Energia · Análise
Clima: 22 modelos apontam El Niño inédito até fevereiro de 2027
A previsão de outubro do centro de clima da Universidade Columbia, publicada na quinta, reúne 22 modelos internacionais, e todos apontam um El Niño muito forte até fevereiro de 2027, com pico estimado em 3,38 °C acima da média entre novembro e janeiro, um grau acima do evento recorde de 1997. No Peru, a previsão já virou política: alerta oficial, emergência em 893 distritos e a pesca em queda de 70%. O texto parte do que a série já estabeleceu e diz o que o dado novo muda na leitura acumulada.
Leituras
- Os 22 modelos reunidos pela previsão de Columbia apontam na mesma direção: El Niño muito forte de setembro a fevereiro de 2027, com pico estimado em 3,38 °C acima da média entre novembro e janeiro.
- O pico previsto supera em um grau o evento de 1997, o mais forte já medido: para os cientistas do centro, nunca houve uma previsão com esse grau de certeza nem com essa magnitude.
- O Peru mostra o que a previsão significa no chão: alerta oficial de El Niño costeiro, emergência decretada em 893 distritos e queda de 70% na pesca, com 78 mil empregos em risco.
Este é o texto desta sexta da série sobre a crise climática, que acompanha os dados e o que dizem os cientistas como um processo acumulado. O texto de quarta registrou o balanço do oceano global, que aquece no dobro do ritmo de vinte anos atrás. O dado novo desta sexta é uma previsão: a mais firme já publicada sobre o tamanho do El Niño em curso.
O que a previsão nova mede
O centro de pesquisa de sistemas climáticos da Columbia Climate School, o instituto de clima da Universidade Columbia, em Nova York, publicou na quinta sua leitura da previsão de outubro. Ela reúne 22 modelos internacionais de previsão sazonal, os programas que simulam o oceano e a atmosfera meses à frente. Todos apontam o mesmo desfecho. Muhammad Azhar Ehsan, cientista pesquisador do centro, resume: todos os 22 modelos usados indicam um caminho para um El Niño muito forte, de setembro a fevereiro de 2027.
Os números da previsão têm escala própria. A faixa Niño 3.4, o trecho do Pacífico equatorial que define oficialmente o El Niño, ficou 2,03 °C acima da média no trimestre de junho a agosto, já medido. A estimativa para setembro a novembro é de 3,19 °C acima da média. O pico projetado, de novembro a janeiro, chega a 3,38 °C. Para comparar: o El Niño de 1997, o mais forte da série histórica, teve pico de 2,37 °C. A previsão coloca o evento atual um grau acima do recorde. Andrew Robertson, pesquisador sênior do mesmo centro, diz que nunca viu uma previsão com esse grau de certeza, e que a magnitude não tem precedente. A probabilidade de o evento continuar até a primavera de 2027 fica perto de 100%.
Previsão é previsão, não medição: o número de 3,38 °C é o centro de uma faixa de cenários, não um fato consumado. A separação importa. O que está medido é o trimestre a 2,03 °C e a sequência de recordes diários e semanais no Pacífico. O que está projetado é o pico do verão. A agência americana de oceanos e atmosfera, a NOAA, atualiza seu diagnóstico oficial em 8 de outubro.
O que muda na leitura acumulada
A série já tinha registrado as peças desse quadro, uma a uma. O diagnóstico da NOAA de setembro pôs 75% de chance de um evento histórico, acima de todos desde 1950, como o COMPASSO registrou na terça. O Pacífico vem de semanas seguidas no topo da série de 45 anos de medição, o acumulado descrito na segunda. E o oceano global sustentou 100 dias seguidos de recorde entre junho e setembro, com pico de 21,18 °C na média global no fim de agosto, segundo a plataforma Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine.
O que a previsão de Columbia acrescenta é a convergência. Até aqui, a leitura acumulada combinava medições recordes com projeções que guardavam dispersão entre modelos. Agora os 22 modelos apontam juntos para o mesmo lugar, e o centro da projeção fica um grau acima do maior evento já medido. Em linguagem de risco: o cenário extremo deixou de ser a ponta da distribuição e virou o centro dela.
Onde a previsão já virou política
O Peru é o país que converte primeiro o sinal do Pacífico em decisão de governo, porque o aquecimento da água chega primeiro à sua costa. A comissão oficial que acompanha o fenômeno, a ENFEN, mantém o alerta de El Niño costeiro e projeta magnitude entre forte e extraordinária até o verão de 2027. O governo decretou estado de emergência por 60 dias em 893 distritos de 22 departamentos, pelo decreto supremo 124-2026. A produção pesqueira nacional caiu 70% em 2026, com 78 mil empregos e 830 empresas em risco, segundo o Gestión, o jornal financeiro peruano, em espanhol. Um evento extraordinário pode custar cerca de 1,5 ponto do crescimento do país em dois anos, na estimativa de Carlos Parodi, professor e pesquisador da Universidade do Pacífico, ao site Infobae, em espanhol.
Os impactos por aqui
Para o Brasil, a previsão firma o padrão que a série vem mapeando. Chuva e temporais acima da média no Sul e em parte do Centro-Oeste. Calor, seca e risco de fogo no Norte e no Nordeste. A safra 2026-27, que está sendo plantada agora, cresce inteira dentro do evento. A energia entra na conta pelo lado dos reservatórios: o regime de chuvas deslocado decide a bandeira da conta de luz de 2027, depois da trégua da bandeira verde que o COMPASSO registrou em setembro. No preço, o alimento responde primeiro, pela quebra regional de safra e pela pesca do Pacífico mais cara. Na saúde, verão mais quente amplia a demanda por hidratação, os casos de calor extremo nas cidades e o alcance de doenças transmitidas por mosquito.
O que observar
Na segunda, dia 5, sai o boletim semanal da NOAA com o valor novo da faixa Niño 3.4. Na primeira semana de outubro, o Copernicus, o programa europeu de observação da Terra, publica o boletim mensal de temperatura de setembro. Em 8 de outubro, a NOAA atualiza o diagnóstico oficial do El Niño, o documento que baliza a projeção de evento histórico. No mesmo período, o centro americano de dados de neve e gelo, o NSIDC, publica a análise mensal do gelo marinho. E a ENFEN peruana segue com comunicados semanais do litoral.
Fontes
Columbia Climate School (a previsão dos 22 modelos) · NOAA Climate Prediction Center, o diagnóstico oficial do El Niño (documento primário) · Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine, a série diária da temperatura do mar (documento primário) · Gestión, em espanhol (a pesca e os empregos no Peru) · Infobae, em espanhol (a emergência e o custo ao crescimento peruano) · Mongabay, o site ambiental (os 100 dias de recorde no oceano)
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Os sinais do clima
- Evento histórico, acima de todos desde 195075%
- Qualquer outro desfecho25%
NOAA, projeção para outubro-dezembro de 2026, atualizada em 10 de setembro; próxima atualização em 8 de outubro
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