Arquitetura de segurança · Análise
A hipótese Brasil depois da suspensão consular dos EUA
A dois dias do primeiro turno, Washington suspendeu o atendimento consular no Brasil sem detalhar a ameaça, e a história da pressão americana sobre a região ajuda a dimensionar o gesto.
Leituras
- Os Estados Unidos não fecharam a embaixada nem romperam relações: suspenderam sem prazo o atendimento consular presencial, por questões de segurança que não detalharam, a dois dias do primeiro turno.
- Em 1964, a pressão americana operou com a embaixada ativa como centro. Hoje a missão está sem embaixador, e o canal interno da pressão passa por Washington.
- A alavancagem comercial americana sobre o Brasil é baixa e a financeira é alta: a designação das facções como terroristas e a investigação comercial alcançam os bancos e o Pix.
Texto fechado em 2 de outubro de 2026, à tarde.
O que foi suspenso, e o que continua de pé
Na noite de quinta-feira, 1º de outubro, a Missão dos Estados Unidos no Brasil publicou um alerta de segurança de uma linha. O texto informa que os serviços consulares na embaixada e nos consulados ficam suspensos a partir de sexta, 2 de outubro, por "security concerns", isto é, questões de segurança. Não há prazo de retomada nem descrição da ameaça. O primeiro turno da eleição presidencial ocorre no domingo, 4 de outubro.
Convém fixar o que o fato é. Não houve rompimento de relações, retirada de embaixador, expulsão de diplomatas nem fechamento de embaixada em sentido estrito. Houve suspensão, sem prazo, do atendimento consular presencial, com os funcionários em trabalho remoto na sexta, segundo a Revista Fórum. A missão diplomática continua existindo, e não há registro público de fechamento de repartição brasileira nos Estados Unidos.
A expressão "fechamento das embaixadas" circula por três motivos. O primeiro são as manchetes, como a da Agência Brasil, que usaram o verbo fechar. O segundo é a Austrália, que de fato fechou sua embaixada em Brasília na sexta e recomendou evitar instalações americanas. O terceiro é o efeito visível: entrevistas de visto canceladas e portas sem atendimento.
Sobre a decisão australiana, há um dado que pesa na leitura. Segundo apuração do Estadão reproduzida pelo portal Seu Dinheiro, Camberra apenas acompanhou a decisão americana, sem informação própria sobre ameaça. Embaixadas europeias, entre elas a do Reino Unido, funcionaram normalmente, de acordo com o portal FatoNews. O Reino Unido integra com Estados Unidos e Austrália a aliança de inteligência conhecida como Five Eyes.
A lista de postos atingidos tem um conflito de fontes. Agência Brasil, Metrópoles e CartaCapital citam a embaixada em Brasília e os consulados em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife. A BBC News Brasil, em texto republicado pelo Terra, e a Fórum incluem também Belo Horizonte. Não foi possível resolver a divergência na fonte primária.
O efeito prático confirmado recai sobre vistos. Um funcionário do consulado em São Paulo disse à CNN Brasil que a emissão está suspensa sem data de retomada. Os solicitantes foram orientados a procurar o agendamento a partir de segunda, 5 de outubro. Renovações eletrônicas seguem normais, e cidadãos americanos devem usar o plantão telefônico. A classificação americana de risco de viagem ao Brasil não mudou, registrou o colunista Jamil Chade na CartaCapital.
Duas versões de parte e muitas lacunas
A versão de Washington é curta. Um porta-voz do Departamento de Estado, o ministério americano das relações exteriores, disse que o governo dá prioridade máxima à segurança de seus cidadãos. Afirmou também que a missão trabalha em cooperação estreita com as autoridades brasileiras, segundo o Metrópoles. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que acompanha a eleição brasileira muito de perto, sem citar candidato nem a suspensão, como o COMPASSO registrou em 2 de outubro.
Sobre a natureza da ameaça há apenas relatos. A agência Reuters, em texto reproduzido pelo Terra, ouviu fontes anônimas segundo as quais a embaixada recebeu uma ameaça, sem descrevê-la. A agência UPI associa a decisão a um incidente de quinta-feira junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), a corte constitucional do país. Um homem tentou pular as grades e lançou uma mochila, que continha só roupas. Nenhuma ligação com a embaixada foi confirmada.
Do lado brasileiro não há nota oficial. O Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores, limitou-se a dizer que as embaixadas é que devem ser consultadas. Segundo o Metrópoles, a pasta não recebeu aviso prévio, o que contrasta com a cooperação estreita mencionada pelos americanos. A Polícia Militar do Distrito Federal reforçou o policiamento e disse não haver indicativo concreto de risco.
A crítica veio em reserva e da campanha. Autoridades brasileiras descreveram a medida a Jamil Chade como tentativa de criar uma narrativa de instabilidade. Edinho Silva, coordenador da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, tratou a decisão como inédita, segundo a agência AFP em texto do Jornal de Brasília. Para ele, é uma forma de Trump disputar a opinião pública brasileira. Não localizamos comentário do senador Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula, sobre o mérito da suspensão.
Tratamos as duas leituras como versões de parte. A justificativa de segurança não foi demonstrada por Washington. A leitura de ingerência apoia-se sobretudo em fontes em reserva do governo e em veículos críticos a Trump. Também não há registro público de reação de China, Rússia, Argentina, México, Organização dos Estados Americanos ou Nações Unidas ao episódio, que tem menos de 24 horas.
Os instrumentos de coerção em 2 de outubro
O especial que abriu esta série, Depois de Caracas: a hipótese Brasil, sustentou em 11 de agosto uma tese em três partes. A ameaça americana é real e funciona sem ser executada. No Brasil, ela é convocada por dentro. E a variável decisiva é a resposta brasileira, não a intenção de Washington. O texto descreveu uma sequência de coerção em três frentes, a econômica, a jurídica e a política, apoiada numa emergência nacional.
Essa emergência continua em vigor. Foi declarada em 30 de julho de 2025 com base na IEEPA, a lei americana de poderes econômicos de emergência, e prorrogada em 28 de julho de 2026. Vale até pelo menos 30 de julho de 2027. A Suprema Corte americana retirou dela, em fevereiro, o poder de tarifar, mas não o de bloquear bens e proibir transações.
O regime tarifário merece precisão. A tarifa de 50% de 2025 caiu. Vigora desde 22 de julho uma sobretaxa de 25% pela Seção 301, dispositivo da lei comercial americana contra práticas consideradas desleais. A ela se soma, desde 24 de julho, uma segunda sobretaxa, de 12,5%, anunciada na véspera. Ela vem de uma investigação sobre trabalho forçado que alcança 60 economias. Como o COMPASSO registrou em 26 de agosto, essa é a referência correta, e menções posteriores a 50% nesta série devem ser lidas à luz dela.
O mesmo cuidado vale para as sanções. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, foi incluído em julho de 2025 na lista da Lei Magnitsky, que bloqueia bens de acusados de violar direitos humanos. A designação foi revogada em 12 de dezembro de 2025. Não há designação ativa conhecida contra autoridade brasileira. Há um pedido de nova inclusão, levado a Washington em setembro por políticos brasileiros, sem decisão registrada, segundo a Gazeta do Povo.
No canal diplomático, o visto de Maria Luiza Viotti, embaixadora do Brasil em Washington, foi cancelado em 4 de agosto, segundo um funcionário do Departamento de Estado ouvido pelo Metrópoles. A medida respondeu à demora do agrément, a aceitação formal pelo país anfitrião, a Daniel Perez. Ele preside a Câmara estadual da Flórida e foi indicado por Trump para a embaixada em Brasília. Lula congelou a concessão até o fim das eleições.
| Instrumento | Base legal | Estado em 02/10/2026 |
|---|---|---|
| Emergência nacional | IEEPA; ordem de 30/07/2025, prorrogada em 28/07/2026 | Em vigor; sem ato novo de execução localizado |
| Tarifas | Seção 301 (25% e 12,5%); Seção 232 em aço e alumínio (50%) | Aplicadas; grupo de trabalho bilateral criado em 30/09 |
| Sanções individuais | Lei Magnitsky Global | Revogadas em 12/12/2025; nova designação pedida, não decidida |
| Vistos e atendimento consular | Atos do Departamento de Estado | Visto da embaixadora cancelado em 04/08; atendimento suspenso desde 02/10 |
| Facções como terroristas | Ordem Executiva 13224; Seção 219 da lei de imigração | Sanção antiterrorismo desde 28/05/2026; designação como organização terrorista estrangeira em vigor desde 05/06/2026 |
| Sanções a bancos e pressão sobre o Pix | Sanções secundárias; Seção 301 | Latente; nenhuma sanção a banco localizada |
| Força militar | Nenhuma base invocada contra o Brasil | Não declarada |
Setembro foi um mês de documentos, mais que de atos. Vieram a público as exigências americanas para aliviar as tarifas, entre elas a de não limitar a participação de dissidentes políticos na eleição, como o COMPASSO registrou em 17 de setembro. O jornal britânico The Guardian revelou uma verba de US$ 1 milhão do Departamento de Estado para grupos que acusam o STF de censura, segundo a CartaCapital. O advogado-geral da União, Jorge Messias, pediu investigação criminal sobre o repasse em 1º de outubro.
Ao mesmo tempo, o canal comercial se abriu. Em 30 de setembro, o chanceler Mauro Vieira e o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, reuniram-se em Milwaukee com Jamieson Greer, o representante comercial americano. Saiu dali um grupo de trabalho bilateral, como o COMPASSO registrou em 1º de outubro. Dois dias depois, o atendimento consular foi suspenso.
O que a pressão histórica ensina
A pressão americana sobre governos latino-americanos tem um repertório conhecido. No Brasil, o primeiro registro documentado de discussão sobre a derrubada do presidente João Goulart é de 30 de julho de 1962. Trata-se de uma gravação da Casa Branca divulgada pelo National Security Archive, centro de documentação da Universidade George Washington. O golpe veio em 31 de março de 1964, cerca de 20 meses depois.
Nesse intervalo, os degraus foram sucessivos: dinheiro para candidatos de oposição em 1962, ajuda redirecionada a governadores adversários, condicionalidade financeira e plano de contingência militar. No próprio 31 de março, com o golpe em marcha, o presidente Lyndon Johnson autorizou uma força naval, a operação Brother Sam. Ela não foi usada, porque os militares brasileiros venceram antes.
A diferença em relação a 2026 é operacional. Em 1964 não houve rompimento nem retirada de embaixador. A embaixada, chefiada por Lincoln Gordon, foi o centro da pressão, com ligação direta a militares e governadores. Hoje a missão americana em Brasília está sem embaixador e com o atendimento suspenso. A historiografia diverge sobre o peso americano em 1964, e parte dela atribui a dinâmica da crise sobretudo a fatores brasileiros.
O padrão se repete em outros casos. Na Guatemala de 1954 e no Chile de 1973, governos caíram sem tropas regulares americanas em solo, com asfixia econômica e um ator interno armado. No Chile, o relatório da comissão do Senado americano que investigou o caso não encontrou evidência de participação direta no golpe. Registrou, porém, três anos de corte de ajuda e de crédito.
As invasões diretas, na República Dominicana em 1965 e no Panamá em 1989, atingiram países pequenos do Caribe e da América Central. No Panamá, a força veio depois de mais de um ano e meio de sanções que não removeram o general Manuel Noriega, então governante de fato. Não há, nas fontes consultadas, precedente de invasão americana de um país sul-americano de grande porte.
Quando Washington fechou embaixadas, o que veio depois variou muito. Passaram 17 dias entre o rompimento com o Irã e a operação de resgate de abril de 1980. Passaram cerca de seis anos entre a retirada dos diplomatas da Líbia e o bombardeio de 1986. Passaram quase sete anos entre a saída de Caracas, em março de 2019, e a captura de Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, em 3 de janeiro de 2026. Em todos esses casos, Washington tratava o governo visado como hostil, perfil em que o Brasil não se encaixa.
Há ainda um achado contraintuitivo. Um estudo de 2010 sobre sanções diplomáticas americanas mediu o efeito do fechamento de embaixadas sobre a coerção econômica. Na base de casos usada, 52% dos episódios de sanção são classificados como sucesso. Quando há fechamento de embaixada, a taxa cai para 34%. A explicação proposta é a perda de informação, de comunicação e de influência sobre o país visado. O resultado é uma correlação, e embaixadas costumam fechar nos casos já mais difíceis.
Alavancagem comercial baixa, financeira alta
O canal comercial dá a Washington menos alavancagem do que a retórica sugere. A fatia americana nas exportações brasileiras recuou de 12,1% para 9,4% entre o primeiro semestre de 2025 e o de 2026. A chinesa subiu de 28,9% para 31,5%, segundo O Tempo. O dado já aparecia quando o Brasil levou o caso à Organização Mundial do Comércio, como o COMPASSO registrou em 12 de agosto. O levantamento clássico sobre sanções aponta sucesso em cerca de um terço dos casos, e uma revisão crítica de 1997 reduz muito essa conta.
O canal financeiro é outro assunto. O Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, as duas maiores facções criminosas do país, foram designados organizações terroristas estrangeiras, com vigência desde junho. A designação cria o crime de apoio material e expõe bancos com operação no Brasil. Uma análise do Peterson Institute, centro de estudos econômicos de Washington, sustenta que o processamento de pagamentos entra no alcance dessa lei. Isso inclui o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Banco Central.
O mesmo Pix já é alvo da Seção 301, que o enquadrou como prática prejudicial a provedores americanos. Há, portanto, dois caminhos independentes de pressão sobre a infraestrutura de pagamentos. Entre as exigências reveladas em setembro estava a de o Brasil não punir bancos brasileiros que cumpram sanções americanas. A nosso ver, essa cláusula só tem função se a opção de novas designações for mantida.
Convém registrar o que não aconteceu. Não localizamos sanção secundária aplicada a banco brasileiro, nem ameaça oficial de desligamento do sistema internacional de mensagens bancárias. O precedente histórico mais pertinente é o chileno, em que a asfixia foi de crédito, e não de tarifa.
Quem captura e quem perde renda
A renda perdida no mercado americano concentra-se em cadeias de recursos naturais regionalmente localizadas. De janeiro a agosto, as exportações aos Estados Unidos caíram 9,7%, para US$ 24,1 bilhões, segundo o monitor da Amcham, a câmara americana de comércio, citado pelo Correio Braziliense. As maiores quedas foram em madeira de coníferas (55,3%), fumo (39,9%), sebo bovino (39,4%) e granitos (37,4%). No agregado, a terra e os recursos naturais capturam renda por outro canal, com exportações totais em alta e vendas crescentes à China.
Para o trabalho, o efeito é incerto. Os setores mais atingidos são intensivos em mão de obra, e as centrais sindicais falaram, em julho, em risco para milhares de empregos. Não há registro público, nas fontes consultadas, de dado de emprego por setor atingido.
O capital financeiro não registrou ruptura até a véspera do episódio. O Ibovespa, principal índice da bolsa, subiu 5,03% em setembro e 15,65% no ano, e o dólar fechou o mês a R$ 5,17, segundo a Agência Brasil. O capital produtivo que exporta aos Estados Unidos perde margem e recebe crédito subsidiado de R$ 22,6 bilhões do Tesouro e do BNDES, o banco federal de desenvolvimento. Parte da perda privada, assim, é transferida à capacidade fiscal do Estado.
Em conhecimento e tecnologia está o alvo declarado da investigação americana: regulação de plataformas, propriedade intelectual, dados e pagamentos. A disputa é sobre quem se apropria da renda de uma infraestrutura hoje pública e gratuita para pessoas físicas. Nos minerais críticos, o avanço americano se deu por aquisição. A compra da mineradora de terras raras Serra Verde por uma empresa americana foi concluída em setembro, segundo análise publicada pelo OPEB, observatório de política externa.
A capacidade do Estado aparece com duas faces. Ele amortece perdas com crédito, promoção comercial e ações na Organização Mundial do Comércio. Mostra limite na coerção recíproca: nenhuma medida da Lei da Reciprocidade será concluída antes de dezembro, disse o ministro Elias Rosa a O Tempo. Mostra limite também na defesa: o ministro José Múcio afirmou em agosto que o país não teria como resistir a uma invasão americana.
Os quatro cenários, relidos
O especial de agosto descreveu quatro cenários, não excludentes entre si. O primeiro, "Coerção contínua, sem escalada de forma", segue sendo o piso instalado. Tarifas, emergência, designação das facções e guerra de vistos permanecem. A suspensão consular, lida como medida de segurança, cabe nele sem esforço.
Entendemos que os sinais das últimas semanas alimentam sobretudo o segundo cenário, "Intervenção política aberta no ciclo eleitoral". A hipótese que sustenta essa leitura é que a suspensão tem função política, e ela não está provada. Pesam a favor a data, a ausência de explicação, a classificação de risco inalterada e o fato de aliados europeus não terem acompanhado. Pesam contra o relato de ameaça recebida pela embaixada e dois episódios de pichação no muro, em agosto e setembro.
Mesmo sob a hipótese política, os marcos que o especial fixou para esse cenário não ocorreram. Não há vocabulário de fraude em declaração oficial americana, nem sanção efetivada contra ministro ou instituição. O que há é ambiguidade por omissão. Em 28 de setembro, os senadores democratas Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch perguntaram ao secretário de Estado, Marco Rubio, se o governo reconhecerá o resultado certificado, segundo o Brasil de Fato. Não localizamos resposta. A última garantia registrada é de 23 de setembro, quando uma porta-voz do Departamento de Estado disse à CNN Brasil que os Estados Unidos não pretendem interferir.
O terceiro cenário, "Ação militar limitada sob bandeira antidrogas", não ganhou sinal novo dirigido ao Brasil. Não há fala do Executivo americano que cogite ação militar contra o país. Há a declaração genérica de Trump nas Nações Unidas, em 22 de setembro, sobre uso de poder militar no hemisfério. Há um exercício com tropas americanas na Amazônia peruana, noticiado por veículos brasileiros de esquerda. E há a ausência do Brasil na coalizão regional contra cartéis, como o COMPASSO registrou em 23 de setembro. A soma produz capacidade jurídica latente, não intenção declarada.
O quarto cenário, "A resposta que reorganiza", avançou no plano jurídico e pouco no material. A coligação de Lula levou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que organiza e julga as eleições, a tese de intervenção estrangeira. O tribunal credenciou sete missões de observação, entre elas a da Organização dos Estados Americanos. A cooperação militar com os Estados Unidos, porém, seguiu curso próprio, e a retaliação comercial ficou para o próximo governo.
A analogia histórica acrescenta uma inferência. Se o achado sobre embaixadas vale aqui, um afastamento diplomático reduziria a capacidade americana de operar por dentro, que foi o método de 1964. A singularidade apontada pelo especial atenua essa perda, porque o canal interno de hoje passa por Washington. Flávio reuniu-se com Trump na Casa Branca em maio, segundo a revista Time. Ele declarou ter pedido ao presidente americano a designação das facções.
A eleição chega sem favorito para o segundo turno. Segundo a pesquisa Datafolha, contratada pela Folha de S.Paulo e pela Globo, com 2.506 entrevistas e margem de dois pontos, Lula tem 42% e Flávio, 38%. A Gazeta do Povo informa campo de 28 de setembro a 1º de outubro. Outras publicações indicam encerramento no dia 30. A simulação de segundo turno dá 48% a 45%, empate técnico no limite da margem.
Uma disputa assim aumenta o peso de qualquer questionamento externo do resultado. A opinião pública, porém, não está mobilizada pelo tema. Segundo a pesquisa Quaest, contratada pelo jornal O Globo e pela TV Globo, com campo de 24 a 27 de setembro, 2.004 entrevistas e margem de dois pontos, 51% não viam possibilidade de interferência estrangeira. Outros 41% viam. O levantamento é anterior à suspensão consular.
O que observar até 4 e 25 de outubro
Três sinais separam as hipóteses. O primeiro é a reabertura: a orientação de procurar o agendamento na segunda, 5 de outubro, sugere suspensão curta. Uma retomada rápida fortalece a leitura de segurança, e uma suspensão que atravesse a apuração fortalece a leitura política. O segundo é qualquer detalhamento da ameaça por Washington ou por autoridade brasileira.
O terceiro é a linguagem americana sobre o resultado. Até 25 de outubro, data do segundo turno, importam a resposta de Rubio aos senadores e o vocabulário das declarações oficiais. Importa também eventual ato do OFAC, o órgão do Tesouro americano que administra sanções, e o documento de escopo prometido ao grupo de trabalho comercial. Como o COMPASSO registrou em 29 de setembro, o acesso ao território americano tem sido usado como instrumento de política externa na região.
A tese do especial se mantém, com uma precisão. O episódio de 2 de outubro mostra que um ato sem explicação, colado ao calendário eleitoral, produz efeito político qualquer que seja sua motivação. O que ele significa depende de fatos ainda não disponíveis. A resposta do Estado e do eleitor continua sendo a variável que decide entre os cenários.
Fontes
Primárias e documentos oficiais. Missão dos Estados Unidos no Brasil, alerta de segurança sobre a suspensão dos serviços consulares e designação de Comando Vermelho e PCC · Federal Register, prorrogação da emergência nacional sobre o Brasil, ação da Seção 301 e aviso do OFAC de dezembro de 2025 · USTR, determinação da Seção 301 sobre o Brasil · Serviço de Pesquisa do Congresso americano, nota sobre a decisão da Suprema Corte a respeito da IEEPA · Casa Branca, Estratégia de Segurança Nacional de 2025 · Comissão de Relações Exteriores do Senado americano (minoria), carta de Shaheen, Kaine e Welch a Rubio · National Security Archive, documentos sobre o Brasil de 1962 a 1964 e sobre a operação Brother Sam · Senado americano, relatório sobre ação encoberta no Chile, 1963 a 1973
Imprensa brasileira. Agência Brasil: suspensão consular, Trump na ONU, observadores eleitorais, câmbio e bolsa · Metrópoles: fechamento da embaixada australiana e reação em Brasília, visto da embaixadora · CNN Brasil: emissão de vistos, tarifa por trabalho forçado, pedido de Flávio Bolsonaro a Trump · BBC News Brasil, republicada pelo Terra: o que diz o governo americano · Terra, com Reuters: relato de ameaça à embaixada · CartaCapital (revista de esquerda): coluna de Jamil Chade, verba de US$ 1 milhão · Revista Fórum (veículo de esquerda): trabalho remoto na embaixada · Brasil de Fato (veículo de esquerda): carta dos senadores a Rubio · Gazeta do Povo (jornal conservador): Datafolha, pedido de novas sanções · Seu Dinheiro, com apuração do Estadão: decisão australiana · FatoNews (agregador): o que se sabe sobre o fechamento · Jornal de Brasília, com AFP: campanhas na reta final · Times Brasil: Quaest sobre interferência externa · Correio Braziliense: exportações aos Estados Unidos · O Tempo: participação de EUA e China nas exportações, Lei da Reciprocidade · Imirante: grupo de trabalho criado em Milwaukee · Forças Terrestres (site especializado em defesa), com base em Estadão e Folha: exigências americanas · GP1: declaração do ministro José Múcio · Vermelho (portal de esquerda): exercício na Amazônia peruana · OPEB (observatório de política externa): uso da Seção 301 contra o Brasil
Imprensa estrangeira. Infobae, em espanhol (portal argentino): suspensão dos serviços consulares antes da eleição · Time (revista americana): acusações de interferência na eleição brasileira · UPI (agência de notícias americana): suspensão dos serviços consulares · Reuters (agência britânica), via TimesLIVE: alerta da Abin a europeus · Al Jazeera (emissora do Catar) e AFP (agência francesa), via Yahoo: pedido de investigação da AGU · RT (emissora estatal russa): investigação brasileira sobre interferência
Estudos e análises. Tara Maller, Diplomacy Derailed: The Consequences of Diplomatic Sanctions, The Washington Quarterly, 2010 · Robert Pape, Why Economic Sanctions Do Not Work, International Security, 1997 (revisão do levantamento de Hufbauer, Schott e Elliott) · Peterson Institute for International Economics, análise sobre a autonomia financeira do Brasil, junho de 2026
Os outros textos do dia: Eleição 2026: o debate cai e as pesquisas finais se dividem · O emprego americano trava e muda a conta do juro global · O dia em seis regiões: Kiev sem pontes e o barril abaixo de 100.
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