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Cadeia de semicondutores · Análise

O maior lucro da TSMC sai no dia em que Seul para 20 minutos

A TSMC, a fabricante taiwanesa dos chips mais avançados do mundo, lucrou 68,7% mais no terceiro trimestre, um recorde do setor. Horas antes, a bolsa da Coreia do Sul caiu 7,57% e foi suspensa por 20 minutos, no sétimo pregão seguido de queda, com Tóquio em baixa de 4,9%. A demanda por inteligência artificial segue recorde. O que mudou de preço foi a dívida que financia a expansão.

Por COMPASSO15 de outubro de 2026atualizado em 16 de outubro às 3h1010 min de leituraTabuleiro: Cadeia de semicondutores

Leituras

  1. A TSMC faturou US$ 46,7 bilhões no trimestre, 41% mais que há um ano, e metade virou lucro. A demanda por chips de inteligência artificial segue firme na fábrica mais disputada do mundo.
  2. No mesmo dia, Seul caiu 7,57% com suspensão de 20 minutos, Tóquio perdeu 4,9% e Jacarta, 1,33%. O medo não é a demanda: é a dívida que paga a expansão da IA.
  3. O FMI avisou na segunda: sete empresas de tecnologia são 35% do principal índice americano, e uma freada do investimento em IA tiraria 1,1% do PIB mundial até 2028.

Atualização, 19h07. Os mercados fecharam e separaram os dois medos do dia. Em Nova York, o Dow Jones, o índice das grandes empresas tradicionais americanas, subiu 1,08%, e o S&P 500, o índice principal, ganhou 0,33%, segundo o site financeiro Bom Dia Mercado. O Nasdaq, o índice carregado de tecnologia, fechou quase estável, em alta de 0,08%. A liquidação que derrubou a Ásia não se repetiu no fechamento americano, e o dinheiro preferiu as empresas fora da tecnologia.

Atualização, 19h07. No Brasil, o fechamento foi na direção contrária. O Ibovespa caiu 1,06%, a 204.324 pontos, e o dólar subiu 1,15%, a R$ 5,09. O peso extra foi local: as pesquisas apertadas do segundo turno e a aprovação do fim da escala 6x1 no Senado, como mostra o texto da série Eleição 2026. Para a aposta na inteligência artificial, o teste seguinte é a reabertura das bolsas asiáticas nesta sexta, a primeira sessão depois do balanço recorde da TSMC, a fabricante taiwanesa de chips.

Atualização, 03h10. O teste da reabertura asiática teve resposta: Seul devolveu parte da queda. Às 13h52 desta sexta no horário local, 1h52 da madrugada em Brasília, o KOSPI subia 4,00%, a 5.776 pontos, com o pregão ainda aberto, segundo o jornal econômico sul-coreano Financial News, em coreano. Os investidores estrangeiros, que venderam 3,7 trilhões de wons em ações na quinta, voltaram a comprar, segundo o mesmo jornal. Em Tóquio, o índice Nikkei subia 1,7%, e em Taipé a ação da TSMC caía 0,4%, mesmo depois do lucro recorde, segundo o site financeiro Investing.com.

Atualização, 03h10. Em Nova York, a CoreWeave, a empresa que aluga computação para IA e se financia com dívida, fechou a quinta em alta de 5%. A recuperação veio depois de Jensen Huang, o presidente da Nvidia, dizer que a saúde financeira da empresa está melhorando, segundo o banco dinamarquês Saxo. A exceção asiática desta sexta foi Jacarta, que caiu 10,76% na primeira sessão por um motivo próprio. A MSCI, a empresa americana que monta os índices de ações seguidos pelos grandes fundos, propôs rebaixar a Indonésia de mercado emergente para mercado isolado. O fato e a leitura estão na atualização da Leitura cruzada.

Atualização, 03h10. Uma alta depois de sete quedas pode ser técnica, feita por quem recompra o que ficou barato, e a confirmação vem com os fechamentos desta sexta. A dúvida de fundo segue no lugar: o juro acima de 15% cobrado da CoreWeave e a decisão sobre o juro americano em 28 de outubro continuam sendo o que observar. É uma leitura possível, não um fato.

O dia juntou as duas pontas da economia da inteligência artificial. Em Taipé, a TSMC, a fabricante taiwanesa que produz os chips mais avançados do mundo, anunciou nesta quinta o maior lucro trimestral da história do setor. Horas antes, em Seul, a bolsa caiu 7,57% e o pregão chegou a ser suspenso por 20 minutos, no sétimo dia seguido de perdas. Tóquio fechou em baixa de 4,9%. Os dois fatos vêm da mesma aposta: o mundo investe somas inéditas em inteligência artificial, e o dinheiro que financia essa expansão começou a cobrar mais caro.

Um lucro recorde na fábrica que o mundo disputa

Os números do trimestre encerrado em setembro saíram na madrugada de Brasília. A receita foi de US$ 46,72 bilhões, alta de 41,2% sobre o mesmo período de 2025 e de 16,2% sobre o trimestre anterior. Os números estão no comunicado de resultados registrado pela empresa na SEC, a comissão de valores mobiliários americana, documento primário. O lucro líquido foi de 763 bilhões de dólares taiwaneses, 68,7% acima do de um ano atrás. De cada US$ 100 faturados, US$ 51 viraram lucro.

A explicação está na margem. A margem bruta, o que sobra da receita depois do custo de fabricar, foi de 66,4%. É o preço de ser a única fábrica que entrega em volume os chips de 2 e de 3 nanômetros, a medida dos transistores mais finos em produção. Quem desenha os processadores da IA, a inteligência artificial, como a americana Nvidia, não tem onde mais produzi-los. "Nosso negócio no terceiro trimestre foi sustentado pela demanda forte pelas nossas tecnologias de ponta", disse o diretor financeiro Wendell Huang, no comunicado da empresa, em tradução do COMPASSO. A TSMC projeta receita de US$ 52,3 bilhões a US$ 54,3 bilhões para o último trimestre e mantém 20 obras de fábricas em andamento, segundo o jornal financeiro japonês Nikkei.

O recorde é da ponta da indústria, e não do conjunto dela. A memória, a parte dos chips que guarda dados e se vende como commodity, vive outro ciclo. A sul-coreana Samsung lucrou um recorde com os preços altos da memória de IA, como o COMPASSO registrou em 8 de outubro. Desde segunda, porém, as fabricantes caem na bolsa com a promessa chinesa de uma memória mais densa, registrada na terça.

A dívida que paga a expansão da IA

A queda de Seul foi a maior do dia no mundo. O KOSPI, o índice principal da bolsa sul-coreana, fechou a 5.554,22 pontos, em baixa de 7,57%, a sétima seguida. Às 12h38 do horário local, a bolsa acionou o circuit breaker, a suspensão geral de 20 minutos usada para interromper vendas em pânico, pela primeira vez desde 29 de julho em conjunto com o mercado de empresas menores. No início da tarde, a Samsung caía 10,13% e a SK Hynix, a outra fabricante coreana de memória, 11,35%, segundo o jornal sul-coreano Korea Herald. Em Tóquio, o índice Nikkei fechou a 64.425,95 pontos, em queda de 4,9%, que o jornal Nikkei chamou, em japonês, de "choque CoreWeave".

A CoreWeave explica o nome. É uma empresa americana que aluga computação para IA e se financia com dívida. Na quarta, as ações dela caíram 15%, e os títulos que ela emitiu passaram a pagar mais de 15% ao ano, um juro de devedor sob desconfiança, segundo o site financeiro TipRanks. No mesmo relato, um analista do banco de investimento Baird diz que o mercado se cansou do "banco Nvidia", o arranjo em que a própria Nvidia financia os clientes que compram seus chips. A inflação americana de 3,7%, puxada pela gasolina da guerra com o Irã, completou o quadro ao dobrar a aposta numa alta de juro em 28 de outubro, como o COMPASSO registrou na quarta. No meio do pregão americano desta quinta, as perdas diminuíam, com o dinheiro migrando para títulos do Tesouro.

O FMI, o Fundo Monetário Internacional, tinha avisado. O relatório de estabilidade financeira do Fundo, documento primário, foi apresentado em 13 de outubro nas reuniões anuais em Bangcoc. Ele aponta três canais de alavancagem na IA: a dívida emitida pelas empresas do setor, as posições dos fundos e o crédito que a pessoa física toma para comprar ações. As sete maiores empresas de tecnologia americanas respondem por mais de 35% do S&P 500, o principal índice da bolsa americana, ante 12% dez anos atrás. No cenário adverso do Fundo, uma freada do investimento em IA tira 1,1% do PIB mundial até 2028, segundo a agência de notícias Reuters.

A divisão de ganhos e perdas do dia acompanha os fatores de produção. O conhecimento embutido na fabricação de ponta captura a maior renda: a margem de 66,4% da TSMC é renda de escassez, paga por quem não tem alternativa. O capital que financia a expansão passou a cobrar mais pelo risco, e o juro acima de 15% da CoreWeave mostra o preço novo. O trabalho aparece pouco na conta, porque data centers e fábricas de chips empregam pouca gente por dólar investido. A sociedade ganharia opções se a aposta barateasse a computação. Por enquanto, o que ela carrega é o risco: fundos de pensão e de varejo seguram um índice com 35% do valor em sete empresas. É concentração em marcha, visível em trimestres, e a apropriação do excedente segue privada e estreita.

Os impactos por aqui

O efeito chegou ao Brasil pelos preços de sempre. O Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, caía 0,36% às 12h55, depois de perder mais de 1% pela manhã, e o dólar subia 0,63%, a R$ 5,06, segundo o site financeiro InfoMoney. O canal mais duradouro é o juro. Se o medo da dívida da IA e a inflação americana mantiverem o juro global alto, o crédito encarece também para empresa e governo brasileiros, como mostrou a alta do juro de 30 anos americano em 7 de outubro. Há ainda o fio local: os data centers que a expansão da IA promete instalar no Brasil dependem do mesmo financiamento que acaba de encarecer. Para o leitor, a tradução é dólar e crédito mais caros no curto prazo. E um teste à frente: o balanço da TSMC diz que a demanda existe, e o preço da dívida diz que a paciência do credor diminuiu.

Entenda o contexto

Até os anos 1980, quem desenhava um chip também o fabricava. A TSMC inaugurou em 1987 um arranjo novo: uma fábrica que não desenha nada e produz para qualquer cliente. O modelo venceu porque fabricar ficou caro demais. Uma fábrica de ponta custa hoje mais de US$ 20 bilhões e só se paga com escala. A produção avançada se concentrou em Taiwan e em poucas mãos, enquanto a memória virou commodity, com ciclos de preço e de excesso de oferta. A história das grandes infraestruturas ajuda a ler o momento. As ferrovias do século 19 e os cabos de telecomunicações dos anos 1990 também foram construídos com dívida e euforia. As bolhas estouraram, credores e acionistas perderam, e a infraestrutura ficou, mais barata, nas mãos de quem comprou depois. A disputa de agora decide quem fica com o excedente da IA: a fábrica que cobra a escassez, o credor que cobra o risco ou o usuário, se a computação ficar barata.

Fontes

TSMC, o comunicado de resultados registrado na SEC (documento primário) · FMI, o relatório de estabilidade financeira de outubro (documento primário) · TSMC, o comunicado com a fala do diretor financeiro · Nikkei, em japonês (o choque CoreWeave em Tóquio) · Nikkei, em japonês (as 20 obras da TSMC) · Korea Herald (o circuit breaker em Seul) · MoneyCheck (o fechamento do KOSPI) · TipRanks (a CoreWeave e o banco Nvidia) · Reuters (os números do FMI) · Quartz (as margens e os segmentos) · InfoMoney (o dia no mercado brasileiro) · Bom Dia Mercado (o fechamento dos mercados) · Financial News, em coreano (a recuperação do KOSPI nesta sexta) · Financial News, em coreano (a volta dos estrangeiros à compra) · Investing.com (o repique asiático e a queda de Jacarta) · Saxo (o fechamento da CoreWeave)

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Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.