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Política monetária · Análise

O juro de 30 anos dos EUA bate 5,70%, o maior desde 2002

O juro que o governo americano paga para tomar dinheiro por 30 anos renovou nesta quarta a máxima de 24 anos, a 5,7041%. A alta não vem do banco central, que deve manter a taxa neste mês: vem da dívida de 40 trilhões de dólares, do petróleo de guerra acima de 100 dólares e do volume de títulos que o mercado precisa absorver. Esse preço serve de referência para o crédito no mundo inteiro, e a conta chega ao Brasil pelo câmbio, pela bolsa e pela rolagem da dívida pública.

Por COMPASSO7 de outubro de 20268 min de leituraTabuleiro: Política monetária

Leituras

  1. O juro de 30 anos do Tesouro americano tocou 5,7041%, o maior desde junho de 2002, e esse é o preço que serve de base para hipotecas, empresas e governos no mundo todo.
  2. A alta vem da dívida de 40 trilhões de dólares e do petróleo acima de 100, não do Federal Reserve, que deve manter a taxa na reunião do fim de outubro.
  3. Para o Brasil, o juro longo americano em alta encolhe a proteção do real, encarece a rolagem da dívida pública e reduz o espaço para o Banco Central seguir cortando a Selic.

O juro do título de 30 anos do Tesouro dos Estados Unidos renovou nesta quarta-feira a máxima em 24 anos, a 5,7041% ao ano. É o nível mais alto desde junho de 2002, segundo o site Poder360, de notícias de Brasília. O papel de 10 anos rodava perto de 5,34%, segundo a agência Bloomberg. Na prática, o mercado passou a cobrar do governo americano o preço mais alto deste século para emprestar por prazo longo. Esse número importa porque ele é a base de quase todo crédito do planeta: hipotecas, dívidas de empresas e títulos de outros governos são precificados a partir dele.

O que está em disputa é o custo do dinheiro de longo prazo, e quem disputa são os dois lados de todo empréstimo. De um lado, o Tesouro americano, que precisa vender um volume crescente de títulos para financiar uma dívida que passou de 40 trilhões de dólares em agosto. De outro, os fundos, bancos e seguradoras que compram esses papéis e que agora exigem juro maior para carregá-los. A regra que vale é a do leilão: quando a oferta de títulos cresce e a confiança no devedor diminui, o comprador dita o preço. Em setembro, o Federal Reserve, o banco central americano, fez a primeira alta de juros desde 2023, para a faixa de 3,75% a 4%, como o COMPASSO registrou no balanço do mês em Finanças. Mas o movimento desta semana é outro: o juro de 30 anos sobe mesmo com o banco central parado.

A dívida manda mais que o banco central

Três forças empurram a taxa. A primeira é fiscal. A dívida americana cresceu 2 trilhões de dólares em pouco mais de um ano e não há plano de ajuste em discussão no Congresso, que está em recesso até a eleição legislativa de 3 de novembro. A segunda é a inflação de energia. O barril de petróleo Brent, a referência internacional, rodava acima de 100 dólares nesta quarta, sustentado pela guerra entre Estados Unidos e Irã e pelos ataques houthis à Arábia Saudita. Petróleo caro hoje significa inflação amanhã, e quem empresta por 30 anos cobra por esse risco. A terceira é o excesso de oferta: além do governo, empresas emitem volumes recordes de dívida para financiar data centers e inteligência artificial, e todo esse papel disputa o mesmo comprador.

O governo americano tentou segurar a taxa e não conseguiu. Em 19 de agosto, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, dobrou o programa de recompra de títulos longos, para pelo menos 4 bilhões de dólares por operação. Em 8 de setembro, numa universidade do Texas, ele avisou que apostar contra o Tesouro seria perder: na frase dele, a casa agora era ele. Nas três semanas seguintes, o juro de 30 anos subiu de 5,25% para perto de 5,70%, segundo a revista americana Fortune. A recompra funcionou por um dia e foi superada pelo volume de venda. É uma demonstração rara: nem o emissor da moeda de reserva do mundo consegue fixar sozinho o preço do próprio crédito.

O detalhe que confunde à primeira vista: o juro longo sobe enquanto a economia esfria. O emprego americano criou só 29 mil vagas em setembro, um terço do esperado, como o COMPASSO registrou na sexta passada. Por isso o mercado dá 80% de chance de o Federal Reserve manter a taxa na reunião de 27 e 28 de outubro, segundo a ferramenta FedWatch, da CME, a bolsa de Chicago. John Williams, o presidente do Fed de Nova York, disse que não há pressa para nova alta. A ata da reunião de setembro sai na tarde desta quarta. O recado do mercado é que o problema deixou de ser a taxa básica: é a conta fiscal e a guerra. No Japão, o movimento se repete: o título de 30 anos do governo pagava 4,17% na terça, perto do nível mais alto desde que o papel foi criado, em 1999. A agência Bloomberg, na edição japonesa, registra que operadores já discutem um juro americano de 6%.

Quem captura essa taxa e quem paga por ela

Na divisão dessa renda, o primeiro corte é dentro do próprio capital. Quem já carregava títulos antigos, comprados com juro menor, vê o valor de mercado deles cair a cada alta da taxa. Quem tem caixa novo captura um juro de 5,70% ao ano por três décadas, no ativo considerado o mais seguro do mundo. É apropriação privada concentrada: beneficia fundos, seguradoras e famílias com poupança grande, uma fração pequena de qualquer sociedade. O Estado americano perde capacidade nas duas pontas: paga mais para rolar a dívida e perde espaço de orçamento para qualquer outra política. Com uma dívida de 40 trilhões, cada ponto a mais de juro médio custa, em conta simples, cerca de 400 bilhões de dólares por ano.

O trabalho paga por último e por mais tempo. Hipoteca, financiamento de carro e crédito ao consumo seguem o juro longo, não a taxa do banco central. Cada ano de juro alto adia a casa própria de uma geração e transfere renda de quem deve para quem aplica. O conhecimento fica no meio. A corrida da inteligência artificial segue financiada mesmo a esse preço, mas só para as empresas com escala para emitir dívida. Isso concentra ainda mais um setor que seis executivos já negociam diretamente com a Casa Branca, como o COMPASSO registrou no fim de setembro. No conjunto, a sociedade perde graus de liberdade: o orçamento público passa a servir o juro antes de servir qualquer escolha feita em eleição, e isso vale para qualquer país que tome dinheiro emprestado nesse mercado.

Os impactos por aqui

A conta chega ao Brasil por três canais. O primeiro é o câmbio. O real se valorizou com o resultado do primeiro turno, e o dólar furou os 5 reais na segunda, como o COMPASSO registrou na abertura da semana. Nesta quarta, a moeda americana subia 0,14%, a 4,99 reais, e o Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, caía junto com o exterior, segundo a CNN Brasil. O que protege o real é o diferencial de juro, a distância entre a Selic e a taxa americana. A Selic está em 13,75%, no quinto corte seguido, enquanto o juro americano sobe: a proteção encolhe pelos dois lados. O segundo canal é a dívida pública. O Tesouro Nacional compete com o americano pelo mesmo investidor global e precisa pagar mais para rolar seus títulos. As taxas dos papéis prefixados do Tesouro Direto dispararam nesta quarta, segundo o site Brasil em Folhas. O terceiro é o crédito privado: empresa brasileira que capta lá fora, de banco a exportadora, paga o novo preço do dinheiro. Para quem lê: juro global alto por mais tempo significa crédito mais caro, dólar mais sensível e menos espaço para a Selic cair em 2027.

Entenda o contexto

O juro de 30 anos dos Estados Unidos é a referência de prazo mais longo do sistema financeiro que o mundo usa desde a Segunda Guerra. Nos anos 1980, com a inflação de dois dígitos, ele passou de 14%. Dali em diante caiu por quatro décadas quase seguidas, com a globalização derrubando preços e a poupança asiática comprando títulos americanos. Entre a crise de 2008 e a pandemia, o dinheiro de longo prazo chegou a custar menos de 2%, o período mais barato da história do capitalismo. Essa era acabou em 2022, quando a inflação voltou, e o que se vê agora é a etapa seguinte: o mercado repreça não só a inflação, mas a solidez fiscal do próprio emissor da moeda de reserva. Dívidas de guerra sempre fizeram isso. A novidade é que, desta vez, não há adversário financiando o outro lado: o credor que cobra mais caro é o mercado comprador da própria dívida americana.

Fontes

Tesouro americano, a curva diária de juros (documento primário) · Tesouro americano, a dívida ao centavo, acima de 40 trilhões de dólares (documento primário) · Federal Reserve, o calendário e as atas do comitê de política monetária (documento primário) · Bloomberg, em japonês (a venda de títulos longos e o juro de 6% no horizonte) · Poder360, o site de notícias de Brasília (a máxima de 5,7041%) · Fortune, a revista americana de negócios (a aposta de Bessent contra o mercado) · InvestNews, o site brasileiro de finanças (as causas da alta e a fala de Williams) · CNN Brasil (o dia nos mercados brasileiros) · Brasil em Folhas (as taxas do Tesouro Direto)

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