Arquitetura de segurança · Análise
O fim de semana em seis regiões: drones na Aramco e em Kiev
Os houthis reivindicaram ataques à petroleira saudita em Riade e o Irã rejeitou as condições americanas para reabrir Ormuz. A Rússia atingiu mais uma ponte de Kiev com o chanceler alemão na cidade. O Egito juntou três vizinhos contra a Etiópia na disputa do Nilo. E a OPEP+ manteve as metas de novembro com o barril acima de 100 dólares.
Leituras
- Os houthis levaram a guerra do Golfo ao território saudita ao reivindicar ataques à Aramco em Riade, e o barril voltou a rodar acima de 100 dólares nesta segunda.
- A Rússia atingiu mais uma ponte de Kiev durante a visita do chanceler alemão e prometeu intensificar os ataques, o que encarece o quinto inverno de guerra para os dois lados.
- O Egito reuniu Eritreia, Sudão e Somália contra a Etiópia na disputa pela água do Nilo, e a guerra interna etíope, reaberta em 23 de setembro, ganhou contorno regional.
Atualização, 19h14. A resposta saudita ao ataque dos houthis ganhou nome e escala nesta segunda. O porta-voz da coalizão militar liderada pela Arábia Saudita, Turki al-Maliki, anunciou a operação Amanhecer do Iêmen: 100 caças em ação, 324 alvos destruídos e proteção aérea ao estreito de Bab al-Mandeb, a saída sul do mar Vermelho. A coalizão diz dar apoio aéreo contínuo à ofensiva terrestre do governo iemenita reconhecido internacionalmente contra os houthis. O anúncio está na edição em árabe da CNN. O que isso muda na leitura: a mobilização geral que o texto registrou virou ofensiva aberta. A guerra do Golfo corre agora nos dois sentidos, dos houthis contra a Aramco e da coalizão contra as posições do grupo no Iêmen.
Atualização, 19h14. Do lado iraniano, o tom endureceu. O presidente Masoud Pezeshkian disse nesta segunda que, com um inimigo que todos os dias ameaça, sanciona e pressiona, "a negociação não tem sentido", e lembrou que "eles nos atacaram três vezes depois das conversas". A fala está no site iraniano Asriran, em persa, com tradução do COMPASSO. O chanceler Abbas Araghchi, porém, disse esperar para esta terça a resposta formal americana à proposta iraniana de cessar-fogo e reabertura gradual de Ormuz, segundo a rede americana CBS. O que isso muda na leitura: o impasse descrito no texto segue, agora com um prazo curto para a via diplomática dar sinal de vida.
Atualização, 02h53. Os houthis responderam à ofensiva saudita na noite de segunda. O grupo reivindicou três operações com mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones dentro da Arábia Saudita. Os alvos listados: o aeroporto internacional King Khalid, em Riade, a refinaria da Aramco em Rabigh, no litoral do mar Vermelho, e o aeroporto de Abha, no sul do país. O grupo diz ter provocado incêndio na refinaria e avisou as companhias aéreas internacionais para suspender os voos no espaço aéreo saudita, porque "esses céus se tornaram teatro das nossas operações". O anúncio está na Sky News Arabia, a televisão com sede nos Emirados, em árabe, com tradução do COMPASSO. O governo saudita não tinha confirmado os danos até a madrugada desta terça. O que isso muda na leitura: o alcance dos ataques saiu das instalações de petróleo e chegou à aviação civil, e a guerra dentro da Arábia Saudita vai agora do litoral do mar Vermelho ao interior.
Atualização, 02h53. A intensificação que o Ministério da Defesa russo prometeu na segunda começou na mesma noite. A Rússia lançou 137 drones contra a Ucrânia a partir das 18h de segunda, hora local, vindos de oito direções, 49 deles a jato, um tipo mais rápido que o drone de hélice. A defesa aérea tinha derrubado 114 até as 8h desta terça em Kiev, segundo o balanço da Força Aérea ucraniana no site ucraniano UA.News. Em Kiev, os destroços de um drone abatido caíram num conjunto residencial do distrito de Pecherskyi e incendiaram dois carros, sem registro de mortos, conforme o jornal ucraniano Kyiv Independent, em inglês. Em Zaporizhzhia, no sul, um drone atingiu uma das pontes sobre o rio Dnipro, que amanheceu fechada ao tráfego, e cinco pessoas ficaram feridas na região, no registro do mesmo jornal. O que isso muda na leitura: a campanha russa contra as pontes, que o texto registrou em Kiev, alcançou outra cidade, e o ataque à infraestrutura de travessia vira padrão antes do inverno.
O fim de semana moveu as seis regiões em direções diferentes. Os houthis do Iêmen reivindicaram ataques à Aramco, a petroleira estatal saudita, dentro da Arábia Saudita. A Rússia atingiu mais uma ponte de Kiev com o chanceler alemão na cidade. O Egito reuniu três vizinhos da Etiópia contra Adis Abeba na disputa pela água do Nilo. E o Brasil levou a eleição presidencial para um segundo turno que o mercado precificou nesta segunda, como mostra a abertura desta edição.
Américas
Nos Estados Unidos, a campanha das eleições legislativas de novembro dominou o fim de semana. Donald Trump fez comícios no Alabama e em Ohio e prometeu, em vídeo, 5 mil dólares para cada adulto se os republicanos vencerem. A aprovação do presidente está em 34%, segundo o instituto de pesquisa Pew, no registro da rede americana NBC. O governo federal está financiado até 11 de dezembro, e não há risco de paralisação neste mês.
No Canadá, o governo de Mark Carney acelerou duas frentes na mesma semana. Designou um novo oleoduto para a costa oeste como primeiro projeto de interesse nacional da nova lei de obras, criada para reduzir a dependência comercial dos Estados Unidos. E lançou um conselho nacional de inteligência artificial, no comunicado oficial do gabinete do primeiro-ministro, em inglês. No México, a presidente Claudia Sheinbaum criou um grupo de trabalho para exigir que as redes sociais removam conteúdo que promova violência, depois do ataque a uma escola em Torreón. Na Argentina, faltam três semanas para as legislativas de 26 de outubro, que renovam 127 deputados e 24 senadores. O presidente Javier Milei, que governa em minoria, abriu o dia seguinte à eleição brasileira parabenizando o vencedor do primeiro turno, no registro do jornal portenho La Nación, em espanhol. O resultado brasileiro e a reação dos mercados são o assunto dos outros textos desta edição.
Ásia oriental
A China passou o fim de semana no feriado da Semana Dourada, que vai até 7 de outubro, com previsão de 2,16 milhões de cruzamentos diários de fronteira. O consumo, porém, segue cauteloso, e o volume recorde de viagens não garante gasto na mesma proporção, segundo a CNBC, a rede americana de notícias de negócios. O tom político do feriado veio do discurso de 1º de outubro. Xi Jinping prometeu golpear resolutamente a independência de Taiwan, na manchete do jornal Sin Chew, da imprensa malaia em chinês: a frase original fala em atacar com firmeza o separatismo. O Ministério da Defesa de Taiwan publicou o balanço das 24 horas encerradas na madrugada de domingo, um documento primário. Ele conta 7 navios de guerra e 8 embarcações oficiais chinesas no entorno da ilha.
Na Coreia do Sul, o presidente Lee Jae-myung usou o Dia das Forças Armadas para pedir à Coreia do Norte a retomada do diálogo, depois de um incidente com mina na fronteira. Anunciou, no mesmo discurso, submarinos de propulsão nuclear até meados da próxima década. O Norte prepara o aniversário de 81 anos do partido único, em 10 de outubro, sem lançamento de míssil registrado no fim de semana.
Sul e Sudeste da Ásia
O conflito entre Paquistão e Afeganistão entrou na terceira semana. Aviões paquistaneses voltaram a bombardear as províncias afegãs de Helmand e Kunar, atrás de bases do Talibã paquistanês, o grupo armado que opera dos dois lados da fronteira. Islamabad diz ter matado 22 combatentes. A missão da ONU no Afeganistão contou ao menos 10 civis mortos nos bombardeios de 1º de outubro, a maioria crianças, segundo a rede catari Al Jazeera. Na Índia, a tarifa americana de 100% sobre as exportações do país entra em vigor em menos de um mês, e o governo Modi endureceu o tom público contra Washington. A Indonésia aproveitou o fim de semana para pressionar a União Europeia a assinar o acordo comercial entre os dois blocos, segundo a agência malaia Bernama. A pressa tem razão: em 2027 o país perde o desconto tarifário europeu de que goza hoje.
Golfo e Oriente Médio
A negociação de Ormuz recuou no sábado. O Irã rejeitou as condições da contraproposta americana, aquela que chegou a Teerã no meio da semana, como o COMPASSO registrou no texto de sábado de Segurança. O desenho americano prevê sete dias de medidas de confiança e a volta a uma versão ampliada do memorando de junho, com o programa nuclear dentro da negociação. A versão do governo iraniano veio pelo presidente do parlamento, Mohammad Bagher Qalibaf: enquanto as sete condições iranianas não forem cumpridas, o estreito de Ormuz não será reaberto. A fala está no site iraniano Asriran, em persa, com tradução do COMPASSO. O chanceler Abbas Araghchi acrescentou que, se os americanos voltarem às soluções militares, o Irã está mais preparado do que antes. A Iran International, a televisão da oposição iraniana no exílio, em persa, descreve o momento como impasse, com as partes em prontidão militar.
Enquanto a diplomacia travava, a guerra se alargou para dentro da Arábia Saudita. Os houthis do Iêmen, o grupo armado alinhado ao Irã que controla o norte do país, reivindicaram ataques com mísseis balísticos e drones a instalações da Aramco em Riade e em Khurais. O porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, listou os alvos na televisão estatal iraniana Al-Alam, em árabe: a versão dos houthis, transmitida pelo aliado. A agência de notícias Reuters registrou fumaça perto de uma instalação da Aramco em Riade. O governo do Iêmen reconhecido internacionalmente decretou mobilização geral, segundo a edição em árabe da CNN. No domingo, a OPEP+, o grupo dos grandes exportadores de petróleo e aliados, manteve para novembro as metas de produção de setembro, no comunicado oficial, documento primário. O barril do tipo Brent, a referência internacional, rodava a 101 dólares nesta segunda, com um prêmio de mais de 11 dólares sobre o barril americano. O frete e o seguro dos petroleiros do Golfo explicam a diferença, segundo o jornal emiradense Gulf News. Em Israel, as cerimônias de Estado pelos três anos do 7 de Outubro foram nesta segunda, pelo calendário hebraico, com as passagens para Gaza e para a Cisjordânia fechadas por dois dias.
Europa e o espaço pós-soviético
A Rússia atingiu no sábado a Ponte Norte de Kiev, uma das travessias do rio Dnipro na capital. O momento foi calculado: o chanceler alemão Friedrich Merz estava em Kiev, onde prometeu 1 bilhão de euros em ajuda militar. Na segunda, o Ministério da Defesa russo prometeu intensificar os ataques, em resposta à promessa ucraniana de dobrar os ataques a refinarias russas, segundo a rede americana CNBC. Na semana encerrada no sábado, a Rússia lançou mais de 1.900 drones de ataque e 25 mísseis, no balanço do governo ucraniano. E um bombardeiro estratégico russo Tu-95 caiu na região de Amur, no extremo leste do país. Morreram 6 dos 7 tripulantes, no registro do site russo independente Meduza, editado do exílio, em russo.
AS VERSÕES. O mesmo fato, contado três vezes. A imprensa internacional em inglês: um drone russo danificou a pista da Ponte Norte durante a visita do chanceler alemão, e dois ficaram feridos. A versão do governo russo, em russo: a agência estatal RIA Novosti diz que as Forças Armadas atingiram uma ponte usada para deslocar combatentes e carga militar ucraniana. A imprensa ucraniana, em ucraniano: a Ukrainska Pravda conta o buraco aberto na pista, a tubulação de aquecimento rompida e um distrito inteiro sem água quente.
No Báltico, a Letônia votou no sábado. A Lista Unida, o grupo governista pró-Ucrânia do primeiro-ministro Andris Kulbergs, venceu a eleição parlamentar com 35,3% dos votos e 41 das 100 cadeiras. O comparecimento foi de 51,8%, segundo a agência americana UPI, citando a comissão eleitoral do país. Na França, a crise fiscal se aprofundou. O juro do título público de dez anos se aproximou de 4,9% ao ano. O orçamento de 2027 prevê dezenas de bilhões de euros em cortes, e centenas de liceus fecharam por protestos na semana. Na Tchéquia, o governo de Andrej Babis sobreviveu na quarta a uma moção de desconfiança.
África
O Egito transformou a crise com a Etiópia em frente regional. No domingo, o presidente Abdel Fattah al-Sisi recebeu em El-Alamein os líderes de Eritreia, Sudão e Somália. Os quatro rejeitaram o que chamaram de medidas unilaterais da Etiópia no rio Nilo, segundo o jornal emiradense The National. O pano de fundo é duplo. De um lado, a grande represa etíope no Nilo Azul, que o Egito trata como ameaça à sua água. De outro, a guerra interna etíope: desde 23 de setembro, forças federais combatem uma aliança liderada por tigrínios, a pior escalada desde 2022. Adis Abeba acusa os três vizinhos de apoiar os rebeldes, e os três negam, no registro do jornal saudita Arab News, em inglês.
No Sudão, as Forças de Apoio Rápido, a milícia que combate o exército desde 2023, retiveram no domingo 32 caminhões do Programa Mundial de Alimentos que levavam comida a famílias de El-Fasher, em Darfur. O grupo exige pagamento para liberá-los, segundo o jornal digital Sudan Tribune. Na Nigéria, 20 jovens do serviço nacional de juventude foram sequestrados num ataque a dois ônibus no estado de Imo, com resgate pedido de 1 bilhão de nairas, a moeda local.
Os impactos por aqui
Três vias trazem o fim de semana ao bolso brasileiro. O petróleo: com Ormuz travado e a Aramco sob ataque, o barril segue acima de 100 dólares. A defasagem da gasolina volta a crescer depois da eleição, como a série registrou quando o barril rompeu essa linha, no texto de uma semana atrás. A carne: a cota chinesa esgotada segue taxando o produto brasileiro em mais 55%, como mostrou o texto de sábado de Produção. E a vizinhança: a Argentina de Milei, primeira a festejar o resultado de domingo, vota em três semanas. O eixo político da América do Sul pode mudar duas vezes no mesmo mês.
Entenda a região
A guerra na Ucrânia chegou ao seu 1.684º dia neste fim de semana, na contagem do Meduza. O padrão se repete agora pelo quinto inverno. Quando o frio se aproxima, a Rússia concentra os ataques na infraestrutura urbana, para encarecer a vida ucraniana. A Europa responde com dinheiro e armas. A diferença deste ano está no tamanho das contas. A Ucrânia estima um buraco de 78 bilhões de dólares no orçamento de 2027. A União Europeia discute, na cúpula de 15 e 16 de outubro, usar os cerca de 210 bilhões de euros em ativos russos imobilizados desde 2022. A Rússia, por sua vez, aprovou um orçamento que corta gasto social para sustentar a guerra, como o COMPASSO registrou no fim de setembro. Dos dois lados, a disputa é sobre quem aguenta pagar por mais um inverno.
Fontes
Ukrainska Pravda, em ucraniano (o ataque à Ponte Norte de Kiev) · RIA Novosti, a agência estatal russa, em russo (a versão do governo russo) · Meduza, em russo (o balanço do 1.684º dia e a queda do Tu-95) · Al Jazeera, a rede catari (a visita de Merz e a ponte atingida) · CNBC, a rede americana de notícias de negócios (a promessa russa de intensificar) · Asriran, em persa (as sete condições de Qalibaf para reabrir Ormuz) · Mashregh News, em persa (a leitura conservadora da proposta americana) · Iran International, a televisão de oposição no exílio, em persa (o impasse) · Al-Alam, a TV estatal iraniana, em árabe (a versão dos houthis, por Yahya Saree) · CNN em árabe (o ataque à Aramco e a mobilização geral no Iêmen) · OPEP+, o comunicado de domingo (documento primário) · Gulf News, o jornal emiradense (o barril e o prêmio de frete) · Sin Chew, em chinês (o discurso de Xi sobre Taiwan) · Ministério da Defesa de Taiwan, o balanço diário (documento primário) · CNBC (a Semana Dourada e o consumo cauteloso) · US News, com a agência Reuters (o discurso de Lee Jae-myung) · Al Jazeera (os bombardeios paquistaneses e a contagem da ONU) · La Nación, em espanhol (a Argentina a três semanas das legislativas) · Gabinete do primeiro-ministro do Canadá (documento primário) · NBC (os comícios de Trump e a aprovação de 34%) · The National, o jornal emiradense (a cúpula de El-Alamein) · Arab News, o jornal saudita (as acusações e as negativas no Nilo) · Sudan Tribune, via allAfrica (os 32 caminhões retidos em Darfur) · Naija News (o sequestro no estado de Imo) · Kyiv Independent (a eleição na Letônia) · UPI, a agência americana (os números da comissão eleitoral letã) · Eurasia Business News (o juro francês perto de 4,9%)
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