Energia · Análise
Clima: OMM projeta El Niño de +3,7 °C, o maior já medido
A atualização semanal da NOAA, renovada nesta terça, mediu a faixa central do Pacífico equatorial 2,4 °C acima do normal, um décimo a mais que na semana anterior. E a OMM, o braço de meteorologia da ONU, projeta média de +3,7 °C para o trimestre outubro-dezembro, acima do recorde de +2,6 °C do El Niño de 2015-16. Treze centros de previsão sustentam o número.
Leituras
- A NOAA mediu o Pacífico equatorial 2,4 °C acima do normal na leitura semanal renovada nesta terça, um décimo a mais que na semana anterior. O El Niño segue ganhando força em todas as medições.
- A OMM, o braço de meteorologia da ONU, projeta média de +3,7 °C para outubro a dezembro, acima do recorde de +2,6 °C de 2015-16. É o consenso de 13 centros de previsão do mundo.
- Para o Brasil, o padrão esperado segue o que a série já descreveu: mais chuva no Sul, calor e seca no Norte e no Nordeste, com efeito em safra, reservatórios e conta de luz.
Este é o texto da série Crise Climática, que acompanha os avanços da crise ambiental e o que dizem os cientistas, numa leitura acumulada do processo. O texto de segunda registrou o primeiro valor semanal de 30 °C na faixa que define o El Niño e avisou que a atualização ilustrada da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, ainda não tinha sido renovada. Ela saiu nesta terça, 13. Este texto trata dela e da previsão que a OMM, a Organização Meteorológica Mundial, o braço de meteorologia da ONU, publicou na semana passada e que a série ainda não tinha coberto.
O que os dados novos medem
A atualização do centro de previsão climática da NOAA, datada de 13 de outubro, traz as anomalias semanais das quatro faixas do Pacífico equatorial. A Niño 3.4, a faixa central que define o El Niño, está 2,4 °C acima do normal de 1991 a 2020. Na atualização anterior, de 5 de outubro, estava a 2,3 °C, como a série registrou. A Niño 3, mais a leste, está a 3,4 °C. A Niño 1+2, encostada na costa do Peru, está a 4,4 °C. O documento mantém o alerta de El Niño e diz que o evento segue se fortalecendo, com mais de 83% de chance de um episódio forte a muito forte até o trimestre janeiro-março de 2027. Os números estão na atualização oficial do centro, documento primário.
O segundo documento é a previsão da OMM, publicada em 8 de outubro em Genebra. Pela base de cálculo da organização, a anomalia da faixa central subiu de 1,6 °C em junho para 2,5 °C em agosto. Para o trimestre outubro-dezembro, o consenso de 13 centros nacionais e internacionais de previsão projeta média de aproximadamente 3,7 °C acima do normal, com pico perto de dezembro. Seria o maior valor desde o início das medições, acima do recorde de 2,6 °C registrado entre novembro de 2015 e janeiro de 2016. A organização vê chance perto de 100% de o El Niño durar até fevereiro de 2027. As bases de cálculo da OMM e da NOAA diferem no período de referência, e as duas apontam a mesma direção. O comunicado está na página oficial da organização.
A mesma previsão traz dois dados vizinhos. O Dipolo do Oceano Índico, uma gangorra de temperatura entre os lados oeste e leste daquele oceano, está na fase positiva e deve atingir o pico em outubro, com anomalia perto de 0,5 °C no trimestre. E a temperatura média da superfície de todos os oceanos atingiu em agosto o maior valor já observado. O boletim mensal do Copernicus, o programa europeu de observação da Terra, confirmou o recorde de setembro na faixa 60°S-60°N, como a série mostrou na segunda.
O que dizem os cientistas
Celeste Saulo, a secretária-geral da OMM, resumiu o quadro no comunicado. Em tradução do COMPASSO: "O El Niño está firmemente estabelecido e se fortalecendo rapidamente". Em fala num fórum sobre calor extremo em Bangkok, citada no mesmo documento, ela acrescentou que "o El Niño não acrescenta calor novo ao planeta". A frase descreve o mecanismo: o fenômeno redistribui calor que o oceano já acumulou, e faz isso por cima de uma tendência de aquecimento que não depende dele. A previsão da organização espera temperaturas acima da média em grandes áreas do planeta até dezembro, chuva acima do normal no Pacífico equatorial e no Chifre da África e tempo mais seco no subcontinente indiano e em partes do Caribe.
O que muda na leitura acumulada
A série vinha descrevendo o evento por três conjuntos de dados. As probabilidades oficiais do diagnóstico americano subiram de 75% para 83% em 8 de outubro, como a série registrou na quinta. As leituras semanais do Pacífico marcaram recordes seguidos até o primeiro valor em 30 °C. E a previsão de 22 modelos reunidos pelo centro de clima da Universidade Columbia apontava evento muito forte até fevereiro de 2027, registro de 2 de outubro. O que os documentos novos acrescentam é a convergência das duas autoridades oficiais: a medição americana e o consenso da OMM agora contam a mesma história, com números próprios. O valor projetado de 3,7 °C, se confirmado, não tem precedente nos 76 anos da série de referência. Segue sendo projeção, não medição: o que está medido, até aqui, é 2,4 °C na semana e 30 °C absolutos.
Os impactos por aqui
O padrão esperado para o Brasil não mudou com os documentos novos. Em anos de El Niño forte, a chuva se concentra no Sul e falta no Norte e no Nordeste, e o calor sobe no centro do país. Para a safra, isso costuma significar risco de excesso de água no Sul e de seca no cinturão agrícola do Matopiba, a fronteira entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Para a energia, reservatórios mais baixos no Norte e no Nordeste pressionam a bandeira tarifária, a taxa extra da conta de luz. A face positiva registrada até aqui foi o fogo: as queimadas de setembro caíram 13,6% sobre 2025, como a série mostrou em 5 de outubro com os dados do INPE, o instituto espacial brasileiro. O verão dirá se a chuva do Sul e a seca do Norte seguem o manual. A cobertura em espanhol da previsão da OMM situa o pico do evento em dezembro, no auge do verão brasileiro.
O que observar
Segunda, 19 de outubro: a tabela semanal das regiões Niño da NOAA, com a semana que termina domingo. Primeira semana de novembro: o boletim mensal do Copernicus com o fechamento global de outubro. Dia 10 de novembro: o CO2 de outubro em Mauna Loa costuma sair na primeira quinzena. Dia 12 de novembro: o próximo diagnóstico mensal do El Niño da NOAA, que atualiza as probabilidades oficiais. A série volta quando qualquer um desses dados sair, e no sábado, com a consolidação da semana.
Fontes
NOAA, a atualização de evolução e status do El Niño de 13 de outubro (documento primário) · OMM, o comunicado de 8 de outubro com a previsão de consenso (documento primário) · NOAA, o diagnóstico mensal do El Niño (documento primário) · Ecoportal, em espanhol (a previsão da OMM e o pico em dezembro) · COMPASSO, o texto anterior da série
Os outros textos do dia: O texto de abertura · Leitura cruzada · Eleição 2026
Os sinais do clima
- Evento histórico, acima de todos desde 195083%
- Qualquer outro desfecho17%
NOAA, diagnóstico de 8 de outubro para o trimestre outubro-dezembro; próxima atualização em 12 de novembro. Os sinais desta quarta: Niño 3.4 a 2,4 °C acima do normal na leitura semanal renovada em 13 de outubro (NOAA), depois do primeiro registro absoluto em 30,0 °C na semana encerrada em 7 de outubro; previsão de consenso da OMM de +3,7 °C para a média de outubro a dezembro, acima do recorde de +2,6 °C de 2015-16; setembro global: 2º mais quente já medido, 1,63 °C acima da era pré-industrial (Copernicus); oceano 60S-60N: 21,05 °C em setembro, recorde do mês (Copernicus); CO2 em Mauna Loa a 426,07 ppm em setembro (NOAA).
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