%, mudaram a aposta: a chance de alta do juro americano em outubro caiu de 36% para 17% em uma semana.
- Um Federal Reserve parado barateia a rolagem da dívida do Tesouro Nacional e das empresas brasileiras e devolve fôlego ao real, que fechou a semana da eleição estável a 5,21 reais por dólar.
- A bolsa brasileira subiu 2,63% no último pregão antes do voto, aos 192 mil pontos: o capital local precificou que nenhum dos dois desfechos prováveis da urna rompe os contratos.

A semana em Finanças terminou com um número pequeno movendo contas grandes. O relatório oficial de emprego dos Estados Unidos registrou 29 mil vagas criadas em setembro, contra 84 mil a 95 mil esperadas pelo mercado, como o COMPASSO registrou na sexta. O desemprego subiu de 4,1% para 4,2%, e a revisão dos dados apagou 60 mil vagas de julho e agosto. O mercado de trabalho da maior economia do mundo parou de crescer. E, com ele, parou a aposta de que o juro americano subiria de novo neste mês.
O relatório que parou o aperto
O contexto vinha de aperto. Em setembro, o Federal Reserve, o banco central americano, fez a primeira alta de juros desde 2023, por 12 votos a 0, para conter a inflação do petróleo de guerra, como mostrou o balanço daquela semana. O Japão levou sua taxa a 1,25%, o maior nível em 31 anos. A dúvida era se outubro traria a segunda alta americana. O relatório de sexta respondeu. Nas apostas registradas pela ferramenta FedWatch, da bolsa de derivativos CME, a chance de alta na reunião de 27 e 28 de outubro caiu de 36% para 17% em uma semana, segundo a CNBC, o canal financeiro americano. O economista-chefe para os Estados Unidos da corretora Jefferies, Thomas Simons, resumiu em nota: para o Federal Reserve, este número deve encerrar a discussão sobre uma alta em outubro.
A leitura pede o passo anterior. Por que vagas fracas derrubam o juro? O banco central americano sobe a taxa quando a economia aquecida pressiona preços. Quando o emprego trava, a pressão cede sozinha, e o aperto extra vira risco de recessão. O emprego fraco passou a pesar mais que a inflação do petróleo na conta do comitê. É fato que a aposta mudou. É leitura possível, não fato, que o aperto global iniciado em setembro tenha durado um mês.
O Brasil na contramão chega à urna
O Brasil atravessou essa semana na direção oposta do mundo rico, como vem fazendo desde setembro. O Copom, o comitê de política monetária do Banco Central, cortou a Selic a 13,75% duas semanas atrás, enquanto o Federal Reserve subia, como mostrou o balanço de setembro. O boletim Focus de segunda, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado, manteve a projeção de inflação do ano perto do teto da meta. A prévia de setembro marcou 4,47% em doze meses, contra um teto de 4,5%, como o COMPASSO registrou na semana passada. Cortar juro com inflação encostada no teto só fecha a conta se o mundo não apertar mais. O relatório americano de sexta deu exatamente essa folga.
O mercado local fechou a semana da eleição sem medo visível. O dólar comercial terminou a sexta praticamente estável, a 5,2165 reais, com queda de 0,07% no dia, segundo o site financeiro Seu Dinheiro. Em setembro, a moeda americana acumulou queda de 0,15%, fechando o mês a 5,17 reais, segundo a Agência Brasil, a agência estatal de notícias. O Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, subiu 2,63% na sexta, a 192.114 pontos, o fechamento mais forte desde abril, no último pregão antes do primeiro turno. A procura por proteção cambial foi descrita pelos operadores como moderada. O capital com posição no Brasil precificou uma eleição com dois desfechos prováveis e nenhum rompimento de contrato. É a mesma leitura de empate que a série eleitoral registra nas pesquisas, como mostra o texto de hoje da série.
O petróleo sai da frente da conta
O terceiro fator da semana foi o barril mais barato. O Brent fechou a sexta a 102,25 dólares, com passagem abaixo de 100 na quinta, puxado pela proposta francesa de liberar 100 milhões de barris dos estoques europeus, como registra a análise de produção desta edição. Petróleo mais barato alivia o diesel, o frete e a inflação ao produtor, no mundo e no Brasil. O núcleo de inflação americano já tinha desacelerado a 3% na leitura de agosto. Se o barril ceder e o emprego seguir fraco, o aperto global de setembro vira episódio, e o custo do dinheiro para no nível atual. O risco segue sendo a guerra: sem acordo em Ormuz, cada escalada devolve o prêmio ao barril em horas.
No Brasil, o calendário dos preços cruza com o da urna já na segunda. A trava da gasolina, o corte de tributos de cerca de 2 bilhões de reais por mês, vence um dia depois do primeiro turno. Se não for renovada, o preço na bomba sobe com o imposto de volta. Se for, o Tesouro Nacional segue pagando a conta. A decisão ficou, por desenho, para depois do voto. A bandeira de outubro ficou verde, sem custo extra de energia na largada do mês. O alívio externo da semana chega, assim, a um país com dois gatilhos fiscais engatilhados para a semana que vem.
O placar da semana
As vagas criadas nos Estados Unidos em setembro: 29 mil, contra 84 mil a 95 mil esperadas, no relatório do Bureau of Labor Statistics, o escritório americano de estatísticas do trabalho. O desemprego americano: 4,2%, de 4,1% em agosto. As revisões: 60 mil vagas a menos em julho e agosto somados. A chance de alta do juro americano em outubro: 17%, de 36% uma semana antes, na ferramenta FedWatch da bolsa CME. A Selic: 13,75% ao ano. A prévia da inflação brasileira: 4,47% em doze meses, para um teto de meta de 4,5%. O dólar: 5,2165 reais na sexta, estável no dia, depois de fechar setembro a 5,17. O Ibovespa: 192.114 pontos, alta de 2,63% no último pregão antes do voto, o melhor fechamento desde abril. O Brent: 102,25 dólares, queda de 2% na semana.
Os impactos por aqui
A semana melhorou a condição de quem deve e de quem financia. Com o juro americano parado, o Tesouro Nacional rola a dívida pública mais barato, e as empresas brasileiras captam fora com prêmio menor. O trabalho ganha fôlego indireto: juro global estável sustenta o espaço para a Selic seguir caindo, e crédito mais barato chega a financiamento e consumo ao longo de meses. O capital financeiro ganhou já na sexta, na alta da bolsa. Quem vive de salário ganha depois, e só se a trajetória se confirmar. A sociedade ganha um grau de liberdade raro num ano de guerra: a decisão de juro de outubro, no Brasil, volta a depender da inflação doméstica, não do pânico externo. No jogo do excedente, a semana deslocou renda do aplicador em juro para o tomador de crédito, e deixou a urna de domingo decidir o resto.
Entenda o contexto
O aperto global nasceu do petróleo. Com o estreito de Ormuz fechado desde março, o barril acima de 100 dólares contaminou a inflação do mundo rico. Setembro virou o mês das altas, com Federal Reserve, Japão e Reino Unido na mesma direção, como mostrou o registro da época. O Brasil cortou na contramão porque a inflação local vinha cedendo e a atividade, esfriando. O custo da aposta apareceu no câmbio em setembro, quando o Banco Central vendeu 1 bilhão de dólares para dar liquidez. A reunião do Copom de 4 e 5 de novembro decide o próximo passo da Selic, um mês depois do primeiro turno e entre os dois turnos prováveis da eleição.
Fontes
Bureau of Labor Statistics, o relatório de emprego de setembro (documento primário) · Federal Reserve, o calendário das reuniões do comitê (documento primário) · Banco Central, o boletim Focus (documento primário) · CNBC (a queda das apostas de alta para outubro) · Yahoo Finance (a expectativa do mercado para o relatório) · Nikkei, em japonês (o iene e o juro japonês diante do relatório americano) · Seu Dinheiro (o dólar e a bolsa no último pregão) · Agência Brasil, a agência estatal de notícias (o fechamento do dólar em setembro) · Trading Economics (os fechamentos do petróleo) Os outros textos do dia: O movimento da semana em Segurança · O movimento da semana em Produção · O movimento da semana em Conhecimento · Eleição 2026 · Clima.
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.