Cadeia de semicondutores · Análise
Samsung lucra US$ 80 bilhões num trimestre com a memória da IA
A Samsung estimou nesta quinta um lucro operacional de 107,4 trilhões de wons no terceiro trimestre, cerca de 80 bilhões de dólares. É quase nove vezes o lucro de um ano antes e a primeira vez que a empresa passa de 100 trilhões num trimestre. A origem é a escassez de memória, o chip que os data centers de inteligência artificial passaram a comprar em qualquer volume. A conta chega ao preço de todo aparelho eletrônico, inclusive no Brasil, que importa toda a memória que consome.
Leituras
- A Samsung estimou lucro operacional de 107,4 trilhões de wons no trimestre, cerca de 80 bilhões de dólares, quase nove vezes o de um ano antes e o maior da história da empresa.
- O lucro vem da escassez de memória: os data centers de inteligência artificial compraram a produção disponível, e o preço do chip que todo aparelho usa subiu para quem ficou na fila.
- O Brasil importa toda a memória que consome: a escassez encarece celular, notebook, servidor e qualquer data center planejado no país, e a conta deve aparecer nos preços de 2027.
A Samsung divulgou nesta quinta-feira a prévia do balanço do terceiro trimestre. O lucro operacional ficou em 107,4 trilhões de wons, cerca de 80 bilhões de dólares, segundo o comunicado da empresa. A receita somou 195 trilhões de wons, mais que o dobro de um ano antes. É a primeira vez que a empresa passa de 100 trilhões de wons de lucro operacional num único trimestre. O lucro é quase nove vezes o do mesmo período de 2025, uma alta de 783%, conforme o jornal indiano The Tribune. E supera o recorde do trimestre anterior, de 89,5 trilhões, segundo a CNBC, a rede americana de notícias de negócios.
A prévia sai três semanas antes do balanço completo, marcado para 29 de outubro, e traz só dois números, sem abrir as divisões. Mesmo assim a origem do lucro é conhecida: a memória, o chip que guarda dados e que virou o insumo mais escasso da corrida da inteligência artificial. O que está em disputa é quem fica com a renda dessa escassez. De um lado, as poucas fabricantes capazes de produzir memória avançada. Do outro, as empresas de IA, que precisam comprar a qualquer preço, e, no fim da cadeia, quem compra qualquer aparelho eletrônico. A regra que vale é a de todo insumo escasso: quando a demanda cresce mais rápido que a capacidade de produzir, o fabricante dita o preço e fica com a diferença.
A escassez que virou a maior margem da indústria
O movimento tem três camadas. A primeira é a HBM, a memória de banda larga que alimenta os chips de inteligência artificial e que é vendida por contrato, com a produção comprometida com anos de antecedência. A segunda é o efeito sobre as memórias comuns. As fábricas deslocaram capacidade para a HBM, e a oferta de DRAM, a memória de trabalho dos computadores, encolheu. O mesmo vale para a NAND, a memória de armazenamento. A oferta caiu justamente quando os data centers passaram a comprar mais. A terceira é o preço: com oferta curta, quem precisa do chip paga o que for pedido. A Reuters, agência britânica de notícias, resumiu na cobertura da prévia: a oferta apertada de DRAM e NAND, somada à demanda por HBM, fez da memória a fonte principal do lucro do trimestre.
O tamanho da renda aparece com mais nitidez no balanço da americana Micron, uma das três grandes do setor, publicado em 30 de setembro e registrado na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. A receita trimestral da Micron foi de 54,2 bilhões de dólares, quase cinco vezes a de um ano antes. A margem bruta chegou a 86,8%: de cada dólar vendido, sobram quase 87 centavos antes das despesas gerais. Margem desse tamanho era coisa de software, não de fábrica. Ela mede o quanto do preço atual é renda de escassez, e não custo de produção. A Samsung confirma agora que o fenômeno alcançou a líder do mercado. O único sinal de cautela da prévia ficou na receita, que veio abaixo da estimativa média dos analistas, perto de 200 trilhões de wons, segundo a CNBC.
Quem captura a renda da memória
Na divisão dessa renda, o fator que mais captura é o conhecimento. A renda fica com quem domina o processo industrial de empilhar e ligar camadas de memória. São três empresas no mundo: a Samsung e a SK Hynix, da Coreia do Sul, e a americana Micron. O capital com escala vem logo atrás: quem tem fábrica pronta lucra hoje, e construir uma nova leva anos. É apropriação privada concentrada, de poucos acionistas em dois países. O Estado coreano arrecada mais e fica mais dependente de um único setor exportador. O trabalho disputa a sua parte: em Taiwan, os operários da Micron aprovaram autorizar greve por salário, movimento raro na ilha, como o COMPASSO registrou na quarta.
Quem perde poder de barganha é quem compra. As empresas de IA com contrato de longo prazo pagam caro, mas garantem o insumo. As menores, sem contrato, ficam na fila, e isso concentra ainda mais um setor cuja regulação seis executivos já negociam diretamente com a Casa Branca, como o COMPASSO registrou no fim de setembro. O consumidor paga por último e sem negociar: a memória está em celular, notebook, carro e televisor. No conjunto, a sociedade perde um grau de liberdade: a capacidade de computar, que decide quem consegue treinar e rodar inteligência artificial, fica mais cara e mais concentrada. A escassez deve durar enquanto não houver fábrica nova, e fábrica de memória leva de três a quatro anos para operar.
Os impactos por aqui
O Brasil não fabrica memória e importa toda a que consome, em chips avulsos ou dentro de produtos prontos. A conta chega por três vias. A primeira é o preço dos eletrônicos. A indústria da Zona Franca de Manaus monta celulares e televisores com componente importado. Ela paga o chip mais caro e o dólar de volta acima de 5 reais, como o COMPASSO registrou no texto de quarta. A segunda são os data centers: cada servidor usa memória aos montes, e qualquer projeto de expansão no país, público ou privado, ficou mais caro de equipar. A terceira é a corrida da IA em si. O custo de computar no Brasil acompanha o preço internacional do insumo, definido hoje pela fila dos data centers americanos. Esse mercado opera dentro do acordo de tecnologia entre as potências, como o COMPASSO registrou quando a IA entrou na pauta de Trump e Xi. Para quem lê: aparelho eletrônico tende a subir de preço em 2027, e orçamento de informática feito antes da escassez precisa ser refeito.
Entenda o contexto
A memória sempre foi a parte cíclica da indústria de chips. O produto de um fabricante substitui o do outro, e por décadas a competição foi por preço, com anos de lucro seguidos de anos de prejuízo. O Japão dominou esse mercado nos anos 1980. A Coreia do Sul tomou a liderança nos anos 1990, com investimento estatal pesado, e os concorrentes foram desistindo a cada ciclo de baixa, até restarem três produtores relevantes. A inteligência artificial quebrou o ciclo: os modelos precisam mover volumes enormes de dados, e a memória passou a limitar o ritmo da computação. Sem ela, os processadores ficam ociosos. O insumo que era commodity virou gargalo, e o gargalo virou renda. O balanço desta quinta registra essa virada em escala inédita: o maior lucro trimestral da história da indústria de eletrônicos, obtido não por vender mais aparelhos, e sim por controlar o insumo de que a década depende.
Fontes
Samsung, a área de relações com investidores, onde a prévia é publicada (documento primário) · Samsung Newsroom, em coreano (o comunicado da prévia: 195 trilhões de receita, 107,4 trilhões de lucro) · Micron, o balanço do quarto trimestre fiscal registrado na SEC (documento primário) · CNBC, a rede americana de notícias de negócios (a prévia, as estimativas e o recorde anterior) · The Tribune, o jornal indiano (a alta de 783% sobre 2025)
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