Comércio global · Análise
Toque de recolher na França e Macron no Golfo atrás de diesel
A França passou a segunda noite sob toque de recolher parcial em Paris, Lyon, Lille, Nice e Marselha, depois de um fim de semana de saques e incêndios que seguiu os protestos contra o custo de vida. Enquanto isso, o presidente Emmanuel Macron percorre quatro países do Golfo com executivos da TotalEnergies e da Engie, atrás de diesel e de rotas que contornem o estreito de Ormuz, fechado há oito meses. O petróleo Brent passou de US$ 111, o maior preço em cinco meses.
Leituras
- A energia 21,3% mais cara em um ano transformou a conta de luz e o tanque de diesel em questão de ordem pública na segunda maior economia da zona do euro.
- Quem tem petróleo, refino e navio fora do alcance da guerra captura renda de escassez. O trabalho europeu paga essa renda no preço e perde poder de compra sem ter negociado nada.
- Para o Brasil, que importa diesel e vota no domingo, o Brent acima de US$ 111 significa frete e alimento mais caros, qualquer que seja o presidente eleito.
A França atravessou nesta terça-feira o segundo dia de toque de recolher parcial. A medida vale à noite em bairros de Paris e nas cidades de Lyon, Lille, Douai e Nice, e foi estendida a Marselha. Ela veio depois de um fim de semana de saques e incêndios que terminou com cerca de 2.400 detenções, no número do governo. Os protestos começaram no sábado, 17, convocados contra o custo de vida, e a violência se repetiu em cidades da Itália e da Bélgica.
O motivo imediato tem número. Os preços ao consumidor subiram 3,1% em setembro na comparação anual, de 2,4% em agosto, nos dados finais do Insee, o instituto francês de estatística. A energia subiu 21,3% em um ano. É a conta da guerra entre Estados Unidos e Irã, que fechou o estreito de Ormuz, a saída do petróleo do Golfo, em fevereiro. Cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo passava por ali.
Enquanto o primeiro-ministro Sébastien Lecornu administrava o toque de recolher, o presidente Emmanuel Macron estava a 5 mil quilômetros de Paris. Ele cumpre desde segunda-feira um giro por Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar, como o COMPASSO registrou em 19 de outubro. Viaja com executivos da TotalEnergies e da Engie, as duas maiores empresas de energia da França. O objetivo declarado é, nas palavras dele, “garantir nossos abastecimentos”.
O diesel que falta e a rota fechada
O que está em disputa é o combustível que a Europa deixou de conseguir comprar. O petróleo Brent, a referência mundial de preço, passou de US$ 111 por barril nesta terça, o maior valor em cinco meses, segundo o serviço financeiro Investing.com. O diesel pesa mais: ele move caminhão, trator e gerador, e a Europa importava boa parte do que consome. Nos Estados Unidos, o galão do diesel subiu US$ 2,49 em um ano, como o COMPASSO registrou em 12 de outubro.
Quem disputa esse combustível são os governos que precisam dele e os donos das fontes que restaram. A presidência francesa diz buscar com os países do Golfo, nas palavras dela, “rotas alternativas e de contorno” para a energia presa pelo estreito. Em Abu Dhabi, Macron tratou de energia e de inteligência artificial com o presidente dos Emirados, Mohamed bin Zayed, segundo o diário emiradense The National. No Catar, a agenda termina na quarta-feira. A Arábia Saudita ficou fora do roteiro, embora a França tenha enviado militares para proteger o porto petroleiro saudita de Yanbu, como mostrou a análise semanal de Segurança.
As regras que valem mudaram duas vezes em um mês. O escritório de sanções do Tesouro americano liberou em 9 de outubro as compras de diesel russo, e a cúpula europeia lamentou formalmente a decisão, como o COMPASSO registrou em 16 de outubro. Na sexta-feira, Washington suspendeu as sanções à Rússia criadas pela Lei Graham, a lei que obrigava o governo americano a punir a venda de energia russa, movimento analisado na segunda-feira. O resultado é um mercado em que o acesso ao combustível depende de decisões revogáveis, não de regras estáveis. Um pesquisador do Iris, o instituto francês de relações internacionais e estratégicas, avalia que a viagem de Macron não deve baixar os preços no curto prazo, segundo o serviço especializado EnergyNews.
Quem captura a renda e quem perde liberdade
A conta de ganhos e perdas se faz por fator de produção. Os donos de recursos naturais fora do alcance da guerra capturam renda de escassez: o Golfo que ainda exporta, os Estados Unidos, o pré-sal brasileiro. O mesmo barril vale dezenas de dólares a mais do que em maio sem que ninguém tenha produzido nada novo. O capital com refino, estocagem e navio em zona segura soma margem e prêmio de seguro. A TotalEnergies e a Engie, levadas na comitiva, disputam contratos de longo prazo que valerão depois da guerra.
O trabalho paga primeiro e em toda parte. O salário francês não acompanhou os 21,3% da energia, e o protesto pelo custo de vida virou saque, e o saque virou toque de recolher. O Estado francês arrecada mais imposto sobre um combustível mais caro e, ao mesmo tempo, perde capacidade de garantir a ordem com as próprias regras ordinárias. A sociedade perde graus de liberdade nas duas pontas: o morador de Lyon não circula à noite, e o país inteiro depende de uma negociação externa para voltar a ter preço de energia previsível. É concentração de renda, visível já no trimestre, e difusão de perda, que aparece aos poucos no orçamento das famílias.
A disputa pelo nome da crise
O Parlamento Europeu fez na segunda-feira à noite, em Estrasburgo, um debate de urgência sobre os distúrbios na França, na Itália e na Bélgica. A moção aprovada, do Partido Popular Europeu com os Conservadores e Reformistas, os dois blocos de direita, deu nome ao debate: violência antidemocrática praticada por grupos de extrema esquerda. O eurodeputado francês Nicolas Bay chamou os saqueadores de “ralé que saqueia”, segundo a RTE, a televisão pública irlandesa. A esquerda respondeu que a direita despreza quem não consegue pagar as contas. A confederação europeia de sindicatos protestou nesta terça de manhã diante do próprio Parlamento.
Na França, a oposição cobrou o presidente ausente. Jordan Bardella, o líder do Reunião Nacional, o partido de extrema direita, disse que o governo “desaba sob o próprio peso”. Os ex-primeiros-ministros Édouard Philippe e Gabriel Attal, possíveis candidatos à presidência, disseram que Macron perdeu autoridade. Raphaël Glucksmann, o candidato escolhido pela primária social-democrata, como o COMPASSO registrou em 12 de outubro, disse ter sentido “a França se dissolvendo”. Macron deixa o cargo na primavera de 2027, impedido de disputar um terceiro mandato seguido. Lecornu não descartou decretar estado de emergência e prepara uma operação de segurança com militares para o próximo fim de semana. Que a crise redesenhe a eleição francesa de 2027 é uma leitura possível, não um fato.
Os impactos por aqui
O Brasil importa diesel e exporta petróleo, e os dois movimentos chegam juntos. O barril caro aumenta a receita do pré-sal e a arrecadação sobre ela. O diesel caro entra no frete e no preço do alimento transportado, e aparece na prévia da inflação, o IPCA-15, que o IBGE divulga na sexta-feira. A conta de luz e o juro vêm atrás: inflação de combustível pressiona o Banco Central a manter o juro alto por mais tempo, o mesmo canal que a análise semanal de Finanças descreveu no sábado. E há o voto. O custo de vida que virou toque de recolher na França é o tema central da eleição que o Brasil decide no domingo, acompanhada na série Eleição 2026.
Entenda o contexto
A prosperidade europeia do pós-guerra foi construída sobre energia importada e barata: o petróleo do Oriente Médio até 1973, depois o gás soviético e russo. A invasão da Ucrânia, em 2022, cortou o gás russo, e a Europa o substituiu às pressas por gás liquefeito americano e do Golfo. A guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada em fevereiro de 2026, fechou o estreito de Ormuz e atingiu exatamente essa substituição. A França já viu o preço do combustível derrubar a própria política: o movimento dos coletes amarelos, em 2018, começou com um imposto sobre o diesel. A diferença de agora é que o preço não vem de um imposto, que um governo pode revogar, e sim de uma guerra que nenhum governo europeu controla.
Fontes
EIA, a agência americana de informação de energia, a série diária do petróleo Brent (documento primário) · Parlamento Europeu, a ordem do dia da sessão plenária de outubro (documento primário) · L'Express, em francês, no registro do portal Orange (os toques de recolher cidade a cidade) · Annahar, o diário libanês, em árabe (Macron e as rotas alternativas ao estreito) · France 24, a emissora internacional mantida pelo Estado francês (o início do giro, a versão do governo francês) · Euronews, o canal europeu de notícias (a pressão sobre Macron e as reações da oposição) · RTE, a televisão pública irlandesa (o debate de urgência no Parlamento Europeu) · CNBC, o canal financeiro americano (os dados do Insee e os protestos pelo custo de vida) · The National, o diário de Abu Dhabi (a reunião com o presidente dos Emirados)
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Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.