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Política monetária · Análise

A gasolina da guerra põe a inflação americana em 3,7%

O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos subiu 0,6% em setembro e acumula 3,7% em 12 meses, acima do esperado. A gasolina, encarecida pela guerra com o Irã, respondeu por mais da metade da alta do mês. O mercado dobrou a aposta numa nova elevação do juro americano em 28 de outubro. O efeito chegou ao Brasil no mesmo dia, com dólar e juros futuros em alta.

Por COMPASSO14 de outubro de 20266 min de leituraTabuleiro: Política monetária

Leituras

  1. A inflação americana subiu de 3,4% para 3,7% em setembro, e a gasolina respondeu por mais da metade da alta do mês. O preço do petróleo da guerra chegou ao consumidor.
  2. Com o número acima do esperado, o mercado dobrou a aposta numa nova alta do juro americano em 28 de outubro. Juro maior nos Estados Unidos encarece o crédito no mundo inteiro.
  3. Para o Brasil, o efeito veio no mesmo dia: o dólar voltou a R$ 5,04 e os juros futuros subiram. O custo externo aperta qualquer governo que saia da urna de 25 de outubro.

O BLS, o departamento de estatísticas do trabalho do governo americano, divulgou nesta quarta o CPI, o índice de preços ao consumidor, de setembro. Os preços subiram 0,6% no mês e 3,7% em 12 meses. Em agosto, a taxa anual era de 3,4%. Os economistas esperavam 3,6%. É o último dado de inflação antes da decisão de juros do banco central americano, em 28 de outubro, e o penúltimo antes das eleições legislativas de 3 de novembro.

De onde vem a alta

A conta é da energia. O grupo subiu 5,2% só em setembro e acumula 20,4% em 12 meses. A gasolina subiu 9,1% no mês e 34,2% em um ano. Sozinha, ela respondeu por mais da metade da alta de setembro, segundo o comunicado oficial do BLS, documento primário.

O motivo está fora da economia americana. A guerra com o Irã encareceu o petróleo. O barril passou de US$ 107 no fim de setembro com a disputa pelo estreito de Ormuz, a saída do petróleo do Golfo, como o COMPASSO registrou em 28 de setembro. Na bomba, a média nacional era de US$ 4,36 por galão em 8 de outubro, segundo a AAA, a associação de automóveis dos Estados Unidos. É o primeiro ano em que a média de outubro passa de US$ 4.

O núcleo da inflação, a parte que exclui alimentos e energia, subiu 0,3% no mês e 2,6% em 12 meses, acima dos 2,4% de agosto. A moradia subiu 0,4% no mês. As passagens aéreas, que dependem do querosene de aviação, acumulam alta de 22,4% em um ano. A comida ficou estável no mês. O espalhamento do choque para o resto dos preços ainda é limitado. Mas já começou.

A regra que decide quem paga

A regra que vale aqui é a meta de inflação. O Fed, o banco central americano, persegue 2% ao ano. Em setembro, ele subiu o juro para a faixa de 3,75% a 4%, a primeira alta em mais de três anos. O mercado de trabalho parado era o argumento para não subir de novo, como o COMPASSO registrou em 2 de outubro. O número desta quarta pesa do outro lado. A próxima reunião do comitê de política monetária termina em 28 de outubro.

A reação do mercado foi imediata. O juro do título público americano de 10 anos subiu para 5,32%, e o do título de 2 anos foi a 4,94%, o maior desde 29 de setembro, segundo a CNBC, a televisão americana de notícias financeiras. A aposta numa alta de juro em 28 de outubro, medida nos contratos futuros da bolsa de derivativos de Chicago, dobrou: estava perto de 22% na véspera e oscilou entre 39% e 54% ao longo desta quarta. O título de 30 anos já tinha batido 5,70% na semana passada, o maior nível desde 2002, como o COMPASSO registrou em 7 de outubro.

Quem fica com a fatia, nesse arranjo. O fator terra, os donos do petróleo e do refino, captura a renda de escassez que a guerra criou, na forma de margem, royalty e frete. O capital que empresta dinheiro ganha duas vezes: o juro que recebe sobe e o título novo paga mais. O trabalho perde nas duas pontas: o salário real encolhe na bomba de gasolina, e o juro alto esfria a contratação num mercado que já tinha parado de criar vagas. O Estado americano arrecada mais em termos nominais e paga mais caro para rolar a própria dívida. A sociedade perde um grau de liberdade: o preço da energia deixou de seguir oferta e demanda e passou a depender do resultado de uma guerra.

Há ainda uma camada política. É o penúltimo dado de preços antes das eleições legislativas de 3 de novembro, que renovam a Câmara e um terço do Senado dos Estados Unidos. A CNN tratou o dado como a última medição completa dos preços antes do voto. O jornal argentino La Nación resumiu o efeito em espanhol: a inflação volta a acelerar e complica o governo a menos de um mês da votação.

Os impactos por aqui

O efeito atravessou o câmbio no mesmo dia. O dólar voltou a subir e era negociado a R$ 5,04 no meio da tarde, segundo o site financeiro InfoMoney. Na semana passada, a moeda tinha caído abaixo de R$ 5 com a expectativa do mercado sobre o segundo turno, como o COMPASSO registrou em 5 de outubro. O Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, caía 1,6% no início da tarde, aos 203,5 mil pontos, segundo o site financeiro Investidor10. Os contratos DI, a taxa de juro futuro negociada na bolsa brasileira, subiram junto. Os números são do meio do pregão, não do fechamento.

A transmissão é conhecida. Juro maior nos Estados Unidos atrai capital para os títulos americanos e tira dinheiro de países como o Brasil. O real mais fraco encarece combustível, trigo e fertilizante, cotados em dólar. E o Banco Central brasileiro, que vinha segurando a Selic na direção contrária ao ciclo global, perde espaço para cortar, como o fechamento de setembro já mostrava. Qualquer governo eleito em 25 de outubro herda essa conta: mais juro no mundo é menos espaço para gastar e investir aqui.

Entenda o contexto

A inflação americana desta década tem duas ondas. A primeira veio da pandemia. Excesso de demanda e cadeias de produção quebradas levaram o índice a 9,1% em junho de 2022, o pico em 40 anos. O Fed respondeu com a sequência de altas de juro mais rápida desde os anos 1980, até a faixa de 5,25% a 5,5%. A onda cedeu, e em 2025 a taxa rondava 2,5%. O banco central pôde cortar.

A segunda onda tem outra origem: uma guerra que encareceu a energia. Choque de oferta importado é o tipo de inflação que o juro combate pior. O banco central não produz petróleo. Ele só esfria a economia até a demanda caber numa oferta menor, e o custo desse ajuste recai sobre o emprego. Foi assim nos choques do petróleo de 1973 e 1979, quando embargo e revolução no Oriente Médio levaram a inflação americana a dois dígitos e o mundo a uma década de juro alto. A escala de hoje é menor. O mecanismo é o mesmo, e é por ele que uma guerra no Golfo termina no preço do pão e no juro do crediário em qualquer lugar do mundo, no jogo do excedente.

Fontes

BLS, o comunicado do CPI de setembro (documento primário) · Federal Reserve, o calendário do comitê de política monetária (documento primário) · CNBC (os juros dos títulos e as apostas para outubro) · CNN (a leitura política do dado) · La Nación, em espanhol (a inflação e as eleições de novembro) · AAA, a média nacional da gasolina · InfoMoney (o dólar e a bolsa no Brasil) · Investidor10 (o Ibovespa no início da tarde)

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