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Arquitetura de segurança · Análise

A semana em que a guerra chegou ao endereço da Aramco

O movimento da semana em Segurança: a guerra do Golfo alcançou um prédio administrativo da Aramco, afundou os primeiros navios de carga no estreito de Ormuz e levou o Conselho de Segurança da ONU a condenar os houthis. Na Ucrânia, a trégua de energia anunciada por Trump terminou a semana sem assinatura, com a maior noite de ataques russos do mês e com Kiev de volta às refinarias. A decisão americana sobre entrar na guerra da Arábia Saudita segue sem resposta.

Por COMPASSO17 de outubro de 2026atualizado em 18 de outubro às 2h5214 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. A guerra dos houthis alcançou um prédio administrativo da Aramco e segue fechando o aeroporto de Riade. A condenação do Conselho de Segurança não mudou o ritmo, e a decisão americana segue aberta.
  2. No estreito de Ormuz, a guerra afundou os primeiros navios de carga. O seguro e o frete de tudo o que cruza o Golfo subiram, e a travessia segue em 4 navios por dia.
  3. A trégua de energia anunciada por Trump terminou a semana sem texto e sem adesão. A Rússia ampliou os ataques à rede elétrica, e a Ucrânia voltou às refinarias russas.

Atualização, 19h17. A decisão sobre o dinheiro da guerra, que o texto descreve como aberta, veio durante este sábado, e na direção do alívio. Na noite de sexta, Donald Trump assinou uma ordem executiva que suspende as sanções e as tarifas da lei Graham contra a Rússia, segundo o Kyiv Post, o jornal ucraniano em língua inglesa. Elas entrariam em vigor neste domingo, 18. A lei foi sancionada pelo próprio Trump em 18 de setembro, como o COMPASSO registrou no dia. Ela prevê tarifa adicional de 500% sobre produtos russos e de 100% sobre os cinco maiores compradores de petróleo e gás da Rússia, entre eles China e Índia. Para suspender, o presidente enviou ao Congresso uma certificação de interesse nacional, mecanismo que a própria lei permite, e não fixou prazo para a retomada.

As reações marcaram os dois lados. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse neste sábado que a lei Graham "foi completamente ignorada" e chamou a decisão de "apagão de sanções". Ele pediu que a lei ainda seja aplicada, em tradução do COMPASSO da Ukrainska Pravda, o site ucraniano de notícias, em ucraniano. Kirill Dmitriev, o enviado econômico do Kremlin, celebrou "um momento importante e verdadeiramente histórico". E o presidente francês Emmanuel Macron disse que a suspensão "envia uma mensagem negativa", segundo a Al Jazeera, a rede de notícias do Catar.

O fato muda a leitura do fecho da semana. O texto registrou a cúpula europeia sem decisão sobre o dinheiro da guerra; a decisão americana veio em menos de 24 horas, no sentido contrário ao da pressão. Ela se soma ao acordo que devolve o diesel russo ao mercado mundial, fechado em 9 de outubro, como o COMPASSO registrou em 13 de outubro. Na divisão de ganhos e perdas, o Estado russo recupera receita de exportação sem ceder nada no terreno. Na conta do economista Vasily Astrov, ouvido pela mesma Al Jazeera, cerca de 60% de cada dólar a mais por barril vai ao orçamento do Estado russo. A Ucrânia perde poder de barganha na entrada do inverno, com a rede elétrica sob ataque e a pressão econômica nova sobre Moscou adiada sem data.

Atualização, 02h52. Dois governos da região se moveram no sábado para defender a Arábia Saudita. O presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi pediu ao parlamento do seu país uma sessão de emergência para autorizar apoio militar defensivo aos sauditas, caso Riade peça. A sessão está marcada para este domingo, às 7h de Brasília, segundo a Al Jazeera, a rede de notícias do Catar. Sisi disse que o Egito agirá conforme a orientação do rei saudita Salman e do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Atualização, 02h52. No mesmo sábado, o jornal britânico The Guardian relatou, com base em fontes no Iêmen, um acordo entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Os Emirados voltam a financiar as Brigadas dos Gigantes, a principal força do sul do Iêmen contra os houthis. Em troca, os sauditas dão cobertura aérea a essas tropas, segundo a reportagem, reproduzida pelo The Business Standard, o jornal financeiro de Bangladesh. Os Emirados tinham deixado o Iêmen em janeiro, numa disputa com Riade sobre o futuro do país, o que fragmentou a coalizão contra o grupo. Nenhum dos dois governos confirmou o acordo até aqui: é um relato de fontes, não um fato confirmado. Se valer, a coalizão que se desfez em janeiro começa a se recompor.

Atualização, 02h52. A guerra no mar também se moveu. O UKMTO, o escritório da Marinha britânica que registra incidentes com navios mercantes, informou no sábado que um petroleiro foi atingido por um projétil na sexta. O ataque ocorreu a 68 milhas náuticas, cerca de 125 quilômetros, de Jubail, o polo industrial saudita no Golfo. A tripulação foi retirada sem feridos, segundo o registro reproduzido pelo Kuwait Times, o jornal kuwaitiano em língua inglesa. A firma de segurança marítima Vanguard identificou o navio como o Safeen Principal, de bandeira das Ilhas Marshall, com fogo na casa de máquinas. O que muda na leitura: o risco que o texto mede no estreito de Ormuz apareceu dentro do Golfo, na costa por onde a Arábia Saudita embarca petróleo. Na divisão de ganhos e perdas, o capital da rota, navio, seguro e frete, paga o custo primeiro e o repassa ao preço. O Estado saudita ganha meios de defesa dos vizinhos agora, e a decisão americana que organiza tudo segue aberta.

Ilustração editorial escura: a silhueta de uma instalação de petróleo à noite, com uma linha de luz vermelho tijolo cruzando o céu sobre o mar

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã chega neste sábado ao dia 232, na contagem do serviço de acompanhamento militar GlobalSecurity. A semana que termina moveu as três frentes da dimensão ao mesmo tempo. No Golfo, os mísseis dos houthis, o grupo iemenita apoiado pelo Irã, chegaram a um prédio administrativo da Aramco, a petroleira estatal saudita. No estreito de Ormuz, a guerra afundou os primeiros navios de carga, como o COMPASSO registrou na quarta. E na Ucrânia, a trégua de energia anunciada pelo presidente americano Donald Trump no domingo terminou a semana sem valer no terreno.

Os mísseis chegam ao prédio da Aramco

O ataque ao aeroporto internacional de Riade no sábado passado matou 13 pessoas e feriu mais de 300, com um americano entre os mortos, como o COMPASSO registrou na segunda. Foi o ponto de partida da semana. Os voos na capital saudita estão suspensos desde então, com a suspensão prorrogada até este sábado. A coalizão militar liderada pela Arábia Saudita contabiliza 20 ataques houthis ao aeroporto em outubro, com 17 mortos e 333 feridos, segundo a cobertura da rede americana Fox News.

A resposta veio na terça. A coalizão bombardeou instalações de petróleo e portos no Iêmen, inclusive em Sanaa, a capital controlada pelos houthis. O comando saudita diz ter atingido 17 mil alvos desde o início da operação, segundo o jornal saudita Asharq Al-Awsat, em árabe. Na mesma noite de terça, um míssil do grupo atingiu um prédio administrativo da Aramco em Dhahran, no leste saudita. O incêndio foi limitado e não houve feridos, segundo o ministério da Energia saudita. Na quinta, mísseis houthis mataram dois seguranças no Maashiq, o palácio presidencial em Áden que abriga o governo iemenita reconhecido internacionalmente, como o COMPASSO registrou no dia.

A diplomacia correu por fora. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ofereceu mediação entre Riade e o Iêmen no domingo, sem resposta pública saudita até aqui. Na sexta, o Conselho de Segurança da ONU condenou os ataques à Arábia Saudita, e a coalizão interceptou novos mísseis e drones no mesmo dia. A França começou a deslocar meios militares para proteger as instalações de petróleo sauditas. E a decisão que organiza tudo segue aberta. Trump disse que os Estados Unidos podem entrar nos bombardeios contra o grupo, e não disse quando. A pausa americana nos ataques ao Irã, por sua vez, espera a eleição legislativa de 3 de novembro.

Ormuz afunda os primeiros navios

O estreito de Ormuz, a saída do petróleo do Golfo, teve a semana mais cara da guerra para a navegação. Na quarta, o GFS Pride, um porta-contêineres com mais de 2.500 contêineres, afundou ao sul do estreito depois de ser atingido por um projétil, segundo a autoridade marítima de Singapura, o estado de bandeira do navio. No dia seguinte, os registros da OMI, a agência das Nações Unidas para a navegação, confirmaram o segundo caso. O Cape Dao, um cargueiro atingido em 23 de setembro, também afundou, com um tripulante morto. São três navios perdidos desde o início da guerra, em fevereiro, dois deles confirmados nesta semana.

As versões sobre a causa seguem em disputa. Para o governo iraniano, na agência estatal Mehr, em persa, o navio usou uma rota não autorizada e bateu numa mina. Para a autoridade de Singapura e um funcionário americano, foi um míssil iraniano. Duas autoridades iranianas disseram à agência de notícias Reuters que as táticas novas no estreito buscam manter o petróleo caro e influenciar a eleição americana. É uma declaração anônima, não um fato verificado. O efeito, porém, está medido: a gasolina respondeu por mais da metade da inflação americana de setembro, como mostra o texto de Finanças desta edição.

O custo da travessia também está medido. O escritório marítimo britânico da região contou 20 ataques no estreito desde 1º de outubro. O monitor de portos do Fundo Monetário Internacional registra cerca de 4 travessias por dia, contra 85 antes da crise. O frete de um superpetroleiro na rota do Golfo bateu o recorde de US$ 1,4 milhão por dia. E a AIE, a agência de energia dos países consumidores, avisou que a escassez de diesel pode durar até 2027, como detalha o texto de Produção.

A trégua que não saiu do anúncio

Na Ucrânia, a semana começou com uma paz declarada e terminou com a maior noite de ataques do mês. No domingo, Trump anunciou na sua rede Truth Social um cessar-fogo energético imediato entre Rússia e Ucrânia, sem termos, prazos nem assinaturas, como o COMPASSO registrou na segunda. Horas depois, mísseis russos atingiram a segunda maior usina de eletricidade de Kharkiv. O Kremlin nunca confirmou a adesão. Na quarta, o porta-voz russo Dmitri Peskov admitiu que os parâmetros da trégua não estão definidos.

Os números da semana foram numa direção só. Na madrugada de quarta, 39 mísseis balísticos e mais de 120 drones atingiram a rede elétrica ucraniana. As três termelétricas de Kiev foram atingidas, 600 mil pessoas ficaram sem luz e cinco morreram na capital. Na quinta, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky anunciou a volta dos ataques às refinarias russas. Drones incendiaram no mesmo dia a refinaria de Ryazan, que responde por 5% do refino russo, segundo o jornal independente The Moscow Times. Na noite de sexta, a Rússia lançou mísseis balísticos e de cruzeiro e 332 drones contra 22 localidades. Vinnytsia, capital regional no centro do país, amanheceu sem luz e sem água, segundo a agência estatal ucraniana Ukrinform, em ucraniano.

O dinheiro da guerra também ficou sem decisão. Na cúpula da União Europeia, encerrada na sexta, Zelensky pediu 70 bilhões de euros a mais para a defesa de 2027. Os líderes voltaram a discutir os 200 bilhões de euros do banco central russo congelados na Bélgica, e não decidiram, como o COMPASSO registrou na sexta. A versão do governo russo, no jornal privado Kommersant, em russo, é a de quem não tem pressa. O presidente Vladimir Putin ouviu dos comandantes que controla 70% da faixa que chama de zona de segurança e mandou continuar os ataques.

O placar da semana

Este sábado é o dia 232 da guerra entre Estados Unidos e Irã e o 1.696º dia da guerra na Ucrânia. O Brent, o barril de referência internacional, fechou a quarta a US$ 106,06 no ICE de Londres, segundo o Jornal do Comércio, o diário gaúcho de economia. Na tarde de sexta, era negociado a US$ 107,35, em alta de 1,4% no dia, segundo a agência de notícias americana AP. A travessia de Ormuz segue em cerca de 4 trânsitos por dia, contra 85 antes da crise, na contagem do PortWatch, do Fundo Monetário Internacional. Três navios de carga estão perdidos desde fevereiro, dois confirmados nesta semana. O aeroporto de Riade soma 20 ataques em outubro, com 17 mortos e 333 feridos, segundo a Fox News. E a última noite na Ucrânia teve 332 drones e mísseis de três tipos, com 293 alvos derrubados, segundo a força aérea ucraniana.

Os impactos por aqui

Para o Brasil, a semana chega pelo diesel, pelo frete e pelo calendário. O barril passou os cinco dias úteis acima de US$ 104, e o diesel importado segue pagando o seguro de guerra da rota do Golfo. É o custo de transporte da safra recorde que a Conab estimou na quinta, como mostra o texto de Produção. A conta da semana se divide pelos fatores de produção. O recurso natural fora do alcance dos mísseis captura a renda de escassez da rota fechada. O capital que controla navio, seguro e escolta cobra uma fatia maior a cada naufrágio. O trabalho paga no frete e no preço do combustível, sem ganhar poder de barganha em nenhuma das pontas. O Estado americano guarda o ativo decisivo, que é escolher a hora de entrar na guerra saudita e a hora de parar a da Ucrânia. E a sociedade, nos países sob fogo, perde graus de liberdade: a luz, o voo e a travessia dependem de decisões que ninguém ali vota. No jogo do excedente, a semana não disputou o preço do barril, e sim quem decide quando ele muda.

Entenda o contexto

A guerra entre Estados Unidos e Irã começou em 28 de fevereiro, e o estreito de Ormuz está fechado à navegação comum desde março. Por ali passava um quinto do petróleo do mundo, cerca de 20 milhões de barris por dia, segundo a EIA, a agência americana de estatísticas de energia. O plano iraniano de reabrir o estreito em sete dias foi rejeitado por Trump no fim de setembro. A contraproposta americana chegou a Teerã pelo Catar no início de outubro, como o COMPASSO registrou no balanço de 3 de outubro, e a resposta formal iraniana não veio. A guerra dos houthis contra a Arábia Saudita é um braço dessa disputa: o grupo declarou um bloqueio naval contra Riade em julho e levou os mísseis aos aeroportos em outubro. Na Ucrânia, invadida em 2022, a Rússia concentra ataques na rede elétrica a cada inverno, e Kiev responde nas refinarias russas desde 2024. Os dois calendários esperam a mesma data: a eleição legislativa americana de 3 de novembro.

Fontes

PortWatch, do Fundo Monetário Internacional (as travessias de Ormuz, documento primário) · EIA, a série semanal de preços de combustível (documento primário) · SPA, a agência oficial saudita, em árabe (as interceptações da coalizão, documento primário) · CBS News (a semana de ataques no Golfo) · Fox News (os 20 ataques ao aeroporto de Riade e a pausa americana) · Asharq Al-Awsat, em árabe (a condenação do Conselho de Segurança) · Asharq Al-Awsat, em árabe (os 17 mil alvos da coalizão) · The National (o incêndio no prédio da Aramco) · Mehr, em persa (a versão do governo iraniano sobre o naufrágio) · Al Jazeera, em árabe (o ataque ao palácio de Áden) · Investing.com Brasil (o naufrágio do porta-contêineres) · Ukrinform, em ucraniano (a noite de 332 drones) · Ukrinform, em ucraniano (o blecaute de Vinnytsia) · Kommersant, em russo (a ordem de Putin de continuar os ataques) · The Moscow Times (o incêndio na refinaria de Ryazan) · Jornal do Comércio (o fechamento do Brent na quarta) · AP, via WFTV (o petróleo na sexta) Os outros textos do dia: O movimento da semana em Produção · O movimento da semana em Finanças · O movimento da semana em Conhecimento · Eleição 2026 · Crise Climática.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.