Arquitetura de segurança · Análise
O dia em seis regiões: a cúpula da UE reabre a conta da guerra
Em Bruxelas, Zelensky pediu 70 bilhões de euros a mais para 2027 e os líderes europeus voltaram a discutir o uso dos ativos russos congelados, com a Bélgica contra. Putin mandou continuar os ataques à indústria de defesa ucraniana. O Conselho de Segurança da ONU condenou os ataques houthis à Arábia Saudita, sem efeito visível. E a Etiópia instalou um governo interino no Tigré.
Leituras
- A Europa paga a guerra com dívida comum e voltou a discutir os 200 bilhões de euros russos congelados. A Bélgica, que guarda o dinheiro, segue contra. Sem decisão, a conta é do contribuinte europeu.
- A condenação do Conselho de Segurança não mudou o Golfo: a coalizão saudita diz ter atingido 17 mil alvos no Iêmen e interceptou novos mísseis e drones nesta sexta.
- A Etiópia retomou a capital do Tigré e instalou um governo interino de seis meses. As acusações a Eritreia, Egito e Sudão ampliam o risco de uma guerra entre Estados no Chifre da África.
Atualização, 19h10. Wall Street fechou pior do que estava no meio do pregão. O índice S&P 500 caiu 1,09%, aos 7.659 pontos, e o Nasdaq perdeu 2,14%, aos 26.140, na pior semana do Nasdaq desde junho, segundo a CNBC, o canal financeiro americano. O Dow Jones, o índice das grandes empresas tradicionais, cedeu 0,34%, aos 52.002 pontos, segundo o site financeiro brasileiro Suno Notícias. A dúvida que o texto descreve, se o investimento em inteligência artificial cabe no juro atual, terminou a semana sem resposta e com o dinheiro saindo da tecnologia. A bolsa brasileira andou na direção contrária, em alta de 0,54%, puxada pela Petrobras, a petroleira estatal, com o petróleo encarecido pela guerra do Golfo; o fechamento completo está na atualização do texto da série eleitoral. A data que responde à dúvida segue a mesma: a decisão de juro americana de 28 de outubro.
Atualização, 02h56. A ordem de Putin aos comandantes virou uma noite inteira de ataque. Das 18h de sexta à manhã deste sábado, hora local, a Rússia lançou mísseis balísticos Iskander, mísseis de cruzeiro Kh-22 e Kalibr e 332 drones contra a Ucrânia. A defesa aérea derrubou 293 alvos, e houve impactos em 22 localidades, segundo o comunicado da Força Aérea ucraniana publicado pela agência estatal ucraniana Ukrinform, em ucraniano. Vinnytsia, capital regional no centro do país, amanheceu sem luz e sem água: um dos ataques atingiu uma subestação de energia, e a infraestrutura crítica opera com fontes de reserva, segundo o prefeito Serhii Morhunov, citado pela mesma agência. Em Kharkiv, a segunda maior cidade do país, os mísseis da noite deixaram 15 feridos, três deles crianças. Em Kherson, no sul, um bombardeio aéreo da manhã matou um motorista de ambulância e feriu uma família com um bebê de um mês.
Atualização, 02h56. Para a leitura do texto, a noite respondeu pelo lado russo à pergunta do dia, a de quem paga. Enquanto a cúpula de Bruxelas adiou a decisão sobre os ativos congelados, Moscou voltou a atacar a rede elétrica ucraniana a caminho do inverno. O custo cai primeiro sobre quem vive nas cidades sem luz e depois sobre o contribuinte europeu, que financia cada subestação reconstruída. O pedido de Zelensky, de 70 bilhões de euros a mais para a defesa em 2027, segue sem resposta.
A pergunta do dia foi a mesma em Bruxelas, em Jacarta e em Riade: quem paga, e quem decide quem paga. Na cúpula europeia, a Ucrânia apresentou a conta de 2027 e a Bélgica segurou a chave do dinheiro russo congelado. Na Ásia, uma empresa americana de índices redefiniu o preço de um país inteiro, como mostra o texto de abertura. E no Golfo, a condenação formal da ONU conviveu com mais uma noite de mísseis.
Américas
A eleição legislativa americana de 3 de novembro entrou na fase de disputa pelas regras do voto. O Departamento de Justiça deu 48 horas para a Califórnia separar cédulas de eleitores cuja cidadania o governo diz não conseguir confirmar. A exigência está em carta à secretária de Estado da Califórnia, Shirley Weber, segundo a PBS, a rede pública americana de televisão. Weber nega ter entregado a lista de eleitores ao governo federal. E lembra que alegação parecida sobre Nevada, de 1.500 supostos estrangeiros registrados, terminou em zero caso confirmado. A Califórnia envia cédulas pelo correio a todos os eleitores registrados, e é isso que o governo quer limitar.
No mercado, a semana termina com o dinheiro ainda desconfiado da dívida que financia a inteligência artificial. No meio do pregão desta sexta, o índice S&P 500 caía 0,5% e o Nasdaq, carregado de tecnologia, perdia 1,3%, segundo a agência AP. A Intel caía 4,4% e a Micron, 3,8%. O juro do título americano de dez anos estava em 5,12% ao ano. A gasolina média no país, a US$ 4,33 o galão, alimenta a inflação de 3,7% registrada pelo COMPASSO na quarta. No Brasil, duas pesquisas novas confirmaram o empate técnico do segundo turno, analisadas no texto do dia da série eleitoral.
Ásia oriental
Seul respirou depois de sete pregões de queda. No meio da tarde local, o índice KOSPI subia 4,00%, a 5.776 pontos, segundo o jornal econômico sul-coreano Financial News, em coreano. Os investidores estrangeiros, que venderam 3,7 trilhões de wons em ações na quinta, voltaram a comprar. A queda acumulada nos sete pregões anteriores tinha chegado a 21%, segundo o mesmo jornal. Tóquio subia 1,7%, segundo o site financeiro Investing.com.
A dúvida de fundo não se moveu. O medo que derrubou a Ásia na quinta nasceu do custo da dívida das empresas de inteligência artificial. O estopim foi o dia do lucro recorde da TSMC, a fabricante taiwanesa de chips, como o COMPASSO registrou na quinta. As fabricantes de memória seguem pressionadas desde o anúncio chinês de um chip mais denso, registrado na terça. Uma alta num dia não responde se o investimento em inteligência artificial cabe no juro atual. A resposta mais próxima tem data: a decisão de juro americana de 28 de outubro.
Sul e Sudeste da Ásia
O fato do dia da região, a consulta da MSCI que derrubou a bolsa da Indonésia em 11,57%, está no texto de abertura desta sexta. Aqui, o que o dia mostrou de Jacarta: o governo respondeu com polícia, multa e dinheiro público, tudo em horas. O chefe da polícia nacional visitou a sede da bolsa com dirigentes do governo. E anunciou uma equipe para investigar crimes de mercado, segundo a CNBC Indonesia, a edição indonésia do canal financeiro americano, em indonésio.
A OJK, o órgão que regula o mercado financeiro do país, multou três companhias listadas em 2,1 trilhões de rupias. E disse que a reforma do mercado de capitais já foi ao limite do que pode fazer, segundo a mesma rede. O fundo soberano Danantara prometeu comprar as ações que caíram. A sequência diz o essencial sobre a posição do país: cada gesto foi dirigido ao calendário da consulta privada em Nova York, não ao eleitor local.
Golfo e Oriente Médio
O Conselho de Segurança da ONU condenou os ataques houthis contra a Arábia Saudita, e o governo saudita celebrou a decisão, segundo o jornal saudita Asharq Al-Awsat, em árabe. No terreno, a condenação não mudou o ritmo. A coalizão liderada pelos sauditas informou ter destruído nesta sexta um míssil balístico, dois de cruzeiro e três drones. E contabiliza 17 mil alvos atingidos no Iêmen desde o início da operação que chama de Amanhecer do Iêmen, segundo o mesmo jornal, em árabe.
O custo se espalha pela economia da região. A União Europeia adiou a cúpula com os países do Golfo que seria em Riade, por causa dos ataques. E um monitor marítimo diz que navios no estreito de Ormuz seguem sob ataques indiscriminados, segundo a CBS, a rede americana de televisão. Um cargueiro afundou no estreito na terça, como o COMPASSO registrou na quarta, e o petróleo Brent subia 1,4% nesta sexta, a US$ 107,35, segundo a agência AP. A decisão americana sobre entrar ou não na campanha militar, esperada desde a semana passada, segue sem resposta.
Europa e o espaço pós-soviético
Os líderes da União Europeia fecharam nesta sexta a cúpula de dois dias em Bruxelas. Zelensky pediu 70 bilhões de euros a mais para a defesa ucraniana em 2027, além do empréstimo de 90 bilhões de dezembro, segundo a agência estatal ucraniana Ukrinform, em ucraniano. E os líderes voltaram a discutir a ideia que a Bélgica derrubou no ano passado. Trata-se de usar os 200 bilhões de euros do banco central russo congelados no Euroclear, o depositário de Bruxelas, como lastro de um empréstimo a Kiev. A Bélgica mantém a objeção, pelo risco jurídico e financeiro que recairia sobre ela, e a cúpula não decidiu, segundo a rede americana NBC.
AS VERSÕES. O mesmo dia de guerra e dinheiro, contado três vezes. A imprensa ocidental descreve uma Europa diante de uma decisão difícil sobre os ativos russos. A rede europeia Euronews relata apoio político a Zelensky e adiamento do debate de fundo. A versão do governo russo, registrada pelo jornal privado Kommersant, em russo, é de quem não precisa de cúpula. Putin ouviu dos comandantes que 70% da faixa que Moscou chama de zona de segurança está sob controle russo. E mandou continuar os ataques à indústria de defesa ucraniana. E a agência ucraniana independente UNN descreve, em ucraniano, quem é a favor e quem é contra os ativos. É a aritmética que decide se Kiev atravessa 2027 financiada.
Zelensky somou um argumento novo ao pedido: recuperar os ativos congelados seria um dos objetivos de guerra da própria Rússia, segundo a Ukrinform, em ucraniano. No campo de batalha, a semana terminou como começou. A Ucrânia retomou os ataques às refinarias russas, e a trégua de energia anunciada por Washington segue sem texto assinado, como o COMPASSO registrou na quinta.
África
O governo etíope instalou uma administração interina de seis meses no Tigré, a região do norte retomada pelas forças federais no início de outubro. A missão declarada é restaurar a segurança e preparar eleições, segundo o jornal sul-africano TimesLIVE. A guerra entre o governo federal e a aliança rebelde do Tigré reacendeu em setembro, e a queda da capital regional Mekelle entrou na Leitura cruzada de domingo.
O risco agora é a guerra mudar de escala. O governo etíope acusa a Eritreia, o Egito e o Sudão de apoiar os rebeldes. A Eritreia chamou as acusações de declaração de guerra, segundo o instituto americano Responsible Statecraft. A agência de refugiados da ONU contava 750 mil deslocados internos no Tigré antes desta rodada de combates. A região também enfrenta a seca ligada ao El Niño. Um conflito entre Etiópia e Eritreia envolveria dois exércitos ao lado do mar Vermelho, a rota já pressionada pela guerra do Golfo.
Os impactos por aqui
Três números do dia chegam ao Brasil por caminhos diretos. O petróleo acima de US$ 107 pressiona o preço da gasolina e do diesel. A decisão da Petrobras sobre repasse volta à pauta se o patamar ficar. O juro americano de dez anos em 5,12% segura o dólar alto contra os emergentes e limita o espaço do Banco Central para cortar a Selic, na dinâmica que o balanço de setembro descreveu. A eventual saída da Indonésia do índice de emergentes redistribuiria peso para os países que ficam, o Brasil entre eles. A conta está no texto de abertura. Para o leitor, combustível, câmbio e juro andam juntos nesses dias, antes de qualquer decisão brasileira.
Entenda a região
A discussão dos ativos russos tem quatro anos e um único nó. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, os países do G7, o grupo das sete economias ricas, congelaram as reservas do banco central russo depositadas no Ocidente. A maior parte, pouco mais de 200 bilhões de euros, está no Euroclear, a instituição belga que guarda títulos para o mundo inteiro. Congelar foi fácil e consensual. Gastar é o nó. Usar o dinheiro de um banco central estrangeiro sem decisão judicial não tem precedente entre economias grandes. A Bélgica teme responder sozinha por processos e retaliações.
Em dezembro de 2025, a União Europeia escolheu o caminho do meio. Congelou os ativos por tempo indeterminado, recusou o empréstimo lastreado neles e emitiu 90 bilhões de euros em dívida comum. Esse dinheiro financia Kiev até o fim de 2027. A conta de 2028 em diante não tem dono. É isso que a cúpula desta semana reabriu, e é por isso que o tema volta a cada seis meses. Enquanto o dinheiro russo ficar intocado, cada ano de guerra sai do contribuinte europeu. E o precedente de tocá-lo pesa sobre qualquer banco central que guarde reservas na moeda dos outros.
Fontes
Ukrinform, em ucraniano (o pedido de 70 bilhões de euros) · Ukrinform, em ucraniano (os ativos como objetivo russo) · UNN, em ucraniano (quem apoia e quem barra os ativos) · Kommersant, em russo (a versão do governo russo sobre a zona de segurança) · Kommersant, em russo (a ordem de continuar os ataques) · Asharq Al-Awsat, em árabe (a condenação do Conselho de Segurança) · Asharq Al-Awsat, em árabe (os 17 mil alvos da coalizão) · Financial News, em coreano (a recuperação de Seul) · Financial News, em coreano (a perda de 21% em sete pregões) · CNBC Indonesia, em indonésio (a visita da polícia à bolsa) · CNBC Indonesia, em indonésio (a resposta do regulador) · Euronews (a cúpula em Bruxelas) · NBC (o veto belga aos ativos) · South China Morning Post (o pedido ucraniano em dólares) · PBS (o ultimato à Califórnia) · AP (os mercados americanos e o petróleo) · CBS (a cúpula adiada e o estreito de Ormuz) · Investing.com (o repique asiático) · TimesLIVE (o governo interino no Tigré) · Responsible Statecraft (o risco Etiópia-Eritreia)
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